SÉTIMA PARTE — Capítulo I
SÉTIMA PARTE
Capítulo I
Os tiros de Montsou haviam repercutido até Paris, num eco formidável. Havia quatro dias, todos os jornais de oposição se indignavam, estampavam na primeira página relatos atrozes: vinte e cinco feridos, catorze mortos, entre eles duas crianças e três mulheres; e havia ainda os prisioneiros. Levaque se tornara uma espécie de herói, atribuíam-lhe uma resposta ao juiz de instrução digna da Antiguidade. O Império, atingido em plena carne por aquelas poucas balas, afetava a calma da onipotência, sem perceber a gravidade do ferimento. Fora simplesmente uma colisão lamentável, um acontecimento perdido lá longe, no país negro, muito distante do calçamento parisiense que formava a opinião. Logo esqueceriam. A Companhia recebera a ordem oficiosa de abafar o caso e acabar com aquela greve, cuja duração irritante começava a transformar-se em perigo social.
Por isso, já na manhã de quarta-feira, viram desembarcar em Montsou três dos administradores. A cidadezinha, que até então não ousara se alegrar com o massacre, o coração adoecido, respirou e saboreou a alegria de estar finalmente salva. Justamente, o tempo abrira, um sol claro, um daqueles primeiros sóis de fevereiro cujo calor brando faz verdejar as pontas dos lilases. Todas as venezianas da Administração haviam sido abertas, o vasto edifício parecia reviver; e dele saíam os melhores rumores. Diziam que aqueles senhores estavam muito abalados com a catástrofe e haviam corrido para abrir braços paternais aos extraviados dos conjuntos habitacionais. Agora que o golpe fora desferido, mais forte sem dúvida do que teriam desejado, multiplicavam-se em sua tarefa de salvadores, decretando medidas tardias e excelentes.
Primeiro, dispensaram os borains, alardeando aquela concessão extrema feita aos operários. Depois, puseram fim à ocupação militar das minas, que os grevistas esmagados já não ameaçavam. Foram eles ainda que obtiveram silêncio a respeito da sentinela desaparecida do Voreux: haviam vasculhado a região sem encontrar o fuzil nem o cadáver e decidiram registrar o soldado como desertor, embora suspeitassem de um crime. Em tudo se esforçavam assim para atenuar os acontecimentos, tremendo de medo do futuro, julgando perigoso admitir a selvageria irresistível de uma multidão solta entre as armações carcomidas do velho mundo.
Aliás, esse trabalho de conciliação não os impedia de conduzir a bom termo os assuntos puramente administrativos, pois Deneulin fora visto de volta à Administração, onde se encontrava com o senhor Hennebeau. As negociações para a compra de Vandame continuavam, e garantiam que ele acabaria aceitando as ofertas daqueles senhores.
Mas o que abalou particularmente a região foram os grandes cartazes amarelos que os administradores mandaram colar em profusão nas paredes. Neles se liam estas poucas linhas, em letras muito grandes:
“Operários de Montsou, não queremos que os desvarios, cujos tristes efeitos testemunharam nos últimos dias, privem dos meios de subsistência os trabalhadores sensatos e de boa vontade. Reabriremos, portanto, todas as minas na manhã de segunda-feira e, quando o trabalho tiver sido retomado, examinaremos com atenção e benevolência as situações que possam merecer melhorias. Enfim, faremos tudo o que for justo e possível fazer.”
Numa única manhã, os dez mil carvoeiros desfilaram diante daqueles cartazes. Ninguém falava. Muitos balançavam a cabeça, outros se afastavam em seu passo arrastado, sem que uma dobra lhes alterasse o rosto imóvel.
Até então, o conjunto habitacional dos Duzentos e Quarenta persistira em sua resistência feroz. Parecia que o sangue dos companheiros, que tingira de vermelho a lama da mina, barrava aos outros o caminho. Mal uma dezena voltara a descer, Pierron e outros hipócritas de sua espécie, a quem viam partir e regressar com olhar sombrio, sem um gesto nem uma ameaça. Por isso, uma desconfiança surda recebeu o cartaz colado na igreja.
Não se falava ali das cadernetas devolvidas: seria que a Companhia se recusava a aceitá-los de volta? O medo das represálias e a ideia fraterna de protestar contra a demissão dos mais comprometidos faziam todos se obstinarem ainda. Aquilo era suspeito. Precisavam esperar. Voltariam ao poço quando aqueles senhores resolvessem explicar-se com franqueza. Um silêncio esmagava as casas baixas. A própria fome já não era nada; todos podiam morrer, desde que a morte violenta passara sobre os telhados.
