SEGUNDA PARTE — Capítulo V
SEGUNDA PARTE
Capítulo V
Na casa de Rasseneur, depois de tomar uma sopa, Étienne subira para o quarto estreito que passaria a ocupar sob o telhado, em frente ao Voreux, e caíra vestido sobre a cama, vencido pelo cansaço. Em dois dias, não dormira quatro horas. Quando despertou, ao crepúsculo, ficou por um instante atordoado, sem reconhecer o lugar onde se encontrava; e sentia tamanho mal-estar, tamanha opressão na cabeça, que se levantou penosamente, com a ideia de tomar um pouco de ar antes de jantar e deitar-se para passar a noite.
Lá fora, o tempo estava cada vez mais ameno, o céu de fuligem adquiria tons de cobre, carregado de uma daquelas chuvas prolongadas do Norte, cuja chegada se pressentia na tepidez úmida do ar. A noite vinha em grandes fumos, afogando as distâncias perdidas da planície. Sobre aquele imenso mar de terras avermelhadas, o céu baixo parecia desfazer-se em poeira negra, sem um sopro de vento, àquela hora, que animasse as trevas. Havia uma tristeza lívida e morta de sepultamento.
Étienne caminhou ao acaso, sem outro propósito além de dissipar a febre. Ao passar diante do Voreux, já escurecido no fundo de sua cavidade, onde ainda não brilhava lanterna alguma, deteve-se por um momento para observar a saída dos trabalhadores do turno diurno. Deviam ser seis horas. Operários das máquinas de extração, carregadores do enganche e cavalariços iam embora em grupos, misturados às moças da triagem, indistintas e risonhas na sombra.
Os primeiros foram a Brûlé e seu genro Pierron. Ela o repreendia por ele não a ter apoiado numa discussão com um capataz, a respeito de sua contagem de pedras.
— Ah, seu molenga miserável! Como pode um homem se achatar assim diante de um desses canalhas que nos devoram?
Pierron a seguia calmamente, sem responder. Por fim, disse:
— Talvez fosse melhor saltar em cima do chefe. Muito obrigado! Só faltava arranjar encrenca!
— Então ofereça o traseiro! — gritou ela. — Ah, nome de Deus, se minha filha tivesse me ouvido!... Não basta terem matado meu homem, você ainda queria que eu agradecesse. Não, escute bem, ainda vou arrancar a pele deles!
As vozes se perderam. Étienne observou-a desaparecer, com o nariz de águia, os cabelos brancos esvoaçando e os longos braços magros que gesticulavam furiosamente. Mas, atrás dele, a conversa de dois rapazes chamou sua atenção. Reconhecera Zacharie, que esperava ali e acabava de ser abordado pelo amigo Mouquet.
— Você vem? — perguntou este. — Comemos uma fatia de pão e depois vamos ao Volcan.
— Daqui a pouco, tenho uma coisa para resolver.
O operário das máquinas virou-se e viu Philomène saindo da triagem. Julgou compreender.
— Ah, está bem, é isso... Então vou na frente.
— Sim, alcanço você depois.
Ao se afastar, Mouquet encontrou o pai, o velho Mouque, que também saía do Voreux; e os dois homens limitaram-se a desejar boa-noite. O filho tomou a estrada principal, enquanto o pai seguiu pelo canal.
Zacharie já empurrava Philomène para aquele mesmo caminho afastado, apesar da resistência dela. Estava com pressa, ficaria para outra vez; e os dois discutiam como um casal antigo. Não havia graça nenhuma em só poderem se encontrar do lado de fora, sobretudo no inverno, quando a terra ficava molhada e não havia plantações de trigo onde pudessem se deitar.
— Mas não é isso — murmurou ele, impaciente. — Tenho uma coisa para lhe dizer.
Segurava-a pela cintura e a levava suavemente. Depois, quando chegaram à sombra do terril, quis saber se ela tinha dinheiro.
— Para quê? — perguntou ela.
Então ele se atrapalhou e falou de uma dívida de dois francos que levaria sua família ao desespero.
— Cale a boca!... Eu vi Mouquet. Você vai de novo ao Volcan, onde ficam aquelas cantoras imundas.
