QUINTA PARTE — Capítulo VI Germinal · Capítulo 29 de 40
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QUINTA PARTE — Capítulo VI

QUINTA PARTE

Capítulo VI

Étienne, que as bofetadas de Catherine haviam feito recobrar a sobriedade, permanecera à frente dos camaradas. Mas, enquanto os lançava sobre Montsou com a voz rouca, ouvia dentro de si outra voz, uma voz de razão que se espantava e perguntava por que tudo aquilo. Não quisera nada daquilo. Como podia acontecer que, tendo partido para Jean-Bart com a intenção de agir friamente e impedir uma desgraça, terminasse o dia, de violência em violência, sitiando o palacete do diretor?

Entretanto, fora ele próprio quem acabara de gritar que parassem. A princípio, tivera apenas a ideia de proteger os Depósitos da Companhia, que se falava em devastar por inteiro. E agora, quando pedras já esfolavam a fachada do palacete, procurava, sem encontrar, contra qual presa legítima deveria lançar o bando, a fim de evitar desgraças maiores. Enquanto permanecia assim sozinho, impotente no meio da estrada, alguém o chamou, um homem de pé no umbral da taberna Tison, cuja proprietária se apressara em fechar as venezianas, deixando livre apenas a porta.

— Sim, sou eu... Escute aqui.

Era Rasseneur. Cerca de trinta homens e mulheres, quase todos do coron dos Duzentos e Quarenta, que haviam ficado em casa pela manhã e vindo à noite em busca de notícias, invadiram a taberna com a aproximação dos grevistas. Zacharie ocupava uma mesa com a mulher, Philomène. Mais longe, Pierron e a Pierronne, de costas, escondiam o rosto. Aliás, ninguém bebia; haviam apenas se abrigado.

Étienne reconheceu Rasseneur e já se afastava quando este acrescentou:

— Minha cara o incomoda, não é?... Eu o avisei, os problemas estão começando. Agora podem pedir pão: o que lhes darão é chumbo.

Então Étienne voltou e respondeu:

— O que me incomoda são os covardes que, de braços cruzados, ficam olhando enquanto arriscamos a pele.

— Então sua ideia é saquear a casa da frente? — perguntou Rasseneur.

— Minha ideia é ficar até o fim com os amigos, ainda que tenhamos de morrer todos juntos.

Desesperado, Étienne retornou à multidão, pronto para morrer. Na estrada, três crianças atiravam pedras, e ele lhes deu um pontapé violento, gritando, na tentativa de deter os camaradas, que não adiantava nada quebrar vidraças.

Bébert e Lydie, que acabavam de se juntar a Jeanlin, aprendiam com ele a manejar a funda. Cada um lançava uma pedra, disputando quem causaria o maior estrago. Por falta de habilidade, Lydie rachara a cabeça de uma mulher no meio da turba, e os dois meninos se torciam de rir. Atrás deles, Bonnemort e Mouque, sentados num banco, observavam-nos. As pernas inchadas de Bonnemort sustentavam-no tão mal que tivera enorme dificuldade para arrastar-se até ali; e ninguém sabia que curiosidade o impelira, pois ele exibia o rosto terroso dos dias em que não se conseguia arrancar-lhe uma palavra.

De resto, ninguém mais obedecia a Étienne. Apesar de suas ordens, as pedras continuavam a cair como granizo, e ele se admirava, apavorava-se diante daqueles brutos a quem tirara a mordaça, tão lentos para se comover e depois terríveis, de uma tenacidade feroz na cólera. Todo o velho sangue flamengo estava ali, pesado e pacato, levando meses para aquecer, lançando-se a selvagerias abomináveis, surdo a tudo, até que a fera se saciasse de atrocidades. Em seu Sul, as multidões se incendiavam mais depressa, mas realizavam menos. Teve de lutar com Levaque para arrancar-lhe o machado e já não sabia como conter os Maheu, que arremessavam pedras com as duas mãos. E sobretudo as mulheres o assustavam, a Levaque, a Mouquette e as outras, agitadas por uma fúria homicida, com dentes e unhas expostos, latindo como cadelas sob as incitações da Brûlé, que as dominava com sua estatura magra.

