QUINTA PARTE — Capítulo V
QUINTA PARTE
Capítulo V
O sr. Hennebeau postara-se diante da janela do gabinete para ver partir a carruagem que levava sua mulher a um almoço em Marchiennes. Por um momento, acompanhara Négrel, que trotava junto à portinhola; depois, voltara tranquilamente a sentar-se à escrivaninha. Quando nem a mulher nem o sobrinho animavam a casa com o ruído de sua existência, ela parecia vazia. Justamente naquele dia, o cocheiro conduzia a senhora; Rose, a nova camareira, tinha folga até as cinco horas; e restavam apenas Hippolyte, o criado de quarto, arrastando-se de chinelos pelos aposentos, e a cozinheira, ocupada desde o amanhecer numa batalha com as panelas, inteiramente entregue ao jantar que os patrões ofereceriam à noite. Assim, o sr. Hennebeau prometia a si mesmo uma jornada de muito trabalho, naquele grande sossego da casa deserta.
Por volta das nove horas, embora tivesse recebido ordem de mandar todos embora, Hippolyte permitiu-se anunciar Dansaert, que trazia notícias. Somente então o diretor soube da reunião realizada na véspera, na floresta; e os detalhes eram de uma precisão tão grande que ele o escutava pensando nos amores com a Pierronne, tão conhecidos que duas ou três cartas anônimas por semana denunciavam as devassidões do capataz-chefe: evidentemente, o marido falara; aquela polícia cheirava a travesseiro. Aproveitou até a ocasião, deixou entender que sabia de tudo e limitou-se a recomendar prudência, por receio de um escândalo. Apavorado com aquelas censuras no meio de seu relatório, Dansaert negava, gaguejava desculpas, enquanto o comprido nariz confessava o delito com sua vermelhidão repentina. De resto, o diretor não insistiu, feliz por se livrar do assunto por tão pouco; pois, em geral, mostrava-se de uma severidade implacável de homem casto, sempre que um empregado se permitia o regalo de uma moça bonita dentro de uma mina. A conversa prosseguiu sobre a greve: aquela reunião na floresta ainda não passava de fanfarronada de gritadores, nada ameaçava seriamente. Em todo caso, os corons certamente não se moveriam por alguns dias, sob a impressão de medo respeitoso que o passeio militar da manhã devia ter produzido.
Quando se viu novamente sozinho, o sr. Hennebeau esteve a ponto de enviar um despacho ao prefeito. O receio de dar inutilmente aquela prova de inquietação o conteve. Já não se perdoava por ter demonstrado tão pouco faro, a ponto de dizer por toda parte, e até escrever à Administração, que a greve duraria no máximo quinze dias. Ela se prolongava havia quase dois meses, para sua grande surpresa; e ele se desesperava, sentia-se a cada dia diminuído, comprometido, obrigado a imaginar algum golpe espetacular caso quisesse voltar às boas graças dos administradores. Justamente lhes pedira instruções, na eventualidade de uma desordem. A resposta demorava, ele a esperava pelo correio da tarde. Dizia a si mesmo que então seria tempo de mandar telegramas, para que as minas fossem ocupadas militarmente, caso essa fosse a opinião daqueles senhores. Segundo ele, haveria batalha, sangue e mortos, com toda certeza. Uma responsabilidade semelhante o perturbava, apesar de sua energia habitual.
