SEGUNDA PARTE — Capítulo II
SEGUNDA PARTE
Capítulo II
No quarto, que continuava fechado, as venezianas haviam deixado deslizar pouco a pouco faixas cinzentas de luz, cujo leque se abria sobre o teto; e o ar encerrado se tornava cada vez mais carregado, enquanto todos prolongavam o sono da noite: Lénore e Henri nos braços um do outro, Alzire com a cabeça caída para trás, apoiada na corcova; enquanto o velho Bonnemort, ocupando sozinho a cama de Zacharie e Jeanlin, roncava de boca aberta. Nenhum ruído vinha do cubículo, onde a Maheude tornara a adormecer enquanto amamentava Estelle, com o peito escorrido para o lado, a filha atravessada sobre o ventre, empanturrada de leite, também abatida pelo sono e sufocando-se na carne mole dos seios.
O relógio de cuco, lá embaixo, bateu seis horas. Ouviram-se, ao longo das fachadas do coron, ruídos de portas, depois batidas de tamancos sobre o calçamento das calçadas: eram as triadoras que partiam para a mina. E o silêncio tornou a cair até as sete horas. Então venezianas se abriram, bocejos e tosses atravessaram as paredes. Durante muito tempo, um moinho de café rangeu, sem que ninguém ainda despertasse no quarto.
Mas, de repente, uma algazarra distante de bofetadas e gritos fez Alzire se erguer. Percebeu a hora e correu descalça para sacudir a mãe.
— Mamãe! Mamãe! Está tarde. E você tem aquela visita... Cuidado! Vai esmagar Estelle.
E salvou a criança, meio sufocada sob a massa enorme dos seios.
— Maldição! — gaguejava a Maheude, esfregando os olhos. — A gente fica tão arrebentada que dormiria o dia inteiro... Vista Lénore e Henri, vou levá-los comigo; e você ficará com Estelle, não quero arrastá-la por aí, com medo de que adoeça neste tempo desgraçado.
Lavou-se às pressas, vestiu uma velha saia azul, a mais limpa que possuía, e um casaquinho de lã cinzenta no qual pregara dois remendos na véspera.
— E a sopa, maldição! — murmurou novamente.
Enquanto a mãe descia, atropelando tudo, Alzire voltou ao quarto, levando Estelle, que começara a berrar. Mas estava habituada aos ataques da pequena, possuía, aos oito anos, ternas artimanhas de mulher para acalmá-la e distraí-la. Deitou-a suavemente em sua cama ainda quente e tornou a fazê-la adormecer, dando-lhe um dedo para chupar. Já era hora, pois outra confusão explodia; e precisou imediatamente restabelecer a paz entre Lénore e Henri, que finalmente despertavam. Aquelas crianças não se entendiam muito bem, só se abraçavam com carinho enquanto dormiam. A menina, de seis anos, atirava-se assim que levantava sobre o garoto, dois anos mais novo, que recebia as bofetadas sem revidar. Ambos tinham a mesma cabeça grande demais e como que inchada, coberta por cabelos amarelos em desordem. Alzire precisou puxar a irmã pelas pernas, ameaçando arrancar-lhe a pele do traseiro. Depois vieram os sapateados durante a lavagem e a cada peça de roupa que ela lhes vestia. Evitavam abrir as venezianas para não perturbar o sono do velho Bonnemort. Ele continuava roncando no meio da terrível algazarra das crianças.
— Está pronto! Vocês vão descer ou não? — gritou a Maheude.
Ela abrira os postigos, sacudira o fogo e acrescentara carvão. Sua esperança era que o velho não tivesse engolido toda a sopa. Mas encontrou a panela completamente raspada e cozinhou um punhado de aletria, que guardava havia três dias. Comeriam com água, sem manteiga; nada devia restar da pequena quantidade da véspera; e surpreendeu-se ao ver que Catherine, preparando os briquets, fizera o milagre de deixar um pedaço do tamanho de uma noz. Mas, daquela vez, o bufê estava realmente vazio: nada, nenhuma côdea, nenhum resto de mantimento, nenhum osso para roer. O que fariam se Maigrat insistisse em cortar-lhes o crédito e se os burgueses da Piolaine não lhe dessem cem soldos? Quando os homens e a moça voltassem da mina, seria necessário comer; porque ainda não tinham inventado como viver sem comida, infelizmente.
