QUARTA PARTE — Capítulo VII Germinal · Capítulo 23 de 40
Obra Menu

QUARTA PARTE — Capítulo VII

QUARTA PARTE

Capítulo VII

Era no Plan-des-Dames, naquela vasta clareira aberta por um corte recente de árvores. Estendia-se por uma encosta suave, cercada por um bosque alto de faias soberbas, cujos troncos retos e regulares a envolviam numa colunata branca, esverdeada de líquens; e gigantes abatidos ainda jaziam na relva, enquanto, à esquerda, uma pilha de madeira cortada erguia seu cubo geométrico. O frio se aguçava com o crepúsculo, os musgos gelados estalavam sob os passos. Junto ao chão, a noite era negra; os galhos mais altos recortavam-se contra o céu pálido, onde a lua cheia, subindo no horizonte, logo apagaria as estrelas.

Quase três mil mineiros haviam acudido ao encontro, uma multidão fervilhante de homens, mulheres e crianças, enchendo pouco a pouco a clareira, transbordando para longe sob as árvores; e os retardatários continuavam chegando, a maré de cabeças, afogada na sombra, alargava-se até os matagais vizinhos. Dela saía um bramido semelhante ao vento de tempestade naquela floresta imóvel e gelada.

No alto, dominando a encosta, Étienne estava com Rasseneur e Maheu. Surgira uma discussão, suas vozes eram ouvidas em súbitas explosões. Perto deles, alguns homens escutavam: Levaque de punhos cerrados; Pierron de costas, muito inquieto por não ter conseguido alegar febres por mais tempo; e estavam também ali o pai Bonnemort e o velho Mouque, lado a lado sobre um toco, com ar de profunda reflexão. Mais atrás, encontravam-se os zombadores, Zacharie, Mouquet e outros, vindos para rir; enquanto as mulheres, ao contrário, recolhidas, graves como na igreja, formavam um grupo. A Maheude, calada, balançava a cabeça diante dos palavrões surdos da Levaque. Philomène tossia, novamente atacada pela bronquite desde o começo do inverno. Só a Mouquette ria mostrando todos os dentes, divertida com o modo como a Brûlé tratava a própria filha: uma desnaturada que a mandava embora para se empanturrar de coelho, uma vendida engordada pelas covardias do marido. E, sobre a pilha de madeira, Jeanlin se instalara, içando Lydie e obrigando Bébert a segui-lo, os três suspensos acima de todos.

A discussão fora provocada por Rasseneur, que queria proceder regularmente à eleição de uma mesa. Sua derrota no Bon-Joyeux o enfurecia; e jurara obter a revanche, pois se gabava de reconquistar a antiga autoridade quando estivesse diante, não mais dos delegados, mas do povo mineiro. Étienne, indignado, considerara absurda a ideia de uma mesa naquela floresta. Era preciso agir revolucionariamente, como selvagens, já que eram caçados como lobos.

Vendo a disputa se prolongar, apoderou-se de repente da multidão, subiu num tronco de árvore e gritou:

— Companheiros! Companheiros!

O rumor confuso daquele povo extinguiu-se num longo suspiro, enquanto Maheu abafava os protestos de Rasseneur. Étienne continuava, com voz ressoante:

— Companheiros, já que nos proíbem de falar, já que mandam os gendarmes contra nós, como se fôssemos bandidos, é aqui que precisamos nos entender! Aqui somos livres, estamos em nossa casa, ninguém virá nos mandar calar, assim como ninguém faz calar os pássaros e os animais!

Um trovão respondeu, gritos e exclamações:

— Sim, sim, a floresta é nossa, temos o direito de conversar nela... Fale!

Então Étienne permaneceu imóvel por um instante sobre o tronco. A lua, ainda muito baixa no horizonte, continuava iluminando apenas os galhos mais altos; e a multidão permanecia mergulhada nas trevas, acalmando-se pouco a pouco, silenciosa. Ele também negro, formava acima dela, no alto da encosta, uma barra de sombra.

Ergueu um braço num gesto lento e começou; mas sua voz já não bramia, assumira o tom frio de um simples mandatário do povo que presta contas. Enfim pronunciava o discurso que o comissário de polícia lhe cortara no Bon-Joyeux; e começou com um histórico rápido da greve, afetando uma eloquência científica: fatos, somente fatos.

