SÉTIMA PARTE — Capítulo III Germinal · Capítulo 37 de 40
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SÉTIMA PARTE — Capítulo III

SÉTIMA PARTE

Capítulo III

Às quatro horas, começou a descida. Dansaert, instalado pessoalmente à mesa do apontador, na lampisteria, registrava cada operário que se apresentava e mandava entregar-lhe uma lâmpada. Aceitava todos, sem fazer observação alguma, cumprindo a promessa dos cartazes.

Entretanto, quando viu Étienne e Catherine diante do guichê, teve um sobressalto, ficou muito vermelho, abriu a boca para recusar-lhes a inscrição; depois limitou-se a triunfar, com ar zombeteiro: ah, ah! Então o mais forte dos fortes estava por terra? A Companhia tinha algum valor, afinal, já que o terrível derrubador de Montsou voltava para pedir-lhe pão?

Em silêncio, Étienne pegou a lâmpada e subiu até o poço com a jovem transportadora.

Mas era ali, na sala de embarque, que Catherine temia as palavras cruéis dos companheiros. Logo à entrada, reconheceu Chaval no meio de uns vinte mineiros que esperavam a liberação de uma gaiola. Ele avançava furiosamente em sua direção quando a visão de Étienne o deteve.

Então fingiu rir, dando de ombros com desprezo. Muito bem! Não se importava, já que o outro ocupara o lugar ainda quente. Boa viagem! Era problema daquele senhor, se gostava de sobras. E, por trás da exibição de desdém, voltava a tremer de ciúme, os olhos em chamas.

Aliás, os companheiros não se moveram. Permaneciam mudos, de olhos baixos. Limitavam-se a lançar um olhar oblíquo aos recém-chegados; depois, abatidos e sem cólera, tornavam a fixar a boca do poço, com a lâmpada na mão, tremendo sob o tecido fino das jaquetas, nas correntes de ar contínuas da grande sala.

Por fim, a gaiola apoiou-se nos ferrolhos e gritaram que embarcassem. Catherine e Étienne se apertaram numa vagoneta, onde já estavam Pierron e dois talhadores. Ao lado, na outra vagoneta, Chaval dizia ao pai Mouque, em voz muito alta, que a Direção fazia muito mal em não aproveitar a oportunidade para livrar as minas dos canalhas que as apodreciam. Mas o velho tratador, já recaído na resignação de sua vida de cão, não se enfurecia mais com a morte dos filhos e respondia apenas com um gesto conciliador.

A gaiola se desprendeu, e eles mergulharam no escuro. Ninguém falava. De repente, quando já haviam descido dois terços do trajeto, houve uma raspagem terrível. Os ferros estalaram, os homens foram lançados uns contra os outros.

— Pelo amor de Deus! — resmungou Étienne. — Vão nos esmagar? Acabaremos todos mortos por causa desse maldito revestimento. E ainda dizem que o consertaram!

Mesmo assim, a gaiola vencera o obstáculo. Agora descia sob uma chuva de tempestade, tão violenta que os operários escutavam inquietos aquela torrente. Tinham surgido tantas infiltrações assim na calafetagem das juntas?

Interrogado, Pierron, que trabalhava havia vários dias, não quis demonstrar medo, pois isso poderia ser considerado um ataque à Direção, e respondeu:

— Ah, não há perigo! É sempre assim. Sem dúvida não tiveram tempo de calafetar os pichoux.

A torrente rugia sobre suas cabeças. Chegaram ao fundo, ao último embarcadouro, sob uma verdadeira tromba d’água. Nenhum capataz tivera a ideia de subir pelas escadas para verificar a situação. A bomba daria conta. Os calafetadores examinariam as juntas na noite seguinte.

Nas galerias, a reorganização do trabalho já causava dificuldades suficientes. Antes de permitir que os talhadores voltassem aos trabalhos de desmonte, o engenheiro decidira que, durante os primeiros cinco dias, todos os homens executariam determinadas obras de consolidação de urgência absoluta. Desmoronamentos ameaçavam por toda parte. As vias haviam sofrido tanto que era necessário remendar os escoramentos por várias centenas de metros.

No fundo, formavam equipes de dez homens, cada qual dirigida por um capataz, e depois as enviavam para os pontos mais danificados. Quando a descida terminou, contaram trezentos e vinte e dois mineiros, cerca da metade do número que trabalhava quando a mina estava em plena exploração.

