SÉTIMA PARTE — Capítulo II
SÉTIMA PARTE
Capítulo II
No domingo, Étienne escapou do conjunto habitacional assim que a noite caiu. Um céu muito puro, crivado de estrelas, iluminava a terra com uma claridade azul de crepúsculo. Ele desceu até o canal e seguiu lentamente pela margem, subindo na direção de Marchiennes. Era seu passeio favorito, um caminho gramado de duas léguas, estendido em linha reta ao longo daquela água geométrica, que se desenrolava como uma barra interminável de prata derretida.
Nunca encontrava ninguém ali. Naquele dia, porém, contrariou-se ao ver um homem caminhando em sua direção. Sob a luz pálida das estrelas, os dois passeantes solitários só se reconheceram quando estavam frente a frente.
— Ora, é você — murmurou Étienne.
Souvarine balançou a cabeça sem responder. Permaneceram imóveis por um instante; depois retomaram juntos o caminho para Marchiennes, lado a lado. Cada um parecia prosseguir suas reflexões, como se estivessem muito distantes um do outro.
— Viu no jornal o sucesso de Pluchart em Paris? — perguntou enfim Étienne. — Esperaram por ele na calçada, fizeram-lhe uma ovação quando saiu daquela reunião em Belleville... Ah, agora ele deslanchou, apesar do resfriado. Daqui em diante, chegará onde quiser.
O maquinista deu de ombros. Desprezava os bons faladores, os sujeitos que entravam na política como se entra na advocacia, para conquistar rendas à força de frases.
Étienne agora se interessava por Darwin. Lera alguns fragmentos, resumidos e vulgarizados num livro de cinco soldos; e, daquela leitura mal compreendida, formava uma ideia revolucionária da luta pela existência: os magros comendo os gordos, o povo forte devorando a burguesia lívida.
Mas Souvarine se irritou, alongou-se sobre a estupidez dos socialistas que aceitavam Darwin, aquele apóstolo da desigualdade científica, cuja famosa seleção só servia aos filósofos aristocratas.
O companheiro, contudo, obstinava-se, queria raciocinar e exprimia suas dúvidas por meio de uma hipótese. A velha sociedade já não existia, haviam varrido até suas migalhas. Pois bem, não se deveria temer que o novo mundo tornasse a crescer, lentamente corrompido pelas mesmas injustiças? Uns doentes e outros vigorosos, uns mais hábeis e inteligentes, engordando com tudo, e os demais, imbecis e preguiçosos, voltando a ser escravos?
Então, diante da visão daquela miséria eterna, o maquinista gritou com voz feroz que, se a justiça não fosse possível com o homem, seria necessário que o homem desaparecesse. Tantas sociedades apodrecidas, tantos massacres, até a exterminação do último ser. E o silêncio tornou a cair.
Durante muito tempo, de cabeça baixa, Souvarine caminhou sobre a relva fina, tão absorvido que seguia pela beira extrema da água, com a tranquila segurança de um sonâmbulo que caminha pelas calhas dos telhados. Depois estremeceu sem motivo, como se tivesse esbarrado numa sombra. Ergueu os olhos, o rosto surgiu muito pálido; e disse suavemente ao companheiro:
— Já lhe contei como ela morreu?
— Quem?
— Minha mulher, lá na Rússia.
Étienne fez um gesto vago, espantado pelo tremor da voz, por aquela necessidade repentina de confidência num rapaz geralmente impassível, em seu desprendimento estoico dos outros e de si mesmo. Sabia apenas que a mulher fora sua amante e que a haviam enforcado em Moscou.
— A operação não deu certo — contou Souvarine, os olhos agora perdidos na extensão branca do canal, entre as colunatas azuladas das grandes árvores. — Ficamos catorze dias no fundo de um buraco, minando a linha férrea; e não foi o trem imperial, mas um trem de passageiros que explodiu... Então prenderam Annouchka. Ela nos levava pão todas as noites, disfarçada de camponesa. Fora também ela quem acendera o pavio, porque um homem poderia chamar a atenção... Acompanhei o julgamento, escondido no meio da multidão, durante seis longos dias...
Sua voz se embaraçou. Teve um acesso de tosse, como se estivesse sufocando.
— Duas vezes tive vontade de gritar, de me lançar por cima das cabeças para me juntar a ela. Mas para quê? Um homem a menos é um soldado a menos; e eu percebia que ela me dizia não com seus grandes olhos fixos, quando encontrava os meus.