Uma casa entre as outras, porém, a dos Maheu, permanecia especialmente negra e muda, prostrada pelo luto. Desde que acompanhara o marido ao cemitério, a Maheude não abria a boca. Depois da batalha, deixara Étienne levar Catherine de volta para casa, coberta de lama e quase morta; e, enquanto a despia diante do jovem para colocá-la na cama, imaginara por um instante que a filha também voltava com uma bala no ventre, pois a camisa tinha grandes manchas de sangue.
Mas logo compreendeu. Era o fluxo da puberdade que finalmente irrompia, provocado pelo choque daquele dia abominável. Ah, ainda mais essa sorte, essa ferida! Belo presente, poder gerar filhos para que depois os policiais os degolassem! E não dirigia a palavra a Catherine, assim como não falava com Étienne.
Este dormia com Jeanlin, correndo o risco de ser preso, tomado por tamanha repugnância à ideia de retornar às trevas de Réquillart que preferia a cadeia. Um arrepio o sacudia, o horror da noite depois de todas aquelas mortes, o medo inconfessado do pequeno soldado que dormia lá longe, sob as rochas. Aliás, sonhava com a prisão como um refúgio em meio ao tormento da derrota. Mas nem sequer o incomodavam. Arrastava horas miseráveis, sem saber de que modo cansar o corpo. Às vezes apenas, a Maheude olhava para os dois, para ele e para a filha, com rancor, como se perguntasse o que faziam em sua casa.
Novamente, todos dormiam amontoados. O pai Bonnemort ocupava a antiga cama das duas crianças, que agora dormiam com Catherine, desde que a pobre Alzire já não enterrava a corcunda nas costelas da irmã mais velha. Era ao deitar-se que a mãe sentia o vazio da casa, no frio da cama que se tornara larga demais. Em vão levava Estelle para preencher o buraco. Aquilo não substituía seu homem; e ela chorava em silêncio durante horas.
Depois, os dias recomeçavam a correr como antes: ainda sem pão, sem que ao menos tivessem a sorte de morrer de uma vez; coisas recolhidas aqui e ali, que prestavam aos miseráveis o péssimo serviço de fazê-los durar. Nada mudara na existência. Havia apenas seu homem a menos.
Na tarde do quinto dia, Étienne, desesperado pela visão daquela mulher silenciosa, deixou a sala e caminhou lentamente pela rua calçada do conjunto habitacional. A inação, que o oprimia, empurrava-o para passeios contínuos, os braços pendentes, a cabeça baixa, torturado pelo mesmo pensamento.
Pisava assim de um lado para outro havia meia hora quando, pelo agravamento do mal-estar, percebeu que os companheiros começavam a parar nas portas para observá-lo. O pouco que restava de sua popularidade fora levado pelo vento dos tiros. Já não passava sem encontrar olhares cuja chama o perseguia.
Quando ergueu a cabeça, havia homens ameaçadores, mulheres afastavam as cortininhas das janelas; e, sob a acusação ainda muda, sob a cólera contida daqueles grandes olhos alargados pela fome e pelas lágrimas, ele se tornava desajeitado, já não sabia caminhar. Atrás dele, a censura surda crescia sem parar. Tomou-o tal medo de ouvir o conjunto inteiro sair para gritar-lhe sua miséria que voltou para casa, trêmulo.
Mas, na casa dos Maheu, a cena que o esperava terminou de transtorná-lo. O velho Bonnemort estava junto à lareira fria, pregado à cadeira desde que dois vizinhos, no dia da matança, o haviam encontrado caído, a bengala em pedaços, abatido como uma velha árvore fulminada.
Enquanto Lénore e Henri, para enganar a fome, raspavam com ruído ensurdecedor uma panela velha na qual haviam cozido repolhos na véspera, a Maheude, ereta, depois de colocar Estelle sobre a mesa, ameaçava Catherine com o punho.
— Repita, pelo amor de Deus! Repita o que acabou de dizer!