Mas houve uma interrupção brusca; um minuto de surpresa produziu um pouco da calma que as súplicas de Étienne não haviam conseguido. Eram simplesmente os Grégoire, que se decidiam a despedir-se do tabelião para atravessar a rua e ir à casa do diretor; e pareciam tão tranquilos, tinham tanto ar de acreditar numa simples brincadeira de seus bons mineiros, cuja resignação os alimentava havia um século, que estes, espantados, realmente pararam de lançar pedras, receosos de atingir aquele velho senhor e aquela velha senhora caídos do céu. Deixaram-nos entrar no jardim, subir os degraus, tocar a campainha da porta barricada, que ninguém se apressava em abrir. Justamente Rose, a camareira, voltava da folga, rindo para os operários enfurecidos, que conhecia a todos, pois era de Montsou. E foi ela quem, esmurrando a porta, acabou obrigando Hippolyte a entreabri-la. Chegaram a tempo; os Grégoire desapareciam no interior quando a chuva de pedras recomeçou. Recuperada da surpresa, a multidão berrava ainda mais alto:

— Morte aos burgueses! Viva a social!

Rose continuava a rir no vestíbulo do palacete, como se a aventura a divertisse, repetindo ao criado apavorado:

— Eles não são maus, eu os conheço.

O sr. Grégoire pendurou metodicamente o chapéu. Depois, quando ajudou a senhora Grégoire a tirar a capa de tecido grosso, disse por sua vez:

— Sem dúvida, no fundo não têm maldade. Quando tiverem gritado bastante, irão jantar com mais apetite.

Naquele momento, o sr. Hennebeau descia do segundo andar. Vira a cena e vinha receber os convidados com seu ar habitual, frio e cortês. Apenas a palidez do rosto denunciava as lágrimas que o haviam sacudido. O homem estava domado; restava nele somente o administrador correto, decidido a cumprir o dever.

— Os senhores sabem — disse — que as senhoras ainda não voltaram.

Pela primeira vez, a inquietação comoveu os Grégoire. Cécile ainda não voltara! Como conseguiria voltar, caso a brincadeira dos mineiros se prolongasse?

— Pensei em mandar desimpedir a casa — acrescentou o sr. Hennebeau. — A desgraça é que estou sozinho aqui e nem sei para onde mandar meu criado a fim de trazer quatro homens e um cabo que limpassem esta canalha.

Rose, que permanecera ali, ousou murmurar novamente:

— Ah, senhor, eles não são maus.

O diretor balançou a cabeça, enquanto o tumulto crescia do lado de fora e se ouvia o choque abafado das pedras contra a fachada.

— Não lhes guardo rancor, chego mesmo a desculpá-los. É preciso ser estúpido como eles para acreditar que nos empenhamos em sua desgraça. Só que sou responsável pela tranquilidade... Dizem que há gendarmes pelas estradas, e desde esta manhã não consegui obter um só!

Interrompeu-se e afastou-se para dar passagem à senhora Grégoire, dizendo:

— Por favor, senhora, não fique aqui. Entre na sala.

Mas a cozinheira, que subia do subsolo, exasperada, reteve-os no vestíbulo por mais alguns minutos. Declarou que já não assumia a responsabilidade pelo jantar, pois esperava da confeitaria de Marchiennes as massas de vol-au-vent que encomendara para as quatro horas. Evidentemente, o confeiteiro se perdera no caminho, tomado pelo medo daqueles bandidos. Talvez até tivessem saqueado seus cestos. Ela via os vol-au-vent bloqueados atrás de um arbusto, sitiados, enchendo as barrigas dos três mil miseráveis que pediam pão. Em todo caso, o senhor estava avisado: preferia jogar o jantar no fogo caso o arruinasse por causa da revolução.

— Um pouco de paciência — disse o sr. Hennebeau. — Nada está perdido, o confeiteiro ainda pode chegar.

