QUARTA PARTE — Capítulo IV
QUARTA PARTE
Capítulo IV
Foi no Bon-Joyeux, na casa da viúva Désir, que organizaram a reunião privada para a quinta-feira, às duas horas. A viúva, indignada com as misérias impostas aos seus filhos, os mineiros, vivia enfurecida, sobretudo desde que seu cabaré se esvaziara. Nunca uma greve tivera menos sede: os beberrões se fechavam em casa, com medo de desobedecer à palavra de ordem de bom comportamento. Assim, Montsou, que fervilhava de gente nos dias de festa, estendia sua rua larga, muda e sombria, com um ar de desolação. A cerveja já não corria pelos balcões nem pelos ventres, os regos estavam secos. No calçamento, diante da venda Casimir e do estaminê Progrès, viam-se apenas os rostos pálidos das taberneiras interrogando a estrada; depois, em Montsou propriamente dita, toda a fileira se prolongava deserta, do estaminê Lenfant ao estaminê Tison, passando pelo estaminê Piquette e pela venda Tête-Coupée. Só o estaminê Saint-Éloi, frequentado por porions, ainda servia alguns canecos; e a solidão alcançava até o Volcan, cujas mulheres estavam sem trabalho por falta de fregueses, embora tivessem reduzido o preço de dez para cinco soldos, diante da dureza dos tempos. Era um verdadeiro luto, que despedaçava o coração de toda a região.
— Com mil diabos! — exclamara a viúva Désir, batendo as duas mãos nas coxas. — A culpa é dos gendarmes! Que me metam na cadeia, se quiserem, mas tenho de atormentá-los!
Para ela, todas as autoridades, todos os patrões, eram gendarmes, termo de desprezo geral no qual envolvia os inimigos do povo. E acolhera com entusiasmo o pedido de Étienne: sua casa inteira pertencia aos mineiros, ela cederia gratuitamente o salão de baile, enviaria pessoalmente os convites, já que a lei o exigia. Aliás, tanto melhor se a lei não ficasse satisfeita! Veriam a cara dela. No dia seguinte, o jovem lhe levou cerca de cinquenta cartas para assinar, copiadas por moradores do coron que sabiam escrever; e as cartas foram enviadas às minas, aos delegados e a homens em quem se podia confiar. A pauta declarada era discutir a continuação da greve; mas, na realidade, aguardavam Pluchart e contavam com um discurso dele para conquistar a adesão em massa à Internacional.
Na manhã de quinta-feira, Étienne ficou inquieto ao não ver chegar seu antigo contramestre, que prometera por telegrama estar ali na noite de quarta-feira. O que teria acontecido? Desolava-o não poder se entender com ele antes da reunião. Desde as nove horas, foi a Montsou, imaginando que o mecânico talvez tivesse seguido diretamente para lá, sem parar no Voreux.
— Não, não vi seu amigo — respondeu a viúva Désir. — Mas está tudo pronto, venha ver.
Ela o conduziu ao salão de baile. A decoração permanecera a mesma: guirlandas sustentavam no teto uma coroa de flores de papel pintado, e escudos de papelão dourado alinhavam nomes de santos e santas ao longo das paredes. Apenas haviam substituído o tablado dos músicos por uma mesa e três cadeiras, num canto; e bancos dispostos em diagonal enchiam o salão.
— Está perfeito — declarou Étienne.
— E, veja bem — retomou a viúva —, aqui você está em casa. Grite quanto quiser... Os gendarmes terão de passar por cima do meu corpo, se aparecerem.
Apesar da inquietação, ele não pôde deixar de sorrir ao olhá-la, tão enorme lhe pareceu, com um par de seios dos quais um só exigia um homem inteiro para ser abraçado; o que levava o povo a dizer que agora, entre seus seis amantes semanais, ela recebia dois por noite, por causa do trabalho.
Mas Étienne se surpreendeu ao ver Rasseneur e Souvarine entrarem; e, quando a viúva deixou os três sozinhos no grande salão vazio, exclamou:
— Ora, vocês já estão aqui!
