TERCEIRA PARTE — Capítulo I Germinal · Capítulo 12 de 40
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TERCEIRA PARTE — Capítulo I

TERCEIRA PARTE

Capítulo I

No dia seguinte e nos que se seguiram, Étienne retomou o trabalho na mina. Ia se acostumando, sua existência se regulava por aquela labuta e por aqueles novos hábitos, que a princípio lhe haviam parecido tão duros. Uma única ocorrência rompeu a monotonia da primeira quinzena: uma febre passageira que o reteve quarenta e oito horas na cama, os membros quebrados, a cabeça ardendo, devaneando, num semidelírio, que empurrava seu vagonete no fundo de uma galeria estreita demais, onde seu corpo não conseguia passar. Era simplesmente a exaustão da aprendizagem, um excesso de fadiga do qual se recuperou de imediato.

E os dias sucediam aos dias, semanas e meses se escoavam. Agora, como os companheiros, levantava-se às três horas, bebia o café e levava a dupla fatia de pão que a senhora Rasseneur lhe preparava desde a véspera. Regularmente, ao dirigir-se pela manhã à mina, encontrava o velho Bonnemort, que ia se deitar; e, ao sair à tarde, cruzava com Bouteloup, que chegava para assumir seu turno.

Vestia a touca, a calça e a jaqueta de lona; tiritava e aquecia as costas diante da grande fogueira do barracão. Depois vinha a espera, com os pés descalços, na boca do poço, varrida por furiosas correntes de ar. Mas a máquina, cujos grossos membros de aço, salpicados de cobre, reluziam no alto, dentro da sombra, já não o preocupava; nem os cabos que corriam como a asa negra e silenciosa de uma ave noturna; nem as gaiolas que emergiam e mergulhavam sem cessar, em meio ao estrondo dos sinais, das ordens gritadas, dos vagonetes sacudindo as placas de ferro fundido.

Sua lâmpada ardia mal, aquele maldito encarregado decerto não a havia limpado; e ele só começava a se aquecer quando Mouquet os empacotava a todos, distribuindo tapas de brincadeira que estalavam no traseiro das moças. A gaiola se soltava, caía como uma pedra no fundo de um buraco, sem que ele sequer virasse a cabeça para ver a luz fugir. Nunca pensava numa possível queda. Sentia-se em casa à medida que descia pelas trevas, sob a chuva batente.

Embaixo, no enganche, depois que Pierron os desempacotava com seu ar de doçura hipócrita, era sempre o mesmo pisoteio de rebanho, cada turma seguindo para sua frente de lavra com passo arrastado. Agora Étienne conhecia as galerias da mina melhor do que as ruas de Montsou, sabia que precisava virar ali, abaixar-se mais adiante, evitar em outro ponto uma poça d’água. Adquirira tamanho hábito daqueles dois quilômetros subterrâneos que seria capaz de percorrê-los sem lâmpada, com as mãos nos bolsos.

E, todas as vezes, produziam-se os mesmos encontros: um capataz iluminando de passagem o rosto dos operários; o pai Mouque conduzindo um cavalo; Bébert guiando Bataille, que bufava; Jeanlin correndo atrás do comboio para fechar as portas de ventilação; a gorda Mouquette e a magra Lydie empurrando seus vagonetes.

Com o tempo, Étienne também sofria muito menos com a umidade e a sufocação da frente de lavra. A chaminé lhe parecia muito cômoda para subir, como se ele houvesse derretido e pudesse passar por fendas onde antes não arriscaria sequer uma das mãos. Respirava sem mal-estar a poeira do carvão, enxergava na escuridão, suava tranquilamente, habituado à sensação de ter, da manhã à noite, as roupas encharcadas sobre o corpo.

Além disso, já não desperdiçava as forças de modo desajeitado. Adquirira uma destreza tão rápida que surpreendia toda a turma. Ao cabo de três semanas, era citado entre os bons empurradores da mina: nenhum levava o vagonete até o plano inclinado com maior velocidade, nem o encaminhava depois com tanta precisão. Sua pequena estatura permitia que se insinuasse por toda parte; e, embora os braços fossem finos e brancos como os de uma mulher, pareciam de ferro sob a pele delicada, tamanho o vigor com que conduziam a tarefa.

Nunca se queixava, talvez por orgulho, nem mesmo quando arquejava de cansaço. Só lhe censuravam não compreender as brincadeiras, zangando-se imediatamente quando tentavam bater nele. No restante, fora aceito, considerado um verdadeiro mineiro, sob aquele esmagamento do hábito que a cada dia o reduzia um pouco mais a uma função da máquina.