Ele se defendeu, bateu no peito, empenhou a palavra de honra. Depois, como ela desse de ombros, disse bruscamente:
— Venha conosco, se tiver vontade... Assim você vê que não me atrapalha. Como se eu quisesse alguma coisa com aquelas cantoras!... Você vem?
— E o pequeno? — respondeu ela. — Como é que uma pessoa pode sair com uma criança que vive chorando?... Deixe-me voltar, aposto que em casa já não conseguem se entender.
Mas ele a reteve, suplicou. Ora, era apenas para não parecer um idiota diante de Mouquet, a quem havia prometido. Um homem não podia deitar-se todas as noites com as galinhas. Vencida, ela ergueu uma aba do casaquinho, cortou com a unha a linha e tirou moedas de dez soldos de um canto da bainha. Com medo de ser roubada pela mãe, escondia ali o ganho das horas extras que fazia na mina.
— Tenho cinco, veja — disse ela. — Posso lhe dar três... Mas você precisa jurar que vai convencer sua mãe a nos casar. Já chega desta vida sem rumo! Além disso, mamãe me lança no rosto cada bocado que como... Jure, jure primeiro.
Falava com a voz frouxa de moça alta e doentia, sem paixão, apenas cansada de sua existência. Ele jurou, gritou que era coisa prometida, sagrada; depois, quando teve as três moedas na mão, beijou-a, fez-lhe cócegas, provocou-lhe risos, e teria levado a coisa até o fim naquele canto do terril, que servia de quarto de inverno ao velho casal, se ela não tivesse repetido que não, que aquilo não lhe daria prazer algum. Ela voltou sozinha para o conjunto operário, enquanto ele atravessava os campos para alcançar o companheiro.
Étienne os seguira maquinalmente de longe, sem compreender, acreditando tratar-se de um simples encontro amoroso. As moças amadureciam cedo nas minas; e ele se lembrava das operárias de Lille, que esperava atrás das fábricas, daqueles bandos de meninas estragadas desde os catorze anos, no abandono da miséria. Mas outro encontro o surpreendeu ainda mais. Ele parou.
Era, ao pé do terril, numa depressão onde haviam rolado grandes pedras, o pequeno Jeanlin repreendendo violentamente Lydie e Bébert, sentados um à sua direita, o outro à esquerda.
— Hein? O que estão dizendo?... Vou acrescentar um tapa para cada um, se reclamarem... Quem foi que teve a ideia, vamos?
De fato, Jeanlin tivera uma ideia. Depois de passar uma hora ao longo do canal, rolando pelos prados e colhendo dentes-de-leão com os outros dois, acabara pensando, diante daquele monte de folhas, que em sua casa jamais comeriam tudo aquilo; e, em vez de voltar ao conjunto operário, fora a Montsou, deixando Bébert de vigia e mandando Lydie tocar as campainhas das casas dos burgueses, onde oferecia os dentes-de-leão. Dizia, já experiente, que as meninas vendiam tudo o que queriam. No ardor do comércio, o monte inteiro desaparecera; mas a pequena conseguira onze soldos. E agora, com as mãos vazias, os três dividiam o ganho.
— É injusto! — declarou Bébert. — Tem de dividir em três... Se você ficar com sete soldos, nós só receberemos dois cada um.
— Como assim, injusto? — retrucou Jeanlin, furioso. — Para começar, fui eu quem colheu mais!
O outro em geral se submetia, com uma admiração temerosa, uma credulidade que o tornava vítima constante. Mais velho e mais forte, deixava-se até mesmo esbofetear. Mas, daquela vez, a ideia de tanto dinheiro o estimulava a resistir.
— Não é, Lydie? Ele está nos roubando... Se não dividir, vamos contar para a mãe dele.
Jeanlin imediatamente lhe pôs o punho sob o nariz.
— Repita só para ver. Sou eu quem vai contar na sua casa que vocês venderam a salada da mamãe... E depois, seu grande imbecil, como é que vou dividir onze soldos por três? Tente você, que é tão esperto... Aqui estão os dois soldos de cada um. Peguem logo, ou torno a enfiá-los no bolso.
