SEXTA PARTE — Capítulo II Germinal · Capítulo 31 de 40
Obra Menu

SEXTA PARTE — Capítulo II

SEXTA PARTE

Capítulo II

Havia dois dias que a neve caía. Parara pela manhã, e uma geada intensa enrijecia a imensa extensão branca. A região negra, com estradas de tinta, muros e árvores cobertos pela poeira da hulha, estava inteiramente branca, de uma brancura única até o infinito. Sob a neve, o coron dos Duzentos e Quarenta jazia como se houvesse desaparecido. Nenhuma fumaça saía dos telhados. As casas sem fogo, tão frias quanto as pedras dos caminhos, não derretiam a espessa camada sobre as telhas. Já não passava de uma pedreira de lajes brancas no meio da planície branca, a visão de uma aldeia morta, envolta em sua mortalha. Ao longo das ruas, apenas as patrulhas que passavam haviam deixado a lama de suas pegadas.

Na casa dos Maheu, a última pá de escórias fora queimada na véspera. E já não se podia pensar em catar carvão no terril com aquele tempo terrível, quando nem os pardais encontravam um fiapo de erva. Alzire, por ter insistido, revolvendo a neve com as pobres mãos, estava morrendo. A Maheude precisara envolvê-la num pedaço de cobertor, à espera do doutor Vanderhaghen, a cuja casa já fora duas vezes sem conseguir encontrá-lo. A criada, porém, acabara de prometer que o senhor passaria pelo coron antes da noite, e a mãe vigiava, de pé diante da janela; enquanto a pequena enferma, que insistira em descer, tremia numa cadeira, com a ilusão de que ali, perto do fogão apagado, fazia menos frio. O velho Bonnemort, em frente, com as pernas novamente inúteis, parecia dormir. Nem Lénore nem Henri haviam voltado; percorriam as estradas com Jeanlin, pedindo dinheiro. Pela sala nua, apenas Maheu caminhava pesadamente, batendo contra a parede a cada volta, com o ar estúpido de um animal que já não enxerga a própria jaula. O petróleo também acabara; mas o reflexo da neve do lado de fora permanecia tão branco que iluminava vagamente o aposento, apesar da noite que caía.

Ouviu-se o bater de tamancos, e a Levaque escancarou a porta como uma rajada, fora de si, gritando para a Maheude desde o umbral:

— Então foi você quem disse que eu obrigava meu hóspede a me dar vinte soldos quando dormia comigo!

A outra deu de ombros.

— Você me aborrece, eu não disse nada... Primeiro, quem lhe contou isso?

— Disseram que foi você, e não precisa saber quem... Disse até que nos ouvia fazendo nossas porcarias atrás da divisória e que a sujeira se acumulava em casa porque eu vivia deitada de costas... Diga outra vez que não falou, vamos!

Todos os dias surgiam brigas, provocadas pela tagarelice incessante das mulheres. Sobretudo entre famílias que moravam porta com porta, as rupturas e reconciliações eram diárias. Mas nunca uma maldade tão amarga os lançara uns contra os outros. Desde a greve, a fome exasperava os rancores, havia necessidade de bater em alguém. Uma explicação entre duas comadres terminava numa carnificina entre os dois homens.

Justamente Levaque chegou por sua vez, trazendo Bouteloup à força.

— Aqui está o camarada. Que diga se deu vinte soldos à minha mulher para dormir com ela.

O hóspede, escondendo a doçura apavorada dentro da grande barba, protestava, gaguejava:

— Ah, isso não! Nunca dei nada, nunca!

Levaque tornou-se ameaçador, com o punho sob o nariz de Maheu.

— Sabe, isso não me agrada. Quando se tem uma mulher dessas, quebra-se a espinha dela... Então você acredita no que ela disse?

— Mas, com mil diabos! — gritou Maheu, furioso por ser arrancado de seu torpor. — O que é agora toda essa fofoca? Já não temos miséria suficiente? Deixe-me em paz, ou eu bato!... E, antes de tudo, quem disse que minha mulher tinha falado?

— Quem disse?... Foi a Pierronne.

A Maheude explodiu numa risada aguda e, voltando-se para a Levaque:

— Ah, foi a Pierronne... Pois eu também posso lhe contar o que ela me disse. Sim, disse que você dormia com seus dois homens, um por baixo e outro por cima!