Primeiro, falou de sua repugnância pela greve: os mineiros não a haviam desejado, fora a Direção que os provocara com a nova tarifa de escoramento. Depois, recordou a primeira diligência dos delegados junto ao diretor, a má-fé da Administração e, mais tarde, durante a segunda diligência, sua concessão tardia, os dois centavos que restituía depois de tentar roubá-los. Agora estavam naquele ponto. Com números, demonstrou o esvaziamento da caixa de previdência, indicou o emprego dos auxílios enviados, desculpou em poucas frases a Internacional, Pluchart e os outros por não poderem fazer mais por eles, ocupados com as preocupações da conquista do mundo.

Portanto, a situação piorava a cada dia. A Companhia devolvia as carteiras de trabalho e ameaçava contratar operários na Bélgica; além disso, intimidava os fracos e convencera certo número de mineiros a voltar ao fundo. Ele conservava a voz monótona, como para insistir naquelas notícias ruins, falava da fome vitoriosa, da esperança morta, da luta chegada às febres derradeiras da coragem. E, de repente, concluiu sem elevar o tom:

— Nessas circunstâncias, companheiros, vocês devem tomar uma decisão esta noite. Querem a continuação da greve? E, nesse caso, o que pretendem fazer para vencer a Companhia?

Um silêncio profundo desceu do céu estrelado. A multidão, invisível na noite, calava-se sob aquelas palavras que lhe sufocavam o coração; e só se ouvia sua respiração desesperada através das árvores.

Mas Étienne já continuava com outra voz. Já não era o secretário da associação que falava, era o chefe do bando, o apóstolo trazendo a verdade. Haveria covardes capazes de faltar à palavra? Como! Teriam sofrido inutilmente durante um mês, voltariam às minas de cabeça baixa, e a miséria eterna recomeçaria! Não seria melhor morrer logo, tentando destruir aquela tirania do capital que matava o trabalhador de fome? Submeter-se sempre diante da fome, até o instante em que a fome lançava novamente os mais tranquilos à revolta, não era um jogo estúpido que já não podia continuar?

E mostrava os mineiros explorados, suportando sozinhos os desastres das crises, reduzidos a não comer mais assim que as necessidades da concorrência diminuíam o custo de produção. Não! A tarifa de escoramento não podia ser aceita, não passava de uma economia disfarçada, queriam roubar de cada homem uma hora diária de trabalho. Dessa vez era demais, chegava o momento em que os miseráveis, levados ao limite, fariam justiça.

Permaneceu com os braços erguidos. Ao ouvir a palavra justiça, a multidão estremeceu longamente e explodiu em aplausos, que rolaram com o ruído de folhas secas. Vozes gritavam:

— Justiça!... Já é hora, justiça!

Pouco a pouco, Étienne se inflamava. Não possuía a abundância fácil e fluente de Rasseneur. Muitas vezes lhe faltavam palavras, precisava torturar a frase e só conseguia tirá-la de si com um esforço marcado por um golpe de ombro. Mas, nesses contínuos solavancos, encontrava imagens de energia familiar, que agarravam os ouvintes; enquanto seus gestos de operário no canteiro, os cotovelos primeiro recolhidos, depois distendidos, lançando os punhos para a frente, a mandíbula subitamente avançada como para morder, também exerciam uma ação extraordinária sobre os companheiros. Todos diziam: não era grande, mas sabia se fazer ouvir.

— O trabalho assalariado é uma nova forma de escravidão — retomou, com voz mais vibrante. — A mina deve pertencer ao mineiro, como o mar pertence ao pescador e a terra ao camponês... Estão ouvindo? A mina pertence a vocês, a todos vocês que, durante um século, a pagaram com tanto sangue e tanta miséria!

Sem rodeios, abordou questões obscuras de direito, o desfile das leis especiais sobre as minas, nas quais se perdia. O subsolo, como o solo, pertencia à nação; apenas um privilégio odioso assegurava seu monopólio às Companhias. Em Montsou, sobretudo, a pretensa legalidade das concessões se complicava com os tratados firmados antigamente com os proprietários dos antigos feudos, segundo o velho costume de Hainaut. O povo mineiro só precisava, portanto, reconquistar o que lhe pertencia; e, com as mãos estendidas, ele indicava toda a região além da floresta.