Até as onze horas, trabalhou em paz, sem outro ruído na casa morta além do bastão de encerar de Hippolyte, que, muito longe, no primeiro andar, esfregava um aposento. Depois, um após outro, recebeu dois despachos: o primeiro anunciava a invasão de Jean-Bart pelo bando de Montsou; o segundo relatava os cabos cortados, os fogos derrubados, toda a devastação. Ele não compreendeu. O que os grevistas tinham ido fazer na propriedade de Deneulin, em vez de atacar uma mina da Companhia? De resto, podiam muito bem arrasar Vandame, aquilo fazia amadurecer o plano de conquista que ele meditava. E, ao meio-dia, almoçou sozinho na vasta sala, servido em silêncio pelo criado, cujos chinelos nem sequer ouvia. Aquela solidão tornava suas preocupações ainda mais sombrias; sentia um frio no coração quando um capataz, vindo a passo de corrida, foi introduzido e lhe contou a marcha do bando sobre Mirou. Quase imediatamente, enquanto terminava o café, um telegrama informou que Madeleine e Crèvecœur também estavam ameaçadas. Então sua perplexidade tornou-se extrema. Esperava o correio às duas horas: deveria pedir tropas imediatamente? Seria melhor aguardar, para não agir antes de conhecer as ordens da Administração? Voltou ao gabinete, quis ler uma nota que pedira a Négrel que redigisse na véspera para o prefeito. Mas não conseguiu encontrá-la; pensou que talvez o rapaz a tivesse deixado no quarto, onde muitas vezes escrevia durante a noite. E, sem tomar decisão, perseguido pela ideia daquela nota, subiu rapidamente para procurá-la no aposento.
Ao entrar, o sr. Hennebeau teve uma surpresa: o quarto não fora arrumado, sem dúvida por esquecimento ou preguiça de Hippolyte. Reinava ali um calor úmido, o calor encerrado de toda uma noite, tornado mais denso pela abertura do aquecedor, que permanecera escancarada; e ele sentiu as narinas invadidas, sufocou num perfume penetrante, que julgou ser o cheiro das águas de toalete, cuja bacia estava cheia. Uma grande desordem atravancava o aposento: roupas espalhadas, toalhas molhadas lançadas sobre os encostos das cadeiras, a cama escancarada, um lençol arrancado, arrastando-se até o tapete. Aliás, a princípio ele lançou apenas um olhar distraído, pois se dirigira a uma mesa coberta de papéis e procurava a nota desaparecida. Duas vezes examinou os papéis, um por um; decididamente, ela não estava ali. Onde diabos aquele irresponsável do Paul poderia tê-la metido?
Quando o sr. Hennebeau voltou ao centro do quarto, lançando os olhos para cada móvel, percebeu na cama aberta um ponto vivo, brilhando como uma centelha. Aproximou-se maquinalmente e estendeu a mão. Era, entre duas dobras do lençol, um pequeno frasco de ouro. Reconheceu de imediato um frasco da senhora Hennebeau, o frasco de éter que nunca a abandonava. Mas não conseguia explicar a presença daquele objeto: como podia estar na cama de Paul? E, de repente, empalideceu horrivelmente. Sua mulher dormira ali.
— Perdão — murmurou a voz de Hippolyte através da porta. — Eu vi o senhor subir...
O criado entrou, e a desordem do quarto o consternou.
— Meu Deus! É verdade, o quarto não foi arrumado! Rose saiu e deixou todo o serviço da casa nas minhas costas!
Hennebeau escondera o frasco na mão e o apertava a ponto de quebrá-lo.
— Senhor, chegou outro homem... Vem de Crèvecœur e traz uma carta.
— Está bem! Deixe-me, diga-lhe que espere.
Sua mulher dormira ali! Quando fechou o ferrolho, tornou a abrir a mão e contemplou o frasco, que deixara uma marca vermelha em sua carne. De repente, ele via, ouvia; aquela imundície acontecia em sua casa havia meses. Recordava a antiga suspeita, os roçamentos junto às portas, os pés descalços atravessando à noite a casa silenciosa. Sim, era sua mulher que subia para dormir ali!
Caído numa cadeira diante da cama que contemplava fixamente, permaneceu longos minutos como que atordoado. Um ruído o despertou; batiam à porta, tentavam abri-la. Reconheceu a voz do criado.
— Senhor... Ah, o senhor se trancou...
— Parece que é urgente, os operários estão quebrando tudo. Há mais dois homens lá embaixo. E também chegaram telegramas.
— Deixe-me em paz! Daqui a pouco!