Chaval justamente completou a equipe da qual faziam parte Catherine e Étienne. Não fora por acaso. Primeiro escondera-se atrás dos companheiros, depois forçara o capataz a aceitá-lo.

Aquela equipe seguiu para desobstruir, no extremo da galeria norte, a quase três quilômetros dali, um desmoronamento que bloqueava uma via do veio Dezoito Polegadas. Atacaram as rochas caídas com picaretas e pás. Étienne, Chaval e outros cinco removiam os escombros, enquanto Catherine, com dois galibots, transportava a terra até o plano inclinado.

Falavam pouco. O capataz não os abandonava. Mesmo assim, os dois pretendentes da transportadora por pouco não trocaram bofetadas. Enquanto resmungava que já não queria saber daquela vagabunda, o antigo companheiro continuava a importuná-la, esbarrava nela às escondidas, até que o novo o ameaçou com uma surra, caso não a deixasse em paz. Devoravam-se com os olhos, e foi preciso separá-los.

Por volta das oito horas, Dansaert passou para examinar o trabalho. Parecia de humor detestável e enfureceu-se contra o capataz. Nada funcionava, as madeiras precisavam ser substituídas à medida que avançavam. Aquilo era maneira de trabalhar? E partiu anunciando que voltaria com o engenheiro. Esperava Négrel desde a manhã, sem compreender a causa do atraso.

Mais uma hora se passou. O capataz interrompera a remoção dos escombros para empregar toda a equipe no escoramento do teto. Até a transportadora e os dois galibots deixaram de empurrar as vagonetas e passaram a preparar e carregar as peças de madeira.

Naquele fundo de galeria, a equipe se encontrava como num posto avançado, perdida numa extremidade da mina, agora sem comunicação com os demais trabalhos.

Três ou quatro vezes, ruídos estranhos, galopes distantes, fizeram os operários virarem a cabeça. O que seria? Parecia que as vias se esvaziavam, que os companheiros já estavam subindo, e correndo. Mas o rumor se perdia no silêncio profundo, e eles voltavam a calçar os escoramentos, atordoados pelos grandes golpes dos martelos.

Por fim, retomaram a remoção. O transporte recomeçou.

Logo na primeira viagem, Catherine voltou assustada, dizendo que não havia mais ninguém no plano inclinado.

— Gritei, ninguém respondeu. Todos deram o fora.

O espanto foi tamanho que os dez homens largaram as ferramentas e começaram a correr. A ideia de terem sido abandonados, sozinhos no fundo da mina, tão longe do embarcadouro, enlouquecia-os.

Levaram apenas as lâmpadas e corriam em fila, os homens, as crianças, a transportadora. O próprio capataz perdia a cabeça, lançando chamados, cada vez mais assustado com o silêncio, com aquele deserto de galerias que se estendia sem fim.

O que acontecera para que não encontrassem uma única pessoa? Que acidente poderia ter levado os companheiros daquele modo? O terror aumentava por desconhecerem o perigo, por sentirem a ameaça ali, sem saber o que era.

Por fim, quando se aproximavam do embarcadouro, uma torrente lhes barrou o caminho. Imediatamente, a água lhes chegou aos joelhos. Já não conseguiam correr, avançavam com dificuldade contra a corrente, pensando que um minuto de atraso significaria a morte.

— Pelo amor de Deus! O revestimento arrebentou! — gritou Étienne. — Eu dizia que acabaríamos todos aqui!

Desde a descida, Pierron, muito inquieto, via aumentar o dilúvio que caía do poço. Enquanto carregava as vagonetas com outros dois homens, erguia a cabeça, o rosto encharcado pelas gotas grossas, os ouvidos ensurdecidos pelo rugido da tempestade no alto.

Mas tremeu principalmente quando percebeu que, sob seus pés, o poço de drenagem, o bougnou com dez metros de profundidade, se enchia. A água já brotava do assoalho e transbordava sobre as chapas de ferro fundido. Era a prova de que a bomba já não conseguia esgotar as infiltrações. Ele a ouvia ofegar, soluçando de cansaço.

Então avisou Dansaert, que praguejou de raiva, respondendo que era preciso esperar pelo engenheiro. Duas vezes Pierron voltou a insistir, sem obter outra coisa além de gestos exasperados. Pois a água subia. O que Dansaert podia fazer?

