QUINTA PARTE — Capítulo II
QUINTA PARTE
Capítulo II
Em Jean-Bart, Catherine já conduzia vagonetas havia uma hora, empurrando-as até o revezamento; e estava molhada por tamanho dilúvio de suor que parou por um instante para enxugar o rosto.
Do fundo da frente de lavra, onde golpeava o veio ao lado dos companheiros da empreitada, Chaval se surpreendeu quando deixou de ouvir o estrondo das rodas. As lâmpadas ardiam mal, e a poeira de carvão impedia que se enxergasse.
— O que foi? — gritou.
Quando ela respondeu que certamente derreteria e que sentia o coração se desprender, ele replicou furiosamente:
— Idiota, faça como nós, tire a camisa!
Era a setecentos e oito metros, ao norte, na primeira galeria do veio Désirée, separada do patamar de acesso por três quilômetros. Quando falavam daquela região da mina, os trabalhadores do lugar empalideciam e baixavam a voz, como se falassem do inferno; e, na maioria das vezes, limitavam-se a balançar a cabeça, homens que preferiam não conversar sobre aquelas profundezas de brasas ardentes.
À medida que as galerias avançavam para o norte, aproximavam-se do Tartaret, penetravam no incêndio interno que, lá em cima, calcinava as rochas. As frentes de lavra, no ponto a que haviam chegado, tinham temperatura média de quarenta e cinco graus. Estavam em plena cidade maldita, no meio das chamas que os viajantes da planície viam pelas fendas, cuspindo enxofre e vapores abomináveis.
Catherine, que já tirara a jaqueta, hesitou; depois também tirou as calças. De braços nus, coxas nuas, com a camisa apertada nos quadris por uma corda, como uma blusa, recomeçou a empurrar.
— Assim vai ficar melhor — disse em voz alta.
Dentro daquela sufocação, sentia um medo vago. Havia cinco dias que trabalhavam ali, e ela se lembrava das histórias que haviam embalado sua infância, das condutoras de vagonetas de antigamente que ardiam sob o Tartaret, castigadas por coisas que ninguém ousava repetir. Sem dúvida, já era grande demais para acreditar em semelhantes tolices; mas, ainda assim, o que faria se de repente visse sair da parede uma moça vermelha como uma chapa de fogão, com olhos iguais a carvões em brasa? A ideia redobrava-lhe o suor.
No revezamento, a oitenta metros da frente de lavra, outra condutora pegava a vagoneta e a empurrava mais oitenta metros, até o pé do plano inclinado, para que o recebedor a enviasse junto com as que desciam das galerias superiores.
— Ora essa! Está se pondo à vontade — disse a mulher, uma viúva magra de trinta anos, ao ver Catherine de camisa. — Eu não posso, os galibots do plano ficam me atormentando com imundícies.
— Ah, ora! — respondeu a jovem. — Não me importo com os homens! Estou sofrendo demais.
Partiu novamente, empurrando uma vagoneta vazia. O pior era que, naquela galeria profunda, outra causa se somava à proximidade do Tartaret para tornar o calor insuportável. Atravessavam antigos trabalhos, uma galeria abandonada de Gaston-Marie, muito profunda, onde uma explosão de grisú, dez anos antes, incendiara o veio, que continuava ardendo atrás do “corroi”, o muro de argila construído ali e continuamente reparado para limitar o desastre.
Privado de ar, o fogo deveria ter se apagado; mas, sem dúvida, correntes desconhecidas o avivavam. Mantinha-se havia dez anos, aquecendo a argila do corroi como se aquecem tijolos num forno, a ponto de se receber sua queimadura ao passar. E era ao longo daquele muro, por mais de cem metros, que se fazia o transporte, numa temperatura de sessenta graus.
Depois de duas viagens, Catherine tornou a sufocar. Felizmente, a galeria era larga e cômoda naquele veio Désirée, um dos mais espessos da região. A camada media um metro e noventa, os operários podiam trabalhar de pé. Mas teriam preferido trabalhar de pescoço torto e sentir um pouco de frescor.
— Então, está dormindo? — retomou Chaval violentamente, assim que deixou de ouvir Catherine se mexer. — Quem foi que me arranjou uma imprestável dessas? Encha a vagoneta e empurre!
