TERCEIRA PARTE — Capítulo IV Germinal · Capítulo 15 de 40
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TERCEIRA PARTE — Capítulo IV

TERCEIRA PARTE

Capítulo IV

— Escute — disse a Maheude ao marido —, já que você vai a Montsou receber o pagamento, traga uma libra de café e um quilo de açúcar.

Ele costurava um dos sapatos, para economizar o conserto.

— Está bem — murmurou, sem interromper o trabalho.

— Eu também pediria que passasse no açougue... Um pedaço de vitela, hein? Faz tanto tempo que não vemos carne assim.

Dessa vez, ele levantou a cabeça.

— Você acha que vou receber milhares e milhões?... A quinzena está magra demais, com essa maldita ideia deles de interromper o trabalho o tempo todo.

Os dois se calaram. Era depois do desjejum, num sábado do fim de outubro. A Companhia, sob o pretexto da perturbação causada pelo pagamento, tornara a suspender naquele dia a extração em todas as minas. Tomada de pânico diante da crise industrial que se agravava, sem querer aumentar um estoque já excessivo, aproveitava os menores pretextos para obrigar seus dez mil operários a ficar sem trabalho.

— Você sabe que Étienne está esperando na casa de Rasseneur — retomou a Maheude. — Leve-o com você, ele saberá se arranjar melhor do que você, caso não contem direito suas horas.

Maheu assentiu com a cabeça.

— E fale com aqueles senhores sobre o caso de seu pai. O médico está de acordo com a Direção... Não é, velho, que o médico está enganado e que você ainda pode trabalhar?

Havia dez dias, o pai Bonnemort, com as pernas dormentes, como dizia, permanecia pregado a uma cadeira. Ela precisou repetir a pergunta, e ele resmungou:

— Claro que vou trabalhar. Ninguém está acabado só porque sente dor nas pernas. Tudo isso são histórias que inventam para não me dar a pensão de cento e oitenta francos.

A Maheude pensava nos quarenta soldos do velho, que talvez nunca mais lhe entregasse, e soltou um grito de angústia:

— Meu Deus! Daqui a pouco estaremos todos mortos, se isso continuar.

— Quando se morre — disse Maheu —, já não se sente fome.

Acrescentou alguns pregos aos sapatos e decidiu partir. O conjunto dos Duzentos e Quarenta só seria pago por volta das quatro horas. Por isso os homens não tinham pressa, demoravam-se, saíam um a um, perseguidos pelas mulheres, que lhes suplicavam que voltassem imediatamente. Muitas lhes davam tarefas, para impedi-los de se esquecer nas tabernas.

Na casa de Rasseneur, Étienne viera buscar notícias. Corriam rumores inquietantes, dizia-se que a Companhia estava cada vez mais descontente com os escoramentos. Sobrecarregava os operários de multas, um conflito parecia inevitável. De resto, aquela era apenas a disputa confessada, pois por baixo havia toda uma complicação de causas secretas e graves.

Justamente quando Étienne chegou, um companheiro que bebia uma caneca, de volta de Montsou, contava que um cartaz fora afixado na tesouraria; mas não sabia direito o que estava escrito. Um segundo entrou, depois um terceiro, e cada qual trazia uma história diferente. Parecia certo, entretanto, que a Companhia tomara uma decisão.

— E você, o que acha? — perguntou Étienne, sentando-se perto de Souvarine, diante de uma mesa onde, como única consumação, havia um pacote de tabaco.

O maquinista não se apressou, terminou de enrolar um cigarro.

— Acho que era fácil prever. Eles vão levar vocês ao limite.

Só ele possuía inteligência bastante penetrante para analisar a situação. Explicava tudo com seu ar tranquilo. A Companhia, atingida pela crise, era obrigada a reduzir as despesas, caso não quisesse sucumbir; e, naturalmente, os operários teriam de apertar o ventre, pois ela cortaria os salários, inventando um pretexto qualquer.

Havia dois meses, a hulha permanecia acumulada nos pátios das minas, quase todas as fábricas estavam paradas. Como a Companhia não ousava suspender também a atividade, apavorada com a inércia ruinosa das máquinas e instalações, sonhava com uma solução intermediária, talvez uma greve da qual seu povo de mineiros saísse domado e recebendo menos.

Por fim, a nova caixa de previdência a inquietava, tornava-se uma ameaça para o futuro; enquanto uma greve a livraria dela, esvaziando-a quando ainda continha pouco dinheiro.

Rasseneur sentara-se perto de Étienne, e os dois escutavam com expressão consternada. Podiam conversar em voz alta, pois ali já não havia ninguém além da senhora Rasseneur, sentada ao balcão.