Mouque apareceu com Bataille, que conduzia para o trabalho; e precisou segurá-lo com as duas mãos, pois o velho cavalo sonolento empinara de repente, com a cabeça estendida em direção ao poço, relinchando como se fosse morrer.

— O que foi, filósofo? O que está incomodando você?... Ah, é porque está chovendo. Venha, isso não lhe diz respeito.

Mas o animal estremecia em todos os pelos, e Mouque precisou arrastá-lo à força para o transporte.

Quase no mesmo instante, enquanto Mouque e Bataille desapareciam no fundo de uma galeria, ouviu-se um estalo no alto, seguido de um estrondo prolongado de queda. Era uma peça do revestimento que se desprendia e caía de cento e oitenta metros, ricocheteando contra as paredes.

Pierron e os outros carregadores conseguiram se afastar. A prancha de carvalho esmagou apenas uma vagoneta vazia. Ao mesmo tempo, uma massa de água, o jorro de uma barragem rompida, desabou em torrente.

Dansaert quis subir para verificar. Mas ainda falava quando uma segunda peça despencou. Diante da catástrofe iminente, apavorado, já não hesitou. Deu a ordem de subida e enviou capatazes para avisar os homens nos locais de trabalho.

Começou então uma correria medonha. De cada galeria, fileiras de operários chegavam a galope e se lançavam contra as gaiolas. Esmagavam-se, matavam-se para subir imediatamente.

Alguns, que haviam pensado em usar o compartimento das escadas, voltaram gritando que a passagem já estava bloqueada. Esse era o terror de todos depois da partida de cada gaiola: aquela conseguira passar, mas quem sabia se a seguinte ainda atravessaria os obstáculos que entupiam o poço?

No alto, o desmoronamento devia continuar. Ouvia-se uma série de detonações surdas, as madeiras se fendendo e estourando no rugido contínuo e crescente da tempestade.

Logo uma gaiola ficou inutilizada, arrebentada, já não deslizando entre os guias, que sem dúvida estavam partidos. A outra raspava tanto que o cabo certamente se romperia.

E ainda havia cerca de cem homens para retirar. Todos arquejavam, agarravam-se, ensanguentados e encharcados. Dois morreram atingidos pela queda de pranchas. Um terceiro, que se agarrara à gaiola, caiu de cinquenta metros e desapareceu no bougnou.

Dansaert, entretanto, tentava restabelecer a ordem. Armado com uma picareta estreita, ameaçava abrir o crânio do primeiro que não obedecesse. Queria alinhá-los em fila, gritava que os carregadores sairiam por último, depois de embarcarem os companheiros.

Ninguém o escutava. Impedira Pierron, covarde e lívido, de escapar entre os primeiros. A cada partida, precisava afastá-lo com uma bofetada.

Mas ele próprio batia os dentes. Mais um minuto e seria engolido. Tudo desabava no alto, era um rio transbordado, uma chuva mortal de armações.

Alguns operários ainda chegavam correndo quando, enlouquecido de medo, Dansaert saltou para dentro de uma vagoneta, deixando Pierron pular atrás dele. A gaiola subiu.

Naquele momento, a equipe de Étienne e Chaval desembocou no embarcadouro. Viram a gaiola desaparecer e se precipitaram. Mas foram obrigados a recuar diante do desabamento final do revestimento. O poço se bloqueava. A gaiola não tornaria a descer.

Catherine soluçava, Chaval se sufocava de tanto praguejar. Eram cerca de vinte. Aqueles porcos dos chefes os abandonariam daquele modo?

O pai Mouque, que trouxera Bataille de volta sem pressa, ainda o segurava pela rédea. Os dois, o velho e o animal, permaneciam atônitos diante da rápida elevação da inundação. A água já lhes chegava às coxas.

Étienne, calado, de dentes cerrados, ergueu Catherine nos braços. E os vinte gritavam, com o rosto voltado para o alto. Os vinte se obstinavam, embrutecidos, em olhar para o poço, aquele buraco desmoronado que vomitava um rio e de onde já não poderia vir socorro algum.

Ao amanhecer, quando desembarcou, Dansaert viu Négrel correndo em sua direção. Por uma fatalidade, naquela manhã, logo que ele se levantara, a senhora Hennebeau o retivera para folhearem catálogos e escolherem o presente de casamento.