Souvarine, que trabalhara durante a noite no Voreux, pois os maquinistas não estavam em greve, viera apenas por curiosidade. Quanto a Rasseneur, parecia constrangido havia dois dias; seu rosto gordo e redondo perdera o riso bonachão.
— Pluchart não chegou, estou muito inquieto — acrescentou Étienne.
O taberneiro desviou os olhos e respondeu entre os dentes:
— Não me surpreende, já não conto com ele.
Então tomou coragem, encarou o outro e disse com valentia:
— É que eu também lhe enviei uma carta, já que quer saber; e nessa carta implorei que não viesse... Sim, acho que devemos cuidar dos nossos assuntos sozinhos, sem recorrer a gente de fora.
Étienne, fora de si, tremendo de cólera, com os olhos cravados nos do companheiro, repetia, gaguejando:
— Você fez isso! Você fez isso!
— Fiz, sim, perfeitamente! E você sabe muito bem quanto confio em Pluchart! É esperto e firme, pode-se marchar com ele... Mas, veja, eu não dou a mínima para suas ideias! Política, governo, tudo isso não me interessa! O que desejo é que o mineiro seja mais bem tratado. Trabalhei no fundo durante vinte anos, suei tanta miséria e tanto cansaço que jurei conseguir algum alívio para os pobres-diabos que continuam lá; e sinto muito bem que vocês não conseguirão absolutamente nada com essas histórias, só tornarão ainda mais miserável a sorte do operário... Quando a fome o obrigar a voltar ao fundo, vão salgá-lo ainda mais, a Companhia o pagará a pauladas, como um cão fugido que se obriga a voltar à casinha... É isso que quero impedir, está entendendo?
Erguia a voz, o ventre avançado, solidamente plantado sobre as pernas grossas. E toda a sua natureza de homem razoável e paciente se revelava em frases claras, que corriam abundantes, sem esforço. Não era estúpido acreditar que se podia mudar o mundo de uma só vez, pôr os operários no lugar dos patrões, repartir o dinheiro como se reparte uma maçã? Seriam necessários milhares e milhares de anos para que talvez isso acontecesse. Portanto, que o deixassem em paz com milagres! O caminho mais sensato, quando não se queria quebrar a cara, era avançar em linha reta, exigir as reformas possíveis, melhorar enfim a sorte dos trabalhadores em todas as ocasiões. Assim, ele se julgava capaz, se cuidasse do assunto, de levar a Companhia a condições melhores; ao passo que, daquele outro jeito, podiam ir para o inferno, morreriam todos insistindo.
Étienne o deixara falar, sem conseguir responder de tanta indignação. Depois gritou:
— Com mil diabos! Você não tem sangue nas veias?
Por um instante, teria dado uma bofetada nele; e, para resistir à tentação, lançou-se a grandes passos pelo salão, descarregando a fúria nos bancos, entre os quais abria passagem.
— Fechem ao menos a porta — observou Souvarine. — Ninguém precisa ouvir.
Depois de ele mesmo fechá-la, sentou-se tranquilamente numa das cadeiras da mesa. Enrolara um cigarro e olhava os outros dois com seus olhos doces e penetrantes, os lábios apertados num sorriso fino.
— Ficar furioso não adianta nada — retomou Rasseneur, sensatamente. — No começo, achei que você tivesse bom senso. Foi muito certo recomendar calma aos companheiros, obrigá-los a não sair de casa, usar seu poder, enfim, para manter a ordem. E agora vai lançá-los na desgraça!
A cada caminhada entre os bancos, Étienne voltava para o taberneiro, agarrava-o pelos ombros, sacudia-o e gritava as respostas em seu rosto:
— Mas, raios me partam, eu também quero calma! Sim, impus disciplina a eles! Sim, ainda aconselho que não se mexam! Só que não podem continuar zombando da nossa cara!... Para você é fácil permanecer frio. Eu, há horas em que sinto minha cabeça sair do lugar.