Nesse momento, a lua, que subia no horizonte, deslizou entre os galhos altos e o iluminou. Quando a multidão, ainda nas sombras, o viu assim, branco de luz, distribuindo a riqueza com as mãos abertas, tornou a aplaudir, num bater prolongado.

— Sim, sim, ele tem razão! Bravo!

A partir daí, Étienne cavalgou sua questão predileta, a entrega dos instrumentos de trabalho à coletividade, como repetia numa frase cuja rudeza lhe causava delicioso prazer. Naquela hora, sua evolução estava completa. Partira da fraternidade enternecida dos catecúmenos, da necessidade de reformar o trabalho assalariado, e chegava à ideia política de suprimi-lo. Desde a reunião no Bon-Joyeux, seu coletivismo, ainda humanitário e sem fórmula definida, endurecera num programa complicado, cujos artigos discutia cientificamente.

Primeiro, estabelecia que a liberdade só poderia ser alcançada pela destruição do Estado. Depois, quando o povo se apoderasse do governo, começariam as reformas: retorno à comuna primitiva, substituição da família moral e opressiva por uma família igualitária e livre, igualdade absoluta, civil, política e econômica, garantia da independência individual pela posse dos instrumentos de trabalho e pelo direito ao produto integral, enfim, instrução profissional gratuita, paga pela coletividade.

Isso exigia uma reconstrução total da velha sociedade apodrecida. Ele atacava o casamento, o direito de testar, regulamentava a fortuna de cada um, derrubava o monumento iníquo dos séculos mortos com um grande movimento do braço, sempre o mesmo, o gesto do ceifador que abate a colheita madura; e depois reconstruía com a outra mão, erguia a humanidade futura, o edifício da verdade e da justiça, crescendo na aurora do século XX.

Sob aquela tensão cerebral, sua razão vacilava, restava apenas a ideia fixa do sectário. Os escrúpulos de sua sensibilidade e de seu bom senso eram arrastados, nada parecia mais fácil do que realizar aquele mundo novo: previra tudo, falava dele como de uma máquina que montaria em duas horas, e nem o fogo nem o sangue o fariam hesitar.

— Chegou a nossa vez! — lançou num último rompante. — Cabe a nós conquistar o poder e a riqueza!

Uma aclamação rolou do fundo da floresta até ele. A lua agora embranquecia toda a clareira, recortava em arestas vivas a ondulação das cabeças, até os matagais distantes e confusos, entre os grandes troncos acinzentados. E era, sob o ar glacial, uma fúria de rostos, olhos brilhantes, bocas abertas, todo um cio de povo, homens, mulheres e crianças, famintos e soltos para o justo saque do antigo bem do qual os haviam despojado.

Já não sentiam o frio, aquelas palavras ardentes lhes aqueciam as entranhas. Uma exaltação religiosa os erguia da terra, a febre de esperança dos primeiros cristãos da Igreja, à espera do reino próximo da justiça. Muitas frases obscuras lhes haviam escapado, pouco compreendiam os raciocínios técnicos e abstratos; mas a própria obscuridade, a abstração, alargava ainda mais o campo das promessas, arrebatava-os num deslumbramento. Que sonho! Ser os senhores, deixar de sofrer, enfim desfrutar!

— É isso, com mil diabos! Chegou a nossa vez!... Morte aos exploradores!

As mulheres deliravam: a Maheude, arrancada de sua calma, tomada pela vertigem da fome; a Levaque, aos berros; a velha Brûlé, fora de si, agitando os braços de feiticeira; Philomène, sacudida por um acesso de tosse; e a Mouquette, tão acesa que gritava palavras amorosas ao orador.

Entre os homens, Maheu, conquistado, soltara um grito de cólera, entre Pierron, que tremia, e Levaque, que falava demais; enquanto os zombadores, Zacharie e Mouquet, tentavam rir, constrangidos, espantados de que o companheiro pudesse dizer tanto sem beber um gole. Mas, sobre a pilha de madeira, Jeanlin fazia mais barulho que todos, atiçando Bébert e Lydie, sacudindo a cesta onde Pologne jazia.