— Que ideia! — murmurou o taberneiro. — Por que tudo isso? A Companhia não tem interesse numa greve, e os operários também não. O melhor seria entrarem num acordo.

Era muito sensato. Ele se mostrava sempre favorável às reivindicações razoáveis. Desde a rápida popularidade do antigo pensionista, chegara até a exagerar aquele sistema de progresso possível, dizendo que nada se conseguia quando se queria obter tudo de uma vez.

Em sua bonomia de homem gordo, nutrido de cerveja, crescia um ciúme secreto, agravado pelo esvaziamento de seu estabelecimento, onde os operários do Voreux entravam menos para beber e ouvi-lo. Assim, às vezes chegava a defender a Companhia, esquecendo o rancor de antigo mineiro demitido.

— Então você é contra a greve? — gritou a senhora Rasseneur, sem deixar o balcão.

E, quando ele respondeu energicamente que sim, ela o fez calar:

— Ora, você não tem coração. Deixe estes senhores falarem!

Étienne refletia, com os olhos na caneca que ela lhe servira. Por fim, levantou a cabeça.

— É muito possível que tudo o que o companheiro contou seja verdade, e precisaremos aceitar essa greve, caso nos obriguem a fazê-la... Justamente, Pluchart me escreveu coisas muito corretas a esse respeito. Ele também é contra a greve, porque o operário sofre tanto quanto o patrão, sem conseguir nada definitivo. Só que vê nisso uma excelente oportunidade para decidir nossos homens a entrar em sua grande máquina... Aliás, aqui está a carta.

De fato, Pluchart, desolado com a desconfiança que a Internacional encontrava entre os mineiros de Montsou, esperava vê-los aderir em massa caso um conflito os obrigasse a lutar contra a Companhia.

Apesar dos esforços, Étienne não conseguira distribuir uma única carteira de associado, dando, de resto, o melhor de sua influência à caixa de socorro, muito mais bem recebida. Mas essa caixa ainda era tão pobre que se esgotaria depressa, como dizia Souvarine; e fatalmente os grevistas recorreriam então à Associação dos Trabalhadores, para que os irmãos de todos os países viessem ajudá-los.

— Quanto vocês têm na caixa? — perguntou Rasseneur.

— Mal chega a três mil francos — respondeu Étienne. — E você sabe que a Direção me mandou chamar anteontem. Ah, foram muito educados, repetiram que não impediam os operários de criar um fundo de reserva. Mas compreendi perfeitamente que queriam controlá-lo... De qualquer maneira, teremos uma batalha por esse lado.

O taberneiro começou a andar, assobiando com ar desdenhoso. Três mil francos! O que pretendiam fazer com aquilo? Não haveria pão para seis dias; e, se contavam com estrangeiros, pessoas que moravam na Inglaterra, podiam deitar-se imediatamente e engolir a língua. Não, aquela greve era uma estupidez!

Então, pela primeira vez, trocaram-se palavras ásperas entre os dois homens, que habitualmente acabavam por se entender em seu ódio comum ao capital.

— Vamos, e você, o que diz? — repetiu Étienne, voltando-se para Souvarine.

Este respondeu com sua habitual expressão de desprezo:

— As greves? Tolices!

Depois, no silêncio irritado que se fizera, acrescentou suavemente:

— No fim das contas, não digo que não, caso isso divirta vocês. Arruína uns, mata outros, e já é alguma coisa eliminada... Só que, nesse ritmo, levaríamos uns mil anos para renovar o mundo. Comecem fazendo explodir este presídio onde todos vocês morrem!

Com a mão fina, apontava o Voreux, cujos edifícios se avistavam pela porta aberta.

Mas um acontecimento inesperado o interrompeu: Polônia, a grande coelha mansa, que se arriscara a sair, voltava aos saltos, fugindo das pedradas de um bando de aprendizes; e, apavorada, com as orelhas abaixadas e o rabo erguido, veio refugiar-se junto às pernas dele, implorando, arranhando-o para que a pegasse. Quando a acomodou sobre os joelhos, abrigou-a entre as duas mãos e caiu naquela espécie de sonolência sonhadora em que o mergulhava a carícia do pelo macio e morno.

Quase no mesmo instante, Maheu entrou. Não quis beber nada, apesar da insistência polida da senhora Rasseneur, que vendia a cerveja como se a oferecesse de graça. Étienne levantou-se, e os dois partiram para Montsou.