Maheu, sobretudo, começava a afeiçoar-se a Étienne, pois respeitava o trabalho bem-feito. Além disso, como os demais, percebia que aquele rapaz possuía uma instrução superior à sua: via-o ler, escrever, desenhar trechos de plantas, ouvia-o falar de coisas cuja própria existência ignorava. Isso não o espantava, os carvoeiros são homens duros, de cabeça mais firme que os maquinistas; mas surpreendiam-no a coragem daquele pequeno e a maneira decidida com que mordera o carvão para não morrer de fome. Era o primeiro operário aparecido ao acaso que se aclimatava tão depressa.

Por isso, quando a extração apertava e ele não queria desviar um cortador, encarregava o jovem do escoramento, certo do asseio e da solidez do trabalho. Os chefes continuavam a importuná-lo por causa daquela maldita questão das madeiras. A cada hora, temia ver surgir o engenheiro Négrel, seguido de Dansaert, gritando, discutindo, mandando refazer tudo; e reparara que o escoramento de seu empurrador satisfazia mais aqueles senhores, apesar dos ares de nunca estarem contentes e de repetirem que, cedo ou tarde, a Companhia tomaria uma medida radical.

As coisas se arrastavam, um descontentamento surdo fermentava na mina. O próprio Maheu, tão calmo, acabava por cerrar os punhos.

A princípio, houvera rivalidade entre Zacharie e Étienne. Numa noite, chegaram a ameaçar-se com uma troca de bofetadas. Mas o primeiro, bom rapaz e indiferente a tudo o que não fosse seu prazer, logo se acalmou diante da oferta amistosa de uma caneca de cerveja e não tardou a inclinar-se perante a superioridade do recém-chegado. Levaque também lhe fazia boa cara agora, conversava sobre política com o empurrador, que, segundo dizia, tinha suas ideias.

Entre os homens da empreitada, Étienne já não sentia hostilidade surda senão no grandalhão Chaval. Não que parecessem amuados, pois, ao contrário, haviam se tornado companheiros; apenas os olhares de ambos se devoravam quando brincavam juntos.

Entre os dois, Catherine retomara seu jeito de moça cansada e resignada, curvando as costas, empurrando o vagonete, sempre gentil com o companheiro de transporte, que por sua vez a ajudava, e, por outro lado, submissa às vontades do amante, cujas carícias suportava abertamente. Era uma situação aceita, um casal reconhecido sobre o qual a própria família fechava os olhos, a tal ponto que Chaval levava todas as noites a empurradora para trás do terril e depois a conduzia de volta até a porta dos pais, onde lhe dava um último beijo diante de todo o conjunto operário.

Étienne, que julgava haver se conformado, provocava-a muitas vezes por causa daqueles passeios, soltando, por brincadeira, palavras obscenas, como se fazia entre rapazes e moças no fundo das frentes de lavra; e ela respondia no mesmo tom, contava por bravata o que o namorado lhe fizera, embora se perturbasse e empalidecesse quando os olhos do jovem encontravam os seus.

Ambos desviavam a cabeça, passavam às vezes uma hora sem trocar palavra, com o ar de se odiarem por coisas enterradas dentro deles e sobre as quais jamais se explicavam.

A primavera chegara. Um dia, ao sair do poço, Étienne recebera no rosto aquela lufada tépida de abril, um bom cheiro de terra nova, de verdura tenra, de ar puro e aberto; e agora, a cada saída, a primavera cheirava melhor e o aquecia mais, depois das dez horas de trabalho no inverno eterno do fundo, no meio daquelas trevas úmidas que verão algum jamais dissipava.

Os dias continuavam se alongando. Em maio, acabara por descer ao nascer do sol, quando o céu rubro iluminava o Voreux com uma poeira de aurora, na qual o vapor branco das descargas subia todo rosado. Já não se tiritava, um hálito morno soprava das distâncias da planície, enquanto as cotovias cantavam muito alto.

Depois, às três horas, vinha o deslumbramento do sol já abrasador, incendiando o horizonte, avermelhando os tijolos sob a crosta de carvão. Em junho, os trigais já estavam altos, de um verde azulado que contrastava com o verde negro das beterrabas. Era um mar sem fim, ondulando ao menor vento, que ele via estender-se e crescer dia após dia, surpreendido às vezes, como se ao entardecer o encontrasse mais cheio de verdura do que pela manhã.