A gritaria recomeçou. Étienne saboreava a embriaguez da popularidade. Era seu poder que segurava, como se tivesse tomado forma, naquelas três mil gargantas cujos corações fazia bater com uma palavra. Souvarine, se tivesse se dignado a ir, teria aplaudido suas ideias à medida que as reconhecesse, satisfeito com os progressos anarquistas do discípulo, contente com o programa, salvo o artigo sobre a instrução, resto de tolice sentimental, pois a ignorância santa e salutar deveria ser o banho onde os homens mergulhariam para renovar as forças. Quanto a Rasseneur, erguia os ombros com desprezo e cólera.

— Você vai me deixar falar! — gritou para Étienne.

Este saltou do tronco.

— Fale, veremos se o escutam.

Rasseneur já o substituíra e pedia silêncio com um gesto. O barulho não diminuía, seu nome circulava das primeiras fileiras, que o haviam reconhecido, até as últimas, perdidas sob as faias; e recusavam-se a ouvi-lo. Era um ídolo derrubado, cuja simples visão irritava os antigos fiéis. Sua eloquência fácil, a fala fluente e bonachona que durante tanto tempo os encantara, agora era tratada como uma tisana morna, boa para adormecer covardes.

Em vão falou em meio ao ruído, quis retomar o discurso conciliador que repetia por toda parte, a impossibilidade de mudar o mundo a golpes de leis, a necessidade de dar à evolução social o tempo de se cumprir. Zombavam dele, mandavam que se calasse, sua derrota no Bon-Joyeux agravava-se e se tornava irreparável. Por fim, lançaram-lhe punhados de musgo congelado, e uma mulher gritou com voz aguda:

Ele explicava que a mina não podia pertencer ao mineiro como o tear pertencia ao tecelão, e dizia preferir a participação nos lucros, o operário interessado, transformado em filho da empresa.

— Abaixo o traidor! — repetiram mil vozes, enquanto pedras começavam a assobiar.

Então empalideceu, e um desespero lhe encheu os olhos de lágrimas. Era o desabamento de sua vida, vinte anos de camaradagem ambiciosa ruíam sob a ingratidão da multidão. Desceu do tronco, atingido no coração, sem forças para continuar.

— Isso faz você rir — balbuciou, dirigindo-se ao triunfante Étienne. — Está bem, espero que aconteça o mesmo com você... E vai acontecer, está ouvindo?

E, como para rejeitar qualquer responsabilidade pelas desgraças que previa, fez um grande gesto e se afastou sozinho através da planície muda e branca.

As vaias continuavam quando, para surpresa de todos, o pai Bonnemort apareceu de pé sobre o tronco, falando no meio do tumulto. Até então, Mouque e ele haviam permanecido absortos, com aquele ar de quem refletia sempre sobre coisas antigas. Sem dúvida, cedia a uma daquelas crises súbitas de tagarelice que, às vezes, agitavam nele o passado com tamanha violência que as lembranças subiam e escorriam de seus lábios durante horas.

Fez-se um grande silêncio. Escutavam o velho, pálido como um espectro sob a lua; e, como ele contava coisas sem ligação imediata com a discussão, histórias compridas que ninguém conseguia compreender, o assombro aumentou.

Falava da juventude, contava a morte dos dois tios esmagados no Voreux, depois passava à pneumonia que levara sua mulher. Contudo, não abandonava a ideia: as coisas nunca haviam corrido bem e nunca correriam. Assim, certa vez, haviam se reunido quinhentos na floresta porque o rei não queria reduzir as horas de trabalho; mas ele se interrompeu e começou a narrar outra greve. Vira tantas! Todas terminavam sob aquelas árvores, ora ali no Plan-des-Dames, ora na Charbonnerie, mais longe ainda, perto do Saut-du-Loup. Às vezes fazia frio, às vezes calor. Certa noite chovera tanto que voltaram para casa sem conseguir dizer nada. E os soldados do rei chegavam, e tudo acabava a tiros.

— Erguíamos a mão assim, jurávamos não voltar ao fundo... Ah, eu jurei, sim! Eu jurei!