A partir daí, já não foi possível entender coisa alguma. Todos se enfureceram. Os Levaque responderam aos Maheu que a Pierronne dissera coisas muito piores a respeito deles, que haviam vendido Catherine e que todos estavam apodrecidos, até as crianças, com uma doença que Étienne trouxera do Volcan.

— Ela disse isso, disse isso! — berrou Maheu. — Está bem! Eu vou lá agora e, caso admita que falou, enfio a mão na cara dela.

Lançou-se para fora. Os Levaque o seguiram para testemunhar, enquanto Bouteloup, que detestava brigas, voltava furtivamente para casa. Inflamada pela discussão, a Maheude também ia sair quando um gemido de Alzire a deteve. Cruzou as pontas do cobertor sobre o corpo trêmulo da pequena e tornou a postar-se diante da janela, com os olhos perdidos. E aquele médico que não chegava!

Diante da porta dos Pierron, Maheu e os Levaque encontraram Lydie, que batia os pés na neve. A casa estava fechada, um fio de luz passava pela fresta de uma veneziana; e a menina, a princípio constrangida, respondeu às perguntas: não, seu pai não estava ali, fora até o lavadouro encontrar a mãe Brûlé, para trazer o embrulho de roupa. Depois se perturbou, recusou-se a dizer o que a mãe fazia. Por fim, contou tudo, com uma risada traiçoeira de rancor: a mãe a expulsara porque o sr. Dansaert estava lá e ela os impedia de conversar. Desde a manhã, ele percorria o coron com dois gendarmes, tentando recrutar trabalhadores, pressionando os fracos, anunciando por toda parte que, caso ninguém descesse na segunda-feira ao Voreux, a Companhia estava decidida a contratar belgas do Borinage. E, quando a noite caiu, dispensara os gendarmes, encontrando a Pierronne sozinha; depois ficara na casa dela, bebendo um copo de genebra diante do bom fogo.

— Silêncio! Calem-se, precisamos vê-los! — murmurou Levaque, com uma risada libertina. — Depois acertamos tudo... Vá embora, sua pestinha!

Lydie recuou alguns passos, enquanto ele encostava um olho na fresta da veneziana. Sufocou pequenos gritos, as costas se arredondavam num estremecimento. A Levaque olhou por sua vez, mas disse, como se sentisse cólicas, que aquilo lhe dava nojo. Maheu, que a empurrara, querendo ver também, declarou que o espetáculo valia o dinheiro. E recomeçaram, um depois do outro, cada qual dando sua espiada, como no teatro. A sala, reluzente de limpeza, alegrava-se com o grande fogo; havia bolos sobre a mesa, uma garrafa e copos; enfim, uma verdadeira festa. Tanto que o que viam lá dentro acabou exasperando os dois homens, que em outras circunstâncias teriam rido da história durante seis meses. Que ela se deixasse encher até a garganta, com as saias erguidas, era engraçado. Mas, com mil diabos, não era uma imundície fazer aquilo diante de um fogo tão grande e ganhar forças comendo biscoitos enquanto os camaradas não tinham nem uma migalha de pão nem um pedaço de carvão?

— Papai está chegando! — gritou Lydie, fugindo.

Pierron voltava tranquilamente do lavadouro, com o embrulho de roupa sobre um ombro. Maheu logo o interpelou:

— Escute, disseram que sua mulher falou que eu vendi Catherine e que todos nós apodrecemos juntos em casa... E na sua, quanto esse senhor que está gastando a pele dela paga pelo serviço?

Aturdido, Pierron não compreendia, quando a Pierronne, tomada pelo medo ao ouvir o tumulto das vozes, perdeu a cabeça a ponto de entreabrir a porta para verificar. Viram-na toda vermelha, com o corpete aberto e a saia ainda erguida, presa à cintura; enquanto, no fundo, Dansaert recolocava desesperadamente as calças. O capataz-chefe fugiu, desapareceu, tremendo que semelhante história chegasse aos ouvidos do diretor. Então houve um escândalo terrível, risadas, vaias e insultos.

— Você que vive dizendo que as outras são sujas! — gritava a Levaque para a Pierronne. — Não admira que seja limpa, já que os chefes a esfregam!

— Ah, ela fica muito bem falando! — retomava Levaque. — Aí está a puta que disse que minha mulher dormia comigo e com o hóspede, um por baixo e outro por cima!... Sim, sim, contaram que você disse isso.