Os choupos do canal coroavam-se de folhas. O capim invadia o terril, flores cobriam os prados, toda uma vida germinava, irrompia daquela terra, enquanto ele gemia sob ela, lá embaixo, de miséria e de cansaço.

Agora, quando Étienne passeava à noite, já não era atrás do terril que assustava os amantes. Seguia-lhes os rastros nos trigais, adivinhava os ninhos daqueles pássaros lascivos pelo remoinho das espigas que começavam a amarelar e das grandes papoulas vermelhas.

Zacharie e Philomène voltavam para lá pelo hábito de um velho casal; a mãe Brûlé, sempre no encalço de Lydie, a desentocava a todo instante com Jeanlin, enterrados juntos tão profundamente que era preciso pisar neles para convencê-los a levantar voo; quanto à Mouquette, ela se alojava por toda parte, e não se podia atravessar um campo sem ver sua cabeça mergulhar, enquanto apenas os pés continuavam à tona, nas cambalhotas dadas com todo o corpo.

Mas todos aqueles eram muito livres, e o jovem só achava aquilo condenável nas noites em que encontrava Catherine e Chaval. Duas vezes, viu-os, à sua aproximação, abaterem-se no meio de uma plantação, cujas hastes imóveis permaneceram depois como mortas. Noutra ocasião, quando seguia por um caminho estreito, os olhos claros de Catherine lhe apareceram rente ao trigo e logo se afogaram.

Então a planície imensa lhe parecia pequena demais. Preferia passar a noite na casa de Rasseneur, no Avantage.

— Senhora Rasseneur, traga-me uma caneca... Não, não vou sair esta noite, minhas pernas estão quebradas.

E se voltava para um companheiro que costumava permanecer sentado à mesa do fundo, com a cabeça encostada à parede.

— Souvarine, você não toma uma?

— Obrigado, nada.

Vivendo ali, lado a lado, Étienne travara conhecimento com Souvarine. Era um maquinista do Voreux que ocupava, no andar de cima, o quarto mobiliado vizinho ao seu. Devia ter uns trinta anos, era magro e louro, com o rosto fino emoldurado por cabelos compridos e uma barba leve.

Os dentes brancos e pontudos, a boca e o nariz estreitos, o tom rosado da pele davam-lhe um ar de moça, uma expressão de obstinada doçura que, em certos lampejos, o reflexo cinzento dos olhos de aço tornava selvagem. No quarto de operário pobre, possuía apenas uma caixa com papéis e livros.

Era russo, nunca falava de si mesmo e deixava correr lendas a seu respeito. Os carvoeiros, muito desconfiados dos estrangeiros, percebendo pelas pequenas mãos de burguês que ele vinha de outra classe, imaginaram a princípio uma aventura, um assassinato de cujo castigo fugia.

Depois, porém, mostrara-se tão fraterno com eles, sem orgulho, distribuindo à criançada do conjunto operário todos os soldos que trazia nos bolsos, que acabaram por aceitá-lo, tranquilizados pela expressão “refugiado político” que circulava, fórmula vaga na qual viam uma desculpa até mesmo para um crime e uma espécie de camaradagem no sofrimento.

Nas primeiras semanas, Étienne o achara de uma reserva feroz. Por isso só veio a conhecer sua história mais tarde. Souvarine era o caçula de uma família nobre do governo de Toula. Em São Petersburgo, onde estudava medicina, a paixão socialista que então arrebatava toda a juventude russa o decidira a aprender um ofício manual, o de mecânico, para misturar-se ao povo, conhecê-lo e ajudá-lo como irmão.

E era desse ofício que vivia agora, depois de fugir em consequência de um atentado fracassado contra a vida do imperador. Durante um mês, vivera no porão de um fruteiro, escavando uma galeria sob a rua, carregando bombas, sob a ameaça contínua de saltar pelos ares com a casa.

Repudiado pela família, sem dinheiro, posto como estrangeiro na lista negra das oficinas francesas, que viam nele um espião, morria de fome quando a Companhia de Montsou finalmente o contratara, num momento de urgência. Havia um ano trabalhava ali como bom operário, sóbrio, silencioso, cumprindo uma semana no turno diurno e outra no noturno, com tamanha exatidão que os chefes o citavam como exemplo.

— Você nunca sente sede? — perguntava-lhe Étienne, rindo.