— Vocês vão descer de uma vez? — tornou a gritar, irritada. — Eu já deveria ter saído.
Quando Alzire e as crianças chegaram, dividiu a aletria em três pratos pequenos. Ela própria, dizia, não estava com fome. Embora Catherine já tivesse passado água pela borra da véspera, tornou a fazê-lo uma segunda vez e engoliu duas grandes canecas de um café tão claro que parecia água enferrujada. Ainda assim, aquilo a sustentaria.
— Escute — repetia a Alzire —, deixe seu avô dormir, cuide bem para que Estelle não quebre a cabeça e, se ela acordar, se berrar demais, olhe, aqui está um pedaço de açúcar: derreta e dê algumas colheradas... Sei que você tem juízo e não vai comê-lo.
— E a escola, mamãe?
— A escola, bem, fica para outro dia... Preciso de você.
— E a sopa, quer que eu faça se você demorar?
— A sopa, a sopa... Não, espere por mim.
Alzire, com a inteligência precoce de menina aleijada, sabia perfeitamente fazer a sopa. Deve ter compreendido, pois não insistiu. Agora, o coron inteiro estava acordado, grupos de crianças partiam para a escola, arrastando ruidosamente os tamancos. Bateram oito horas, e um murmúrio crescente de conversas subia à esquerda, na casa da Levaque. Começava o dia das mulheres, ao redor das cafeteiras, com os punhos nos quadris e as línguas girando sem parar, como pedras de moinho. Uma cabeça murcha, de lábios grossos e nariz achatado, veio se encostar ao vidro da janela, gritando:
— Há novidade, venha ouvir!
— Não, não, depois! — respondeu a Maheude. — Tenho uma visita para fazer.
E, temendo ceder à oferta de um copo de café quente, empurrou Lénore e Henri e partiu com eles. No andar de cima, o velho Bonnemort continuava roncando, num ronco ritmado que embalava a casa.
Lá fora, a Maheude se surpreendeu ao perceber que o vento parara. Era um degelo repentino, o céu cor de terra, as paredes pegajosas de uma umidade esverdeada, as estradas cobertas de lama, uma lama própria da região do carvão, negra como fuligem dissolvida, grossa e aderente a ponto de arrancar os tamancos. Logo precisou esbofetear Lénore, pois a pequena se divertia recolhendo a sujeira das galochas como se estivesse na ponta de uma pá. Ao deixar o coron, acompanhara o terril e seguira o caminho do canal, cortando por ruas esburacadas, para encurtar, no meio de terrenos baldios fechados por paliçadas cobertas de musgo. Galpões se sucediam, longos edifícios industriais, chaminés altas que cuspiam fuligem, sujando aquela paisagem devastada de subúrbio operário. Atrás de um grupo de choupos, a antiga mina Réquillart mostrava o desabamento de seu castelo do poço, do qual apenas as grandes estruturas permaneciam em pé. E, virando à direita, a Maheude chegou à estrada principal.
— Espere! Espere, seu porquinho imundo! — gritou. — Vou ensinar você a fazer bolinhas!
Agora era Henri quem agarrara um punhado de lama e a amassava. As duas crianças, esbofeteadas sem preferência, voltaram à ordem, olhando de esguelha as massas que deixavam no meio dos montes. Chapinhavam, já extenuadas pelos esforços para descolar as solas a cada passo.