Eram dez horas.

— Pois bem, o que está acontecendo? — gritou Négrel de longe.

— A mina está perdida — respondeu o capataz-chefe.

E contou a catástrofe, gaguejando, enquanto o engenheiro, incrédulo, dava de ombros. Ora essa! Um revestimento não se desfazia daquele modo. Estavam exagerando, era preciso verificar.

— Ninguém ficou no fundo, não é?

Dansaert se perturbou. Não, ninguém. Ao menos esperava que não. Entretanto, alguns operários podiam ter se atrasado.

— Mas, pelo amor de Deus! — disse Négrel. — Então por que você subiu? Por acaso se abandonam os próprios homens?

Imediatamente, ordenou que contassem as lâmpadas. Naquela manhã, haviam distribuído trezentas e vinte e duas; e só encontraram duzentas e cinquenta e cinco. Porém, vários operários admitiam que as suas haviam ficado lá embaixo, caídas de suas mãos durante a correria do pânico.

Tentaram fazer uma chamada, mas foi impossível estabelecer um número exato. Alguns mineiros tinham fugido, outros já não ouviam o próprio nome. Ninguém concordava quanto aos companheiros desaparecidos. Talvez fossem vinte, talvez quarenta.

Uma única certeza se formava para o engenheiro: havia homens no fundo. Quando se inclinavam sobre a boca do poço, distinguiam seus gritos no estrondo das águas, através das armações desmoronadas.

A primeira providência de Négrel foi mandar buscar o senhor Hennebeau e ordenar que fechassem a mina. Mas já era tarde demais. Os carvoeiros que haviam corrido até o conjunto habitacional dos Duzentos e Quarenta, como se perseguidos pelos estalos do revestimento, acabavam de apavorar as famílias; e bandos de mulheres, velhos e crianças desciam a encosta correndo, sacudidos por gritos e soluços.

Foi necessário repeli-los. Um cordão de supervisores recebeu a tarefa de contê-los, pois atrapalhariam as manobras. Muitos dos operários que haviam subido permaneciam ali, embrutecidos, sem pensar em trocar as roupas, retidos pela fascinação do medo diante daquele buraco terrível onde quase haviam ficado.

As mulheres, enlouquecidas ao redor deles, suplicavam, interrogavam, pediam nomes. Aquele estava lá embaixo? E o outro? E mais aquele? Eles não sabiam, balbuciavam, sacudidos por grandes arrepios, fazendo gestos de loucos, gestos que afastavam uma visão abominável, ainda diante de seus olhos.

A multidão aumentava rapidamente, uma lamentação subia das estradas. E, lá no alto, no monte de escória, dentro da cabana de Bonnemort, havia um homem sentado no chão, Souvarine, que não se afastara e observava.

— Os nomes! Os nomes! — gritavam as mulheres, com a voz estrangulada pelas lágrimas.

Négrel apareceu por um instante e lançou estas palavras:

— Assim que soubermos os nomes, anunciaremos. Mas nada está perdido, todos serão salvos... Vou descer.

Então a multidão esperou, muda de angústia.

De fato, com uma coragem tranquila, o engenheiro preparava-se para descer. Mandara desprender a gaiola e ordenara que a substituíssem, na extremidade do cabo, por um balde de descida. E, como suspeitava que a água apagaria sua lâmpada, mandou prender outra sob o balde, onde ficaria protegida.

Capatazes trêmulos, de rosto branco e desfigurado, ajudavam nos preparativos.

— Você desce comigo, Dansaert — disse Négrel com voz breve.

Depois, quando os viu todos sem coragem, quando viu o capataz-chefe cambalear, bêbado de terror, afastou-o com um gesto de desprezo.

— Não. Você só me atrapalharia... Prefiro ir sozinho.

Já estava dentro do estreito recipiente, que oscilava na extremidade do cabo; e, segurando a lâmpada com uma das mãos e apertando com a outra a corda do sinal, gritou pessoalmente ao maquinista:

— Devagar!

A máquina pôs os tambores em movimento, e Négrel desapareceu no abismo, de onde continuavam subindo os gritos dos miseráveis.