A ideia de que o próprio Hippolyte teria descoberto o frasco, caso tivesse arrumado o quarto pela manhã, acabava de gelá-lo. Aliás, aquele criado devia saber; encontrara vinte vezes a cama ainda quente do adultério, cabelos da senhora espalhados pelo travesseiro, vestígios abomináveis manchando a roupa de cama. Se insistia em perturbá-lo, era por maldade. Talvez tivesse ficado com o ouvido colado à porta, excitado pela devassidão dos patrões.
Então o sr. Hennebeau deixou de se mover. Continuava olhando para a cama. Todo o longo passado de sofrimento se desenrolava: o casamento com aquela mulher, o desentendimento imediato dos corações e dos corpos, os amantes que ela tivera sem que ele suspeitasse, aquele que tolerara durante dez anos, como se tolera numa doente um gosto imundo. Depois, a chegada a Montsou, a esperança insensata de curá-la, meses de languidez, de exílio adormecido, a aproximação da velhice que enfim a devolveria a ele. Depois, desembarcava o sobrinho, aquele Paul de quem ela se tornava mãe, a quem falava de seu coração morto, para sempre enterrado sob as cinzas. E ele, marido imbecil, nada previra; adorava aquela mulher que era sua, que outros homens haviam possuído e que só ele não podia possuir! Adorava-a com uma paixão vergonhosa, a ponto de cair de joelhos se ela tivesse consentido em lhe dar os restos dos outros! Os restos dos outros, ela os dava àquele menino.
Nesse momento, uma campainha distante fez o sr. Hennebeau estremecer. Reconheceu o toque que, segundo suas ordens, davam quando chegava o carteiro. Levantou-se e falou em voz alta, numa torrente de obscenidades que sua garganta dolorida deixava escapar contra sua vontade.
— Ah, que se danem! Ah, que se danem os telegramas e as cartas!
Agora uma raiva o invadia, a necessidade de uma cloaca onde pudesse afundar aquelas imundícies a golpes de calcanhar. Aquela mulher era uma puta; procurava palavras cruas, esbofeteava com elas a imagem dela. A lembrança repentina do casamento que ela promovia, com um sorriso tão tranquilo, entre Cécile e Paul, terminou de exasperá-lo. Então já não havia paixão, nem ciúme, no fundo daquela sensualidade vivaz? Àquela altura, aquilo não passava de um brinquedo perverso, do hábito do homem, de uma recreação tomada como a sobremesa de costume. E ele a acusava de tudo, quase inocentava o rapaz, a quem ela mordera, naquele despertar do apetite, como se morde o primeiro fruto verde roubado à beira do caminho. Quem devoraria depois, até onde cairia, quando já não tivesse sobrinhos complacentes, bastante práticos para aceitar dentro da família a mesa, a cama e a mulher?
Arranharam timidamente a porta; a voz de Hippolyte permitiu-se soprar pelo buraco da fechadura:
— Senhor, o correio... E o sr. Dansaert também voltou, dizendo que estão se matando...
— Já estou descendo, com mil diabos!
O que faria com eles? Expulsá-los quando voltassem de Marchiennes, como animais pestilentos que não queria mais sob o próprio teto. Pegaria um porrete, gritaria que fossem levar para outro lugar o veneno de seu acasalamento. Era com os suspiros deles, com seus hálitos confundidos, que se tornara densa a tepidez úmida daquele quarto; o perfume penetrante que o sufocara era o cheiro de almíscar exalado pela pele de sua mulher, outro gosto perverso, uma necessidade carnal de fragrâncias violentas; e assim reencontrava o calor, o odor da fornicação, o adultério vivo, nos frascos espalhados, nas bacias ainda cheias, na desordem das roupas, dos móveis, do aposento inteiro, empesteado de vício. Uma fúria impotente lançou-o sobre a cama a socos; ele a massacrou, revolveu os lugares onde enxergava as marcas dos dois corpos, enfurecido com as cobertas arrancadas, com os lençóis amarrotados, moles e inertes sob seus golpes, como se também estivessem extenuados pelos amores de toda a noite.