— No último dia, na praça, eu estava lá... Chovia, os desajeitados perderam a cabeça, atrapalhados pela chuva forte. Levaram vinte minutos para enforcar outros quatro: a corda arrebentava, eles não conseguiam acabar com o quarto... Annouchka estava de pé, esperando. Não me via, procurava-me na multidão. Subi num marco, e ela me viu. Nossos olhos não se separaram mais. Quando morreu, continuava olhando para mim... Agitei o chapéu e fui embora.
Houve outro silêncio. A alameda branca do canal desenrolava-se ao infinito, e os dois caminhavam no mesmo passo abafado, como se cada um tivesse recaído em seu isolamento. No fundo do horizonte, a água pálida parecia abrir o céu numa estreita fenda de luz.
— Foi nosso castigo — continuou Souvarine com dureza. — Éramos culpados de nos amar... Sim, foi bom que ela morresse. Heróis nascerão de seu sangue, e eu já não tenho nenhuma covardia no coração... Ah, nada, nem pais, nem mulher, nem amigo! Nada que faça a mão tremer no dia em que for preciso tirar a vida dos outros ou dar a própria!
Étienne parara, tremendo sob a noite fresca. Não discutiu, disse apenas:
— Estamos longe. Quer voltar?
Retornaram lentamente na direção do Voreux. Depois de alguns passos, ele acrescentou:
— Viu os novos cartazes?
Eram grandes cartazes amarelos que a Companhia mandara colar naquela manhã. Neles, mostrava-se mais clara e conciliadora, prometia devolver a caderneta aos mineiros que voltassem a descer no dia seguinte. Tudo seria esquecido, o perdão era oferecido até aos mais comprometidos.
— Vi — respondeu o maquinista.
— E o que acha?
— Acho que acabou... O rebanho voltará a descer. Vocês são todos covardes demais.
Febrilmente, Étienne desculpou os companheiros: um homem pode ser valente, uma multidão que morre de fome não tem forças. Passo a passo, haviam retornado ao Voreux; e, diante da massa negra da mina, indistinta nas sombras, ele continuou, jurando que jamais voltaria a descer. Mas perdoava os que descessem.
Depois, como corria o rumor de que os carpinteiros não haviam tido tempo de consertar o revestimento do poço, quis saber. Era verdade? A pressão dos terrenos sobre as madeiras que formavam no poço uma camisa de armação as fizera inchar tanto para dentro que uma das gaiolas de extração raspava ao passar, numa extensão de mais de cinco metros?
Souvarine, que voltara ao silêncio, respondia brevemente. Ainda trabalhara na véspera. A gaiola raspava de fato, e os maquinistas precisavam até dobrar a velocidade para atravessar aquele trecho. Mas todos os chefes recebiam as observações com a mesma frase irritada: precisavam de carvão, fariam uma consolidação melhor mais tarde.
— Imagine se isso arrebenta! — murmurou Étienne. — Seria uma festa.
Com os olhos fixos na mina, vaga na escuridão, Souvarine concluiu tranquilamente:
— Se arrebentar, os companheiros saberão, já que você os aconselha a voltar a descer.
Nove horas soavam no campanário de Montsou. Como o companheiro dissera que voltaria para dormir, ele acrescentou, sem sequer estender a mão:
— Pois bem, adeus. Vou embora.
Étienne, estupefato, emocionado, olhava para ele. Somente depois de duas horas de caminhada lhe contava aquilo, e com uma voz tão calma, quando o simples anúncio daquela separação brusca apertava o coração de Étienne. Haviam se conhecido, haviam labutado juntos. A ideia de não se verem mais sempre entristece.
— Vai embora? Para onde?
— Para lá. Não sei.
— Mas tornarei a vê-lo?
— Não, acho que não.
Os dois se calaram e permaneceram por um momento frente a frente, sem encontrar mais nada para dizer.
Enquanto Étienne subia para o conjunto habitacional, Souvarine virou-lhe as costas e voltou à margem do canal. Ali, agora sozinho, caminhou sem parar, de cabeça baixa, tão mergulhado nas trevas que não passava de uma sombra móvel dentro da noite. De tempos em tempos, detinha-se e contava as horas que soavam ao longe. Quando bateu meia-noite, deixou a margem e dirigiu-se ao Voreux.