No alto, nada se movera. Ele constatou o bom estado do revestimento superior. Balançando no meio do poço, girava e iluminava as paredes. As infiltrações entre as juntas eram tão pequenas que a lâmpada não sofria.

Mas, a trezentos metros, ao alcançar o revestimento inferior, ela se apagou como previra, pois um jorro enchera o balde. A partir daí, só teve para enxergar a lâmpada pendurada abaixo, que o precedia nas trevas.

E, apesar da temeridade, um arrepio o empalideceu diante do horror do desastre. Restavam apenas algumas peças de madeira; as outras haviam desabado com os quadros. Atrás delas, abriam-se cavidades enormes. As areias amarelas, finas como farinha, corriam em massas consideráveis, enquanto as águas do Torrente, daquele mar subterrâneo de tempestades e naufrágios ignorados, derramavam-se como uma comporta escancarada.

Ele desceu mais, perdido no centro daqueles vazios que aumentavam sem cessar, golpeado e girando sob a tromba das nascentes, tão mal iluminado pela estrela vermelha da lâmpada que descia abaixo dele que julgava distinguir ruas e cruzamentos de uma cidade destruída, muito longe, no jogo das grandes sombras móveis.

Nenhum trabalho humano ainda era possível. Restava-lhe apenas uma esperança, tentar salvar os homens em perigo.

À medida que descia, ouvia os gritos aumentarem. Precisou parar. Um obstáculo intransponível bloqueava o poço: uma massa de armações, as vigas partidas dos guias, as divisórias rachadas dos compartimentos, entrelaçadas com as hastes arrancadas da bomba.

Enquanto olhava demoradamente, com o coração apertado, os gritos cessaram de repente. Sem dúvida, diante da rápida subida da água, os miseráveis haviam fugido para as galerias, se o fluxo já não lhes enchera a boca.

Négrel precisou se resignar a puxar a corda do sinal, para que o içassem. Depois mandou que o parassem novamente.

Permanecia atônito diante daquele acidente tão repentino, cuja causa não compreendia. Queria entender e examinou as poucas peças do revestimento que ainda resistiam.

De longe, rasgos e entalhes na madeira haviam chamado sua atenção. Sua lâmpada agonizava, afogada pela umidade. Ele apalpou com os dedos e reconheceu com perfeita nitidez golpes de serra, perfurações de verruma, todo um trabalho abominável de destruição.

Evidentemente, alguém provocara a catástrofe.

Permaneceu boquiaberto. As peças estalaram e despencaram com os quadros, num último deslizamento que quase o levou junto. Sua coragem desaparecera. A ideia do homem que fizera aquilo lhe eriçava os cabelos, gelava-o com o temor religioso do mal, como se, misturado às trevas, o homem ainda estivesse ali, enorme, à altura de seu crime desmedido.

Ele gritou, agitou furiosamente a corda do sinal. E já era mais que tempo, pois, cem metros acima, percebeu que o revestimento superior começava por sua vez a se mover. As juntas se abriam, perdiam a calafetagem de estopa e soltavam riachos.

Agora era apenas questão de horas. O poço terminaria de perder todo o revestimento e desabaria.

Ao voltar à luz do dia, encontrou o senhor Hennebeau esperando, ansioso.

— Então? O que houve? — perguntou o diretor.

Mas o engenheiro, estrangulado, não falava. Estava prestes a desfalecer.

— Não é possível, nunca se viu coisa semelhante... Você examinou?

Ele respondeu que sim com a cabeça, lançando olhares desconfiados. Recusava-se a explicar na frente dos poucos capatazes que escutavam. Levou o tio dez metros para longe, julgou que ainda não bastava e recuou mais.

Então, em voz muito baixa, ao ouvido, contou-lhe finalmente o atentado, as pranchas furadas e serradas, a mina sangrada no pescoço e agonizante.

O diretor empalideceu e também baixou a voz, obedecendo à necessidade instintiva que impõe silêncio diante da monstruosidade das grandes devassidões e dos grandes crimes. Era inútil parecer que tremiam diante dos dez mil operários de Montsou. Mais tarde, veriam o que fazer.

E os dois continuaram cochichando, aterrorizados por um homem ter encontrado coragem para descer, suspender-se no meio do vazio e arriscar a vida vinte vezes naquela tarefa medonha.