Era, da parte dele, uma confissão. Zombava das próprias ilusões de neófito, do sonho religioso de uma cidade onde em breve reinaria a justiça entre homens transformados em irmãos. Belo método, realmente: cruzar os braços e esperar, se quisessem ver os homens devorarem uns aos outros como lobos até o fim do mundo. Não! Era preciso intervir, caso contrário a injustiça seria eterna, os ricos continuariam sugando o sangue dos pobres. Por isso, não se perdoava pela estupidez de ter dito antigamente que a política devia ser banida da questão social. Nada sabia naquela época; desde então, lera, estudara. Agora suas ideias estavam maduras, gabava-se de possuir um sistema. Contudo, explicava-o mal, em frases cuja confusão conservava um pouco de todas as teorias pelas quais passara e que abandonara sucessivamente. No alto, mantinha-se de pé a ideia de Karl Marx: o capital era resultado da espoliação, e o trabalho tinha o dever e o direito de reconquistar a riqueza roubada. Na prática, primeiro se deixara seduzir, com Proudhon, pela quimera do crédito mútuo, de um vasto banco de trocas que eliminaria os intermediários; depois, as cooperativas de Lassalle, financiadas pelo Estado, transformando pouco a pouco a terra numa única cidade industrial, haviam-no apaixonado, até o dia em que se desgostara delas, diante da dificuldade da fiscalização; e recentemente chegara ao coletivismo, exigindo que todos os instrumentos de trabalho fossem restituídos à coletividade. Mas tudo permanecia vago, ele não sabia como realizar o novo sonho, ainda impedido pelos escrúpulos de sua sensibilidade e de sua razão, sem ousar arriscar as afirmações absolutas dos sectários. Limitava-se a dizer que, antes de tudo, era necessário tomar o governo. Depois se veria.
— Mas o que aconteceu com você? Por que passou para o lado dos burgueses? — continuou violentamente, voltando a se plantar diante do taberneiro. — Você mesmo dizia: é preciso que tudo exploda!
Rasseneur corou levemente.
— Sim, eu disse. E, se explodir, verá que não sou mais covarde do que outro... Só me recuso a ficar com aqueles que aumentam a desordem para pescar nela uma posição.
Dessa vez, Étienne também corou. Os dois homens já não gritavam, tornados ácidos e hostis, tomados pelo frio de sua rivalidade. Era isso, no fundo, que exagerava seus sistemas, lançando um à exaltação revolucionária, empurrando o outro a uma afetada prudência, levando-os, contra a vontade, além de suas verdadeiras ideias, naquela fatalidade dos papéis que ninguém escolhe para si. E Souvarine, que os escutava, deixou transparecer no rosto de moça loira um desprezo silencioso, o esmagador desprezo do homem disposto a dar a vida obscuramente, sem sequer extrair dela o brilho do martírio.
— Então é de mim que está falando? — perguntou Étienne. — Está com ciúme?
— Ciúme de quê? — respondeu Rasseneur. — Não me faço de grande homem, não procuro criar uma seção em Montsou para me tornar secretário.
O outro quis interrompê-lo, mas ele acrescentou:
— Seja franco! Você não se importa com a Internacional, só arde de vontade de ficar à nossa frente, de bancar o senhor correspondente do famoso Conselho Federal do Norte!
Reinou silêncio. Étienne, estremecendo, retomou:
— Está bem... Eu acreditava não ter nada a censurar em mim mesmo. Sempre o consultava, porque sabia que tinha lutado aqui muito antes de mim. Mas, já que não suporta ninguém ao seu lado, agirei sozinho de agora em diante... E, antes de tudo, aviso que a reunião acontecerá mesmo que Pluchart não venha, e que os companheiros aderirão apesar de você.
— Oh, aderir — murmurou o taberneiro —, ainda não está feito... Será preciso convencê-los a pagar a contribuição.
— De modo algum. A Internacional concede prazo aos operários em greve. Pagaremos depois, e ela virá imediatamente nos socorrer.