E, quando se voltou para a senhora Grégoire, abrindo ele próprio a porta da sala, ficou muito surpreso ao perceber, sentado no banco do vestíbulo, um homem que até então não distinguira na sombra crescente.

— Ora, é o senhor, Maigrat! O que está acontecendo?

Maigrat levantou-se, e seu rosto surgiu, gordo e lívido, desfigurado pelo pavor. Já não tinha o porte de homem corpulento e calmo; explicou humildemente que se esgueirara até a casa do diretor para pedir ajuda e proteção, caso os bandidos atacassem sua loja.

— O senhor vê que eu próprio estou ameaçado e não tenho ninguém — respondeu o sr. Hennebeau. — Teria feito melhor ficando em casa para guardar suas mercadorias.

— Ah, coloquei as barras de ferro e deixei minha mulher lá.

O diretor se impacientou, sem esconder o desprezo. Bela guarda, aquela criatura franzina, emagrecida de tanto apanhar!

— Enfim, não posso fazer nada. Tente defender-se. E aconselho que volte imediatamente, porque estão pedindo pão de novo... Escute...

De fato, o tumulto recomeçava, e Maigrat julgou ouvir seu nome no meio dos gritos. Voltar já não era possível; seria despedaçado. Por outro lado, a ideia da ruína o transtornava. Colou o rosto ao painel envidraçado da porta, suando, tremendo, espreitando o desastre, enquanto os Grégoire finalmente passavam para a sala.

Com tranquilidade, o sr. Hennebeau fingia cumprir as obrigações de anfitrião. Mas em vão pedia aos convidados que se sentassem; o aposento fechado, barricado, iluminado por duas lâmpadas antes mesmo de cair a noite, enchia-se de medo a cada novo clamor do lado de fora. No abafamento das tapeçarias, a cólera da multidão roncava, ainda mais inquietante, carregada de uma ameaça vaga e terrível. Mesmo assim conversaram, voltando sem cessar àquela revolta inconcebível. Ele se admirava de nada ter previsto; e sua polícia fora tão malfeita que se enfurecia sobretudo contra Rasseneur, cuja influência funesta dizia reconhecer. De resto, os gendarmes viriam, era impossível que o abandonassem daquela maneira. Quanto aos Grégoire, pensavam apenas na filha: a pobre querida que se assustava tão depressa! Talvez, diante do perigo, a carruagem tivesse voltado para Marchiennes. A espera ainda durou um quarto de hora, tornada exasperante pelo estrondo da rua, pelo ruído das pedras que de tempos em tempos batiam nas venezianas fechadas, fazendo-as soar como tambores. A situação já não era tolerável; o sr. Hennebeau falava em sair, expulsar sozinho os berradores e ir ao encontro da carruagem, quando Hippolyte apareceu gritando:

— Senhor! Senhor! A senhora chegou, estão matando a senhora!

Como a carruagem não conseguira ultrapassar a viela de Réquillart, no meio dos grupos ameaçadores, Négrel seguira sua ideia: percorrer a pé os cem metros que os separavam do palacete e bater na pequena porta que dava para o jardim, perto das dependências. O jardineiro os ouviria; haveria sempre alguém por ali para abrir. A princípio, tudo correra perfeitamente; a senhora Hennebeau e as moças já batiam quando algumas mulheres, avisadas, lançaram-se na viela. Então tudo se perdeu. Ninguém abria a porta, e Négrel tentara inutilmente arrombá-la com golpes do ombro. A correnteza das mulheres crescia; receou ser submergido e tomou a decisão desesperada de empurrar diante de si a tia e as moças, a fim de alcançar a escadaria através dos sitiantes. Mas essa manobra provocou uma confusão. Não as largavam; um bando ululante as perseguia, enquanto a multidão refluía da direita e da esquerda, ainda sem compreender, apenas espantada com aquelas senhoras em trajes elegantes perdidas na batalha. Naquele instante, a confusão tornou-se tamanha que se produziu um desses fatos de pânico que permanecem inexplicáveis. Lucie e Jeanne, chegando à escadaria, haviam se esgueirado pela porta que a camareira entreabria; a senhora Hennebeau conseguira segui-las; e, atrás delas, Négrel finalmente entrou e tornou a fechar os ferrolhos, convencido de que vira Cécile passar primeiro. Ela já não estava ali, desaparecera no caminho, levada por tamanho terror que dera as costas à casa e se lançara por conta própria no centro do perigo.