Naquele momento, a mina estava vazia. Encontrou apenas um capataz, com os olhos inchados de sono. Só começariam a aquecer as caldeiras às duas horas, para a retomada do trabalho. Primeiro, subiu para pegar no fundo de um armário uma jaqueta que fingiu ter esquecido. Dentro dela estavam enroladas algumas ferramentas: uma verruma com a broca montada, uma pequena serra muito resistente, um martelo e um cinzel. Depois voltou a descer.
Mas, em vez de sair pelo barracão, enfiou-se pelo corredor estreito que levava ao compartimento das escadas. Com a jaqueta sob o braço, desceu devagar, sem lâmpada, medindo a profundidade pela contagem dos lances. Sabia que a gaiola raspava a trezentos e setenta e quatro metros, contra a quinta seção do revestimento inferior. Depois de contar cinquenta e quatro escadas, apalpou com a mão e sentiu o inchaço das peças de madeira. Era ali.
Então, com a habilidade e o sangue-frio de um bom operário que havia muito meditara sobre a tarefa, pôs-se a trabalhar. Começou imediatamente serrando um painel na divisória do compartimento das escadas, de modo a comunicar-se com o compartimento de extração. E, com fósforos rapidamente acesos e apagados, pôde verificar o estado do revestimento e os reparos recentes que haviam feito.
Entre Calais e Valenciennes, o aprofundamento dos poços de mina encontrava dificuldades extraordinárias para atravessar as massas de água estagnadas sob a terra, em lençóis imensos, ao nível dos vales mais baixos. Apenas a construção dos revestimentos, aquelas peças de armação unidas como as aduelas de um barril, conseguia conter as nascentes que afluíam e isolar os poços no meio dos lagos, cujas ondas profundas e obscuras batiam contra suas paredes.
Ao aprofundar o Voreux, fora necessário instalar dois revestimentos. O superior atravessava as areias instáveis e as argilas brancas próximas do terreno cretáceo, rachadas por toda parte, inchadas de água como esponjas. O inferior ficava diretamente acima da camada carbonífera, numa areia amarela fina como farinha, que corria com fluidez de líquido.
Era ali que se encontrava o Torrente, aquele mar subterrâneo, terror das minas de carvão do Norte, um mar com tempestades e naufrágios, um mar ignorado, insondável, rolando suas ondas negras a mais de trezentos metros do sol.
Em geral, os revestimentos resistiam bem à enorme pressão. Temiam apenas o assentamento dos terrenos vizinhos, abalados pelo trabalho contínuo das antigas galerias de exploração, que se enchiam. Nessa descida das rochas, às vezes surgiam linhas de ruptura, que se propagavam lentamente até as armações e, com o tempo, deformavam-nas, empurrando-as para o interior do poço. Ali estava o grande perigo: uma ameaça de desmoronamento e inundação, a mina cheia pela avalanche de terras e pelo dilúvio das nascentes.
Escarranchado na abertura que fizera, Souvarine constatou uma deformação gravíssima na quinta seção do revestimento. As peças de madeira faziam barriga para fora dos quadros; várias haviam até saído dos encaixes. Infiltrações abundantes, os “pichoux”, como diziam os mineiros, jorravam pelas juntas, atravessando a calafetagem de estopa alcatroada com que as vedavam.
E os carpinteiros, pressionados pelo tempo, haviam se limitado a colocar cantoneiras de ferro nos ângulos, com tamanho descuido que nem todos os parafusos estavam instalados. Evidentemente, um movimento considerável se produzia por trás, nas areias do Torrente.
Então, com a verruma, ele afrouxou os parafusos das cantoneiras de modo que uma última pressão pudesse arrancá-los todos. Era um trabalho de temeridade insana, durante o qual esteve vinte vezes a ponto de despencar, de dar o salto dos cento e oitenta metros que o separavam do fundo.
Precisara agarrar os guias de carvalho, as vigas por onde deslizavam as gaiolas; e, suspenso sobre o vazio, deslocava-se pelas travessas que os uniam de trecho em trecho. Escorregava, sentava-se, inclinava-se para trás, sustentado apenas por um cotovelo ou um joelho, num desprezo tranquilo pela morte. Um sopro o teria precipitado. Três vezes perdeu o apoio e se agarrou novamente, sem um arrepio.
Primeiro tateava com a mão, depois trabalhava, acendendo um fósforo apenas quando se perdia no meio daquelas vigas viscosas. Depois de afrouxar os parafusos, atacou as próprias peças; e o perigo aumentou ainda mais. Procurara a chave, a peça que sustentava as outras. Obstinava-se contra ela, furava-a, serrava-a, afinava-a para que perdesse a resistência; enquanto, pelos buracos e fendas, a água escapava em jatos finos, cegando-o e encharcando-o numa chuva gelada.