Na direção de Marchiennes, a estrada estendia seus dois quilômetros de calçamento, correndo em linha reta como uma fita mergulhada em graxa entre as terras avermelhadas. Mas, do outro lado, descia em curvas através de Montsou, construída na encosta de uma larga ondulação da planície. Aquelas estradas do Norte, traçadas a régua entre cidades industriais, avançando em curvas suaves e subidas lentas, edificavam-se pouco a pouco, tendiam a transformar um departamento inteiro numa cidade trabalhadora. As casinhas de tijolos, pintadas para alegrar o clima, umas amarelas, outras azuis, outras negras, estas talvez para atingirem logo o negro final, desciam à direita e à esquerda, serpenteando até o sopé da colina. Alguns grandes casarões de dois andares, moradias de chefes de fábrica, rompiam a fileira apertada das fachadas estreitas. Uma igreja, também de tijolos, parecia um novo modelo de alto-forno, com o campanário quadrado já sujo pela poeira suspensa do carvão. E, entre refinarias de açúcar, cordoarias e moinhos, o que predominava eram os salões de baile, as tabernas, as casas de cerveja, tão numerosas que, em mil edifícios, havia mais de quinhentos estabelecimentos de bebida.
Ao se aproximar das Oficinas da Companhia, uma vasta série de depósitos e galpões, a Maheude decidiu pegar Henri e Lénore pelas mãos, um à direita, outro à esquerda. Mais adiante ficava a residência do diretor, o senhor Hennebeau, uma espécie de grande chalé separado da estrada por uma grade, seguido por um jardim onde vegetavam árvores magras. Justamente, uma carruagem estava parada diante da porta, e um senhor condecorado e uma dama de casaco de peles, alguma visita desembarcada de Paris na estação de Marchiennes; pois a senhora Hennebeau, que apareceu na meia-luz do vestíbulo, soltou uma exclamação de surpresa e alegria.
— Andem, seus molengas! — resmungou a Maheude, puxando as duas crianças, que se abandonavam na lama.
Chegava à casa de Maigrat, muito emocionada. Maigrat morava junto à residência do diretor, apenas um muro separava o casarão de sua pequena casa; e possuía ali um armazém, um edifício comprido, aberto para a estrada numa loja sem vitrine. Vendia de tudo, mantimentos, embutidos, frutas, pão, cerveja e panelas. Antigo fiscal do Voreux, começara com uma pequena cantina; depois, graças à proteção dos chefes, seu comércio se ampliara, matando pouco a pouco o varejo de Montsou. Centralizava as mercadorias, e a vasta clientela dos corons permitia-lhe vender mais barato e conceder créditos maiores. Além disso, continuava submetido à Companhia, que lhe construíra a casa e o armazém.
— Aqui estou outra vez, senhor Maigrat — disse a Maheude com humildade, encontrando-o justamente em pé diante da porta.
Ele a olhou sem responder. Era gordo, frio e educado, e se orgulhava de jamais voltar atrás numa decisão.
— Vamos, não vai me mandar embora como ontem. Precisamos comer pão até sábado... É verdade que lhe devemos sessenta francos há dois anos...
Explicava-se com frases curtas e penosas. Era uma dívida antiga, contraída durante a última greve. Vinte vezes haviam prometido pagá-la, mas não conseguiam, não chegavam a lhe entregar quarenta soldos por quinzena. Além disso, uma desgraça acontecera anteontem, ela precisara pagar vinte francos a um sapateiro que ameaçava mandar penhorar seus bens. Era por isso que estavam sem um tostão. Caso contrário, teriam chegado ao sábado, como os companheiros.
Maigrat, com o ventre esticado e os braços cruzados, respondia negativamente com a cabeça a cada súplica.
— Apenas dois pães, senhor Maigrat. Estou sendo razoável, não peço café... Só dois pães de três libras por dia.
— Não! — gritou ele, finalmente, com toda a força.