Logo se ergueu o grito:

— Viva a social! Morte aos burgueses! Morte!

Alguns, de longe, por causa do véu que lhe escondia o rosto, tomavam-na pela senhora Hennebeau. Outros diziam que era uma amiga da diretora, a jovem esposa de um industrial das redondezas, odiado pelos próprios operários. De resto, pouco importava; eram o vestido de seda, o casaco de peles, até a pluma branca do chapéu que os exasperavam. Ela cheirava a perfume, tinha relógio, tinha a pele fina de uma ociosa que nunca tocava em carvão.

— Espere! — gritou a Brûlé. — Vamos enfiar renda no seu traseiro!

— É de nós que essas putas roubam tudo isso — retomou a Levaque. — Elas grudam pelos na pele enquanto morremos de frio... Arranquem a roupa dela, para que aprenda a viver!

A Mouquette lançou-se à frente.

— Sim, sim, é preciso açoitá-la.

E as mulheres, naquela rivalidade selvagem, sufocavam-se, estendiam os braços cobertos de andrajos, cada uma querendo um pedaço daquela filha de rico. Sem dúvida ela não tinha o traseiro mais bem-feito que o das outras. Mais de uma devia até estar podre sob os enfeites. A injustiça já durara tempo suficiente; obrigariam todas a se vestir como operárias, aquelas prostitutas que ousavam gastar cinquenta soldos na lavagem de um saiote!

No meio daquelas fúrias, Cécile tremia, com as pernas paralisadas, balbuciando vinte vezes a mesma frase:

— Senhoras, por favor, senhoras, não me façam mal.

Mas soltou um grito rouco: mãos frias acabavam de agarrá-la pelo pescoço. Era o velho Bonnemort, para junto de quem a correnteza a empurrara, e que a segurava. Parecia embriagado de fome, embrutecido pela longa miséria, arrancado de repente à resignação de meio século, sem que fosse possível saber por qual impulso de rancor. Depois de, durante a vida, salvar da morte uma dúzia de camaradas, arriscando os ossos no grisu e nos desabamentos, cedia agora a coisas que não conseguiria explicar, a uma necessidade de fazer aquilo, ao fascínio daquele pescoço branco de moça. E, como naquele dia perdera a fala, apertava os dedos, com seu ar de velha fera enferma ruminando lembranças.

— Não! Não! — berravam as mulheres. — O traseiro de fora! O traseiro de fora!

Dentro do palacete, assim que perceberam o que acontecia, Négrel e o sr. Hennebeau tornaram a abrir a porta, corajosamente, para correr em socorro de Cécile. Mas a multidão agora se atirava contra o portão do jardim, e já não era fácil sair. Travava-se ali uma luta, enquanto os Grégoire, apavorados, apareciam no alto da escadaria.

— Solte-a, velho! É a moça da Piolaine! — gritou a Maheude ao avô, reconhecendo Cécile, cujo véu uma mulher rasgara.

De seu lado, Étienne, transtornado com aquelas represálias contra uma menina, esforçava-se para obrigar o bando a largá-la. Teve uma inspiração e brandiu o machado que arrancara das mãos de Levaque.

— À casa de Maigrat, com mil diabos!... Há pão lá dentro! Vamos pôr abaixo a espelunca de Maigrat!

E, com toda a força, desferiu um primeiro golpe de machado contra a porta da loja. Alguns camaradas o seguiram, Levaque, Maheu e outros. Mas as mulheres continuavam encarniçadas; Cécile escapara dos dedos de Bonnemort apenas para cair nas mãos da Brûlé. De quatro, Lydie e Bébert, conduzidos por Jeanlin, esgueiravam-se entre as saias para ver o traseiro da senhora. Já a puxavam de todos os lados, suas roupas estalavam, quando um homem a cavalo apareceu, impelindo o animal e golpeando com o chicote aqueles que não se afastavam depressa o bastante.