Ela estava na base da frente, apoiada na pá; e um mal-estar a invadia enquanto olhava para todos com expressão embrutecida, sem obedecer. Via-os mal, sob a luz avermelhada das lâmpadas, inteiramente nus como animais, tão negros, tão cobertos de suor e carvão, que a nudez deles não a constrangia. Era um trabalho obscuro, costas de macacos que se retesavam, uma visão infernal de membros tostados, exaurindo-se em meio a golpes surdos e gemidos.
Mas eles sem dúvida a viam melhor, pois as picaretas pararam de bater, e começaram a zombar porque ela tirara as calças.
— Ei, vai resfriar isso aí, tome cuidado!
— Ela tem pernas de verdade! Escute, Chaval, há carne para dois!
— Ah, seria preciso conferir. Levante isso. Mais alto! Mais alto!
Então Chaval, sem se irritar com as risadas, tornou a atacá-la:
— Já terminou, com mil diabos?... Ah, para ouvir imundícies ela serve. Ficaria aí até amanhã escutando.
Com dificuldade, Catherine decidiu encher a vagoneta; depois a empurrou. A galeria era larga demais para que ela se escorasse nos dois lados das madeiras, seus pés descalços se torciam sobre os trilhos, buscando um ponto de apoio, enquanto avançava lentamente, com os braços rígidos para a frente e o corpo dobrado.
E, assim que passava junto ao corroi, o suplício do fogo recomeçava. O suor caía imediatamente de todo o corpo em gotas enormes, como chuva de tempestade. Mal percorrera um terço do revezamento e já escorria, cega, coberta também por uma lama negra. A camisa estreita, como se estivesse mergulhada em tinta, colava-se à pele e subia até os rins com o movimento das coxas; apertava-a com tamanha dor que ela precisou abandonar novamente o trabalho.
O que tinha naquele dia? Nunca sentira semelhante algodão dentro dos ossos. Devia ser ar ruim. A ventilação não chegava ao fundo daquela galeria distante. Respiravam toda espécie de vapores que saíam do carvão com um pequeno ruído borbulhante de nascente, às vezes tão abundantes que as lâmpadas se recusavam a arder; sem falar no grisú, ao qual já não davam atenção, tanto o veio soprava na cara dos operários de uma quinzena à outra.
Ela conhecia bem aquele ar ruim, aquele ar morto, como diziam os mineiros: embaixo, os gases pesados da asfixia; em cima, os gases leves que se inflamavam e fulminavam todos os canteiros de uma mina, centenas de homens, num único trovão. Desde criança, engolira tanto daquilo que se espantava de suportá-lo tão mal, com os ouvidos zumbindo e a garganta em fogo.
Sem conseguir mais resistir, sentiu necessidade de tirar a camisa. Aquele tecido transformava-se em tortura, os menores vincos a cortavam, queimavam. Resistiu, quis empurrar outra vez, mas foi obrigada a tornar a se levantar.
Então, rapidamente, dizendo a si mesma que se cobriria no revezamento, tirou tudo, a corda, a camisa, tão febril que teria arrancado a própria pele, se pudesse. E, agora nua, lastimável, rebaixada ao trote da fêmea que busca a vida na lama dos caminhos, trabalhava com as nádegas cobertas de fuligem, enlameada até o ventre, como uma égua de fiacre. De quatro, empurrava.
Mas o desespero a tomou, pois não sentia alívio por estar nua. O que ainda poderia tirar? O zumbido dos ouvidos a ensurdecia, parecia-lhe que uma prensa apertava suas têmporas. Caiu de joelhos. A lâmpada, presa no carvão da vagoneta, pareceu-lhe se apagar. Apenas a intenção de aumentar o pavio flutuava no meio das ideias confusas.
Duas vezes tentou examiná-la, e, nas duas, à medida que a colocava no chão diante de si, viu-a empalidecer, como se também lhe faltasse ar. De repente, a lâmpada se apagou.
Então tudo girou no fundo das trevas, uma mó rodava dentro de sua cabeça, o coração desfalecia, parava de bater, entorpecido pela fadiga imensa que adormecia seus membros. Tombara para trás, agonizava no ar asfixiante, rente ao chão.
— Com mil diabos, acho que ela está outra vez vadiando — resmungou a voz de Chaval.