Sua mulher aparecera, uma criatura franzina que passava os dias curvada sobre um livro de contas, sem sequer ousar levantar a cabeça. Retirou-se, assustada ao ver aquela infeliz lançar-lhe olhos de súplica ardente. Contavam que ela cedia o leito conjugal às empurradoras da clientela. Era um fato conhecido: quando um mineiro queria prolongar o crédito, bastava mandar a filha ou a mulher, feia ou bonita, desde que fosse complacente.
A Maheude, que ainda suplicava a Maigrat com o olhar, sentiu-se constrangida sob a luz pálida dos pequenos olhos que a despiam. Aquilo a irritou, ainda compreenderia antes de ter sete filhos, quando era jovem. E partiu, puxando com violência Lénore e Henri, que recolhiam cascas de nozes jogadas no riacho e as examinavam.
— Isso não lhe trará sorte, senhor Maigrat, lembre-se!
Agora só lhe restavam os burgueses da Piolaine. Se aqueles não soltassem cem soldos, todos poderiam se deitar e morrer. Tomou à esquerda o caminho de Joiselle. A Administração ficava ali, na esquina da estrada, um verdadeiro palácio de tijolos onde os grandes senhores de Paris, príncipes, generais e personagens do governo vinham, a cada outono, oferecer grandes jantares. Enquanto caminhava, ela já gastava os cem soldos: primeiro pão, depois café; em seguida, um quarto de manteiga, um alqueire de batatas, para a sopa da manhã e o cozido da noite; por fim, talvez um pouco de queijo de porco, pois o pai precisava de carne.
O padre de Montsou, o abade Joire, passava erguendo a batina, com os modos delicados de um gato gordo e bem alimentado que teme molhar o pelo. Era manso, fingia não se ocupar de nada, para não desagradar nem aos operários nem aos patrões.
— Bom dia, senhor padre.
Ele não parou, sorriu para as crianças e deixou-a plantada no meio da estrada. Ela não tinha religião, mas imaginara de repente que o padre lhe daria alguma coisa.
E a caminhada recomeçou pela lama negra e pegajosa. Ainda faltavam dois quilômetros, as crianças se deixavam arrastar cada vez mais, já sem se divertir, consternadas. À direita e à esquerda do caminho estendiam-se os mesmos terrenos baldios, fechados por paliçadas cobertas de musgo, os mesmos blocos de fábricas sujos de fumaça, eriçados por chaminés altas. Depois, no meio dos campos, as terras planas se espalharam, imensas, semelhantes a um oceano de torrões castanhos, sem o mastro de uma árvore, até a linha violácea da floresta de Vandame.
Ela os carregou alternadamente. Poças abriam buracos na estrada, e ela levantava a saia, com medo de chegar suja demais. Três vezes quase caiu, tão escorregadio estava aquele maldito calçamento. E, quando por fim chegaram diante da escadaria, dois cães enormes se lançaram sobre eles, latindo tão alto que os pequenos gritaram de medo. Foi necessário que o cocheiro apanhasse um chicote.
— Deixem os tamancos, entrem — repetia Honorine.
Na sala de jantar, a mãe e os filhos permaneceram imóveis, atordoados pelo calor repentino, muito constrangidos pelos olhares daquele senhor e daquela senhora idosos, estendidos em suas poltronas.
— Minha filha — disse a velha senhora —, cumpra seu pequeno dever.
Os Grégoire encarregavam Cécile de suas esmolas. Aquilo fazia parte de sua ideia de uma bela educação. Era preciso ser caridoso, eles próprios diziam que sua casa era a casa de Deus. Além disso, orgulhavam-se de praticar a caridade com inteligência, atormentados pelo medo contínuo de serem enganados e de estimular o vício. Assim, jamais davam dinheiro, nunca dez soldos, nem mesmo dois, pois era fato conhecido que, tão logo um pobre possuísse dois soldos, gastava-os em bebida. Suas esmolas eram sempre em espécie, sobretudo roupas quentes distribuídas durante o inverno às crianças necessitadas.
— Ah, pobres pequenos! — exclamou Cécile. — Como estão pálidos de caminhar no frio!... Honorine, vá buscar o embrulho no armário.