— Ah, canalhas! Agora vocês açoitam nossas filhas!

Era Deneulin, que chegava para o jantar marcado. Saltou rapidamente para a estrada, agarrou Cécile pela cintura e, com a outra mão, manejando o cavalo com destreza e força extraordinárias, serviu-se dele como de uma cunha viva, fendendo a multidão, que recuava diante dos coices. A luta continuava junto ao portão. Mesmo assim, ele passou, esmagando braços e pernas. Aquele socorro inesperado libertou Négrel e o sr. Hennebeau, em grande perigo no meio dos palavrões e dos golpes. E, enquanto o rapaz finalmente entrava com Cécile desmaiada, Deneulin, que protegia o diretor com seu corpo robusto no alto da escadaria, recebeu uma pedra cujo choque quase lhe desmontou o ombro.

— Isso mesmo! — gritou. — Quebrem meus ossos, depois de quebrarem minhas máquinas!

Empurrou rapidamente a porta. Uma saraivada de pedras caiu contra a madeira.

— Que enlouquecidos! — retomou. — Mais dois segundos, e rachavam meu crânio como uma abóbora vazia... Não há nada a dizer a eles, que querem? Já não sabem o que fazem, só resta abatê-los.

Na sala, os Grégoire choravam ao ver Cécile recuperar os sentidos. Ela não sofrera nenhum ferimento, nem sequer um arranhão; perdera apenas o véu. Mas o espanto deles aumentou quando reconheceram diante de si a cozinheira Mélanie, que contava como o bando destruíra a Piolaine. Louca de medo, correra para avisar os patrões. Também entrara pela porta entreaberta, no momento da confusão, sem que ninguém a percebesse; e, em seu relato interminável, a única pedra de Jeanlin, que quebrara apenas uma vidraça, transformava-se numa canhonada completa, que deixara os muros rachados. Então as ideias do sr. Grégoire se transtornaram: tentavam degolar sua filha, arrasavam sua casa; portanto era verdade que aqueles mineiros podiam guardar rancor dele, simplesmente porque vivia, como homem honesto, do trabalho deles?

A camareira, que trouxera uma toalha e água-de-colônia, repetiu:

— Mesmo assim, é engraçado, eles não são maus.

A senhora Hennebeau, sentada, muito pálida, não se recuperava do abalo; só reencontrou um sorriso quando começaram a felicitar Négrel. Os pais de Cécile agradeciam sobretudo ao rapaz; agora era um casamento decidido. O sr. Hennebeau observava em silêncio, passando os olhos da mulher para o amante que jurara matar pela manhã, depois para a moça que sem dúvida logo o livraria dele. Não tinha pressa alguma; restava-lhe apenas um medo, o de ver a mulher cair ainda mais baixo, talvez até algum lacaio.

— E vocês, minhas queridinhas? — perguntou Deneulin às filhas. — Não quebraram nada em vocês?

Lucie e Jeanne haviam sentido muito medo, mas estavam contentes por terem visto aquilo. Agora riam.

— Com mil diabos! — continuou o pai. — Que belo dia!... Caso queiram um dote, será melhor ganhá-lo por conta própria; e preparem-se para ter de me sustentar.

Brincava, mas a voz tremia. Seus olhos se encheram de lágrimas quando as duas filhas se lançaram em seus braços.

O sr. Hennebeau escutara aquela confissão de ruína. Um pensamento rápido iluminou-lhe o rosto. De fato, Vandame passaria para Montsou; era a compensação esperada, o golpe de fortuna que o recolocaria nas boas graças daqueles senhores da Administração. A cada desastre de sua existência, refugiava-se na execução rigorosa das ordens recebidas; fazia da disciplina militar em que vivia sua reduzida parcela de felicidade.