Rasseneur então se exaltou:
— Pois bem, veremos... Vou à sua reunião e falarei. Sim, não deixarei você virar a cabeça dos amigos, vou esclarecê-los sobre seus verdadeiros interesses. Saberemos a quem pretendem seguir: a mim, que conhecem há trinta anos, ou a você, que transtornou tudo por aqui em menos de um ano... Não! Não! Deixe-me em paz! Agora é ver quem esmagará o outro!
E saiu, batendo a porta. As guirlandas de flores estremeceram no teto, os escudos dourados saltaram contra as paredes. Depois, o grande salão retornou à sua paz opressiva.
Souvarine fumava com seu ar brando, sentado diante da mesa. Depois de caminhar por um instante em silêncio, Étienne aliviou-se longamente. Era culpa sua se abandonavam aquele gordo preguiçoso para vir até ele? Defendia-se de ter procurado popularidade, nem sequer sabia como tudo acontecera, a amizade do coron, a confiança dos mineiros, o poder que agora exercia sobre eles. Indignava-se com a acusação de querer empurrar todos para a desgraça por ambição, batia no peito, protestando sua fraternidade.
De repente, parou diante de Souvarine e gritou:
— Veja, se eu soubesse que custaria uma gota de sangue a um amigo, partiria imediatamente para a América!
O maquinista ergueu os ombros, e um sorriso tornou a afinar-lhe os lábios.
— Oh, sangue — murmurou —, que importância tem? A terra precisa dele.
Étienne, acalmando-se, puxou uma cadeira e apoiou os cotovelos do outro lado da mesa. Aquele rosto loiro, cujos olhos sonhadores às vezes se tornavam selvagens com um brilho vermelho, inquietava-o, exercia sobre sua vontade uma ação singular. Sem que o companheiro falasse, conquistado pelo próprio silêncio, sentia-se pouco a pouco absorvido.
— Vejamos — perguntou —, o que faria no meu lugar? Não tenho razão em querer agir?... O melhor não seria entrarmos para essa Associação?
Souvarine, depois de soprar lentamente um jato de fumaça, respondeu com sua palavra favorita:
— Sim, tolices! Mas, enquanto isso, já é alguma coisa... Além do mais, a Internacional deles logo começará a andar. Ele está cuidando disso.
Pronunciara esse “ele” a meia-voz, com fervor religioso, lançando um olhar para o Oriente. Falava do mestre, de Bakunin, o exterminador.
— Só ele pode dar a marretada — continuou —, enquanto seus sábios são covardes, com essa evolução deles... Dentro de três anos, a Internacional, sob suas ordens, deverá esmagar o velho mundo.
Étienne escutava com muita atenção. Ardia de vontade de aprender, de compreender aquele culto da destruição sobre o qual o maquinista soltava apenas raras palavras obscuras, como se guardasse para si os mistérios.
— Mas afinal me explique... Qual é o objetivo de vocês?
— Destruir tudo... Não haverá mais nações, governos, propriedade, Deus nem culto.
— Isso eu entendo. Mas aonde isso levará?
— À comuna primitiva e sem forma, a um mundo novo, ao recomeço de tudo.
— E os meios de execução? Como pretendem agir?
— Pelo fogo, pelo veneno, pelo punhal. O bandido é o verdadeiro herói, o vingador popular, o revolucionário em ação, sem frases tiradas dos livros. É preciso que uma série de atentados terríveis apavore os poderosos e desperte o povo.
Enquanto falava, Souvarine se tornava terrível. Um êxtase o erguia na cadeira, uma chama mística saía de seus olhos pálidos, e suas mãos delicadas apertavam a borda da mesa como se fossem quebrá-la. Tomado de medo, o outro o olhava, pensando nas histórias das quais recebera vagas confidências: minas carregadas sob os palácios do czar, chefes de polícia abatidos a golpes de faca como javalis, uma amante, a única mulher que ele amara, enforcada em Moscou numa manhã de chuva, enquanto, no meio da multidão, ele a beijava com os olhos pela última vez.
— Não! Não! — murmurou Étienne, fazendo um grande gesto para afastar aquelas visões abomináveis. — Ainda não chegamos a isso em nosso país. Assassinato, incêndio, jamais! É monstruoso, é injusto, todos os companheiros se levantariam para estrangular o culpado!