Dominado, Bébert aceitou os dois soldos. Lydie, trêmula, nada dissera, pois sentia diante de Jeanlin o medo e a ternura de uma pequena esposa espancada. Quando ele lhe estendeu as duas moedas, ela avançou a mão com um riso submisso. Mas ele mudou de ideia bruscamente.
— Hein? O que você vai fazer com tanto dinheiro?... Sua mãe vai surrupiá-lo, é claro, se você não souber esconder... É melhor eu guardar para você. Quando precisar de dinheiro, pede para mim.
E os nove soldos desapareceram. Para calar-lhe a boca, ele a agarrou rindo e começou a rolar com ela pelo terril. Era sua pequena mulher, os dois experimentavam juntos, nos cantos escuros, o amor que ouviam e viam em casa, atrás das divisórias, pelas frestas das portas. Sabiam tudo, mas pouco podiam fazer, jovens demais, tateando, brincando durante horas em jogos de cachorrinhos viciosos. Ele chamava aquilo de “brincar de papai e mamãe”; e, quando a levava consigo, ela trotava atrás dele, deixava-se agarrar com o estremecimento delicioso do instinto, muitas vezes zangada, mas cedendo sempre, à espera de alguma coisa que nunca chegava.
Como Bébert não era admitido nessas brincadeiras e recebia um empurrão sempre que tentava apalpar Lydie, ficava constrangido, atormentado por cólera e mal-estar quando os outros dois se divertiam, sem o menor embaraço diante dele. Por isso, só tinha uma ideia: assustá-los, atrapalhá-los, gritando que alguém os estava vendo.
— Acabou, tem um homem olhando!
Dessa vez, não mentia. Era Étienne, que se decidira a continuar seu caminho. As crianças saltaram e fugiram, e ele passou, contornando o terril e seguindo o canal, divertido com o belo susto daqueles moleques. Sem dúvida, era cedo demais para a idade deles; mas o quê? Viam tantas coisas, ouviam coisas tão cruas, que seria preciso amarrá-los para contê-los. No fundo, porém, Étienne ficava triste.
Cem passos adiante, tornou a deparar com casais. Chegava a Réquillart, e ali, em torno da velha mina em ruínas, todas as moças de Montsou rondavam com seus namorados. Era o ponto de encontro comum, o recanto afastado e deserto onde as empurradoras vinham fazer o primeiro filho quando não ousavam se arriscar no telheiro. As paliçadas arrebentadas abriam a todos o antigo pátio da mina, transformado num terreno baldio, obstruído pelos destroços de dois galpões desabados e pelas carcaças dos grandes cavaletes de extração que continuavam de pé. Vagonetes fora de uso jaziam por ali, velhas madeiras meio apodrecidas formavam montes; enquanto uma vegetação cerrada reconquistava aquele pedaço de terra, espalhava-se em capim espesso, irrompia em árvores jovens já vigorosas.
Assim, cada moça se sentia em casa. Havia esconderijos perdidos para todas, os namorados as derrubavam sobre as vigas, atrás das madeiras, dentro dos vagonetes. Acomodavam-se como podiam, cotovelo a cotovelo, sem se importar com os vizinhos. E parecia haver, ao redor da máquina extinta, junto daquele poço cansado de vomitar hulha, uma revanche da criação, o amor livre que, sob o açoite do instinto, plantava filhos no ventre daquelas meninas mal chegadas à condição de mulheres.
Entretanto, havia ali um vigia, o velho Mouque, a quem a Companhia cedera, quase sob o campanário destruído, dois cômodos ameaçados de esmagamento contínuo pela queda esperada das últimas armações. Ele tivera até de escorar uma parte do teto; e vivia muito bem ali, em família, ele e Mouquet num quarto, a Mouquette no outro. Como já não restava um único vidro nas janelas, decidira fechá-las pregando tábuas: mal se enxergava, mas fazia calor. De resto, aquele vigia não vigiava coisa alguma, ia cuidar dos cavalos no Voreux e jamais se ocupava das ruínas de Réquillart, cujo poço era conservado apenas para servir de chaminé a uma fornalha que ventilava a mina vizinha.