Aos poucos, todos se acalmaram. A sala caiu numa paz exausta, sob a luz tranquila das duas lâmpadas e o abafamento morno das cortinas. O que acontecia lá fora? Os berradores se calavam, as pedras já não golpeavam a fachada; ouviam-se apenas grandes pancadas surdas, pancadas de machado que ressoavam como ao longe numa floresta. Quiseram saber, voltaram ao vestíbulo para arriscar um olhar pelo painel envidraçado da porta. Até as senhoras e as moças subiram para postar-se atrás das venezianas do primeiro andar.

— Está vendo aquele patife do Rasseneur, em frente, no umbral da taberna? — disse o sr. Hennebeau a Deneulin. — Eu já desconfiava, ele deve estar metido nisso.

No entanto, não era Rasseneur, era Étienne, que arrombava a golpes de machado a loja de Maigrat. E continuava chamando os camaradas: as mercadorias lá dentro não pertenciam aos carvoeiros? Não tinham o direito de retomar o que era deles daquele ladrão que os explorava havia tanto tempo, que os matava de fome a uma palavra da Companhia? Pouco a pouco, todos abandonavam o palacete do diretor e corriam para saquear a loja vizinha. O grito de pão, pão, pão tornava a roncar. Encontrariam pão atrás daquela porta. Uma fúria de fome os erguia, como se de repente não pudessem esperar mais sem morrer naquela estrada. Tamanhos impulsos se lançavam contra a porta que Étienne temia ferir alguém a cada golpe do machado.

Maigrat, que deixara o vestíbulo do palacete, refugiara-se primeiro na cozinha; mas ali nada ouvia, e imaginava atentados abomináveis contra sua loja. Acabara de subir outra vez, para esconder-se atrás da bomba no jardim, quando distinguiu claramente os estalos da porta, as vociferações de saque entre as quais se misturava seu nome. Portanto não era um pesadelo: mesmo sem ver, agora ouvia, acompanhava o ataque, com os ouvidos zumbindo. Cada golpe de machado lhe atingia o coração. Uma dobradiça devia ter saltado; mais cinco minutos, e a loja seria tomada. Tudo se desenhava em seu crânio como imagens reais, aterradoras: os bandidos precipitando-se para dentro, depois as gavetas arrombadas, os sacos rasgados, tudo comido, tudo bebido, a própria casa carregada, e nada restando, nem sequer um bastão para sair mendigando pelos povoados. Não, não lhes permitiria concluir sua ruína, preferia perder a pele. De onde estava, avistava numa janela de sua casa, na fachada lateral, a silhueta franzina da mulher, pálida e indistinta atrás dos vidros; sem dúvida ela escutava os golpes, com seu ar mudo de pobre criatura espancada. Embaixo havia um galpão, colocado de tal maneira que, do jardim do palacete, era possível subir até ele escalando a treliça do muro divisório; dali seria fácil rastejar pelas telhas até a janela. E a ideia de voltar para casa daquele modo o torturava agora, no remorso de ter saído. Talvez ainda tivesse tempo de barricar a loja com móveis; inventava até outras defesas heroicas, óleo fervente, petróleo em chamas despejado do alto. Mas aquele amor por suas mercadorias lutava contra o medo, e ele arquejava, combatendo a própria covardia. De repente, decidiu-se, ao ouvir uma pancada mais profunda do machado. A avareza venceu; ele e a mulher cobririam os sacos com o próprio corpo antes de abandonar um único pão.

Quase imediatamente, explodiram vaias.

— Olhem! Olhem!... O gato está lá em cima! Peguem o gato! Peguem o gato!

O bando acabava de avistar Maigrat sobre o telhado do galpão. Em sua febre, apesar do corpo pesado, escalara a treliça com agilidade, sem se importar com as ripas que quebravam; e agora se estendia sobre as telhas, esforçando-se para alcançar a janela. Mas a inclinação era muito íngreme, a barriga o atrapalhava, as unhas se arrancavam. Mesmo assim, teria conseguido arrastar-se até o alto se não começasse a tremer, receando ser atingido por pedras; pois a multidão, que já não via, continuava a gritar embaixo:

— Peguem o gato! Peguem o gato!... É preciso derrubá-lo!