Nem sequer compreendiam aquela bravura louca empregada na destruição. Recusavam-se a acreditar, apesar da evidência, como se duvida das histórias de fugas célebres, de prisioneiros que escaparam por janelas a trinta metros do chão.

Quando o senhor Hennebeau se aproximou novamente dos capatazes, um tique nervoso repuxava-lhe o rosto. Fez um gesto de desespero e deu ordem para evacuarem a mina imediatamente.

Foi uma retirada lúgubre, como um cortejo fúnebre, um abandono silencioso, com olhares lançados para trás àqueles grandes corpos de tijolos, vazios e ainda de pé, que nada poderia salvar.

E, quando o diretor e o engenheiro foram os últimos a descer da sala de embarque, a multidão os recebeu com o mesmo clamor, obstinadamente repetido:

— Os nomes! Os nomes! Digam os nomes!

Agora a Maheude estava ali, no meio das mulheres. Lembrava-se do ruído durante a noite. A filha e o hóspede deviam ter saído juntos, estavam com certeza no fundo. E, depois de gritar que fora bem feito, que mereciam ficar lá, aqueles sem-coração, aqueles covardes, correra até ali e permanecia na primeira fila, tremendo de angústia.

Aliás, já não ousava duvidar. A discussão em torno dela sobre os nomes esclarecia tudo. Sim, sim, Catherine estava lá. Étienne também, um companheiro os vira.

Quanto aos demais, ainda não havia acordo. Não, aquele não; o outro, sim. Talvez Chaval, embora um galibot jurasse ter subido com ele.

A Levaque e a Pierronne, embora não tivessem ninguém em perigo, agitavam-se e se lamentavam tão alto quanto as outras.

Zacharie, que saíra entre os primeiros, apesar de seu ar de zombar de tudo, abraçara a mulher e a mãe chorando. Permanecia junto desta, tremendo com ela, demonstrando pela irmã uma inesperada ternura, recusando-se a acreditar que estivesse lá embaixo enquanto os chefes não confirmassem oficialmente.

— Os nomes! Os nomes! Por favor, os nomes!

Négrel, exasperado, disse em voz muito alta aos supervisores:

— Façam-nos calar! É de morrer de tristeza. Não sabemos os nomes.

Duas horas já haviam passado. No primeiro momento de confusão, ninguém pensara no outro poço, no velho poço de Réquillart.

O senhor Hennebeau anunciava que tentariam o salvamento por aquele lado quando correu um rumor: cinco operários acabavam de escapar da inundação, subindo pelas escadas podres do antigo compartimento abandonado. Mencionavam o pai Mouque, o que causava surpresa, pois ninguém acreditava que ele estivesse no fundo.

Mas o relato dos cinco fugitivos redobrou as lágrimas. Quinze companheiros não haviam conseguido segui-los, perdidos e fechados por desmoronamentos. Já não era possível socorrê-los, porque a água em Réquillart alcançava dez metros.

Agora conheciam todos os nomes, e o ar se encheu do gemido de um povo degolado.

— Façam-nos calar! — repetiu Négrel, furioso. — E que recuem! Sim, sim, cem metros! Há perigo. Empurrem todos para trás!

Foi preciso lutar contra aquela pobre gente. Imaginavam novas desgraças, pensavam que os expulsavam para esconder mais mortos. Os capatazes precisaram explicar que o poço engoliria a mina.

A ideia os deixou mudos de espanto. Por fim, permitiram que os empurrassem para trás, passo a passo; mas foi necessário dobrar os guardas que os continham, pois, apesar de si mesmos, como que atraídos, voltavam sem parar.

Mil pessoas se comprimiam na estrada. Chegavam de todos os conjuntos habitacionais, até de Montsou.

E o homem no alto, sobre o monte de escória, o homem louro, de rosto feminino, fumava cigarros para passar o tempo, sem desviar os olhos claros da mina.

Então começou a espera.

Era meio-dia. Ninguém havia comido e ninguém se afastava. No céu enevoado, de um cinza sujo, passavam lentamente nuvens cor de ferrugem. Um cachorro grande, atrás da cerca de Rasseneur, latia violentamente sem parar, irritado pelo hálito vivo da multidão.

Aos poucos, ela se espalhara pelos campos vizinhos e formara um círculo em torno da mina, a cem metros. No centro do grande espaço vazio erguia-se o Voreux.