Além disso, continuava sem compreender. Sua raça recusava o sonho sombrio daquele extermínio do mundo, ceifado rente ao chão como um campo de centeio. Depois, o que fariam? Como os povos voltariam a crescer? Exigia uma resposta.
— Diga seu programa. Nós precisamos saber para onde vamos.
Então Souvarine concluiu calmamente, com o olhar afogado e perdido:
— Todo raciocínio sobre o futuro é criminoso, porque impede a destruição pura e entrava a marcha da revolução.
Étienne riu, apesar do frio que a resposta lhe soprara sobre a pele. Aliás, confessava de bom grado que havia algo de bom naquelas ideias, cuja simplicidade aterradora o atraía. Só que daria uma vantagem grande demais a Rasseneur se contassem semelhantes coisas aos companheiros. Era preciso ser prático.
A viúva Désir lhes propôs o almoço. Aceitaram e passaram à sala do cabaré, separada do salão de baile durante a semana por uma divisória móvel. Quando terminaram a omelete e o queijo, o maquinista quis partir; e, como o outro tentava retê-lo:
— Para quê? Para ouvir vocês dizerem tolices inúteis!... Já vi o bastante. Boa noite!
Foi embora com seu ar brando e obstinado, um cigarro entre os lábios.
A inquietação de Étienne aumentava. Era uma hora, e decididamente Pluchart faltava à palavra. Por volta de uma e meia, os delegados começaram a aparecer, e ele precisou recebê-los, pois queria vigiar as entradas, com medo de que a Companhia enviasse seus espiões habituais. Examinava cada carta de convite, encarava as pessoas; muitos, aliás, entravam sem carta, bastava que ele os conhecesse para que lhes abrissem a porta. Quando soaram duas horas, viu Rasseneur chegar, terminar o cachimbo diante do balcão e conversar sem pressa. Aquela calma zombeteira acabou de irritá-lo, ainda mais porque alguns engraçadinhos haviam aparecido apenas pela diversão: Zacharie, Mouquet e outros. Esses não se importavam com a greve, achavam divertido não fazer nada; e, sentados às mesas, gastando os últimos dois soldos num caneco, riam às escondidas, zombavam dos companheiros convictos, que acabariam engolindo a própria língua de tanto aborrecimento.
Passou-se mais um quarto de hora. A impaciência crescia no salão. Então Étienne, desesperado, fez um gesto decidido. Preparava-se para entrar quando a viúva Désir, que esticava a cabeça para fora, exclamou:
— Mas aí está o seu senhor!
Era Pluchart, de fato. Chegava numa carruagem puxada por um cavalo ofegante. Saltou imediatamente para o calçamento, magro, bem-apessoado, a cabeça quadrada e grande demais, vestido sob a sobrecasaca de tecido preto com o apuro dominical de um operário próspero. Havia cinco anos não dava uma só limada e cuidava-se, sobretudo penteava-se com correção, vaidoso de seus sucessos na tribuna; mas conservava a rigidez dos membros, e as unhas de suas mãos largas não voltavam a crescer, comidas pelo ferro. Muito ativo, servia à própria ambição, percorrendo a província sem descanso para difundir suas ideias.
— Ah, não fiquem zangados comigo! — disse, adiantando-se às perguntas e censuras. — Ontem, conferência em Preuilly pela manhã, reunião à noite em Valençay. Hoje, almoço em Marchiennes com Sauvagnat... Enfim, consegui uma carruagem. Estou exausto, vocês ouvem minha voz. Mas não importa, falarei assim mesmo.
Estava no limiar do Bon-Joyeux quando mudou de ideia.
— Com os diabos! E os cartões que estou esquecendo! Estaríamos bem arranjados!
Voltou à carruagem, que o cocheiro guardava, e retirou do baú uma pequena caixa de madeira negra, levando-a debaixo do braço.