De repente, as duas mãos se soltaram ao mesmo tempo. Ele rolou como uma bola, ricocheteou na calha, caiu atravessado sobre o muro divisório e, com tamanho azar, tornou a cair do lado da estrada, onde abriu o crânio na quina de um marco de pedra. Os miolos saltaram. Estava morto. No alto, pálida e indistinta atrás dos vidros, sua mulher continuava olhando.

A princípio, houve estupor. Étienne parara, o machado lhe escorregara das mãos. Maheu, Levaque e todos os outros esqueciam a loja, com os olhos voltados para o muro, por onde escorria lentamente um fino fio vermelho. Os gritos haviam cessado, um silêncio se alargava na sombra crescente.

Logo as vaias recomeçaram. Eram as mulheres que se precipitavam, tomadas pela embriaguez do sangue.

— Então existe um bom Deus! Ah, porco, acabou para você!

Cercaram o cadáver ainda quente, insultaram-no entre risadas, chamando de cara imunda aquela cabeça arrebentada, berrando diante da morte toda a antiga rancor de suas vidas sem pão.

— Eu lhe devia sessenta francos, agora está pago, ladrão! — disse a Maheude, enfurecida entre as outras. — Nunca mais vai me negar crédito... Espere! Espere! Ainda preciso engordá-lo.

Com os dez dedos, arranhou a terra, apanhou dois punhados e os enfiou violentamente na boca dele.

— Tome! Coma!... Tome! Coma, coma, você que nos comia!

Os insultos redobraram, enquanto o morto, estendido de costas, contemplava imóvel, com os grandes olhos fixos, o céu imenso de onde caía a noite. Aquela terra comprimida em sua boca era o pão que ele lhes recusara. Agora não comeria outra coisa. Não lhe trouxera muita sorte matar de fome o pobre mundo.

Mas as mulheres ainda tinham outras vinganças a arrancar dele. Rodeavam-no, farejando, semelhantes a lobas. Todas buscavam um ultraje, uma selvageria que as aliviasse.

Ouviu-se a voz áspera da Brûlé:

— É preciso castrá-lo como um gato!

— Sim, sim! O gato! O gato!... Ele fez demais, o canalha!

A Mouquette já lhe arrancava as calças, puxava-as, enquanto a Levaque erguia as pernas. E a Brûlé, com as mãos secas de velha, afastou as coxas nuas, agarrou aquela virilidade morta. Segurava tudo, puxando num esforço que retesava suas costas magras e fazia estalar os compridos braços. As peles moles resistiam; precisou tentar novamente e acabou por arrancar o pedaço, um naco de carne cabeluda e ensanguentada, que agitou com uma risada triunfal:

— Peguei! Peguei!

Vozes agudas saudaram com imprecações o troféu abominável.

— Ah, miserável, nunca mais vai emprenhar nossas filhas!

— Sim, acabou esse negócio de cobrar em carne. Nunca mais teremos de estender o traseiro para conseguir um pão!

— Olhe, eu lhe devo seis francos. Quer receber um adiantamento? Posso pagar, caso ainda consiga!

A brincadeira sacudiu-as com uma alegria terrível. Mostravam umas às outras o pedaço ensanguentado, como uma fera maligna de que todas haviam sofrido e que enfim acabavam de esmagar, que viam ali, inerte, em seu poder. Cuspiam nele, projetavam as mandíbulas, repetindo num furioso estouro de desprezo:

— Não pode mais! Não pode mais!... Já não é um homem que vão enterrar... Vá apodrecer, inútil!