Mas, de repente, julgou ouvir Hippolyte subindo outra vez. A vergonha o deteve. Permaneceu ainda um instante ofegante, enxugando a testa, acalmando os saltos do coração. De pé diante de um espelho, contemplou o próprio rosto, tão desfigurado que não o reconhecia. Depois, quando o viu apaziguar-se pouco a pouco, por um esforço supremo de vontade, desceu.
Embaixo, cinco mensageiros estavam de pé, além de Dansaert. Todos lhe traziam notícias de gravidade crescente sobre a marcha dos grevistas através das minas; e o capataz-chefe relatou longamente o que acontecera em Mirou, salva pela bela conduta do velho Quandieu. Ele escutava, balançava a cabeça, mas não ouvia; seu espírito permanecera lá em cima, no quarto. Por fim, dispensou-os, disse que tomaria providências. Quando se viu sozinho, sentado diante da escrivaninha, pareceu adormecer ali, com a cabeça entre as mãos e os olhos cobertos. O correio estava diante dele; decidiu procurar a carta esperada, a resposta da Administração, cujas linhas a princípio dançaram. No entanto, acabou compreendendo que aqueles senhores desejavam alguma desordem: certamente não lhe ordenavam que agravasse a situação, mas deixavam transparecer que tumultos apressariam o desfecho da greve, provocando uma repressão enérgica. A partir daí, não hesitou mais; enviou despachos para todos os lados, ao prefeito de Lille, ao corpo de tropas de Douai, à gendarmaria de Marchiennes. Foi um alívio; bastava-lhe trancar-se, chegou mesmo a espalhar o rumor de que sofria de gota. E, durante toda a tarde, escondeu-se no fundo do gabinete, sem receber ninguém, limitando-se a ler os telegramas e as cartas que continuavam a chover. Assim acompanhou de longe o bando, de Madeleine a Crèvecœur, de Crèvecœur à Victoire, da Victoire a Gaston-Marie. Por outro lado, chegavam-lhe informações sobre o desatino dos gendarmes e dos dragões, perdidos pelos caminhos, dando sem cessar as costas às minas atacadas. Podiam degolar-se e destruir tudo; ele tornara a enfiar a cabeça entre as mãos, os dedos sobre os olhos, e afundava no grande silêncio da casa vazia, onde apenas surpreendia, de vez em quando, o ruído das panelas da cozinheira, no auge da atividade para o jantar daquela noite.
O crepúsculo já escurecia o aposento; eram cinco horas quando um estrondo fez o sr. Hennebeau estremecer, aturdido, inerte, com os cotovelos ainda apoiados nos papéis. Pensou que os dois miseráveis voltavam. Mas o tumulto aumentava, e um grito explodiu, terrível, no instante em que ele se aproximava da janela.
— Pão! Pão! Pão!
Eram os grevistas que invadiam Montsou, enquanto os gendarmes, acreditando num ataque ao Voreux, galopavam de costas para eles, a fim de ocupar aquela mina.
Justamente a dois quilômetros das primeiras casas, um pouco abaixo da encruzilhada onde a estrada principal cruzava o caminho de Vandame, a senhora Hennebeau e as moças acabavam de assistir à passagem do bando. O dia em Marchiennes transcorrera alegremente: um almoço agradável na casa do diretor das Forjas, depois uma visita interessante às oficinas e a uma vidraria das proximidades, para ocupar a tarde; e, quando enfim regressavam, no declínio límpido de um belo dia de inverno, Cécile teve o capricho de beber uma xícara de leite ao avistar uma pequena fazenda à margem da estrada. Todas desceram então da carruagem, Négrel saltou galantemente do cavalo, enquanto a camponesa, aturdida com aquela gente tão distinta, se apressava, falando em pôr uma toalha antes de servir. Mas Lucie e Jeanne queriam ver o leite ser tirado; foram todos até o próprio estábulo com as xícaras, transformando aquilo num passeio campestre, rindo muito da palha onde os pés afundavam.