E ele respondia com sua voz suave, quase sem sotaque:

— Sinto sede quando como.

O companheiro também o provocava por causa das mulheres, jurava tê-lo visto com uma empurradora nos trigais, para os lados de Bas-de-Soie. Então Souvarine dava de ombros, tomado por uma indiferença tranquila. Uma empurradora, para quê? Para ele, a mulher era um rapaz, uma camarada, quando possuía a fraternidade e a coragem de um homem. Caso contrário, para que meter no coração uma possível covardia? Nem mulher nem amigo, não queria laço algum, era livre de seu sangue e do sangue dos outros.

Todas as noites, por volta das nove horas, quando a taberna se esvaziava, Étienne ficava assim conversando com Souvarine. Ele bebia a cerveja em pequenos goles, enquanto o maquinista fumava cigarros sem parar, cujo tabaco, com o tempo, amarelecera seus dedos finos.

Seus olhos vagos de místico acompanhavam a fumaça através de um sonho; a mão esquerda, para se ocupar, tateante e nervosa, procurava no vazio; e geralmente acabava por acomodar sobre os joelhos um coelho manso, uma fêmea grande e sempre prenhe, que vivia solta pela casa.

Aquela coelha, a quem ele próprio dera o nome de Polônia, começara a adorá-lo, vinha farejar sua calça, erguia-se, arranhava-o com as patas, até que ele a pegasse como uma criança. Depois, encolhida contra ele, com as orelhas abaixadas, fechava os olhos; enquanto, sem se cansar, num gesto inconsciente de carinho, ele passava a mão pela seda cinzenta do pelo, com o semblante apaziguado por aquela doçura morna e viva.

— Sabe de uma coisa? — disse Étienne certa noite. — Recebi uma carta de Pluchart.

Ali já não restava ninguém além de Rasseneur. O último freguês partira, voltando ao conjunto operário, que adormecia.

— Ah! — exclamou o taberneiro, de pé diante dos dois pensionistas. — Como vão as coisas com Pluchart?

Havia dois meses Étienne mantinha correspondência regular com o mecânico de Lille, a quem tivera a ideia de contar que fora contratado em Montsou e que agora o doutrinava, impressionado com a propaganda que ele poderia fazer entre os mineiros.

— Vão assim: a associação de que ele falou está funcionando muito bem. Parece que há adesões por toda parte.

— E você, o que acha da sociedade deles? — perguntou Rasseneur a Souvarine.

Este, que coçava carinhosamente a cabeça de Polônia, soprou um jato de fumaça e murmurou com seu ar tranquilo:

— Mais uma tolice!

Mas Étienne se inflamava. Toda uma predisposição à revolta o lançava na luta do trabalho contra o capital, em meio às primeiras ilusões de sua ignorância. Tratava-se da Associação Internacional dos Trabalhadores, daquela famosa Internacional que acabava de ser fundada em Londres. Não havia ali um esforço magnífico, uma campanha em que a justiça enfim triunfaria? Não mais fronteiras, os trabalhadores do mundo inteiro levantando-se, unindo-se para garantir ao operário o pão que ganhava.

E que organização simples e grandiosa: embaixo, a seção, representando a comuna; depois, a federação, reunindo as seções de uma mesma província; em seguida, a nação; e, acima de tudo, enfim, a humanidade, encarnada num Conselho Geral, no qual cada país era representado por um secretário correspondente. Antes de seis meses, teriam conquistado a Terra, ditariam leis aos patrões, caso eles se mostrassem perversos.

— Tolices! — repetiu Souvarine. — Esse Karl Marx de vocês ainda quer deixar que as forças naturais ajam. Nada de política, nada de conspiração, não é? Tudo à luz do dia e unicamente para aumentar os salários... Deixem-me em paz com essa evolução! Ateiem fogo aos quatro cantos das cidades, ceifem os povos, arrasem tudo; e, quando não restar mais nada deste mundo apodrecido, talvez nasça outro melhor.

Étienne começou a rir. Nem sempre compreendia as palavras do companheiro, e aquela teoria da destruição lhe parecia uma afetação. Rasseneur, ainda mais prático, dotado do bom senso de um homem estabelecido, nem sequer se dignou a se irritar. Queria apenas esclarecer as coisas.

— Então, o quê? Você vai tentar fundar uma seção em Montsou?