Dois fósforos se apagaram. Todos estavam molhados. Era a noite, uma profundidade sem fundo de trevas.
A partir daquele instante, uma fúria o arrebatou. Os hálitos do invisível o embriagavam, o horror negro daquele buraco batido pela chuva lançava-o numa febre de destruição. Atacou o revestimento ao acaso, golpeando onde podia, com a verruma, com a serra, tomado pela necessidade de estripá-lo imediatamente sobre a própria cabeça.
E empregava uma ferocidade como se manejasse uma faca na pele de um ser vivo que detestava. Acabaria por matá-la, aquela fera maligna do Voreux, de goela sempre aberta, que engolira tanta carne humana!
Ouvia-se a mordida das ferramentas. Sua coluna se alongava, ele rastejava, descia, subia, sustentando-se ainda por milagre, num movimento contínuo, um voo de pássaro noturno através da armação de um campanário.
Mas se acalmou, descontente consigo mesmo. Não podia fazer as coisas friamente? Sem pressa, retomou o fôlego e voltou ao compartimento das escadas, fechando a abertura com o painel que havia serrado. Era suficiente. Não queria despertar suspeitas com danos grandes demais, que tentariam reparar imediatamente.
A fera estava ferida no ventre. Veriam se ainda viveria ao anoitecer. E ele deixara sua assinatura: o mundo aterrorizado saberia que ela não morrera de morte natural.
Tomou o tempo de enrolar metodicamente as ferramentas na jaqueta e subiu devagar pelas escadas. Depois, quando saiu da mina sem ser visto, nem sequer lhe ocorreu trocar as roupas.
Bateram três horas. Ele permaneceu imóvel junto à estrada e esperou.
Na mesma hora, Étienne, que não dormia, inquietou-se com um ruído leve na noite espessa do quarto. Distinguia a respiração curta das crianças, os roncos de Bonnemort e da Maheude, enquanto, perto dele, Jeanlin assobiava uma nota prolongada de flauta. Sem dúvida sonhara e voltava a se acomodar quando o ruído recomeçou.
Era o ranger de um colchão de palha, o esforço abafado de alguém que se levantava. Então imaginou que Catherine estivesse passando mal.
— É você? O que houve? — perguntou em voz baixa.
Ninguém respondeu. Apenas os roncos dos outros continuaram. Durante cinco minutos, nada se moveu. Depois houve novo ranger. E, certo dessa vez de não ter se enganado, atravessou o quarto e estendeu as mãos nas trevas, para apalpar a cama do outro lado.
Sua surpresa foi grande ao encontrar a jovem sentada, prendendo a respiração, acordada e alerta.
— Por que não respondeu? O que está fazendo?
Ela acabou dizendo:
— Nada. Deixe-me.
— Vai se levantar a esta hora?
— Vou. Volto a trabalhar na mina.
Muito emocionado, Étienne precisou sentar-se à beira do colchão, enquanto Catherine lhe explicava suas razões. Sofria demais vivendo daquele modo, ociosa, sentindo sobre si contínuos olhares de censura. Preferia correr o risco de ser maltratada por Chaval lá embaixo; e, se a mãe recusasse o dinheiro quando ela o trouxesse, pois bem, já era bastante crescida para morar separada e fazer a própria sopa.
— Vá embora, vou me vestir. E não diga nada, está bem? Se quiser ser gentil.
Mas ele permaneceu perto dela, tomou-a pela cintura numa carícia de tristeza e piedade. De camisola, apertados um contra o outro, sentiam o calor da pele nua, à beira daquela cama ainda aquecida pelo sono da noite.
Num primeiro movimento, ela tentou se desvencilhar; depois começou a chorar baixinho, passou-lhe os braços pelo pescoço para mantê-lo junto de si, num abraço desesperado. E permaneceram sem outro desejo, com o passado de seus amores infelizes, que não haviam conseguido satisfazer.
Estaria tudo terminado para sempre? Não ousariam se amar um dia, agora que estavam livres? Bastaria um pouco de felicidade para dissipar a vergonha, aquele mal-estar que os impedia de ficar juntos, por causa de toda espécie de ideias que nem eles mesmos conseguiam compreender claramente.
— Volte para a cama — murmurou ela. — Não quero acender a luz, isso acordaria mamãe... Está na hora, deixe-me.