Mas a Pierronne, já recomposta, enfrentava os palavrões com grande desprezo, certa de ser a mais bonita e a mais rica.

— Disse o que disse. Deixem-me em paz, ouviram?... O que têm a ver com meus assuntos, bando de invejosos que nos odeiam porque guardamos dinheiro na caixa econômica? Podem falar o quanto quiserem, meu marido sabe muito bem por que o sr. Dansaert estava em nossa casa.

De fato, Pierron se enfurecia, defendia a mulher. A discussão mudou de rumo: chamaram-no de vendido, delator, cão da Companhia; acusaram-no de se trancar para empanturrar-se com os bons pedaços que os chefes lhe pagavam por suas traições. Ele respondia que Maheu lhe enfiara ameaças por baixo da porta, um papel onde se viam dois ossos cruzados de morto e um punhal por cima. E aquilo terminou necessariamente numa carnificina entre os homens, como todas as brigas de mulheres desde que a fome enfurecia até os mais mansos. Maheu e Levaque lançaram-se sobre Pierron a socos, foi preciso separá-los.

O sangue jorrava do nariz do genro quando a Brûlé chegou por sua vez do lavadouro. Informada do que acontecera, limitou-se a dizer:

— Esse porco me desonra.

A rua tornou a ficar deserta. Nenhuma sombra manchava a brancura nua da neve; e o coron, devolvido à imobilidade da morte, morria de fome sob o frio intenso.

— E o médico? — perguntou Maheu, fechando a porta.

— Não veio — respondeu a Maheude, ainda de pé diante da janela.

— As crianças voltaram?

Maheu retomou a caminhada pesada, de uma parede à outra, com o ar de boi abatido. Enrijecido na cadeira, o velho Bonnemort nem sequer erguera a cabeça. Alzire também nada dizia, esforçava-se para não tremer, a fim de poupar-lhes sofrimento. Mas, apesar da coragem com que suportava a dor, às vezes tremia tanto que se ouvia, contra o cobertor, o estremecimento daquele corpo magro de menina enferma; enquanto os grandes olhos abertos contemplavam no teto o reflexo pálido dos jardins inteiramente brancos, que iluminava a sala com uma claridade de luar.

Agora era a agonia final, a casa esvaziada, reduzida à última privação. Os tecidos dos colchões haviam seguido a lã para a casa da revendedora; depois foram os lençóis, as roupas, tudo o que pudesse ser vendido. Certa noite, venderam por dois soldos um lenço do avô. Lágrimas corriam a cada objeto daquela pobre casa do qual precisavam se separar; e a mãe ainda lamentava ter levado um dia, escondida na saia, a caixa de papelão cor-de-rosa, antigo presente do marido, como se carregasse uma criança para abandoná-la diante de alguma porta. Estavam nus. Só lhes restava vender a própria pele, tão ferida, tão comprometida, que ninguém daria por ela um ceitil. Por isso nem se davam ao trabalho de procurar; sabiam que nada havia, que era o fim de tudo, que não deviam esperar nem uma vela, nem um pedaço de carvão, nem uma batata. Esperavam morrer. Só se revoltavam por causa das crianças, pois aquela crueldade inútil os indignava, fazer a pequena adoecer antes de estrangulá-la.

— Enfim, aí está ele! — disse a Maheude.

Uma forma negra passou diante da janela. A porta se abriu. Mas não era o doutor Vanderhaghen; reconheceram o novo pároco, o abade Ranvier, que não pareceu surpreso por entrar naquela casa morta, sem luz, sem fogo, sem pão. Já saía de outras três casas vizinhas, indo de família em família, recrutando homens de boa vontade, como Dansaert fizera com seus gendarmes; e imediatamente explicou, com sua voz febril de sectário:

— Por que não foram à missa no domingo, meus filhos? Estão errados, apenas a Igreja pode salvá-los... Vamos, prometam que irão no próximo domingo.

Depois de olhá-lo, Maheu retomou a caminhada pesada, sem dizer uma palavra. Foi a Maheude quem respondeu:

— À missa, senhor padre, para quê? Deus não está zombando de nós?... Veja, o que minha pequena fez a ele, ali tremendo de febre? Já não tínhamos miséria suficiente, não é? Era preciso que a deixasse doente, quando nem sequer posso lhe dar uma xícara de tisana quente.