E era assim que o pai Mouque terminava de envelhecer em meio aos amores. Desde os dez anos, a Mouquette se deixara derrubar em todos os cantos dos escombros, não como uma moleca assustada e ainda verde, como Lydie, mas como uma menina já cheia de corpo, boa para rapazes de barba. O pai nada tinha a dizer, pois ela se mostrava respeitosa e nunca introduzia um namorado em casa. Além disso, ele estava acostumado àqueles acidentes.
Quando ia ao Voreux ou voltava de lá, cada vez que saía de seu buraco, não podia arriscar um passo sem pô-lo sobre algum casal no capim; e era pior quando queria apanhar lenha para a sopa ou buscar dentes-de-leão para o coelho, no outro extremo do cercado. Então via erguerem-se, um após outro, os rostos gulosos de todas as moças de Montsou, enquanto precisava tomar cuidado para não tropeçar nas pernas estendidas rente aos caminhos.
Pouco a pouco, porém, aqueles encontros deixaram de perturbar qualquer pessoa, tanto ele, que cuidava apenas de não cair, quanto as moças, que ele deixava terminar o serviço, afastando-se em passinhos discretos, como homem tranquilo diante das coisas da natureza. Apenas, assim como elas já o conheciam àquela altura, ele também acabara por conhecê-las, como se conhecem as pegas travessas que se entregam à libertinagem nas pereiras dos jardins.
Ah, aquela juventude, como aproveitava, como se empanturrava! Às vezes, ele balançava o queixo com arrependimentos silenciosos, virando-se para não olhar as moças ruidosas, que ofegavam alto demais no fundo das trevas. Uma única coisa o aborrecia: dois amantes haviam adquirido o mau hábito de se beijar contra a parede de seu quarto. Não era que o impedissem de dormir, mas empurravam com tanta força que, com o tempo, estavam estragando a parede.
Todas as noites, o velho Mouque recebia a visita do amigo, o pai Bonnemort, que regularmente fazia o mesmo passeio antes do jantar. Os dois velhos quase não conversavam, mal trocavam dez palavras durante a meia hora que passavam juntos. Mas aquilo os alegrava, ficar assim, pensando em coisas antigas que ambos ruminavam, sem necessidade de falar sobre elas.
Em Réquillart, sentavam-se lado a lado sobre uma viga, soltavam uma palavra e depois partiam para seus devaneios, com o nariz voltado para a terra. Sem dúvida, tornavam a ser jovens. Em torno deles, rapazes erguiam as saias das namoradas, beijos e risos murmuravam, um cheiro quente de moças subia no frescor do capim esmagado.
Fora justamente atrás da mina, quarenta e três anos antes, que o pai Bonnemort tomara sua mulher, uma empurradora tão franzina que ele a colocava sobre um vagonete para poder beijá-la com mais comodidade. Ah, quanto tempo fazia! E os dois velhos, balançando a cabeça, acabavam por se separar, muitas vezes sem sequer se desejar boa-noite.
Naquela noite, porém, quando Étienne chegou, o pai Bonnemort, que se levantava da viga para voltar ao conjunto operário, dizia a Mouque:
— Boa-noite, velho!... Escute, você conheceu a Roussie?
Mouque permaneceu calado por um instante, sacudiu os ombros e, entrando em casa, respondeu:
— Boa-noite, boa-noite, velho!
Étienne, por sua vez, veio sentar-se sobre a viga. Sua tristeza aumentava, sem que soubesse por quê. O velho, cujas costas observava desaparecerem, fazia-o recordar sua chegada naquela manhã, a torrente de palavras que a irritação do vento arrancara daquele homem silencioso.
Quanta miséria! E todas aquelas moças, moídas de cansaço, ainda eram tolas o bastante para fabricar crianças à noite, carne destinada ao trabalho e ao sofrimento! Aquilo nunca acabaria, se continuassem enchendo o ventre de mortos de fome. Não deveriam, ao contrário, fechar o ventre, apertar as coxas, como diante da aproximação de uma desgraça?