A multidão escutava de boca aberta, tomada por um mal-estar, quando Étienne, que acompanhava a cena, saltou sobre a árvore derrubada e manteve o velho ao seu lado. Acabara de reconhecer Chaval entre os amigos, na primeira fila. A ideia de que Catherine devia estar ali o acendera com nova chama, com a necessidade de ser aclamado diante dela.

— Companheiros, vocês ouviram. Aqui está um dos nossos antigos, aqui está o que ele sofreu e o que nossos filhos sofrerão, se não acabarmos com os ladrões e os carrascos.

Tornou-se terrível, nunca falara com tamanha violência. Com um braço, segurava o velho Bonnemort, exibindo-o como uma bandeira de miséria e luto, clamando por vingança. Em frases rápidas, remontava ao primeiro Maheu, mostrava toda aquela família gasta pela mina, devorada pela Companhia, mais faminta depois de cem anos de trabalho; e, diante dela, colocava as barrigas da Administração, que suavam dinheiro, todo o bando de acionistas sustentados como prostitutas havia um século, sem fazer nada, apenas desfrutando do próprio corpo.

Não era monstruoso? Um povo de homens morrendo no fundo, de pai para filho, para que se pagassem propinas a ministros, para que gerações de grandes senhores e burgueses dessem festas ou engordassem junto à lareira!

Estudara as doenças dos mineiros e fez todas desfilarem, com detalhes aterradores: a anemia, as escrófulas, a bronquite negra, a asma que sufoca, os reumatismos que paralisam. Aqueles miseráveis eram lançados como alimento às máquinas, amontoados como gado nos corons. As grandes Companhias os absorviam pouco a pouco, regulamentando a escravidão, ameaçando arregimentar todos os trabalhadores de uma nação, milhões de braços, para enriquecer um milhar de ociosos.

Mas o mineiro já não era o ignorante, o animal esmagado nas entranhas do solo. Um exército crescia das profundezas das minas, uma colheita de cidadãos cuja semente germinava e um dia faria a terra explodir, sob um grande sol. Então se saberia se, depois de quarenta anos de serviço, ousariam oferecer uma pensão de cento e cinquenta francos a um velho de sessenta anos, que cuspia hulha, com as pernas inchadas pela água das frentes de lavra.

Sim! O trabalho exigiria contas do capital, daquele deus impessoal, desconhecido pelo operário, agachado em algum lugar, no mistério de seu tabernáculo, de onde sugava a vida dos famintos que o alimentavam! Iriam até lá, acabariam vendo seu rosto à luz dos incêndios, afogariam em sangue aquele porco imundo, aquele ídolo monstruoso empanturrado de carne humana!

Calou-se, mas seu braço continuava estendido no vazio, apontando o inimigo, lá longe, ele não sabia onde, de uma extremidade à outra da terra. Dessa vez, o clamor da multidão foi tão alto que os burgueses de Montsou o ouviram e olharam para os lados de Vandame, inquietos diante da ideia de algum desabamento formidável. Aves noturnas erguiam-se acima do bosque, no grande céu claro.

Imediatamente, ele quis concluir:

— Companheiros, qual é a decisão de vocês?... Votam pela continuação da greve?

— Sim! Sim! — bradaram as vozes.

— E que medidas decidem tomar?... Nossa derrota é certa, se os covardes descerem amanhã.

As vozes recomeçaram, com o sopro de tempestade:

— Decidem, portanto, chamá-los de volta ao dever, à palavra jurada... Eis o que poderíamos fazer: apresentar-nos nas minas, reconduzir os traidores com a nossa força, mostrar à Companhia que estamos todos de acordo e que morreremos antes de ceder.

— É isso, às minas! Às minas!

Desde que começara a falar, Étienne procurava Catherine entre as cabeças pálidas que bramiam diante dele. Decididamente, ela não estava ali. Mas continuava vendo Chaval, que fingia rir com desprezo, erguendo os ombros, devorado pelo ciúme, pronto a se vender em troca de um pouco daquela popularidade.

— E, se houver espiões entre nós, companheiros — continuou Étienne —, que tomem cuidado, nós os conhecemos... Sim, estou vendo mineiros de Vandame que não abandonaram sua mina...