Era isso o que desejava Pluchart, secretário da Federação do Norte. Insistia sobretudo nos serviços que a Associação prestaria aos mineiros, caso um dia entrassem em greve. Étienne, justamente, acreditava que a greve estava próxima: a questão do escoramento acabaria mal, bastaria uma nova exigência da Companhia para revoltar todas as minas.

— O aborrecido são as contribuições — declarou Rasseneur, em tom judicioso. — Cinquenta cêntimos por ano para o fundo geral, dois francos para a seção; parece pouca coisa, mas aposto que muitos se recusarão a pagar.

— Ainda mais — acrescentou Étienne — porque primeiro deveríamos criar aqui uma caixa de previdência, que, se fosse necessário, transformaríamos numa caixa de resistência... Pouco importa, já é hora de pensar nessas coisas. Estou pronto, se os outros estiverem.

Houve um silêncio. A lâmpada de petróleo fumegava sobre o balcão. Pela porta escancarada, ouvia-se com nitidez a pá de um foguista do Voreux carregando uma das fornalhas da máquina.

— Tudo está tão caro! — retomou a senhora Rasseneur, que entrara e escutava com ar sombrio, como se crescesse dentro de seu eterno vestido preto. — Se eu lhes dissesse que paguei vinte e dois soldos pelos ovos... Isso ainda vai estourar.

Dessa vez, os três homens concordaram. Falaram um depois do outro, em vozes desoladas, e começaram as queixas. O operário já não aguentava. A Revolução só fizera agravar suas misérias; eram os burgueses que engordavam desde 89, com tamanha voracidade que nem sequer lhe deixavam o fundo dos pratos para lamber.

Que dissessem se os trabalhadores haviam recebido uma parcela razoável do extraordinário crescimento da riqueza e do bem-estar ocorrido ao longo de cem anos. Haviam zombado deles, declarando-os livres: sim, livres para morrer de fome, o que não deixavam de fazer. Votar em sujeitos que depois se regalavam, sem pensar nos miseráveis mais do que em suas velhas botas, não punha pão na arca.

Não, de uma maneira ou de outra, era preciso acabar com aquilo, fosse gentilmente, por meio de leis e de um entendimento amistoso, fosse como selvagens, incendiando tudo e devorando uns aos outros. Os filhos certamente veriam isso, ainda que os velhos não vissem, pois o século não poderia terminar sem outra revolução, dessa vez a dos operários, uma convulsão que limparia a sociedade de alto a baixo e a reconstruiria com mais decência e justiça.

— Isso tem de estourar — repetiu energicamente a senhora Rasseneur.

— Sim, sim — gritaram os três. — Isso tem de estourar.

Souvarine acariciava agora as orelhas de Polônia, cujo focinho se enrugava de prazer. Disse a meia voz, com os olhos perdidos, como se falasse para si mesmo:

— Aumentar o salário, será possível? Ele é fixado pela lei de ferro na menor quantia indispensável, apenas o necessário para que os operários comam pão seco e fabriquem filhos... Se cai demais, os operários morrem, e a procura por novos homens torna a elevá-lo. Se sobe demais, a oferta excessiva o faz baixar... É o equilíbrio dos ventres vazios, a condenação perpétua ao presídio da fome.

Quando se esquecia assim, abordando assuntos de socialista instruído, Étienne e Rasseneur ficavam inquietos, perturbados por aquelas afirmações desoladoras, às quais não sabiam o que responder.

— Escutem! — retomou ele com sua calma habitual, olhando para os dois. — É preciso destruir tudo, ou a fome tornará a brotar. Sim! A anarquia, mais nada, a terra lavada pelo sangue, purificada pelo incêndio!... Depois se verá.

— O senhor tem toda a razão — declarou a senhora Rasseneur, que, apesar de suas violências revolucionárias, mostrava-se muito polida.

Étienne, desesperado com a própria ignorância, não quis discutir mais. Levantou-se, dizendo:

— Vamos dormir. Nada disso vai me impedir de levantar às três horas.

Souvarine já soprava a ponta do cigarro colada aos lábios e pegava delicadamente a coelha grande pelo ventre para colocá-la no chão. Rasseneur fechava a casa. Separaram-se em silêncio, os ouvidos zumbindo, a cabeça como que dilatada pelas graves questões que revolviam.

E, todas as noites, eram conversas semelhantes na sala nua, em torno da única caneca que Étienne levava uma hora para esvaziar. Um fundo de ideias obscuras, adormecidas dentro dele, agitava-se e se alargava. Devorado sobretudo pela necessidade de saber, hesitara muito antes de pedir livros emprestados ao vizinho, que infelizmente possuía quase apenas obras alemãs e russas.