Escutou do alto da frente de lavra, mas não ouviu o ruído das rodas.
— Ei, Catherine, maldita serpente!
A voz se perdeu ao longe, na galeria negra, e nenhuma respiração respondeu.
— Quer que eu vá fazê-la se mexer?
Nada se movia, persistia o mesmo silêncio de morte. Furioso, ele desceu e correu com a lâmpada, tão violentamente que quase tropeçou no corpo da condutora, estendido de través na galeria. Ficou olhando para ela, de boca aberta. O que tinha? Não seria fingimento, uma maneira de tirar uma soneca? Mas a lâmpada, que abaixara para iluminar-lhe o rosto, ameaçou apagar-se. Ergueu-a, tornou a baixá-la e finalmente compreendeu: devia ser um golpe de ar ruim.
Sua violência desapareceu. A solidariedade do mineiro despertava diante da companheira em perigo. Já gritava para que lhe trouxessem a camisa; e, agarrando nos braços a moça nua e desacordada, erguia-a o mais alto possível. Quando lhe atiraram as roupas sobre os ombros, partiu correndo, sustentando o corpo com uma das mãos e carregando as duas lâmpadas na outra.
As galerias profundas se desenrolavam. Ele galopava, virava à direita, virava à esquerda, procurando a vida no ar gelado da planície, soprado pelo ventilador. Por fim, um ruído de nascente o deteve, o gotejar de uma infiltração que escorria da rocha. Encontrava-se no cruzamento de uma grande galeria de transporte que antigamente servira a Gaston-Marie. A ventilação soprava ali como vento de tempestade, e o frescor era tão intenso que ele estremeceu ao sentar no chão, encostada às madeiras, a amante ainda inconsciente, de olhos fechados.
— Catherine, vamos, com mil diabos, nada de brincadeira... Fique firme enquanto molho isto na água.
Assustava-se ao vê-la tão flácida. Mesmo assim, conseguiu molhar a camisa na nascente e lavou-lhe o rosto. Ela parecia morta, já enterrada no fundo da terra, com o corpo franzino de menina tardia, no qual as formas da puberdade ainda hesitavam. Depois, um tremor percorreu-lhe o peito infantil, o ventre e as coxas de pequena miserável, deflorada antes do tempo. Abriu os olhos e balbuciou.
— Ah, assim está melhor! — exclamou Chaval, aliviado.
Vestiu-a, enfiou facilmente a camisa e praguejou com a dificuldade de passar-lhe as calças, pois ela mal conseguia ajudar. Continuava atordoada, não compreendia onde estava nem por que se encontrava nua. Quando se lembrou, sentiu vergonha. Como ousara tirar tudo? E o interrogava: tinham-na visto daquele jeito, sem sequer um lenço na cintura para se esconder?
Ele, que ria, inventava histórias, dizendo que acabara de carregá-la por entre todos os companheiros, alinhados em duas filas. Também, que ideia ter seguido o conselho dele e posto o traseiro para fora! Depois garantiu que os camaradas nem deviam saber se ela o tinha redondo ou quadrado, de tão depressa que ele passara.
— Diabo, estou morrendo de frio — disse, vestindo-se também.
Ela nunca o vira tão gentil. Em geral, para cada boa palavra que lhe dizia, recebia logo duas grosserias. Teria sido tão bom viverem em harmonia! Uma ternura a penetrava, na languidez da fadiga. Sorriu para ele e murmurou.
Ele a beijou e deitou-se ao seu lado, esperando que pudesse caminhar.
— Veja — retomou ela —, você fez mal em gritar lá, porque eu realmente não aguentava mais! Na frente de lavra, pelo menos, vocês sentem menos calor; mas, se soubesse como a gente cozinha no fundo da galeria!
— É claro — respondeu ele. — Você sofre muito nesse serviço, disso eu sei, minha pobre menina.
Ela ficou tão comovida ao ouvi-lo reconhecer aquilo que se mostrou valente.
— Oh, foi só um mal-estar. Além disso, hoje o ar está envenenado... Mas você vai ver, daqui a pouco, se sou uma serpente. Quando é preciso trabalhar, a gente trabalha, não é? Eu preferiria morrer ali a abandonar o serviço.
Houve silêncio. Ele a segurava pela cintura com um braço, apertando-a contra o peito para impedir que adoecesse. Ela, embora já sentisse forças para voltar à frente de lavra, abandonava-se com delícia.