— Está dizendo isso para mim? — perguntou Chaval, em tom de desafio.

— Para você ou para outro... Mas, já que está falando, deveria compreender que os que comem não têm nada que fazer entre os que passam fome. Você trabalha em Jean-Bart...

Uma voz zombeteira interrompeu:

— Oh, ele trabalha... Tem uma mulher que trabalha por ele.

Chaval praguejou, o sangue subindo-lhe ao rosto.

— Com mil diabos! Então é proibido trabalhar?

— Sim! — gritou Étienne. — Quando os companheiros suportam a miséria pelo bem de todos, é proibido agir como egoísta e hipócrita, ficando do lado dos patrões. Se a greve fosse geral, já seríamos os senhores há muito tempo... Por acaso um único homem de Vandame deveria ter descido, quando Montsou parou? O grande golpe seria interromper o trabalho em toda a região, tanto nas minas do senhor Deneulin quanto aqui... Está ouvindo? Só há traidores nas frentes de lavra de Jean-Bart, vocês são todos traidores!

Ao redor de Chaval, a multidão se tornava ameaçadora, punhos se erguiam, gritos de “Morte! Morte!” começavam a ribombar. Ele empalidecera. Mas, na fúria de triunfar sobre Étienne, uma ideia o reergueu.

— Escutem! Venham amanhã a Jean-Bart, e verão se eu trabalho!... Somos dos seus, mandaram-me dizer isso. É preciso apagar os fogos, os maquinistas também devem entrar em greve. Tanto melhor se as bombas pararem! A água arrebentará as minas, tudo estará acabado!

Dessa vez, foi ele quem recebeu aplausos furiosos, e o próprio Étienne acabou ultrapassado. Oradores se sucediam sobre o tronco, gesticulando no barulho, lançando propostas ferozes. Era o acesso de loucura da fé, a impaciência de uma seita religiosa que, cansada de esperar pelo milagre prometido, resolvia enfim provocá-lo.

As cabeças esvaziadas pela fome viam tudo vermelho, sonhavam com incêndio e sangue, no meio de uma glória de apoteose na qual surgia a felicidade universal. E a lua tranquila banhava aquela ondulação, a floresta profunda cercava com seu grande silêncio aquele grito de massacre. Apenas os musgos congelados estalavam sob os calcanhares; enquanto as faias, de pé em sua força, com a delicada ramagem dos galhos negros contra o céu branco, não viam nem ouviam os seres miseráveis que se agitavam a seus pés.

Houve empurrões. A Maheude se encontrou junto de Maheu, e os dois, fora do bom senso, arrastados pela lenta exasperação que os atormentava havia meses, aprovaram Levaque, que aumentava a violência pedindo a cabeça dos engenheiros. Pierron desaparecera. Bonnemort e Mouque falavam ao mesmo tempo, dizendo coisas vagas e violentas, impossíveis de distinguir.

Por brincadeira, Zacharie exigiu a demolição das igrejas, enquanto Mouquet, com a crosse na mão, batia no chão apenas para aumentar o barulho. As mulheres se enfureciam: a Levaque, com os punhos na cintura, discutia com Philomène, acusando-a de ter rido; a Mouquette falava em desmontar os gendarmes a pontapés em algum lugar; a Brûlé, que acabara de esbofetear Lydie ao reencontrá-la sem cesta nem salada, continuava distribuindo bofetadas no vazio para todos os patrões que gostaria de agarrar.

Por um instante, Jeanlin permanecera sufocado, pois Bébert soubera por um galibot que a senhora Rasseneur os vira roubar Pologne; mas, quando decidiu que devolveria furtivamente o animal à porta do Avantage, gritou ainda mais alto, abriu a faca nova e brandiu a lâmina, orgulhoso de fazê-la brilhar.

— Companheiros! Companheiros! — repetia Étienne, exausto, rouco de tentar conseguir um minuto de silêncio para que chegassem a uma decisão definitiva.

— Companheiros! Amanhã de manhã, em Jean-Bart, está combinado?

— Sim, sim, em Jean-Bart! Morte aos traidores!

O furacão daquelas três mil vozes encheu o céu e se extinguiu na claridade pura da lua.

1/1
Menu

Fazer anotação