Catherine dissera que pretendia voltar ao Voreux. A ideia de não ganhar o próprio pão, de ser tolerada assim na casa da mãe como um animal incômodo e inútil, tornava-se a cada dia mais insuportável; e, não fosse o medo de receber maus-tratos de Chaval, teria voltado a descer já na terça-feira. Repetiu, gaguejando:
— O que você quer? Não podemos viver sem fazer nada. Ao menos teríamos pão.
A Maheude a interrompeu:
— Escute, o primeiro de vocês que voltar ao trabalho, eu estrangulo... Ah, não! Seria demais matarem o pai e continuarem depois explorando os filhos! Já chega. Prefiro ver todos vocês levados entre quatro tábuas, como aquele que já se foi.
E, furiosamente, seu longo silêncio rompeu-se numa torrente de palavras. Belo proveito lhe traria Catherine! Mal trinta soldos, aos quais se poderiam acrescentar vinte, se os chefes resolvessem encontrar alguma tarefa para aquele bandido do Jeanlin. Cinquenta soldos e sete bocas para alimentar! As crianças só serviam para engolir sopa.
Quanto ao avô, devia ter quebrado alguma coisa no cérebro ao cair, pois parecia imbecil; a menos que tivesse o sangue virado por ter visto os soldados atirarem nos companheiros.
— Não é, velho? Acabaram de demolir você. Pode ainda ter o braço firme, mas está liquidado.
Bonnemort olhava para ela com os olhos apagados, sem compreender. Permanecia horas com o olhar fixo, já não conservava inteligência além da necessária para cuspir num prato cheio de cinzas que, por limpeza, colocavam a seu lado.
— E ainda não resolveram a aposentadoria dele — continuou ela. — Tenho certeza de que vão recusá-la por causa de nossas ideias... Não! Estou dizendo que já chega dessa gente miserável!
— Mas — arriscou Catherine — eles prometem no cartaz...
— Quer me deixar em paz com seu cartaz!... Mais uma cola para nos prender e nos comer. Agora podem fazer-se de bonzinhos, depois de furarem nossa pele.
— Mas então, mamãe, para onde iremos? Com certeza não vão nos deixar no conjunto habitacional.
A Maheude fez um gesto vago e terrível. Para onde iriam? Não sabia, evitava pensar, aquilo a enlouquecia. Iriam para outro lugar, para qualquer parte.
E, como o ruído da panela se tornava insuportável, caiu sobre Lénore e Henri e lhes deu tapas. Estelle, que engatinhava, caiu e aumentou o tumulto. A mãe a acalmou com um safanão. Que bom negócio seria se tivesse morrido com a queda! Falou de Alzire, desejou aos outros a sorte daquela. Depois, de repente, desabou em soluços grossos, com a cabeça contra a parede.
Étienne, de pé, não ousara intervir. Já não contava naquela casa; até as crianças se afastavam dele com desconfiança. Mas as lágrimas daquela infeliz lhe revolviam o coração, e ele murmurou:
— Vamos, coragem! Vamos tentar sair dessa.
Ela não pareceu ouvi-lo. Agora se lamentava numa queixa baixa e contínua:
— Ah, miséria, isso é possível? Ainda dava para viver antes destes horrores. Comíamos nosso pão seco, mas estávamos todos juntos... E o que foi que aconteceu, meu Deus? O que fizemos para cairmos numa tristeza dessas, uns debaixo da terra, outros sem querer mais nada além de estar lá também?... É verdade que nos atrelavam ao trabalho como cavalos, e não era justo, na divisão, receber as pancadas, aumentar sempre a fortuna dos ricos, sem jamais esperar provar as coisas boas. O gosto de viver desaparece quando a esperança acaba. Sim, aquilo não podia durar mais, era preciso respirar um pouco... Mas, se tivéssemos sabido! É possível alguém se tornar tão infeliz por querer justiça?
Suspiros lhe enchiam a garganta, a voz se estrangulava numa tristeza imensa.
— Depois, sempre aparecem uns espertos prometendo que tudo pode se ajeitar, basta fazer um esforço... A gente fica com a cabeça quente, sofre tanto com o que existe que começa a pedir o que não existe. Eu já sonhava feito uma idiota, via uma vida de boa amizade com todo mundo, subia, palavra de honra, para dentro das nuvens. E quebra a coluna quando cai de volta na lama... Não era verdade, não havia lá nada daquilo que imaginávamos enxergar. O que havia era mais miséria, ah, miséria à vontade, e tiros de fuzil por cima!