Nos dias de pagamento, nos Armazéns da Companhia, Montsou parecia em festa, como nos belos domingos da feira. De todos os conjuntos operários chegava uma multidão de mineiros. Como a sala da tesouraria era muito pequena, preferiam esperar à porta, reuniam-se em grupos na estrada pavimentada, obstruíam a passagem numa fila de gente que se renovava sem cessar. Vendedores ambulantes aproveitavam a ocasião, instalavam seus bazares sobre rodas, expunham até louças e embutidos. Mas eram sobretudo as tabernas e as vendas que faziam boa receita, pois os mineiros, antes de receber, iam esperar diante dos balcões e depois voltavam para molhar o pagamento assim que o tinham no bolso. Ainda se mostravam muito ajuizados quando não o terminavam no Volcan.

À medida que Maheu e Étienne avançavam entre os grupos, perceberam, naquele dia, crescer uma exasperação surda. Não era a despreocupação habitual do dinheiro recebido e logo mordido nas tabernas. Punhos se fechavam, palavras violentas corriam de boca em boca.

— Então é verdade? — perguntou Maheu a Chaval, que encontrou diante da taberna Piquette. — Fizeram mesmo a sujeira?

Mas Chaval limitou-se a responder com um grunhido furioso, lançando um olhar de esguelha para Étienne. Desde a renovação das empreitadas, contratara-se com outros, roído pouco a pouco pela inveja do companheiro, daquele recém-chegado que se apresentava como chefe e cujas botas, segundo dizia, todo o conjunto operário lambia.

A isso se somava uma briga de amantes. Já não levava Catherine a Réquillart ou para trás do terril sem acusá-la, em termos abomináveis, de dormir com o pensionista da mãe; depois a matava de carícias, novamente tomado por um desejo selvagem por ela.

Maheu fez-lhe outra pergunta:

— O Voreux já está sendo pago?

E, como ele virasse as costas depois de responder que sim com um aceno de cabeça, os dois homens decidiram entrar nos Armazéns.

A tesouraria era uma pequena sala retangular, dividida ao meio por uma grade. Sobre bancos encostados às paredes, cinco ou seis mineiros esperavam, enquanto o tesoureiro, auxiliado por um funcionário, pagava a outro, de pé diante do guichê, o boné na mão.

Acima do banco da esquerda, estava colado um cartaz amarelo, ainda fresco sobre o cinza enfumaçado do reboco; e era diante dele que, desde a manhã, os homens desfilavam continuamente. Entravam dois ou três juntos, permaneciam plantados ali, depois saíam sem dizer palavra, sacudindo os ombros como se lhes tivessem quebrado a espinha.

Havia justamente dois carvoeiros diante do cartaz, um jovem com cabeça quadrada de bruto e um velho muito magro, o rosto embrutecido pela idade. Nenhum dos dois sabia ler. O jovem soletrava, mexendo os lábios, e o velho se limitava a olhar estupidamente. Muitos entravam daquele modo, para ver, sem compreender.

— Leia isso para nós — disse Maheu ao companheiro, pois ele também não era forte na leitura.

Então Étienne começou a ler o cartaz. Era um aviso da Companhia aos mineiros de todas as minas. Informava-lhes que, diante do pouco cuidado dedicado ao escoramento, cansada de aplicar multas inúteis, resolvera adotar uma nova forma de pagamento para o desmonte da hulha.

Dali em diante, pagaria o escoramento separadamente, por metro cúbico de madeira descida e empregada, baseando-se na quantidade necessária para um trabalho bem-feito. O preço do vagonete de carvão extraído seria naturalmente reduzido numa proporção de cinquenta cêntimos para quarenta, variando ainda conforme a natureza e a distância das frentes de lavra.

E um cálculo bastante obscuro procurava demonstrar que aquela redução de dez cêntimos seria exatamente compensada pelo pagamento do escoramento. De resto, a Companhia acrescentava que, desejando dar a todos tempo para se convencerem das vantagens oferecidas pelo novo método, só pretendia aplicá-lo a partir de segunda-feira, primeiro de dezembro.

— Poderia ler mais baixo aí? — gritou o tesoureiro. — Assim ninguém se entende.

Étienne terminou a leitura sem dar atenção à observação. Sua voz tremia e, quando acabou, todos continuaram olhando fixamente para o cartaz. O mineiro velho e o jovem pareciam esperar alguma coisa mais; depois partiram, com os ombros vergados.

— Nome de Deus! — murmurou Maheu.

Ele e o companheiro haviam se sentado. Absortos, de cabeça baixa, enquanto o desfile continuava diante do papel amarelo, faziam cálculos. Estavam zombando deles! Jamais recuperariam, com o escoramento, os dez cêntimos retirados do vagonete. No máximo receberiam oito cêntimos, e eram dois cêntimos que a Companhia lhes roubava, sem contar o tempo exigido por um trabalho cuidadoso.