A senhora Hennebeau, com seu ar de maternidade complacente, bebia pela ponta dos lábios quando um ruído estranho, roncando do lado de fora, a inquietou.
O estábulo, construído à margem da estrada, tinha uma larga porta de carroça, pois servia também de celeiro. As moças já esticavam a cabeça, admiradas com o que distinguiam à esquerda, uma correnteza negra, uma turba que desembocava aos gritos pelo caminho de Vandame.
— Diabo! — murmurou Négrel, que também saíra. — Será que nossos berradores resolveram enfim se zangar?
— Talvez sejam outra vez os carvoeiros — disse a camponesa. — Já é a segunda vez que passam. Parece que as coisas não vão bem; eles são os donos da região.
Soltava cada palavra com prudência, espreitando o efeito nos rostos; e, ao perceber o medo de todos, a profunda ansiedade em que aquele encontro os lançava, apressou-se a concluir:
— Ah, os miseráveis! Ah, os miseráveis!
Négrel, vendo que era tarde demais para voltarem à carruagem e alcançarem Montsou, ordenou ao cocheiro que a levasse rapidamente para o pátio da fazenda, onde os cavalos ficaram escondidos atrás de um galpão. Ele próprio amarrou sob o galpão seu cavalo, cuja rédea um garoto segurara. Quando voltou, encontrou a tia e as moças desvairadas, prontas a seguir a camponesa, que lhes propunha refúgio dentro da casa. Mas julgou que estariam mais seguras ali; certamente ninguém iria procurá-las naquele feno. A porta de carroça, no entanto, fechava muito mal e tinha frestas tão largas que se via a estrada por entre as tábuas carcomidas.
— Vamos, coragem! — disse ele. — Venderemos caro a nossa vida.
A brincadeira aumentou o medo. O ruído crescia; ainda não se via nada e, sobre a estrada vazia, parecia soprar um vento de tempestade, semelhante às rajadas repentinas que precedem as grandes tormentas.
— Não, não, eu não quero olhar — disse Cécile, indo esconder-se no feno.
A senhora Hennebeau, muito pálida, tomada de cólera contra aquela gente que estragava um de seus prazeres, mantinha-se mais atrás, com um olhar oblíquo e enojado; enquanto Lucie e Jeanne, apesar de tremerem, encostavam os olhos numa fresta, desejosas de não perder nada do espetáculo.
O ribombar de trovão se aproximava, a terra estremeceu, e Jeanlin surgiu primeiro, galopando e soprando a corneta.
— Peguem seus frascos, é o suor do povo que passa! — murmurou Négrel, que, apesar de suas convicções republicanas, gostava de zombar da canalha diante das senhoras.
Mas sua frase espirituosa foi carregada pelo furacão de gestos e gritos. As mulheres apareceram, quase mil mulheres, de cabelos soltos, desgrenhados pela corrida, com andrajos que deixavam à mostra a pele nua, nudezes de fêmeas cansadas de parir condenados à fome. Algumas carregavam os filhos nos braços, erguiam-nos, agitavam-nos como bandeiras de luto e vingança. Outras, mais jovens, com peitos túmidos de guerreiras, brandiam bastões; enquanto as velhas, horrendas, berravam tão alto que as cordas de seus pescoços descarnados pareciam prestes a romper-se. Depois desabaram os homens, dois mil enfurecidos, galibots, cortadores, reparadores, uma massa compacta que rolava num só bloco, apertada, confundida, a ponto de já não se distinguirem as calças desbotadas nem os pulôveres de lã em farrapos, apagados na mesma uniformidade terrosa. Os olhos ardiam; viam-se apenas os buracos das bocas negras cantando a Marselhesa, cujas estrofes se perdiam num mugido confuso, acompanhado pelo bater dos tamancos sobre a terra dura. Acima das cabeças, no eriçar das barras de ferro, passou um machado, erguido inteiramente reto; e aquele machado único, semelhante ao estandarte do bando, desenhava no céu claro o perfil agudo de uma lâmina de guilhotina.