As criadas também olhavam para aqueles miseráveis, com a compaixão e a ponta de inquietação de moças que não precisavam se preocupar com o jantar. Enquanto a camareira subia, a cozinheira se demorava, pousava o restante do brioche sobre a mesa, para ficar ali, com as mãos caídas.
— Justamente — continuava Cécile —, ainda tenho dois vestidos de lã e xales... Vai ver, eles ficarão aquecidos, os pobres pequenos!
A Maheude então recuperou a fala, gaguejando:
— Muito obrigada, senhorita... Todos são muito bons...
Lágrimas encheram-lhe os olhos, ela se acreditava certa dos cem soldos, preocupava-se apenas com a maneira de pedi-los caso não lhe oferecessem. A camareira demorava a reaparecer, houve um momento de silêncio constrangido. Escondidos nas saias da mãe, os pequenos abriam muito os olhos e contemplavam o brioche.
— A senhora só tem estes dois? — perguntou a senhora Grégoire, para quebrar o silêncio.
— Ah, senhora, tenho sete.
O senhor Grégoire, que voltara a ler o jornal, teve um sobressalto indignado.
— Sete filhos! Mas por quê, meu Deus?
— É uma imprudência — murmurou a velha senhora.
A Maheude fez um gesto vago de desculpa. O que queriam? Ninguém pensava nisso, os filhos vinham naturalmente. E, depois, quando cresciam, traziam dinheiro, ajudavam a manter a casa. Assim, teriam vivido bem, se não fosse pelo avô, que começava a ficar todo duro, e se, entre todos, apenas dois dos rapazes e a filha mais velha não tivessem idade para descer à mina. Ainda era preciso alimentar os pequenos que não faziam nada.
— Então — retomou a senhora Grégoire —, a senhora trabalha nas minas há muito tempo?
Um riso mudo iluminou o rosto pálido da Maheude.
— Ah, sim, ah, sim... Eu mesma desci até os vinte anos. O médico disse que eu morreria lá embaixo quando tive o segundo filho, porque parece que aquilo desarranjava alguma coisa nos meus ossos. Além disso, foi nessa época que me casei, e eu já tinha serviço suficiente em casa... Mas, do lado de meu marido, veja, eles estão lá dentro desde sempre. Remonta ao avô do avô, afinal ninguém sabe, desde o começo, quando deram a primeira picaretada lá em Réquillart.
Pensativo, o senhor Grégoire observava aquela mulher e aquelas crianças deploráveis, com a carne de cera, os cabelos desbotados, a degeneração que as diminuía, roídas pela anemia, numa feiura triste de gente morta de fome. Outro silêncio se fez, ouvia-se apenas a hulha queimar, soltando um jato de gás. A sala úmida possuía aquele ar carregado de conforto no qual adormecem os recantos da felicidade burguesa.
— Mas o que ela está fazendo? — exclamou Cécile, impaciente. — Mélanie, suba e diga que o embrulho está na parte de baixo do armário, à esquerda.
Entretanto, o senhor Grégoire terminou em voz alta as reflexões que a visão daqueles famintos lhe inspirava.
— É verdade que se sofre neste mundo; mas, minha boa mulher, também é preciso dizer que os operários não são muito prudentes... Assim, em vez de guardar algum dinheiro, como nossos camponeses, os mineiros bebem, contraem dívidas e acabam sem ter como alimentar a família.
— O senhor tem razão — respondeu calmamente a Maheude. — Nem sempre seguimos o bom caminho. É o que repito aos desordeiros quando reclamam... Eu tive sorte, meu marido não bebe. Mesmo assim, aos domingos de festa, às vezes toma um pouco demais; mas nunca passa disso. E a atitude dele é ainda mais admirável porque, antes de nos casarmos, bebia como um verdadeiro porco, com todo o respeito... E veja, no entanto, não adianta muito que seja sensato. Há dias, como hoje, em que se poderia virar todas as gavetas da casa sem fazer cair nem uma moedinha.