Era, portanto, a isso que ela queria chegar, àquela redução disfarçada de salário! Fazia economia dentro do bolso de seus mineiros.

— Nome de Deus, nome de Deus! — repetiu Maheu, erguendo a cabeça. — Seremos uns imprestáveis se aceitarmos isso!

Mas o guichê estava livre, e ele se aproximou para receber. Somente os chefes das empreitadas se apresentavam à tesouraria, distribuindo depois o dinheiro entre seus homens, o que fazia ganhar tempo.

— Maheu e companheiros — disse o funcionário —, camada Filonnière, frente número sete.

Procurava nas listas, elaboradas a partir dos livretos em que os capatazes registravam diariamente, por frente de trabalho, o número de vagonetes extraídos. Depois repetiu:

— Maheu e companheiros, camada Filonnière, frente número sete... Cento e trinta e cinco francos.

— Perdão, senhor — balbuciou o cortador, tomado de espanto —, tem certeza de que não houve engano?

Olhava para aquela pequena quantia sem apanhá-la, gelado por um arrepio que lhe escorria até o coração. Sem dúvida, esperava um pagamento ruim, mas não podia ser tão pouco, ou então fizera mal as contas. Depois de entregar as partes de Zacharie, de Étienne e do outro companheiro que substituíra Chaval, restariam no máximo cinquenta francos para ele, o pai, Catherine e Jeanlin.

— Não, não há engano — retomou o funcionário. — É preciso descontar dois domingos e quatro dias de paralisação. Portanto, são nove dias de trabalho.

Maheu acompanhava o cálculo, somando em voz baixa: nove dias dariam a ele cerca de trinta francos, dezoito a Catherine, nove a Jeanlin. Quanto ao pai Bonnemort, só tinha três jornadas. Ainda assim, acrescentando os noventa francos de Zacharie e dos dois companheiros, com certeza devia dar mais.

— E não se esqueça das multas — concluiu o funcionário. — Vinte francos de multa por escoramentos defeituosos.

O cortador fez um gesto de desespero. Vinte francos de multa, quatro dias de paralisação! Então a conta fechava. Pensar que já levara para casa pagamentos quinzenais de até cento e cinquenta francos, quando o pai Bonnemort ainda trabalhava e Zacharie ainda não tinha formado casa!

— Afinal, vai pegar ou não? — gritou o tesoureiro, impaciente. — Está vendo que há outro esperando... Se não quer o dinheiro, diga logo.

Quando Maheu finalmente se decidiu a recolher a quantia com a grande mão trêmula, o funcionário o deteve.

— Espere, tenho seu nome aqui. Toussaint Maheu, não é?... O senhor secretário-geral deseja falar com você. Entre, ele está sozinho.

Atordoado, o operário se viu num gabinete mobiliado com mogno antigo e revestido de reps verde desbotado. Durante cinco minutos, escutou o secretário-geral, um homem alto e pálido que lhe falava por cima dos papéis da escrivaninha, sem se levantar.

Mas o zumbido nos ouvidos o impedia de entender. Compreendeu vagamente que se tratava do pai, cuja aposentadoria seria examinada, para uma pensão de cento e cinquenta francos, por cinquenta anos de idade e quarenta de serviço.

Depois, pareceu-lhe que a voz do secretário se tornava mais dura. Era uma reprimenda: acusavam-no de se envolver em política, houve uma alusão ao pensionista e à caixa de previdência; por fim, aconselharam-no a não se comprometer com aquelas loucuras, ele que era um dos melhores operários da mina.

Quis protestar, mas só conseguiu pronunciar palavras desconexas. Torcia o boné entre os dedos febris e retirou-se, balbuciando:

— Certamente, senhor secretário... Garanto ao senhor secretário...

Lá fora, quando reencontrou Étienne, que o esperava, explodiu:

— Sou um imprestável, devia ter respondido!... Não basta não termos o que comer, ainda tenho de ouvir desaforos! Sim, é contra você que ele está; disse que o conjunto operário estava envenenado... E o que fazer, nome de Deus? Curvar a espinha e agradecer. Ele tem razão, é o mais sensato.

Maheu se calou, atormentado ao mesmo tempo pela cólera e pelo medo. Étienne refletia com ar sombrio.

Tornaram a atravessar os grupos que bloqueavam a rua. A exasperação crescia, uma exasperação de povo calmo, um rumor surdo de tempestade, sem violência nos gestos, terrível sobre aquela massa pesada.