Então, de pé, o padre falou longamente. Explorava a greve, aquela miséria horrenda, aquele rancor exasperado pela fome, com o ardor de um missionário pregando aos selvagens, para a glória de sua religião. Dizia que a Igreja estava ao lado dos pobres, que um dia faria triunfar a justiça, chamando a cólera de Deus sobre as iniquidades dos ricos. E esse dia surgiria em breve, pois os ricos haviam tomado o lugar de Deus, haviam chegado a governar sem Deus, em seu roubo ímpio do poder. Mas, caso os trabalhadores quisessem a divisão justa dos bens da terra, deveriam entregar-se imediatamente às mãos dos padres, assim como, depois da morte de Jesus, os pequenos e humildes se reuniram ao redor dos apóstolos. Que poder teria o papa, de que exército disporia o clero quando comandasse a multidão incontável dos trabalhadores! Em uma semana, o mundo seria purgado dos perversos, os senhores indignos seriam expulsos; seria enfim o verdadeiro reino de Deus, cada um recompensado de acordo com seus méritos, a lei do trabalho regulando a felicidade universal.

A Maheude, que o escutava, julgava ouvir Étienne nas vigílias de outono, quando lhes anunciava o fim de seus sofrimentos. Apenas sempre desconfiara das batinas.

— É muito bonito o que está dizendo, senhor padre — disse ela. — Mas então vocês já não estão de acordo com os burgueses... Todos os nossos outros padres jantavam na Direção e nos ameaçavam com o diabo assim que pedíamos pão.

Ele recomeçou, falou do lamentável desentendimento entre a Igreja e o povo. Agora, em frases veladas, atacava os padres das cidades, os bispos, o alto clero, empanturrado de prazeres, saciado de dominação, pactuando com a burguesia liberal na estupidez de sua cegueira, sem perceber que era essa burguesia que lhe retirava o império do mundo. A libertação viria dos padres do campo; todos se levantariam para restabelecer o reino de Cristo com a ajuda dos miseráveis. E ele parecia já comandá-los, erguia a estatura ossuda como chefe de bando, como revolucionário do Evangelho, com os olhos cheios de uma luz tamanha que iluminavam o aposento escuro. A pregação ardente o arrebatava em palavras místicas. Havia muito os pobres já não compreendiam.

— Não precisava de tanta conversa — resmungou Maheu de repente. — Teria feito melhor se começasse trazendo um pão.

— Venham à missa no domingo! — gritou o padre. — Deus proverá tudo!

E partiu, entrou na casa dos Levaque para catequizá-los por sua vez, tão elevado em seu sonho do triunfo final da Igreja, com tamanho desprezo pelos fatos, que percorria assim os corons sem esmolas, de mãos vazias por entre aquele exército que morria de fome, pobre-diabo ele próprio, vendo no sofrimento o aguilhão da salvação.

Maheu continuava a caminhar. Ouvia-se apenas aquele abalo regular que fazia as lajes tremerem. Houve um ruído de roldana comida pela ferrugem: o velho Bonnemort cuspiu na lareira fria. Depois a cadência dos passos recomeçou. Alzire, adormecida pela febre, pôs-se a delirar em voz baixa, rindo, acreditando que fazia calor e que brincava ao sol.

— Maldição! — murmurou a Maheude, depois de tocar-lhe as faces. — Agora ela está queimando... Já não espero aquele porco, os bandidos devem tê-lo proibido de vir.

Falava do médico e da Companhia. Mesmo assim, soltou uma exclamação de alegria quando a porta tornou a abrir-se. Mas os braços lhe caíram, e ela permaneceu ereta, com o rosto sombrio.

— Boa noite — disse Étienne em voz baixa, depois de fechar cuidadosamente a porta.

Muitas vezes chegava assim, no escuro da noite. Desde o segundo dia, os Maheu sabiam de seu esconderijo. Mas guardavam o segredo; ninguém no coron sabia ao certo o que acontecera com o rapaz. Isso o envolvia numa lenda. Continuavam a acreditar nele, corriam rumores misteriosos: reapareceria com um exército, com caixas cheias de ouro; e persistia aquela espera religiosa por um milagre, pelo ideal realizado, pela entrada repentina na cidade de justiça que lhes prometera. Uns diziam tê-lo visto no fundo de uma carruagem, na companhia de três senhores, na estrada de Marchiennes; outros afirmavam que continuaria por mais dois dias na Inglaterra. Com o tempo, porém, começava a surgir desconfiança. Alguns brincalhões o acusavam de esconder-se numa adega, onde a Mouquette o mantinha aquecido; pois aquela ligação conhecida prejudicara sua reputação. Era, no meio da popularidade, um lento afastamento, o impulso surdo dos convencidos tomados pelo desespero, cujo número pouco a pouco aumentaria.