Queria levá-los a pensar na moeda de cem soldos e continuou com sua voz mansa, explicando a dívida fatal, tímida a princípio, logo ampliada e devoradora. Durante algumas quinzenas, pagava-se regularmente. Mas um dia começava-se a atrasar e tudo acabava, nunca mais se conseguia recuperar. O buraco se aprofundava, os homens tomavam aversão pelo trabalho, que sequer lhes permitia quitar o que deviam. Que se danasse! Ficava-se atolado até a morte. Além disso, era preciso compreender tudo: um mineiro precisava de uma caneca para varrer a poeira da garganta. Começava dessa maneira; depois, quando chegavam os aborrecimentos, já não saía da taberna. Talvez, sem culpar ninguém, os operários realmente não ganhassem o bastante.
— Eu acreditava — disse a senhora Grégoire — que a Companhia lhes fornecesse a moradia e o aquecimento.
A Maheude lançou um olhar oblíquo para a hulha flamejante da lareira.
— Sim, sim, dão-nos carvão, não dos melhores, mas que ainda queima... Quanto ao aluguel, custa apenas seis francos por mês: parece pouco, mas às vezes é muito difícil pagar... Assim, hoje, poderiam me cortar em pedaços sem tirar dois soldos de mim. Onde não há nada, nada se encontra.
O senhor e a senhora se calaram, confortavelmente reclinados, pouco a pouco entediados e incomodados diante daquela exibição de miséria. Ela temeu tê-los ofendido e acrescentou, com o ar justo e tranquilo de mulher prática:
— Ah, não estou reclamando. As coisas são assim, é preciso aceitá-las; ainda mais porque, por mais que lutássemos, provavelmente nada mudaríamos... O melhor, não é, senhor e senhora? É tentar cuidar honestamente de nossos assuntos no lugar onde Deus nos colocou.
O senhor Grégoire aprovou muito.
— Com sentimentos assim, minha boa mulher, a pessoa se eleva acima da desgraça.
Honorine e Mélanie finalmente traziam o embrulho. Foi Cécile quem o desfez e retirou os dois vestidos. Acrescentou xales, até meias e luvas sem dedos. Tudo serviria muito bem, e ela se apressava, mandava as criadas embrulharem as roupas escolhidas; pois sua professora de piano acabava de chegar e ela empurrava a mãe e as crianças para a porta.
— Estamos passando por grandes dificuldades — gaguejou a Maheude. — Se tivéssemos apenas uma moeda de cem soldos...
A frase se estrangulou, pois os Maheu eram orgulhosos e não mendigavam. Cécile, inquieta, olhou para o pai; mas ele recusou com firmeza, com ar de dever.
— Não, não é nosso costume. Não podemos.
Então a moça, comovida pelo rosto transtornado da mãe, quis encher as crianças de presentes. Elas continuavam olhando fixamente para o brioche; cortou duas fatias e lhes entregou.
— Tomem! É para vocês.
Depois as recuperou e pediu um jornal velho.
— Esperem, vocês dividirão com seus irmãos e irmãs.
E, sob os olhares enternecidos dos pais, terminou de empurrá-los para fora. As pobres crianças, que não tinham pão, partiram segurando respeitosamente aquele brioche entre as mãozinhas entorpecidas pelo frio.
A Maheude puxava os filhos pelo calçamento, sem enxergar mais os campos desertos, a lama negra ou o grande céu lívido que girava. Quando atravessou novamente Montsou, entrou decidida na casa de Maigrat e suplicou com tamanha insistência que acabou levando dois pães, café, manteiga e até a moeda de cem soldos, pois o homem também emprestava a juros semanais. Não era ela quem ele desejava, era Catherine: compreendeu quando ele recomendou que mandasse a filha buscar as provisões. Veriam. Catherine lhe daria uma bofetada se ele respirasse perto demais de seu nariz.