Ele não escutava. Apertava-a perdidamente, com o coração afogado numa tristeza imensa. Uma necessidade de paz, uma necessidade invencível de ser feliz o invadia; e ele se via casado, numa casinha limpa, sem outra ambição além de viver e morrer ali, os dois juntos.
O pão lhe bastaria. Mesmo que houvesse apenas para um, o pedaço seria dela. Para que outra coisa? A vida valia mais do que isso?
Ela, porém, desfazia o abraço dos braços nus.
— Por favor, deixe-me.
Então, num impulso do coração, ele lhe disse ao ouvido:
— Espere. Vou com você.
E ele próprio se espantou por ter pronunciado aquilo. Jurara não voltar a descer. De onde vinha aquela decisão repentina, saída de seus lábios sem que tivesse pensado, sem que a discutisse por um instante?
Agora, havia nele tamanha calma, uma cura tão completa de suas dúvidas, que se obstinava como um homem salvo pelo acaso e que encontrara enfim a única saída para seu tormento.
Por isso, recusou-se a ouvi-la quando ela se alarmou, compreendendo que ele se sacrificava por sua causa, temendo as palavras cruéis com que o receberiam na mina. Ele não se importava com nada. Os cartazes prometiam perdão, e isso bastava.
— Quero trabalhar, é decisão minha... Vamos nos vestir sem fazer barulho.
Vestiram-se nas trevas, com mil precauções. Ela preparara secretamente, na véspera, as roupas de mineira. Ele tirou do armário uma jaqueta e uma calça. Não se lavaram, por medo de mexer na bacia.
Todos dormiam, mas era necessário atravessar o corredor estreito onde a mãe se deitava. Quando partiram, tiveram o azar de esbarrar numa cadeira. Ela acordou e perguntou, ainda entorpecida de sono:
— Hein? Quem é?
Catherine, tremendo, parara e apertava violentamente a mão de Étienne.
— Sou eu, não se preocupe — disse ele. — Estou sufocando, vou sair para respirar um pouco.
E a Maheude tornou a adormecer. Catherine não ousava mais se mover. Por fim, desceu à sala e dividiu uma fatia de pão que reservara de um pão dado por uma senhora de Montsou. Depois fecharam a porta suavemente e partiram.
Souvarine permanecera de pé perto do Avantage, na esquina da estrada. Havia meia hora, observava os carvoeiros que voltavam ao trabalho, confundidos nas sombras, passando com seu pisar surdo de rebanho. Contava-os como os açougueiros contam os animais à entrada do matadouro; e se espantava com a quantidade. Nem em seu pessimismo imaginara que o número de covardes pudesse ser tão grande.
A fila continuava a se alongar. Ele se enrijecia, muito frio, os dentes cerrados, os olhos claros.
Mas estremeceu. Entre aqueles homens que desfilavam, cujos rostos não distinguia, acabava de reconhecer um pela maneira de andar. Avançou e o deteve.
Surpreendido, Étienne, em vez de responder, balbuciava:
— Ora, ainda não foi embora!
Depois confessou que voltava para a mina. Sem dúvida jurara; mas não era vida esperar de braços cruzados por coisas que talvez só acontecessem dali a cem anos. Além disso, razões pessoais o haviam decidido.
Souvarine o escutara, tremendo. Agarrou-o por um ombro e o empurrou na direção do conjunto habitacional.
— Volte para casa. Estou mandando, ouviu?
Mas Catherine se aproximara, e ele também a reconheceu. Étienne protestava, declarava que não permitia a ninguém julgar sua conduta.
Os olhos do maquinista passaram da jovem para o companheiro; depois ele recuou um passo, num gesto de súbito abandono. Quando havia uma mulher no coração de um homem, o homem estava acabado, podia morrer.
Talvez tornasse a ver, numa visão rápida, sua amante enforcada em Moscou, aquele último laço de sua carne cortado, que o tornara livre da vida dos outros e da própria.
Disse apenas:
— Vá.
Constrangido, Étienne demorava-se, procurando uma palavra de amizade para que não se separassem daquele modo.
— Então vai mesmo embora?
— Vou.
— Pois me dê a mão, meu velho. Boa viagem e sem rancor.
O outro lhe estendeu uma mão gelada. Nem amigo, nem mulher.
— Adeus, desta vez para sempre.
E Souvarine, imóvel nas trevas, acompanhou com os olhos Étienne e Catherine entrando no Voreux.