Étienne escutava aquela lamentação, e cada lágrima lhe trazia um remorso. Não sabia o que dizer para acalmar a Maheude, toda quebrada pela terrível queda do alto do ideal. Ela voltara para o meio do cômodo e agora o olhava; e, tratando-o por tu, soltou um último grito de raiva:
— E você também fala em voltar à mina, depois de nos ter metido todos nessa desgraça?... Não estou lhe censurando nada. Só que, se estivesse no seu lugar, eu já teria morrido de tristeza, depois de causar tanto mal aos companheiros.
Ele quis responder, depois deu de ombros em desespero. Para que oferecer explicações que ela não compreenderia naquela dor? E, sofrendo demais, saiu e retomou lá fora sua caminhada enlouquecida.
Ali tornou a encontrar o conjunto habitacional, que parecia esperá-lo, os homens nas portas, as mulheres nas janelas. Assim que apareceu, correram resmungos, e a multidão aumentou. Um sopro de mexericos se avolumava havia quatro dias e explodia numa maldição geral. Punhos se estendiam em sua direção, mães o apontavam aos filhos com gestos rancorosos, velhos cuspiam ao vê-lo.
Era a reviravolta do dia seguinte à derrota, o reverso fatal da popularidade, uma execração que se exasperava com todos os sofrimentos suportados sem resultado. Ele pagava pela fome e pela morte.
Zacharie, que chegava com Philomène, esbarrou em Étienne quando este saía. E riu com maldade:
— Ora, está engordando! Então a pele dos outros alimenta?
A Levaque já avançara até a porta, acompanhada de Bouteloup. Falou de Bébert, seu menino morto por uma bala, e gritou:
— Sim, há covardes que mandam massacrar crianças. Que vá buscar o meu debaixo da terra, se quiser devolvê-lo!
Esquecia o marido preso. A casa não ficava sem homem, pois Bouteloup permanecia ali. Mesmo assim, a ideia de Levaque lhe voltou à cabeça, e ela continuou com voz aguda:
— Vá em frente! São os canalhas que passeiam enquanto a gente honesta está presa!
Tentando evitá-la, Étienne esbarrou na Pierronne, que chegava correndo pelos jardins. Esta recebera como uma libertação a morte da mãe, cujas violências ameaçavam levar todos à forca; tampouco chorava muito pela menina de Pierron, aquela desavergonhada da Lydie, um verdadeiro alívio. Mas juntava-se às vizinhas, na intenção de reconciliar-se com elas.
— E minha mãe, diga? E a menina? Viram você, estava escondido atrás delas quando receberam o chumbo em seu lugar!
O que fazer? Estrangular a Pierronne e as outras, lutar contra o conjunto habitacional inteiro? Por um instante, Étienne sentiu vontade. O sangue rugia em sua cabeça, agora chamava os companheiros de brutos, irritava-se ao vê-los tão estúpidos e bárbaros que o responsabilizavam pela lógica dos fatos. Que idiotice!
Sentia repulsa pela própria impotência de dominá-los outra vez; e limitou-se a apressar o passo, como se estivesse surdo aos insultos. Logo aquilo se transformou numa fuga. Cada casa o vaiava à passagem, perseguiam-no, e todo um povo o amaldiçoava com voz cada vez mais trovejante, no transbordamento do ódio.
Era ele o explorador, o assassino, a causa única de todas as desgraças. Saiu do conjunto habitacional lívido, enlouquecido, correndo, com aquele bando berrando atrás dele. Por fim, na estrada, muitos desistiram; mas alguns se obstinavam quando, no sopé da encosta, diante do Avantage, ele encontrou outro grupo que saía do Voreux.
O velho Mouque e Chaval estavam ali. Desde a morte da Mouquette, sua filha, e de seu filho Mouquet, o velho continuava exercendo o serviço de tratador, sem uma palavra de lamento ou queixa. De repente, quando viu Étienne, uma fúria o sacudiu. Lágrimas romperam de seus olhos e uma enxurrada de palavrões jorrou de sua boca negra e ensanguentada de tanto mascar tabaco.
— Desgraçado! Porco! Canalha!... Espere! Você tem de me pagar pelos meus pobres filhos. Precisa morrer!
Apanhou um tijolo, partiu-o e lançou os dois pedaços.
— Sim, sim, vamos acabar com ele! — gritou Chaval, que ria, muito excitado, encantado com aquela vingança. — Chegou sua vez... Agora está encurralado, seu crápula imundo!