Por fim, conseguira que lhe emprestassem um livro francês sobre as sociedades cooperativas, mais uma tolice, dizia Souvarine; e também lia regularmente um jornal que este recebia, o Combat, folha anarquista publicada em Genebra. De resto, apesar da convivência diária, continuava a achá-lo igualmente fechado, com seu ar de acampar na vida, sem interesses, sentimentos nem bens de espécie alguma.

Foi nos primeiros dias de julho que a situação de Étienne melhorou. Em meio àquela vida monótona, sempre recomeçada, da mina, ocorrera um acidente: as frentes de lavra da camada Guillaume acabavam de encontrar uma perturbação, toda uma desordem no veio, que anunciava seguramente a proximidade de uma falha; e, de fato, logo haviam encontrado essa falha, que os engenheiros, apesar do grande conhecimento do terreno, ainda ignoravam.

Aquilo transtornava a mina. Só se falava na camada desaparecida, que sem dúvida deslizara mais para baixo, do outro lado da falha. Os velhos mineiros já abriam as narinas, como bons cães lançados à caça da hulha. Mas, enquanto isso, as frentes não podiam ficar de braços cruzados, e cartazes anunciaram que a Companhia levaria a leilão novas empreitadas.

Um dia, na saída, Maheu acompanhou Étienne e lhe ofereceu um posto de cortador em sua empreitada, no lugar de Levaque, transferido para outra frente. O negócio já estava acertado com o capataz-chefe e o engenheiro, que se mostravam muito satisfeitos com o jovem. Assim, Étienne só teve de aceitar aquela rápida promoção, feliz com a estima crescente que Maheu lhe dedicava.

Naquela mesma noite, os dois voltaram juntos à mina para examinar os cartazes. As frentes postas em leilão ficavam na camada Filonnière, na galeria Norte do Voreux. Pareciam pouco vantajosas, e o mineiro balançava a cabeça enquanto o jovem lhe lia as condições.

De fato, no dia seguinte, quando desceram e ele o levou para visitar a camada, chamou sua atenção para a distância do enganche, a natureza desmoronadiça do terreno, a pouca espessura e a dureza do carvão. Contudo, quem queria comer precisava trabalhar.

Por isso, no domingo seguinte, foram ao leilão, realizado no barracão e presidido pelo engenheiro da mina, auxiliado pelo capataz-chefe, na ausência do engenheiro da divisão. Quinhentos ou seiscentos carvoeiros se encontravam diante do pequeno estrado armado num canto; e as adjudicações corriam em ritmo tão rápido que só se ouvia um tumulto surdo de vozes, números gritados e abafados por outros números.

Por um momento, Maheu temeu não conseguir uma das quarenta empreitadas oferecidas pela Companhia. Todos os concorrentes baixavam os preços, inquietos com os rumores de crise, tomados pelo pânico do desemprego. O engenheiro Négrel não demonstrava pressa diante daquele encarniçamento, deixava os lances caírem aos valores mais baixos possíveis, enquanto Dansaert, desejoso de acelerar ainda mais as coisas, mentia sobre a excelência dos contratos.

Para obter seus cinquenta metros de avanço, Maheu precisou lutar contra um companheiro que também se obstinava. Alternadamente, cada um retirava um cêntimo do preço do vagonete; e, se ele terminou vencedor, foi reduzindo tanto o salário que o capataz Richomme, de pé atrás dele, se irritava entre os dentes, cutucava-o com o cotovelo e resmungava colérico que jamais conseguiria se arranjar por aquele preço.

Quando saíram, Étienne praguejava. E explodiu diante de Chaval, que voltava dos trigais na companhia de Catherine, passeando sem pressa enquanto o futuro sogro cuidava dos assuntos sérios.

— Nome de Deus! — gritou. — Que carnificina! Agora é o operário que obrigam a devorar o operário!

Chaval se exaltou: ele jamais teria baixado o preço! E Zacharie, que viera por curiosidade, declarou que aquilo era repugnante. Mas Étienne os fez calar com um gesto de violência contida.

— Isso vai acabar. Um dia seremos nós os senhores!

Maheu, que permanecera calado desde o leilão, pareceu despertar. Repetiu:

— Os senhores... Ah, maldita sorte! Já não seria sem tempo!

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