— Que rostos atrozes! — balbuciou a senhora Hennebeau.
Négrel disse entre os dentes:
— Que o diabo me carregue se reconheço um só deles! De onde saíram esses bandidos?
E, de fato, a cólera, a fome, aqueles dois meses de sofrimento e aquela correria enfurecida através das minas haviam alongado em mandíbulas de feras os rostos pacatos dos carvoeiros de Montsou. Naquele momento, o sol se punha; os últimos raios, de uma púrpura sombria, ensanguentavam a planície. Então a estrada pareceu transportar sangue; mulheres e homens continuavam galopando, ensanguentados como açougueiros em plena matança.
— Ah, magnífico! — disseram a meia-voz Lucie e Jeanne, comovidas, em seu gosto de artistas, por aquela bela atrocidade.
No entanto, assustavam-se; recuaram para junto da senhora Hennebeau, que se apoiara num cocho. A ideia de que bastaria um olhar por entre as tábuas daquela porta mal ajustada para que fossem massacrados gelava-a. Négrel sentia-se empalidecer também, embora normalmente fosse muito corajoso, tomado ali por um terror superior à própria vontade, um desses terrores soprados pelo desconhecido. No feno, Cécile já não se movia. E os outros, apesar do desejo de desviar os olhos, não conseguiam; continuavam olhando.
Era a visão vermelha da revolução que fatalmente os levaria a todos, numa noite sangrenta daquele fim de século. Sim, uma noite, o povo solto, desenfreado, galoparia assim pelos caminhos; e escorreria o sangue dos burgueses. Levaria cabeças em cortejo, espalharia o ouro dos cofres arrombados. As mulheres berrariam, os homens teriam aquelas mandíbulas de lobos, abertas para morder. Sim, seriam os mesmos andrajos, o mesmo trovão dos tamancos pesados, a mesma turba horrenda de pele suja e hálito pestilento, varrendo o velho mundo sob o ímpeto transbordante dos bárbaros. Incêndios flamejariam, não restaria de pé uma única pedra das cidades; voltariam à vida selvagem dos bosques, depois do grande cio, da grande comilança em que os pobres, numa só noite, emprenhariam as mulheres e esvaziariam as adegas dos ricos. Nada mais haveria, nem um vintém das fortunas, nem um título das posições adquiridas, até o dia em que uma terra nova talvez tornasse a brotar. Sim, eram essas coisas que passavam pela estrada, como uma força da natureza, e eles recebiam no rosto seu vento terrível.
Um grande grito se ergueu, dominando a Marselhesa:
— Pão! Pão! Pão!
Lucie e Jeanne se apertaram contra a senhora Hennebeau, quase desfalecida, enquanto Négrel se colocava diante delas, como para protegê-las com o corpo. Seria naquela mesma noite que a antiga sociedade começaria a ruir? E o que viram então terminou de deixá-los estupefatos. O bando passava, restava apenas a cauda dos retardatários, quando a Mouquette surgiu. Ela ficava para trás, espreitava os burgueses nas portas dos jardins e nas janelas das casas; e, quando descobria algum, não podendo cuspir-lhe no rosto, mostrava-lhe aquilo que para ela constituía o supremo desprezo. Sem dúvida avistou um, pois de repente ergueu as saias, estendeu as nádegas e mostrou o enorme traseiro nu no último clarão do sol. Não havia obscenidade naquele traseiro, e ele não fazia rir; era feroz.
Tudo desapareceu. A correnteza rolava sobre Montsou, acompanhando as curvas da estrada, por entre as casas baixas, pintadas de cores vivas. Tiraram a carruagem do pátio, mas o cocheiro não se atrevia a assumir a responsabilidade de levar a senhora e as moças em segurança, caso os grevistas dominassem o calçamento. E o pior era que não havia outro caminho.