Étienne, radiante, caminhava à sua sombra, enquanto Rasseneur, consternado, não ousava estender-lhe a mão. O outro já apertava a dele e disse apenas algumas palavras rápidas sobre a carta: que ideia estranha! Por que não fazer aquela reunião? Sempre se devia fazer uma reunião quando havia oportunidade. A viúva Désir ofereceu-lhe alguma coisa para beber, mas ele recusou. Não precisava! Falava sem beber. Estava apenas com pressa, porque à noite pretendia seguir até Joiselle, onde queria se entender com Legoujeux. Todos então entraram juntos no salão de baile. Maheu e Levaque, que chegavam atrasados, acompanharam aqueles senhores. E a porta foi fechada a chave, para que ficassem entre si, o que fez os zombadores rirem ainda mais alto, tendo Zacharie gritado a Mouquet que talvez todos juntos acabassem fazendo um filho lá dentro.
Cerca de cem mineiros esperavam nos bancos, no ar fechado do salão, onde os odores quentes do último baile subiam do assoalho. Murmúrios correram, as cabeças se voltaram enquanto os recém-chegados ocupavam os lugares vazios. Observavam o senhor de Lille; a sobrecasaca preta causava surpresa e mal-estar.
Mas, imediatamente, por proposta de Étienne, constituiu-se a mesa. Ele lançava nomes, e os outros aprovavam erguendo as mãos. Pluchart foi nomeado presidente, depois escolheram Maheu e o próprio Étienne como assessores. Houve um arrastar de cadeiras, a mesa se instalava; e durante um instante procuraram o presidente, desaparecido atrás dela, sob a qual guardava a caixa que não largara. Quando reapareceu, bateu levemente o punho para pedir atenção; depois começou, com voz rouca:
Uma pequena porta se abriu, e ele precisou interromper-se. Era a viúva Désir que, dando a volta pela cozinha, trazia seis canecos numa bandeja.
— Não se incomodem — murmurou. — Quem fala fica com sede.
Maheu a livrou da bandeja, e Pluchart pôde continuar. Disse estar muito comovido com a boa acolhida dos trabalhadores de Montsou, desculpou-se pelo atraso, falando de seu cansaço e da garganta enferma. Depois concedeu a palavra ao cidadão Rasseneur, que a solicitava.
Rasseneur já se plantava ao lado da mesa, junto aos canecos. Uma cadeira virada servia-lhe de tribuna. Parecia muito emocionado; tossiu antes de lançar, em voz plena:
O que lhe dava influência sobre os operários das minas era a facilidade de sua fala, a bonomia com que conseguia conversar durante horas, sem jamais se cansar. Não arriscava gesto algum, permanecia pesado e sorridente, afogava-os, atordoava-os, até que todos gritassem: “Sim, sim, é verdade, você tem razão!” Naquele dia, porém, desde as primeiras palavras sentira uma oposição surda. Por isso avançava com prudência. Discutia apenas a continuação da greve, esperava ser aplaudido antes de atacar a Internacional. Certamente, a honra proibia que cedessem às exigências da Companhia; mas quanta miséria! Que futuro terrível, se fosse necessário insistir por muito mais tempo! E, sem se declarar pela submissão, amolecia os ânimos, mostrava os corons morrendo de fome, perguntava com que recursos contavam os partidários da resistência. Três ou quatro amigos tentaram aprová-lo, o que acentuou o silêncio frio da maioria, a desaprovação cada vez mais irritada que recebia suas frases. Então, perdendo a esperança de reconquistá-los, deixou-se dominar pela cólera e previu-lhes desgraças, caso permitissem que provocações vindas de fora lhes virassem a cabeça. Dois terços haviam se levantado, enfurecidos, querendo impedi-lo de continuar, já que os insultava ao tratá-los como crianças incapazes de se conduzir. E ele, bebendo goles de cerveja um após outro, continuava falando no meio do tumulto, gritando violentamente que ainda não nascera o homem capaz de impedi-lo de cumprir seu dever!
Pluchart estava de pé. Como não tinha campainha, batia o punho na mesa e repetia com a voz estrangulada:
— Cidadãos... cidadãos...