— Só queria — continuou muito baixo — que você fosse mais gentil... Sim, a gente fica tão feliz quando existe um pouco de amor.
E começou a chorar suavemente.
— Mas eu amo você! — gritou ele. — Não a trouxe para morar comigo?
Ela respondeu apenas balançando a cabeça. Muitas vezes, havia homens que tomavam mulheres simplesmente para possuí-las, sem se importar com a felicidade delas. Suas lágrimas escorriam mais quentes. Agora se desesperava ao pensar na boa vida que teria levado se tivesse encontrado outro rapaz, cujo braço sentiria sempre passado daquele modo em torno da cintura.
Outro? E a imagem vaga desse outro se erguia em sua grande emoção. Mas estava acabado, só lhe restava desejar viver até o fim com aquele, se ele ao menos concordasse em não maltratá-la tanto.
— Então — disse ela —, tente ser assim de vez em quando.
Os soluços lhe cortaram a palavra, e ele tornou a beijá-la.
— Como você é tola!... Veja, juro que serei gentil. Não sou mais malvado do que os outros, pode acreditar!
Ela o olhava e tornava a sorrir entre as lágrimas. Talvez ele tivesse razão, não se encontravam muitas mulheres felizes. Depois, embora desconfiasse do juramento, entregava-se à alegria de vê-lo amável. Meu Deus, se aquilo pudesse durar!
Os dois haviam recuperado as forças; e, quando se apertavam num longo abraço, alguns passos os fizeram se levantar. Três companheiros, que os haviam visto passar, chegavam para saber o que acontecera.
Voltaram juntos. Eram quase dez horas, e almoçaram num canto fresco antes de recomeçar a suar no fundo da frente de lavra. Mas terminavam as duas fatias de pão da marmita e se preparavam para beber um gole de café na garrafa quando um rumor vindo dos trabalhos distantes os inquietou.
O que seria? Outro acidente? Levantaram-se e correram. Cortadores de carvão, condutoras de vagonetas e galibots cruzavam com eles a cada instante; nenhum sabia de nada, todos gritavam que devia ter acontecido uma grande desgraça. Pouco a pouco, a mina inteira se apavorava, sombras enlouquecidas saíam das galerias, as lanternas dançavam, fugiam pelas trevas. Onde era? Por que ninguém dizia?
De repente, um porion passou gritando:
— Estão cortando os cabos! Estão cortando os cabos!
Então a paníco soprou. Foi um galope furioso através das galerias escuras. Todos perdiam a cabeça. Por que cortavam os cabos? E quem os cortava, quando os homens estavam no fundo? Aquilo parecia monstruoso.
Mas a voz de outro porion explodiu e depois se perdeu:
— Os de Montsou estão cortando os cabos! Que todos saiam!
Quando compreendeu, Chaval deteve Catherine bruscamente. A ideia de que encontraria lá em cima os homens de Montsou, caso saísse, entorpecia-lhe as pernas. Então o bando que ele julgava detido pelos gendarmes havia chegado! Por um instante, pensou em voltar e subir por Gaston-Marie; mas o mecanismo já não funcionava naquele poço. Praguejava, hesitava, escondendo o medo, repetindo que era uma estupidez correr daquela maneira. Não os deixariam no fundo, certamente!
A voz do porion ressoou novamente, agora mais próxima:
— Que todos saiam! Para as escadas! Para as escadas!
E Chaval foi arrastado com os companheiros. Empurrou Catherine, acusou-a de não correr com rapidez suficiente. Ela queria que ficassem sozinhos na mina, morrendo de fome? Porque os bandidos de Montsou eram capazes de quebrar as escadas antes que todos saíssem.
Aquela suposição abominável acabou de enlouquecê-los. Pelas galerias, só restou uma debandada furiosa, uma corrida de loucos para chegar primeiro e subir antes dos outros. Homens gritavam que as escadas estavam quebradas, que ninguém sairia.
E, quando começaram a desembocar em grupos apavorados na sala do patamar de acesso, houve um verdadeiro engolfamento. Atiravam-se para o poço, esmagavam-se diante da porta estreita do goyot das escadas; enquanto um velho tratador, que prudentemente acabara de recolher os cavalos ao estábulo, observava-os com indiferença desdenhosa, habituado a passar noites na mina, certo de que sempre acabariam tirando-o dali.