E ele também se lançou contra Étienne a pedradas. Ergueu-se um clamor selvagem. Todos pegaram tijolos, quebraram-nos e os lançaram para abrir-lhe o ventre, como antes haviam querido abrir o ventre dos soldados.
Atordoado, já não fugia. Enfrentava-os, procurando acalmá-los com frases. Seus antigos discursos, tão calorosamente aplaudidos antes, voltavam-lhe aos lábios. Repetia as palavras com que os embriagara na época em que os mantinha em sua mão como um rebanho fiel; mas seu poder estava morto, apenas pedras lhe respondiam. Acabava de ser atingido no braço esquerdo e recuava, correndo grande perigo, quando se viu acuado contra a fachada do Avantage.
Havia algum tempo, Rasseneur estava parado à porta.
— Entre — disse simplesmente.
Étienne hesitava. Aquilo o sufocava, refugiar-se ali.
— Entre logo, vou falar com eles.
Ele se resignou e se escondeu no fundo da sala, enquanto o taberneiro bloqueava a porta com os ombros largos.
— Vamos, meus amigos, sejam razoáveis... Vocês sabem muito bem que nunca os enganei. Sempre defendi a calma e, se me tivessem escutado, com certeza não estariam na situação em que estão.
Balançando os ombros e a barriga, continuou longamente, deixando correr sua eloquência fácil, de uma doçura apaziguadora de água morna. Todo o sucesso de antigamente voltava. Reconquistava sua popularidade sem esforço, naturalmente, como se os companheiros não o tivessem vaiado e chamado de covarde um mês antes.
Vozes aprovavam:
— Muito bem! Estamos com ele! É assim que se deve falar!
Explodiu um trovão de aplausos.
Ao fundo, Étienne desfalecia, o coração afogado em amargura. Lembrava-se da previsão de Rasseneur na floresta, quando este o ameaçara com a ingratidão das multidões. Que brutalidade imbecil! Que esquecimento abominável dos serviços prestados! Era uma força cega que se devorava constantemente.
E, sob sua cólera ao ver aqueles brutos estragarem a própria causa, havia o desespero de seu desmoronamento, do fim trágico de sua ambição. Como assim? Já terminara? Recordava-se de ter ouvido, sob as faias, três mil peitos baterem ao eco do seu. Naquele dia, mantivera a popularidade entre as mãos. Aquele povo lhe pertencia, ele se sentira seu senhor.
Sonhos loucos o embriagavam então: Montsou a seus pés, Paris ao longe, talvez deputado, fulminando os burgueses com um discurso, o primeiro discurso pronunciado por um operário na tribuna de um parlamento. E acabara! Despertava miserável e odiado. Seu povo acabava de expulsá-lo a tijoladas.
A voz de Rasseneur se elevou:
— A violência nunca deu resultado. Não se pode refazer o mundo em um dia. Os que prometeram mudar tudo de uma vez são farsantes ou canalhas!
— Bravo! Bravo! — gritou a multidão.
Quem era o culpado? Essa pergunta, que Étienne fazia a si mesmo, terminava de esmagá-lo. Na verdade, era culpa sua aquela desgraça da qual ele próprio sangrava, a miséria de uns, a matança de outros, aquelas mulheres, aquelas crianças magras e sem pão?
Tivera aquela visão lamentável certa noite, antes das catástrofes. Mas uma força já o erguia, ele se via arrastado com os companheiros. Aliás, jamais os dirigira; eram eles que o conduziam, que o obrigavam a fazer coisas que não teria feito sem o impulso daquela turba pressionando atrás dele.
A cada violência, permanecera atônito diante dos acontecimentos, pois não previra nem quisera nenhum deles. Poderia imaginar, por exemplo, que seus fiéis do conjunto habitacional um dia o apedrejariam? Aqueles furiosos mentiam ao acusá-lo de lhes ter prometido uma existência de comida farta e preguiça.
E, nessa justificativa, nos raciocínios com que tentava combater os remorsos, agitava-se a inquietação surda de não ter estado à altura da tarefa, aquela dúvida do semiletrado que sempre o atormentava.