Nem uma alma, nem um ruído, um deserto. As janelas e portas deixadas abertas revelavam o abandono interior. Um gato ruivo esquecido, farejando a ameaça daquela solidão, saltou de uma escada e desapareceu.

Sem dúvida, os fornos dos geradores mal começavam a se apagar, pois a alta chaminé de tijolos soltava fumaças leves sob as nuvens escuras; enquanto o cata-vento do campanário rangia ao vento, num pequeno grito agudo, a única voz melancólica daqueles vastos edifícios que iriam morrer.

Às duas horas, nada se movera.

O senhor Hennebeau, Négrel e outros engenheiros que haviam acorrido formavam um grupo de sobrecasacas e chapéus pretos à frente da multidão. Eles também não se afastavam, com as pernas quebradas pelo cansaço, febris, adoecidos por assistirem impotentes a semelhante desastre, trocando apenas raras palavras em voz baixa, como à cabeceira de um moribundo.

O revestimento superior devia estar terminando de desabar. Ouviam-se ressonâncias bruscas, ruídos entrecortados de quedas profundas, seguidos de grandes silêncios.

Era a ferida que se alargava sem cessar. O desmoronamento, iniciado embaixo, subia, aproximava-se da superfície.

Uma impaciência nervosa tomou Négrel. Queria ver e já avançava sozinho naquele vazio aterrorizante quando se atiraram sobre seus ombros. Para quê? Não poderia impedir nada.

Mesmo assim, um mineiro velho, enganando a vigilância, correu até o barracão. Reapareceu tranquilamente: fora buscar os tamancos.

Bateram três horas. Ainda nada.

Uma pancada de chuva encharcara a multidão sem fazê-la recuar um passo. O cachorro de Rasseneur tornara a latir.

Foi apenas às três horas e vinte minutos que uma primeira sacudida abalou a terra. O Voreux estremeceu, sólido, ainda de pé.

Mas uma segunda veio imediatamente, e um longo grito saiu das bocas abertas: o galpão alcatroado da triagem, depois de oscilar duas vezes, acabava de cair com um estrondo terrível.

Sob a pressão enorme, as armações se rompiam e se atritavam com tanta força que delas jorravam feixes de faíscas.

A partir daquele momento, a terra não parou de tremer. As sacudidas sucediam-se, abatimentos subterrâneos, rugidos de vulcão em erupção.

Ao longe, o cachorro já não latia. Soltava uivos lastimosos, como se anunciasse as oscilações que sentia chegar. E as mulheres, as crianças, todo aquele povo que observava, não conseguia reprimir um clamor de aflição a cada salto que os erguia.

Em menos de dez minutos, o telhado de ardósia do campanário desabou, a sala de embarque e a casa da máquina se racharam, abriram-se numa brecha enorme.

Depois os ruídos cessaram, o desabamento parou e fez-se novamente um grande silêncio.

Durante uma hora, o Voreux permaneceu daquele modo, ferido, como se bombardeado por um exército de bárbaros.

Já não gritavam. O círculo ampliado de espectadores observava.

Sob as vigas amontoadas da triagem, distinguiam-se os basculadores despedaçados, as tremonhas arrebentadas e torcidas. Mas era principalmente na sala de embarque que os destroços se acumulavam, no meio da chuva de tijolos, entre panos inteiros de parede reduzidos a entulho.

A armação de ferro que sustentava as polias cedera, afundando pela metade no poço. Uma gaiola continuava pendurada, uma ponta de cabo arrancado flutuava. Depois, havia uma papa de vagonetas, chapas de ferro fundido e escadas.

Por acaso, a lampisteria permanecera intacta e mostrava, à esquerda, as fileiras claras de suas pequenas lâmpadas.

E, no fundo da casa aberta, via-se a máquina, solidamente assentada sobre a base de alvenaria. Os bronzes brilhavam, os grandes membros de aço tinham a aparência de músculos indestrutíveis; a enorme biela, dobrada no ar, parecia o poderoso joelho de um gigante deitado, tranquilo em sua força.

Depois daquela hora de trégua, o senhor Hennebeau sentiu a esperança renascer. O movimento dos terrenos devia ter terminado, talvez tivessem a sorte de salvar a máquina e o restante dos edifícios.

Mas continuava proibindo que se aproximassem. Queria esperar mais meia hora.