— Que tempo dos diabos! — acrescentou. — E vocês, nenhuma novidade, tudo cada vez pior?... Disseram-me que o pequeno Négrel foi à Bélgica buscar mineiros do Borinage. Ah, com mil diabos, estamos perdidos, caso seja verdade!

Um estremecimento o tomara ao entrar naquele aposento gelado e escuro, onde seus olhos precisaram acostumar-se para enxergar os infelizes, que adivinhava num adensamento da sombra. Sentia aquela repugnância, aquele mal-estar do operário que saíra de sua classe, refinado pelo estudo, trabalhado pela ambição. Que miséria, que cheiro, aqueles corpos amontoados, a piedade horrenda que lhe apertava a garganta! O espetáculo daquela agonia o abalava a tal ponto que procurava palavras para aconselhar a submissão.

Mas Maheu se plantara violentamente diante dele, gritando:

— Mineiros do Borinage! Não ousarão, esses desgraçados!... Que façam os belgas descer, caso queiram que destruamos as minas!

Constrangido, Étienne explicou que não poderiam agir, que os soldados que guardavam as minas protegeriam a descida dos trabalhadores belgas. E Maheu cerrava os punhos, irritado sobretudo, como dizia, por ter aquelas baionetas nas costas. Então os carvoeiros já não eram senhores em sua própria terra? Tratavam-nos como condenados às galés, para obrigá-los a trabalhar sob um fuzil carregado? Amava seu poço, sofria muito por não ter descido havia dois meses. Por isso via tudo vermelho diante daquela ofensa, daqueles estrangeiros que ameaçavam introduzir ali. Depois, a lembrança de que lhe haviam devolvido a caderneta rasgou-lhe o coração.

— Nem sei por que me enfureço — murmurou. — Eu já não pertenço à espelunca deles... Quando me expulsarem daqui, poderei muito bem morrer na estrada.

— Deixe disso — disse Étienne. — Caso queira, amanhã mesmo retomam sua caderneta. Não se demitem bons trabalhadores.

Interrompeu-se, espantado ao ouvir Alzire rir baixinho no delírio da febre. Até então distinguira apenas a sombra endurecida do velho Bonnemort, e aquela alegria de criança doente o aterrorizava. Era demais, caso as pequenas começassem a morrer. Com a voz trêmula, decidiu-se:

— Vamos, isso não pode continuar, estamos perdidos... É preciso ceder.

A Maheude, imóvel e silenciosa até então, explodiu de repente, gritando-lhe na cara, tratando-o por você e praguejando como um homem:

— O que está dizendo?... É você quem diz isso, com mil diabos!

Ele quis apresentar suas razões, mas ela não o deixava falar.

— Não repita, com mil diabos! Ou, mulher como sou, enfio a mão na sua cara... Então teríamos morrido durante dois meses, eu teria vendido tudo o que havia em casa, meus filhos teriam adoecido, e nada estaria feito, e a injustiça começaria outra vez!... Ah, veja, quando penso nisso, o sangue me sufoca. Não! Não! Agora eu queimaria tudo, mataria todo mundo, antes de me render.

Apontou para Maheu na escuridão, com um grande gesto ameaçador.

— Escute bem: caso meu homem volte à mina, sou eu quem vai esperá-lo na estrada, para cuspir na cara dele e chamá-lo de covarde!

Étienne não a enxergava, mas sentia um calor, como o hálito de uma fera que ladra; e recuara, tomado de espanto diante daquela fúria que era obra sua. Achava-a tão mudada que já não a reconhecia. Antes, tão sensata, censurava-lhe a violência, dizia que não se devia desejar a morte de ninguém; agora se recusava a escutar a razão, falava em matar todo mundo. Já não era ele, era ela quem discutia política, quem queria varrer os burgueses de uma só vez, quem exigia a república e a guilhotina para livrar a terra daqueles ladrões ricos, engordados pelo trabalho dos condenados à fome.