— Ainda assim, precisamos voltar; o jantar nos espera — disse a senhora Hennebeau, fora de si, exasperada pelo medo. — Esses operários imundos escolheram justamente um dia em que tenho convidados. Depois ainda querem que façamos o bem a essa gente!
Lucie e Jeanne ocupavam-se em retirar Cécile do feno; ela se debatia, acreditando que os selvagens ainda desfilavam sem parar e repetindo que não queria ver. Por fim, todas retomaram seus lugares na carruagem. Négrel, montando outra vez no cavalo, teve então a ideia de passar pelas vielas de Réquillart.
— Vá devagar — disse ao cocheiro —, porque o caminho é horrível. Caso alguns grupos impeçam seu retorno à estrada mais adiante, pare atrás da velha mina, e nós entraremos a pé pela pequena porta do jardim, enquanto você guarda a carruagem e os cavalos em qualquer lugar, sob o galpão de alguma estalagem.
Partiram. Ao longe, o bando escorria por Montsou. Desde que haviam visto, por duas vezes, gendarmes e dragões, os habitantes se agitavam, enlouquecidos de pânico. Circulavam histórias abomináveis; falava-se em cartazes manuscritos que ameaçavam abrir o ventre dos burgueses. Ninguém os lera, mas nem por isso deixavam de citar frases textuais. Na casa do tabelião, sobretudo, o terror chegara ao auge, pois ele acabava de receber pelo correio uma carta anônima avisando que havia um barril de pólvora enterrado em sua adega, pronto para fazê-lo voar pelos ares caso não se declarasse a favor do povo.
Justamente os Grégoire, retardados na visita pela chegada daquela carta, discutiam-na, considerando-a obra de algum brincalhão, quando a invasão do bando terminou de apavorar a casa. Eles, porém, sorriam. Olhavam afastando a ponta de uma cortina e recusavam-se a admitir qualquer perigo, certos, diziam, de que tudo acabaria amigavelmente. Batiam cinco horas; tinham tempo de esperar que o calçamento ficasse livre para irem jantar em frente, na casa dos Hennebeau, onde Cécile, certamente já de volta, devia esperá-los. Mas, em Montsou, ninguém parecia compartilhar sua confiança: pessoas desvairadas corriam, portas e janelas se fechavam violentamente. Avistaram Maigrat, do outro lado da estrada, barricando a loja com grande reforço de barras de ferro, tão pálido e trêmulo que sua pequena mulher franzina era obrigada a apertar as porcas.
O bando fizera alto diante do palacete do diretor; o grito retumbava:
— Pão! Pão! Pão!
O sr. Hennebeau estava de pé junto à janela quando Hippolyte entrou para fechar as venezianas, temendo que as vidraças fossem quebradas a pedradas. Fechou do mesmo modo todas as do térreo; depois passou ao primeiro andar, e ouviu-se, uma após outra, o ranger das cremoneiras e o bater das venezianas. Infelizmente, não se podia fechar da mesma maneira a abertura da cozinha no subsolo, uma abertura inquietante onde avermelhavam os fogos das panelas e do espeto.
Maquinalmente, o sr. Hennebeau, que queria ver, tornou a subir ao segundo andar, ao quarto de Paul. Era o melhor lugar, à esquerda, pois permitia enxergar a estrada até os Depósitos da Companhia. E ficou atrás da veneziana, dominando a multidão. Mas o quarto tornara a abalá-lo: a penteadeira enxuta e arrumada, a cama fria, com os lençóis limpos e bem esticados. Toda a cólera da tarde, aquela batalha furiosa no fundo do grande silêncio de sua solidão, terminava agora numa fadiga imensa. Seu ser já se encontrava como aquele quarto, resfriado, varrido das imundícies da manhã, devolvido à correção habitual. Para que um escândalo? Por acaso alguma coisa mudara em sua casa? Sua mulher tinha apenas um amante a mais; o fato mal se agravava por ela tê-lo escolhido dentro da família. Talvez houvesse nisso até uma vantagem, pois assim preservava as aparências. Começava a sentir pena de si mesmo ao recordar sua loucura ciumenta. Que ridículo ter espancado aquela cama a socos! Já que tolerara outro homem, toleraria também aquele. Seria apenas mais um pouco de desprezo. Uma amargura atroz lhe envenenava a boca: a inutilidade de tudo, a dor eterna da existência, a vergonha de si próprio, que ainda adorava e desejava aquela mulher, dentro da sujeira em que a abandonava.