Algumas cabeças capazes de fazer contas haviam calculado, e os dois cêntimos ganhos pela Companhia sobre a madeira circulavam de boca em boca, inflamando até os crânios mais duros.

Mas o que sobretudo os enfurecia era o desastre daquele pagamento, a revolta da fome contra a paralisação e as multas. Já não comiam; o que seria deles se os salários fossem novamente reduzidos?

Nas tabernas, a indignação irrompia em voz alta, e a cólera secava de tal modo as gargantas que o pouco dinheiro recebido ficava sobre os balcões.

De Montsou ao conjunto operário, Étienne e Maheu não trocaram uma palavra.

Quando este entrou em casa, a Maheude, que estava sozinha com as crianças, percebeu imediatamente que ele vinha de mãos vazias.

— Ora, você foi muito gentil! — disse ela. — E meu café, meu açúcar, a carne? Um pedaço de vitela não teria levado você à ruína.

Ele não respondia, estrangulado por uma emoção que tentava conter. Depois, naquele rosto espesso de homem endurecido pelo trabalho das minas, houve um inchaço de desespero, e grossas lágrimas romperam dos olhos, caindo numa chuva quente.

Desabou sobre uma cadeira, chorava como uma criança, atirando os cinquenta francos sobre a mesa.

— Tome! — balbuciou. — É isto que trago... É o trabalho de todos nós.

A Maheude olhou para Étienne e o viu calado, abatido. Então ela também começou a chorar. Como alimentar nove pessoas com cinquenta francos durante quinze dias? O filho mais velho os deixara, o velho já não conseguia mexer as pernas: logo seria a morte.

Alzire lançou-se ao pescoço da mãe, transtornada por ouvi-la chorar. Estelle berrava, Lénore e Henri soluçavam.

E de todo o conjunto operário logo subiu o mesmo clamor de miséria. Os homens haviam voltado, cada família se lamentava diante do desastre daquele pagamento ruim.

As portas tornaram a se abrir, mulheres apareceram, gritando para fora, como se suas queixas não pudessem caber sob os tetos das casas fechadas. Caía uma chuva fina, mas elas não a sentiam. Chamavam umas às outras pelas calçadas, mostravam, no côncavo das mãos, o dinheiro recebido.

— Olhem! Foi isto que deram a ele. Não é zombar da nossa cara?

— Vejam o meu! Nem tenho o bastante para pagar o pão da quinzena.

— E eu, então! Façam as contas, ainda vou precisar vender minhas camisas.

A Maheude saíra como as outras. Um grupo formou-se em torno da Levaque, que gritava mais alto; pois o marido bêbado nem sequer reaparecera, e ela adivinhava que, grande ou pequeno, o pagamento se derreteria no Volcan.

Philomène vigiava Maheu, para impedir que Zacharie começasse a gastar o dinheiro.

E somente a Pierronne parecia bastante calma, pois aquele hipócrita de Pierron sempre conseguia, ninguém sabia como, ter no livrete do capataz mais horas do que os companheiros.

Mas a Brûlé considerava aquilo uma covardia do genro. Estava junto das que se enfureciam, magra e ereta no meio do grupo, com o punho estendido na direção de Montsou.

— Pensar — gritou, sem nomear os Hennebeau — que esta manhã vi a criada deles passar de carruagem!... Sim, a cozinheira numa carruagem de dois cavalos, indo a Marchiennes buscar peixe, com certeza!

Um clamor se ergueu, e as violências recomeçaram. Aquela criada de avental branco, conduzida ao mercado da cidade vizinha na carruagem dos patrões, despertava indignação. Enquanto os operários morriam de fome, eles precisavam comer peixe, apesar de tudo? Talvez não comessem peixe para sempre: a vez da gente pobre chegaria.

E as ideias semeadas por Étienne germinavam, ampliavam-se naquele grito de revolta. Era a impaciência diante da idade de ouro prometida, a pressa de receber sua parte de felicidade, além daquele horizonte de miséria, fechado como uma sepultura. A injustiça se tornava excessiva, acabariam exigindo seus direitos, já que lhes tiravam o pão da boca.

As mulheres, sobretudo, teriam querido entrar de assalto, naquele mesmo instante, na cidade ideal do progresso, onde já não haveria miseráveis. Quase anoitecia, e a chuva redobrava, mas elas ainda enchiam o conjunto operário com suas lágrimas, em meio à debandada estridente das crianças.

À noite, no Avantage, a greve foi decidida. Rasseneur já não a combatia, e Souvarine a aceitava como um primeiro passo. Étienne resumiu a situação numa frase: se a Companhia queria mesmo a greve, teria a greve.

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