Talvez ele só remexesse confusamente aquelas ideias sombrias por causa do aborrecimento de estar sozinho, enquanto os outros, àquela hora, saíam dois a dois em busca de prazer. O tempo abafado o sufocava um pouco, gotas de chuva, ainda raras, caíam sobre suas mãos febris. Sim, todas acabavam passando por aquilo, era mais forte que a razão.
Justamente quando Étienne permanecia sentado, imóvel na sombra, um casal que descia de Montsou passou rente a ele sem vê-lo, entrando no terreno baldio de Réquillart. A moça, virgem com certeza, debatia-se, resistia, com súplicas baixas, murmuradas; enquanto o rapaz, calado, a empurrava mesmo assim para as trevas de um canto de galpão que permanecera de pé, sob o qual se amontoavam velhas cordas emboloradas. Eram Catherine e o grandalhão Chaval. Mas Étienne não os reconhecera quando passaram e os seguia com os olhos, espreitando o desfecho da história, tomado por uma sensualidade que mudava o curso de seus pensamentos. Por que haveria de intervir? Quando as moças dizem não, é porque gostam de ser primeiro forçadas um pouco.
Ao deixar o conjunto operário dos Duzentos e Quarenta, Catherine tomara a estrada pavimentada para Montsou. Desde os dez anos, desde que ganhava a vida na mina, percorria sozinha toda a região, na completa liberdade das famílias de carvoeiros; e, se aos quinze anos nenhum homem ainda a possuíra, devia isso ao despertar tardio da puberdade, cuja crise continuava esperando.
Quando chegou diante dos Armazéns da Companhia, atravessou a rua e entrou na casa de uma lavadeira, onde tinha certeza de encontrar Mouquette; pois esta vivia ali com mulheres que pagavam rodadas de café umas às outras, da manhã à noite. Mas sofreu uma decepção: precisamente Mouquette oferecera sua rodada, de modo que não pôde lhe emprestar os dez soldos prometidos.
Para consolá-la, ofereceram-lhe em vão uma xícara de café bem quente. Ela nem sequer permitiu que a amiga pedisse emprestado a outra mulher. Viera-lhe uma ideia de economia, uma espécie de temor supersticioso, a certeza de que, se comprasse a fita naquele momento, ela lhe traria desgraça.
Apressou-se a retomar o caminho do conjunto operário e já alcançava as últimas casas de Montsou quando um homem, postado à porta da taberna Piquette, chamou-a:
— Ei, Catherine, aonde vai com tanta pressa?
Era o grandalhão Chaval. Ela se contrariou, não porque ele lhe desagradasse, mas porque não estava com vontade de rir.
— Entre para beber alguma coisa... Um cálice de vinho doce, quer?
Ela recusou com gentileza: a noite ia cair, esperavam-na em casa. Ele avançara e suplicava em voz baixa, no meio da rua. Havia muito tempo sua intenção era convencê-la a subir ao quarto que ocupava no primeiro andar da taberna Piquette, um belo quarto com uma cama grande, própria para um casal. Por isso a assustava, e ela sempre recusava. Boa moça, ria e dizia que subiria na semana em que as crianças não nascessem.
Então, de uma coisa a outra, acabou, sem saber como, falando da fita azul que não pudera comprar.
— Mas eu compro uma para você! — exclamou ele.
Ela corou, sentindo que também deveria recusar aquilo, embora no fundo a atormentasse o enorme desejo de possuir a fita. A ideia de um empréstimo lhe voltou à cabeça e ela terminou aceitando, sob a condição de devolver tudo o que ele gastasse. Isso os fez tornar a brincar: ficou combinado que, se ela não dormisse com ele, devolveria o dinheiro.
Mas surgiu outra dificuldade quando ele falou em ir à loja de Maigrat.
— Não, à casa de Maigrat, não. Mamãe me proibiu.
— Ora, deixe disso, por acaso precisamos contar aonde vamos?... É ele quem tem as fitas mais bonitas de Montsou.