— Com mil diabos, suba na minha frente! — disse Chaval a Catherine. — Pelo menos eu a seguro se cair.
Atordoada, sufocada por aquela corrida de três quilômetros que outra vez a ensopara de suor, ela se abandonava sem compreender aos movimentos da multidão. Então ele a puxou pelo braço, quase o quebrando; e ela soltou uma queixa, as lágrimas jorraram. Ele já esquecia o juramento, ela nunca seria feliz.
— Passe logo! — berrou.
Mas ele lhe causava medo demais. Se subisse à frente, ele a maltrataria durante todo o trajeto. Por isso resistia, enquanto a corrente enlouquecida dos companheiros os empurrava para o lado. As infiltrações do poço caíam em gotas grossas, e o piso do patamar, sacudido pelo pisoteio, tremia acima do bougnou, o sumidouro lodoso de dez metros de profundidade.
Justamente em Jean-Bart, dois anos antes, um acidente terrível, o rompimento de um cabo, lançara a gaiola no fundo do bougnou, onde dois homens haviam se afogado. E todos pensavam nisso. Ficariam ali, se continuassem a se amontoar sobre as tábuas.
— Maldita cabeça dura! — gritou Chaval. — Morra, então, e ficarei livre!
Subiu, e ela o seguiu.
Do fundo até a superfície, havia cento e duas escadas, com cerca de sete metros cada uma, apoiadas em estreitos patamares que ocupavam a largura do goyot e nos quais uma abertura quadrada mal permitia a passagem dos ombros. Era como uma chaminé achatada de setecentos metros de altura, entre a parede do poço e a divisória do compartimento de extração, um tubo úmido, negro e interminável, no qual as escadas se sobrepunham, quase verticais, em níveis regulares. Um homem robusto precisava de vinte e cinco minutos para subir aquela coluna gigantesca. Aliás, o goyot só era utilizado em caso de catástrofe.
No começo, Catherine subiu com vigor. Seus pés descalços, acostumados aos fragmentos cortantes de carvão das galerias, não sofriam nos degraus quadrados, revestidos por uma barra de ferro que impedia o desgaste. Suas mãos, endurecidas pelo transporte, agarravam sem cansaço os montantes, grossos demais para elas.
Aquilo até a distraía, afastava-a da tristeza, aquela subida imprevista, aquela longa serpente de homens que avançava e se erguia, três em cada escada, de modo que a cabeça alcançaria a superfície quando a cauda ainda se arrastasse sobre o bougnou. Ainda não haviam chegado a isso, os primeiros deviam estar apenas no terço inicial do poço. Ninguém falava mais, apenas os pés produziam um ruído surdo; enquanto as lâmpadas, semelhantes a estrelas viajantes, espaçavam-se de baixo a cima numa linha cada vez mais comprida.
Atrás de si, Catherine ouviu um galibot contar as escadas. Isso lhe deu a ideia de contá-las também. Já haviam subido quinze e chegavam a um patamar. Mas, no mesmo instante, ela bateu com as pernas nas de Chaval. Ele praguejou, mandando-a tomar cuidado.
De ponto em ponto, toda a coluna parava, imobilizava-se. O que era? O que acontecia? E cada um reencontrava a voz para perguntar e se apavorar. A angústia aumentava desde o fundo. O desconhecido lá de cima os estrangulava ainda mais à medida que se aproximavam da superfície.
Alguém anunciou que precisavam descer, que as escadas estavam quebradas. Era a preocupação de todos, o medo de se encontrarem diante do vazio. Outra explicação desceu de boca em boca: um cortador de carvão havia escorregado de um degrau. Ninguém sabia ao certo, os gritos impediam que se ouvisse. Dormiriam ali?
Por fim, sem que ficassem mais bem informados, a subida recomeçou, no mesmo movimento lento e penoso, em meio ao rolar dos pés e à dança das lâmpadas. Com certeza, encontrariam as escadas quebradas mais acima.
Na trigésima segunda escada, quando ultrapassavam o terceiro patamar, Catherine sentiu as pernas e os braços endurecerem. A princípio, experimentara leves formigamentos na pele. Agora perdia a sensação do ferro e da madeira sob os pés e nas mãos. Uma dor vaga, pouco a pouco ardente, aquecia-lhe os músculos.