— Sim, eu os esfolaria com estes dez dedos... Talvez já seja suficiente! Nossa vez chegou, você mesmo dizia... Quando penso que o pai, o avô, o pai do avô, todos os que vieram antes sofreram o que estamos sofrendo, e que nossos filhos, os filhos de nossos filhos, ainda sofrerão o mesmo, fico louca, pegaria uma faca... Outro dia, não fizemos o bastante. Deveríamos ter posto Montsou abaixo, até o último tijolo. E sabe de uma coisa? Só me arrependo de não ter deixado o velho estrangular a filha da Piolaine... Pois deixam a fome estrangular meus filhos!

Suas palavras caíam como golpes de machado na noite. O horizonte fechado recusara-se a abrir; o ideal impossível transformava-se em veneno no fundo daquele crânio rachado pela dor.

— Vocês não me compreenderam — conseguiu dizer enfim Étienne, recuando. — Deveríamos chegar a um acordo com a Companhia. Sei que as minas estão sofrendo muito; talvez ela aceite algum arranjo.

— Não, nada disso! — berrou ela.

Justamente Lénore e Henri, que voltavam, chegaram de mãos vazias. Um senhor lhes dera dois soldos; mas, como a irmã não parava de chutar o irmão menor, as moedas haviam caído na neve. Jeanlin se pusera a procurá-las com eles, porém não conseguiram encontrá-las.

— Onde está Jeanlin?

— Mamãe, ele foi embora, disse que tinha negócios.

Étienne escutava com o coração despedaçado. Antigamente, ela ameaçava matá-los caso algum dia estendessem a mão. Agora era ela própria quem os mandava para as estradas; falava em saírem todos, os dez mil carvoeiros de Montsou, levando o bastão e o alforje dos velhos mendigos, percorrendo a região apavorada.

Então a angústia cresceu ainda mais no aposento negro. As crianças voltavam com fome, queriam comer, por que não comiam? Começaram a resmungar e a arrastar-se, acabaram pisando nos pés da irmã agonizante, que soltou um gemido. Fora de si, a mãe os esbofeteou ao acaso, na escuridão. Depois, como gritavam mais alto, pedindo pão, desfez-se em lágrimas, caiu sentada no chão, apertou numa só braçada os dois e a pequena enferma; e chorou longamente, numa crise nervosa que a deixava mole, aniquilada, balbuciando vinte vezes a mesma frase, chamando a morte:

— Meu Deus, por que não nos leva? Meu Deus, leve-nos por piedade, para que tudo acabe!

O avô conservava a imobilidade de uma velha árvore retorcida sob a chuva e o vento, enquanto o pai caminhava da lareira ao armário, sem virar a cabeça.

Mas a porta se abriu, e dessa vez era o doutor Vanderhaghen.

— Diabo! — disse ele. — A vela de vocês não vai estragar a vista... Vamos depressa, estou com pressa.

Como de costume, resmungava, extenuado de trabalho. Felizmente tinha fósforos. O pai precisou acender seis, um após outro, e segurá-los para que o médico examinasse a enferma. Retirada do cobertor, ela tremia sob aquela claridade vacilante, magra como um pássaro agonizando na neve, tão franzina que já não se via senão a corcunda. Mesmo assim sorria, com o sorriso perdido de uma moribunda, os olhos enormes, enquanto as pobres mãos se crispavam sobre o peito escavado. E, quando a mãe, sufocada, perguntou se era razoável levar antes dela a única filha que a ajudava em casa, tão inteligente, tão doce, o médico se irritou.

— Pronto, ela está indo... Sua maldita menina morreu de fome. E não é a única, acabo de ver outra ali ao lado... Todos me chamam, mas não posso fazer nada. O que vocês precisam é de carne para se curar.

Maheu, com os dedos queimados, deixara o fósforo cair; e as trevas tornaram a cobrir o pequeno cadáver ainda quente. O médico já saíra correndo. No aposento negro, Étienne já não ouvia senão os soluços da Maheude, que repetia seu apelo à morte, aquela lamentação lúgubre e interminável:

— Meu Deus, agora é a minha vez, leve-me!... Meu Deus, leve meu homem, leve os outros, por piedade, para que tudo acabe!

1/1
Menu

Fazer anotação