Então a Brûlé fincou o naco na ponta do bastão e, erguendo-o no ar, levando-o como uma bandeira, lançou-se pela estrada, seguida pela debandada ululante das mulheres. Gotas de sangue choviam; aquela carne lamentável pendia como um resto de açougue. No alto, junto à janela, a senhora Maigrat continuava imóvel; mas, sob a última claridade do poente, as imperfeições turvas dos vidros deformavam seu rosto branco, que parecia rir. Espancada, traída a toda hora, com os ombros curvados da manhã à noite sobre um livro-caixa, talvez risse quando o bando de mulheres passou galopando, com a fera maligna, a fera esmagada, na ponta de um bastão.

Aquela mutilação horrenda consumara-se num horror gelado. Nem Étienne, nem Maheu, nem os outros tiveram tempo de intervir; permaneciam imóveis diante daquele galope de fúrias. No umbral da taberna Tison, algumas cabeças apareciam: Rasseneur, lívido de revolta; Zacharie e Philomène, estupefatos com o que haviam visto. Os dois velhos, Bonnemort e Mouque, muito graves, balançavam a cabeça. Apenas Jeanlin ria, cutucava Bébert com o cotovelo e obrigava Lydie a erguer o nariz. Mas as mulheres já voltavam, girando sobre si mesmas, passando sob as janelas da Direção. E, atrás das venezianas, as senhoras e as moças esticavam o pescoço. Não haviam conseguido ver a cena, escondida pelo muro; distinguiam mal, na noite que já se tornara negra.

— O que elas têm na ponta daquele bastão? — perguntou Cécile, que criara coragem para olhar.

Lucie e Jeanne disseram que devia ser uma pele de coelho.

— Não, não — murmurou a senhora Hennebeau. — Devem ter saqueado a charcutaria, parece um pedaço de porco.

Nesse momento, estremeceu e se calou. A senhora Grégoire lhe dera uma joelhada. As duas permaneceram boquiabertas. As moças, muito pálidas, já não perguntavam nada; acompanhavam com os grandes olhos aquela visão vermelha no fundo das trevas.

Étienne tornou a brandir o machado. Mas o mal-estar não se dissipava; agora o cadáver barrava a estrada e protegia a loja. Muitos haviam recuado. Era como uma saciedade que apaziguava a todos. Maheu permanecia sombrio quando ouviu uma voz dizer-lhe ao ouvido que fugisse. Virou-se e reconheceu Catherine, ainda com o velho casaco de homem, negra e ofegante. Com um gesto, afastou-a. Não queria ouvi-la, ameaçava bater nela. Então ela fez um gesto desesperado, hesitou e correu para Étienne.

— Fuja, fuja, os gendarmes estão chegando!

Ele também a repeliu e a insultou, sentindo subir às faces o sangue das bofetadas que recebera. Mas ela não desistia; obrigou-o a soltar o machado, arrastou-o pelos dois braços com uma força irresistível.

— Quando digo que os gendarmes estão chegando!... Escute. Foi Chaval quem foi buscá-los e está trazendo todos, para você saber. Eu fiquei enojada e vim... Fuja, não quero que o prendam.

E Catherine o levou justamente quando um galope pesado começou a sacudir ao longe o calçamento. Logo explodiu um grito: “Os gendarmes! Os gendarmes!” Houve uma debandada, um salve-se quem puder tão desesperado que, em dois minutos, a estrada ficou livre, inteiramente limpa, como se um furacão a tivesse varrido. Apenas o cadáver de Maigrat deixava uma mancha escura sobre a terra branca. Diante da taberna Tison, restara somente Rasseneur, aliviado, com o rosto aberto, aplaudindo a fácil vitória dos sabres; enquanto, em Montsou deserta, apagada, no silêncio das fachadas fechadas, os burgueses, com suor na pele, sem ousar arriscar um olhar, batiam os dentes. A planície afogava-se sob a noite espessa; só os altos-fornos e os fornos de coque incendiavam o fundo do céu trágico. Pesadamente, o galope dos gendarmes aproximava-se; eles surgiram sem que se pudesse distingui-los, numa massa sombria. E, atrás deles, confiada à sua guarda, chegava enfim a carroça do confeiteiro de Marchiennes, da qual saltou um ajudante que, com ar tranquilo, começou a descarregar as massas dos vol-au-vent.

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