Por fim, conseguiu alguma calma, e a assembleia, consultada, retirou a palavra de Rasseneur. Os delegados que haviam representado as minas na entrevista com o diretor conduziam os demais, todos enfurecidos pela fome, trabalhados por ideias novas. Era uma votação decidida de antemão.
— Para você tanto faz, você come! — berrou Levaque, mostrando o punho a Rasseneur.
Étienne se inclinara atrás das costas do presidente para acalmar Maheu, muito vermelho, fora de si com aquele discurso de hipócrita.
— Cidadãos — disse Pluchart —, permitam-me tomar a palavra.
Fez-se um silêncio profundo. Ele falou. Sua voz saía penosa e rouca; mas se acostumara a ela, sempre na estrada, levando sua laringite junto com o programa. Pouco a pouco, fazia-a crescer e extraía dela efeitos patéticos. De braços abertos, acompanhando os períodos com um balanço dos ombros, possuía uma eloquência de sermão, uma maneira religiosa de deixar cair o fim das frases, cujo ronco monótono acabava convencendo.
E apresentou seu discurso sobre a grandeza e os benefícios da Internacional, aquele que sempre pronunciava primeiro nas localidades onde estreava. Explicou sua finalidade, a emancipação dos trabalhadores; mostrou sua estrutura grandiosa: embaixo, a comuna; mais acima, a província; mais acima ainda, a nação; e, no topo de tudo, a humanidade. Seus braços se agitavam lentamente, empilhavam os andares, erguiam a imensa catedral do mundo futuro. Depois vinha a administração interna: leu os estatutos, falou dos congressos, indicou a importância crescente da obra, a ampliação do programa, que, partindo da discussão dos salários, atacava agora a liquidação social, para acabar com o trabalho assalariado. Não haveria mais nacionalidades; os operários do mundo inteiro, unidos pela necessidade comum de justiça, varreriam a podridão burguesa, fundando enfim a sociedade livre, na qual aquele que não trabalhasse não colheria! Ele mugia, sua respiração agitava as flores de papel pintado sob o teto enfumaçado, cuja baixa altura rebatia os estouros de sua voz.
Uma ondulação percorreu as cabeças. Alguns gritaram:
— É isso!... Estamos dentro!
Ele continuava. Era a conquista do mundo em menos de três anos. E enumerava os povos conquistados. De todos os lados choviam adesões. Nunca uma religião nascente fizera tantos fiéis. Depois, quando fossem os senhores, ditariam leis aos patrões, que por sua vez sentiriam o punho em torno da garganta.
— Sim! Sim!... Eles é que vão descer!
Com um gesto, pediu silêncio. Agora abordava a questão das greves. Em princípio, desaprovava-as: eram um meio lento demais, que agravava sobretudo o sofrimento do operário. Mas, à espera de algo melhor, quando se tornavam inevitáveis, era preciso aceitá-las, pois tinham a vantagem de desorganizar o capital. E, nesse caso, apresentava a Internacional como uma providência para os grevistas, citando exemplos: em Paris, durante a greve dos trabalhadores do bronze, os patrões haviam concedido tudo de uma vez, aterrorizados ao saber que a Internacional enviava auxílio; em Londres, ela salvara os mineiros de uma mina, repatriando às próprias custas um comboio de belgas chamados pelo proprietário. Bastava aderir, e as Companhias tremiam; os operários entravam no grande exército dos trabalhadores, decididos a morrer uns pelos outros, em vez de continuarem escravos da sociedade capitalista.
Aplausos o interromperam. Enxugava a testa com o lenço, recusando um caneco que Maheu lhe passava. Quando tentou retomar, novos aplausos cortaram-lhe a palavra.
— Está feito! — disse rapidamente a Étienne. — Eles já ouviram o bastante... Depressa! Os cartões!
Mergulhou sob a mesa e reapareceu com a pequena caixa de madeira negra.
— Cidadãos! — gritou, dominando o tumulto. — Aqui estão os cartões dos membros. Que seus delegados se aproximem, eu os entregarei, e eles farão a distribuição... Depois acertaremos tudo.