Sob a janela, os berros explodiram com violência redobrada:
— Pão! Pão! Pão!
— Imbecis! — disse o sr. Hennebeau entre os dentes cerrados.
Ouvia-os insultá-lo por causa de seus altos vencimentos, chamá-lo de preguiçoso e barrigudo, porco imundo que se empanturrava de coisas boas enquanto o operário morria de fome. As mulheres haviam avistado a cozinha, e uma tempestade de imprecações caiu sobre o faisão que assava, sobre os molhos cujo cheiro gorduroso devastava seus estômagos vazios. Ah, aqueles canalhas de burgueses! Enfiariam neles champanhe e trufas até lhes fazer estourar as tripas.
— Pão! Pão! Pão!
— Imbecis! — repetiu o sr. Hennebeau. — Por acaso eu sou feliz?
Uma cólera o erguia contra aquela gente que não compreendia. Teria dado de bom grado seus altos vencimentos para possuir, como eles, o couro duro, o acasalamento fácil e sem remorso. Por que não podia sentá-los à mesa, empanturrá-los com o faisão, enquanto ele sairia para fornicar atrás das sebes, derrubar moças, zombando de quem as derrubara antes dele? Teria dado tudo, sua educação, seu bem-estar, seu luxo, seu poder de diretor, se pudesse ser, por um dia, o último dos miseráveis que lhe obedeciam, livre em sua carne, grosseiro o bastante para esbofetear a mulher e buscar prazer nas vizinhas. Desejava também morrer de fome, ter o ventre vazio, o estômago retorcido por cãibras que abalassem o cérebro com vertigens; talvez isso matasse a dor eterna. Ah, viver como um bruto, nada possuir, copular no trigo com a transportadora mais feia e mais suja e ser capaz de se satisfazer com ela!
— Pão! Pão! Pão!
Então ele se enfureceu e gritou violentamente no meio do estrondo:
— Pão! Será que basta, imbecis?
Ele comia e nem por isso deixava de agonizar de sofrimento. Seu casamento devastado, toda a sua vida dolorida, subiam-lhe à garganta num soluço de morte. Nem tudo estava resolvido porque se tinha pão. Qual era o idiota que punha a felicidade do mundo na divisão das riquezas? Aqueles revolucionários sonhadores podiam demolir a sociedade e construir outra; não acrescentariam uma única alegria à humanidade, não lhe retirariam uma única aflição, repartindo uma fatia de pão para cada um. Ampliariam até a infelicidade da terra; fariam um dia os próprios cães uivarem de desespero, quando os houvessem arrancado da tranquila satisfação dos instintos para elevá-los ao sofrimento insaciável das paixões. Não, o único bem era não existir; e, caso se existisse, ser árvore, ser pedra, menos ainda, ser grão de areia, incapaz de sangrar sob o calcanhar dos passantes.
Na exasperação de seu tormento, lágrimas incharam os olhos do sr. Hennebeau e rebentaram em gotas ardentes ao longo de suas faces. O crepúsculo afogava a estrada quando as pedras começaram a crivar a fachada do palacete. Já sem cólera contra aqueles famintos, enfurecido apenas pela chaga ardente do coração, continuava balbuciando entre as lágrimas:
— Os imbecis! Os imbecis!
Mas o grito dos ventres dominou tudo, um uivo soprou como tempestade, varrendo o resto:
— Pão! Pão! Pão!