Mas se sentia sem coragem. Já nem sequer estava de coração com os companheiros. Tinha medo deles, daquela massa enorme, cega e irresistível do povo, passando como uma força da natureza, varrendo tudo, fora das regras e das teorias. Uma repugnância o afastara pouco a pouco, o mal-estar de seus gostos refinados, a lenta ascensão de todo o seu ser rumo a uma classe superior.
Naquele momento, a voz de Rasseneur se perdeu no meio de vociferações entusiasmadas:
— Viva Rasseneur! Só ele presta! Bravo! Bravo!
O taberneiro fechou a porta enquanto o bando se dispersava; e os dois homens se olharam em silêncio. Ambos deram de ombros. Por fim, beberam juntos uma caneca de cerveja.
Naquele mesmo dia, houve um grande jantar na Piolaine, para celebrar o noivado de Négrel e Cécile. Desde a véspera, os Grégoire mandavam encerar a sala de jantar e tirar o pó do salão. Mélanie reinava na cozinha, vigiando os assados, mexendo os molhos, cujo aroma subia até os sótãos. Decidiram que Francis, o cocheiro, ajudaria Honorine a servir. A jardineira lavaria a louça, o jardineiro abriria o portão. Nunca festa semelhante pusera em alvoroço a grande casa patriarcal e abastada.
Tudo correu da melhor maneira. A senhora Hennebeau mostrou-se encantadora com Cécile e sorriu para Négrel quando o tabelião de Montsou, galantemente, propôs um brinde à felicidade do futuro casal. O senhor Hennebeau também foi muito amável. Seu ar sorridente chamou a atenção dos convidados. Corria o rumor de que, tendo recuperado o favor da Administração, logo seria nomeado oficial da Legião de Honra, pela maneira enérgica como dominara a greve.
Evitavam falar dos últimos acontecimentos, mas havia triunfo na alegria geral, o jantar se transformava na celebração oficial de uma vitória. Enfim estavam livres, podiam voltar a comer e dormir em paz! Fez-se uma alusão discreta aos mortos, cujo sangue a lama do Voreux mal acabara de beber: fora uma lição necessária. E todos se comoveram quando os Grégoire acrescentaram que, dali em diante, o dever de cada um era cuidar das feridas nos conjuntos habitacionais.
Eles haviam retomado sua placidez benevolente, perdoando seus bons mineiros, já os vendo no fundo das minas, dando o bom exemplo de uma resignação secular. Os notáveis de Montsou, que já não tremiam, concordaram que a questão dos salários precisava ser estudada com prudência. Durante o assado, a vitória tornou-se completa quando o senhor Hennebeau leu uma carta do bispo anunciando a transferência do abade Ranvier.
Toda a burguesia da província comentava apaixonadamente a história daquele padre que chamara os soldados de assassinos. E o tabelião, quando a sobremesa apareceu, declarou-se com grande firmeza livre-pensador.
Deneulin estava presente com as duas filhas. No meio daquela alegria, esforçava-se para esconder a melancolia de sua ruína. Naquela mesma manhã, assinara a venda de sua concessão de Vandame para a Companhia de Montsou. Acuado, estrangulado, submetera-se às exigências dos administradores, entregando-lhes enfim aquela presa que espreitavam havia tanto tempo, mal conseguindo obter o dinheiro necessário para pagar os credores.
No último momento, aceitara até, como uma feliz oportunidade, a proposta de permanecer como engenheiro de divisão, resignado a vigiar, na condição de simples assalariado, a mina em que enterrara sua fortuna. Era o dobre fúnebre das pequenas empresas particulares, o desaparecimento próximo dos patrões, devorados um a um pelo ogro insaciável do capital, afogados na maré crescente das grandes Companhias.
Apenas ele pagava as despesas da greve. Percebia muito bem que brindavam à sua desgraça ao brindar à roseta do senhor Hennebeau; e só encontrava algum consolo na bela coragem de Lucie e Jeanne, encantadoras em seus vestidos reformados, rindo da derrocada como bonitas moças de modos masculinos, desdenhosas do dinheiro.
Quando passaram ao salão para tomar café, o senhor Grégoire levou o primo para um canto e o felicitou pela coragem da decisão.
— Que quer você? Seu único erro foi arriscar em Vandame o milhão que possuía em ações de Montsou. Deu-se um trabalho terrível, e agora tudo se desfez nessa labuta de cão, enquanto o meu, que não saiu da gaveta, continua a me sustentar sensatamente sem que eu faça nada, como sustentará os filhos dos meus netos.