Rasseneur se lançou à frente, protestando outra vez. Étienne, por sua vez, agitava-se, pois precisava pronunciar um discurso. Seguiu-se uma confusão extrema. Levaque lançava os punhos para a frente, como se quisesse brigar. De pé, Maheu falava sem que se pudesse distinguir uma única palavra. Naquele redobramento do tumulto, subia do assoalho uma poeira, a poeira solta dos antigos bailes, envenenando o ar com o odor forte das condutoras de vagonetas e dos galibots.
De repente, a pequena porta se abriu, e a viúva Désir a preencheu com o ventre e o colo, dizendo em voz de trovão:
— Calem a boca, com mil diabos!... Aí vêm os gendarmes!
Era o comissário do distrito que chegava, um pouco tarde, para lavrar o auto e dissolver a reunião. Quatro gendarmes o acompanhavam. Havia cinco minutos, a viúva os entretinha na porta, respondendo que estava em sua própria casa e que as pessoas tinham o direito de reunir amigos. Mas a haviam empurrado, e ela correra para avisar seus filhos.
— É preciso sair por aqui — retomou. — Há um gendarme desgraçado guardando o pátio. Não faz mal, meu pequeno depósito de lenha abre para a viela... Andem depressa!
O comissário já batia com os punhos; e, como ninguém abria, ameaçava arrombar a porta. Um espião devia ter falado, pois gritava que a reunião era ilegal, já que grande número de mineiros estava ali sem carta de convite.
No salão, a confusão aumentava. Não podiam fugir daquele jeito, ainda nem haviam votado a adesão nem a continuação da greve. Todos insistiam em falar ao mesmo tempo. Finalmente, o presidente teve a ideia de uma votação por aclamação. Braços se ergueram, e os delegados declararam às pressas que aderiam em nome dos companheiros ausentes. Foi assim que os dez mil mineiros de Montsou se tornaram membros da Internacional.
Entretanto, a debandada começava. Protegendo a retirada, a viúva Désir fora encostar-se à porta, que as coronhas dos gendarmes sacudiam às suas costas. Os mineiros saltavam por cima dos bancos e escapavam em fila pela cozinha e pelo depósito de lenha. Rasseneur desapareceu entre os primeiros, e Levaque o seguiu, esquecido dos insultos, sonhando em conseguir que lhe pagasse um caneco para se recompor. Étienne, depois de se apoderar da pequena caixa, esperava com Pluchart e Maheu, que consideravam questão de honra sair por último. Quando partiam, a fechadura saltou, e o comissário encontrou diante de si a viúva, cujo colo e ventre ainda formavam uma barricada.
— Adiantou muito quebrar tudo em minha casa! — disse ela. — Está vendo muito bem que não há ninguém.
O comissário, homem lento, a quem os dramas entediavam, limitou-se a ameaçar levá-la à prisão. Depois saiu para lavrar o auto e levou consigo os quatro gendarmes, sob as gargalhadas de Zacharie e Mouquet, que, admirados com a boa peça pregada pelos companheiros, zombavam da força pública.
Lá fora, na viela, Étienne, atrapalhado com a caixa, saiu correndo, seguido pelos outros. Lembrou-se de repente de Pierron e perguntou por que não o haviam visto; e Maheu, correndo, respondeu que ele estava doente: uma doença conveniente, o medo de se comprometer. Queriam reter Pluchart, mas ele declarou sem parar que partiria imediatamente para Joiselle, onde Legoujeux esperava ordens. Então lhe gritaram boa viagem e não diminuíram a corrida, com os calcanhares no ar, todos lançados através de Montsou. Trocavam palavras entrecortadas pelo arquejar dos peitos. Étienne e Maheu riam confiantes, agora certos do triunfo: quando a Internacional enviasse socorro, seria a Companhia que lhes suplicaria para voltar ao trabalho. E, naquele impulso de esperança, naquele galope de sapatos grossos soando sobre o calçamento das estradas, havia ainda outra coisa, algo sombrio e feroz, uma violência cujo vento espalharia febre pelos corons, nos quatro cantos da região.