Quando Maigrat viu entrarem em sua loja o grandalhão Chaval e Catherine, como dois namorados comprando um presente de casamento, ficou muito vermelho e mostrou suas peças de fita azul com a raiva de um homem de quem zombavam. Depois de atender os jovens, plantou-se à porta para vê-los se afastarem no crepúsculo; e, quando a mulher veio pedir-lhe timidamente uma informação, ele se lançou sobre ela, insultou-a, gritou que um dia faria arrepender-se aquela gente imunda e ingrata, quando todos deveriam estar caídos no chão, lambendo-lhe os pés.
Na estrada, o grandalhão Chaval acompanhava Catherine. Caminhava junto dela, com os braços pendentes; apenas a empurrava com o quadril, conduzindo-a sem parecer fazê-lo. De repente, ela percebeu que ele a fizera abandonar a estrada pavimentada e que os dois entravam juntos no caminho estreito de Réquillart. Mas não teve tempo de se zangar: ele já a segurava pela cintura e a aturdia com um fluxo contínuo de carícias e palavras.
Como era tola em sentir medo! Por acaso ele faria mal a uma coisinha delicada como ela, macia como seda, tão tenra que ele seria capaz de comê-la? E soprava-lhe atrás da orelha, no pescoço, provocando-lhe um arrepio por toda a pele do corpo. Sufocada, ela não encontrava o que responder. Era verdade que ele parecia amá-la.
No sábado à noite, depois de apagar a vela, justamente se perguntara o que aconteceria se ele a tomasse daquele modo; depois, ao adormecer, sonhara que já não dizia não, toda rendida ao prazer. Por que então, diante da mesma ideia, sentia naquele dia repugnância e uma espécie de remorso?
Enquanto ele lhe roçava a nuca com o bigode, com tanta suavidade que ela fechava os olhos, a sombra de outro homem, do rapaz avistado naquela manhã, passou pela escuridão de suas pálpebras cerradas.
Bruscamente, Catherine olhou ao redor. Chaval a conduzira aos escombros de Réquillart, e ela recuou, estremecendo diante das trevas do galpão desabado.
— Ah, não, ah, não — murmurou. — Por favor, deixe-me!
O medo do macho a enlouquecia, aquele medo que retesa os músculos num instinto de defesa, mesmo quando as moças consentem e sentem a aproximação conquistadora do homem. Sua virgindade, que no entanto nada tinha a aprender, apavorava-se como diante da ameaça de um golpe, de uma ferida cuja dor ainda desconhecida ela temia.
— Não, não, eu não quero! Estou dizendo que sou nova demais... De verdade! Mais tarde, quando eu estiver formada ao menos.
Ele rosnou surdamente:
— Sua boba! Então não há nada a temer... Que diferença isso faz para você?
Mas não falou mais. Agarrara-a com firmeza e a atirava para baixo do galpão. Ela caiu de costas sobre as velhas cordas, deixou de resistir, submetendo-se ao macho antes da idade, com aquela submissão hereditária que, desde a infância, derrubava ao ar livre as moças de sua raça. Seus balbucios assustados se apagaram, e já não se ouviu senão a respiração ardente do homem.
Étienne, entretanto, escutara sem se mexer. Mais uma que dava o salto! E agora, depois de assistir à comédia, levantou-se, invadido por um mal-estar, por uma espécie de excitação ciumenta em que crescia a cólera. Já não tomava cuidado, passava por cima das vigas, pois aqueles dois estavam ocupados demais, àquela hora, para se incomodar.
Por isso se surpreendeu quando, depois de caminhar uns cem passos pela estrada, voltou-se e os viu já de pé, parecendo, como ele, retornar ao conjunto operário. O homem tornara a segurar a moça pela cintura, apertando-a com ar agradecido, falando-lhe sem cessar ao pescoço; e era ela quem parecia apressada, querendo voltar depressa, sobretudo aborrecida com o atraso.
Então Étienne foi atormentado por um desejo: ver o rosto dos dois. Era uma estupidez, acelerou o passo para não ceder. Mas seus pés diminuíam por conta própria e, no primeiro lampião, acabou escondendo-se na sombra.
O espanto o paralisou quando reconheceu Catherine e o grandalhão Chaval ao passarem. A princípio hesitou: era mesmo ela, aquela moça de vestido azul-escuro, com a touca? Era aquele o moleque que vira de calça, com a cabeça apertada na touca de pano? Eis por que ela pudera passar rente a ele sem que a reconhecesse.