A espera tornou-se insuportável. A esperança redobrava a angústia, todos os corações batiam.

Uma nuvem escura, crescida no horizonte, adiantava o crepúsculo, uma queda sinistra do dia sobre aqueles destroços das tempestades da terra. Havia sete horas permaneciam ali, sem se mover, sem comer.

E, de repente, quando os engenheiros avançavam com cautela, uma convulsão suprema do solo os pôs em fuga.

Detonações subterrâneas explodiam, uma artilharia monstruosa bombardeando o abismo. Na superfície, as últimas construções desabavam umas sobre as outras, esmagavam-se.

Primeiro, uma espécie de turbilhão levou os destroços da triagem e da sala de embarque. O edifício das caldeiras rompeu-se em seguida e desapareceu.

Depois foi a torre quadrada onde a bomba de drenagem agonizava, que caiu de frente como um homem ceifado por uma bala de canhão.

Então viram uma coisa aterradora. Viram a máquina, deslocada sobre a base, com os membros esquartejados, lutar contra a morte. Ela se moveu, estendeu a biela, seu joelho de gigante, como se quisesse se levantar; mas expirava, triturada, engolida.

Apenas a chaminé de trinta metros continuava de pé, sacudida como um mastro no furacão. Pensavam que ela se esfarelaria e voaria em pó quando, de repente, afundou inteira, bebida pela terra, derretida como uma vela colossal. E nada ficou para fora, nem mesmo a ponta do para-raios.

Estava acabado. A fera maligna, agachada naquele buraco, empanturrada de carne humana, já não soprava seu hálito grosso e prolongado.

O Voreux inteiro acabava de desaparecer no abismo.

A multidão fugiu aos gritos. Mulheres corriam escondendo os olhos. O terror arrastou os homens como um monte de folhas secas.

Não queriam gritar, e gritavam, a garganta inchada, os braços erguidos, diante do imenso buraco que se abrira.

Aquela cratera de vulcão extinto, com quinze metros de profundidade, estendia-se da estrada até o canal, numa largura de pelo menos quarenta metros.

Todo o pátio da mina seguira os edifícios: os cavaletes gigantescos, as passarelas com os trilhos, um trem completo de vagonetas, três vagões; sem contar a reserva de madeira, uma floresta de toras cortadas, engolidas como palha.

No fundo, só se distinguia uma confusão de vigas, tijolos, ferro e reboco, restos medonhos triturados, entrelaçados, sujos pela fúria da catástrofe.

E o buraco se arredondava. Rachaduras partiam das bordas e avançavam ao longe através dos campos. Uma fissura chegava até a taberna de Rasseneur, cuja fachada estalara.

O próprio conjunto habitacional seria engolido? Até onde precisavam fugir para estarem seguros, naquele fim de dia abominável, sob aquela nuvem de chumbo que também parecia querer esmagar o mundo?

Mas Négrel soltou um grito de dor. O senhor Hennebeau, que recuara, chorou.

O desastre ainda não estava completo. Uma margem se rompeu, e o canal derramou-se de uma vez, numa massa borbulhante, dentro de uma das rachaduras. Desaparecia ali, caía como uma catarata num vale profundo.

A mina bebia aquele rio. A inundação agora submergiria as galerias durante anos.

Logo a cratera se encheu. Um lago de água lamacenta ocupou o lugar onde antes existia o Voreux, semelhante àqueles lagos sob os quais dormem cidades amaldiçoadas.

Fez-se um silêncio aterrorizado. Ouvia-se apenas a queda daquela água, rugindo nas entranhas da terra.

Então, sobre o monte de escória abalado, Souvarine se levantou.

Reconhecera a Maheude e Zacharie, soluçando diante daquele desabamento, cuja massa se abatia tão cruelmente sobre a cabeça dos miseráveis que agonizavam no fundo.

Jogou fora o último cigarro e se afastou sem olhar para trás, dentro da noite que se tornara negra. Ao longe, sua sombra diminuiu e se fundiu com a escuridão.

Era para lá que seguia, para o desconhecido. Caminhava com seu ar tranquilo rumo à exterminação, para toda parte onde houvesse dinamite com que explodir cidades e homens.

Seria ele, sem dúvida, quando a burguesia agonizante ouvisse, debaixo dos pés, a cada passo, o calçamento das ruas explodir.

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