E, na vertigem que a invadia, recordava as histórias do avô Bonnemort sobre o tempo em que não havia goyot e meninas de dez anos retiravam o carvão sobre os ombros, subindo por escadas expostas. Quando uma delas escorregava, ou quando simplesmente um pedaço de hulha caía de um cesto, três ou quatro crianças despencavam juntas, de cabeça para baixo.
As cãibras dos membros se tornavam insuportáveis. Nunca chegaria ao fim.
Novas paradas permitiram-lhe respirar. Mas o terror que a cada vez soprava do alto acabava de atordoá-la. Acima e abaixo, as respirações se embaraçavam, uma vertigem se desprendia daquela ascensão interminável, cuja náusea a sacudia com os outros. Sufocava, embriagada de trevas, exasperada pelas paredes apertadas contra sua carne.
Também tremia por causa da umidade, o corpo suado sob as gotas grossas que a encharcavam. Aproximavam-se do nível, a chuva batia tão forte que ameaçava apagar as lâmpadas.
Duas vezes, Chaval interrogou Catherine sem obter resposta. O que fazia lá embaixo, teria deixado a língua cair? Podia ao menos dizer se continuava aguentando. Subiam havia meia hora; mas tão lentamente que estavam apenas na quinquagésima nona escada. Ainda faltavam quarenta e três.
Catherine finalmente balbuciou que continuava firme. Ele a chamaria de serpente se ela confessasse o cansaço. O ferro dos degraus devia estar abrindo seus pés, parecia-lhe que a serravam até o osso. Depois de cada movimento, esperava ver as mãos soltarem os montantes, esfoladas e rígidas a ponto de já não conseguir fechar os dedos; e acreditava que cairia para trás, com os ombros arrancados, as coxas deslocadas pelo esforço contínuo.
Sofria sobretudo com a pouca inclinação das escadas, quase verticais, que a obrigavam a erguer-se pela força dos pulsos, com o ventre colado à madeira. O arquejar das respirações agora encobria o ruído dos passos. Um estertor enorme, multiplicado pela divisória do goyot, erguia-se do fundo e expirava na superfície.
Ouviu-se um gemido, palavras circularam: um galibot acabara de abrir o crânio na aresta de um patamar.
E Catherine subia. Ultrapassaram o nível. A chuva cessara, uma neblina tornava pesado o ar de adega, envenenado pelo cheiro de ferro velho e madeira úmida. Maquinalmente, ela insistia em contar em voz baixa:
— Oitenta e uma, oitenta e duas, oitenta e três...
Ainda dezenove. Apenas aqueles números, repetidos no balanço rítmico, continuavam a sustentá-la. Já não tinha consciência dos movimentos. Quando erguia os olhos, as lâmpadas giravam em espiral. Seu sangue escorria, sentia-se morrer, o menor sopro a precipitaria.
O pior era que os de baixo agora empurravam, e toda a coluna se lançava para cima, cedendo à cólera crescente do cansaço, à necessidade furiosa de rever o sol. Os primeiros companheiros haviam saído, portanto não existiam escadas quebradas; mas a ideia de que ainda poderiam quebrá-las, impedindo os últimos de subir quando outros já respiravam lá em cima, acabava de enlouquecê-los.
E, quando houve nova parada, explodiram palavrões. Todos continuaram a subir, empurrando-se, passando sobre os corpos, cada um tentando chegar a qualquer custo.
Então Catherine caiu. Gritara o nome de Chaval num apelo desesperado. Ele não ouviu, estava brigando, enterrando o calcanhar nas costelas de um companheiro para passar à frente. Ela rolou, foi pisoteada.
Durante o desmaio, sonhava. Parecia-lhe que era uma das pequenas condutoras de antigamente e que um pedaço de carvão, escorregado de um cesto acima dela, acabava de lançá-la ao fundo do poço, como um pardal atingido por uma pedra.
Restavam apenas cinco escadas, e haviam levado quase uma hora. Ela nunca soube como chegou à superfície, carregada sobre ombros, mantida pela compressão do goyot.
De repente, encontrou-se num deslumbramento de sol, no meio de uma multidão aos gritos que a vaiava.