Mas já não duvidava, acabara de reencontrar seus olhos, a limpidez esverdeada daquela água de nascente, tão clara e tão profunda. Que prostituta! E sentiu uma necessidade furiosa de vingar-se dela, sem motivo, desprezando-a. Além disso, ser mulher não lhe assentava: ela era horrível.
Catherine e Chaval passaram devagar. Não sabiam que eram espreitados daquela maneira. Ele a retinha para beijá-la atrás da orelha, enquanto ela tornava a demorar-se sob as carícias, que a faziam rir. Ficando para trás, Étienne era obrigado a segui-los, irritado porque obstruíam o caminho, assistindo contra a vontade àquelas coisas cuja visão o exasperava.
Então era verdade o que ela lhe jurara de manhã: ainda não era amante de ninguém. E ele, que não acreditara nela, que se privara de possuí-la para não agir como o outro! Ele, que acabava de deixá-la ser tomada debaixo de seu nariz, que levara a estupidez ao ponto de divertir-se sordidamente enquanto os observava! Aquilo o enlouquecia. Cerrava os punhos, teria devorado aquele homem, numa dessas necessidades de matar em que tudo se tornava vermelho diante de seus olhos.
Durante meia hora, o passeio se prolongou. Quando Chaval e Catherine se aproximaram do Voreux, tornaram a diminuir o passo, detiveram-se duas vezes à margem do canal, três vezes ao longo do terril, agora muito alegres, entretidos em pequenos jogos ternos. Étienne também precisava parar, repetir as mesmas paradas, por medo de ser percebido.
Esforçava-se para conservar apenas um arrependimento brutal: aquilo lhe ensinaria a tratar as moças com delicadeza, por boa educação. Depois do Voreux, enfim livre para ir jantar na casa de Rasseneur, continuou a segui-los, acompanhou-os até o conjunto operário e permaneceu ali, de pé na sombra, durante um quarto de hora, esperando que Chaval deixasse Catherine entrar em casa.
Quando teve certeza de que já não estavam juntos, tornou a caminhar, avançou muito pela estrada de Marchiennes, batendo os pés no chão, sem pensar em coisa alguma, sufocado e triste demais para se encerrar num quarto.
Somente uma hora mais tarde, por volta das nove, Étienne atravessou de novo o conjunto operário, dizendo a si mesmo que precisava comer e deitar-se, caso quisesse estar de pé às quatro da manhã. A aldeia já dormia, inteiramente negra na noite. Nenhum clarão escapava pelas venezianas fechadas, as longas fachadas se alinhavam sob o sono opressivo de quartéis que ressonam. Apenas um gato fugiu pelos jardins vazios. Era o fim do dia, o esmagamento dos trabalhadores que tombavam da mesa para a cama, abatidos pelo cansaço e pela comida.
Na casa de Rasseneur, na sala iluminada, um maquinista e dois trabalhadores do turno diurno bebiam canecas de cerveja. Mas, antes de entrar, Étienne se deteve e lançou um último olhar às trevas.
Reencontrava a mesma imensidão negra da manhã, quando chegara açoitado pelo vento forte. Diante dele, o Voreux se agachava com seu aspecto de fera maligna, indistinto, picado por alguns clarões de lanternas. As três fogueiras do terril ardiam no alto, semelhantes a luas sangrentas, destacando de tempos em tempos as silhuetas desmedidas do pai Bonnemort e de seu cavalo amarelo.
E, além, na planície rasa, a sombra submergira tudo, Montsou, Marchiennes, a floresta de Vandame, o vasto mar de beterrabas e trigo, onde já não brilhavam, como faróis distantes, senão os fogos azuis dos altos-fornos e os fogos vermelhos das coquerias.
Pouco a pouco, a noite se afogava. A chuva caía agora lenta e contínua, aprofundando aquele nada sob seu escorrer monótono; enquanto ainda se ouvia uma única voz, a respiração grossa e vagarosa da máquina de esgotamento, que soprava dia e noite.