QUARTA PARTE — Capítulo V Germinal · Capítulo 21 de 40
Obra Menu

QUARTA PARTE — Capítulo V

QUARTA PARTE

Capítulo V

Passou-se outra quinzena. Estavam nos primeiros dias de janeiro, sob neblinas frias que entorpeciam a imensa planície. E a miséria piorara ainda mais, os corons agonizavam de hora em hora sob a escassez crescente. Quatro mil francos enviados de Londres pela Internacional não haviam proporcionado três dias de pão. Depois, nada mais chegara. A morte daquela grande esperança abatia os ânimos. Com quem contar agora, se os próprios irmãos os abandonavam? Sentiam-se perdidos no coração do inverno rigoroso, isolados do mundo.

Na terça-feira, todo recurso acabou no coron dos Duzentos e Quarenta. Étienne se multiplicara ao lado dos delegados: abriam novas subscrições nas cidades vizinhas e até em Paris; faziam coletas, organizavam conferências. Esses esforços pouco produziam, a opinião pública, de início comovida, tornava-se indiferente desde que a greve se prolongava, muito calma, sem dramas apaixonantes. Mal algumas esmolas escassas bastavam para sustentar as famílias mais pobres. As outras viviam empenhando as roupas, vendendo a casa peça por peça. Tudo ia parar nas mãos dos belchiores: a lã dos colchões, os utensílios de cozinha, até os móveis. Por um momento, acreditaram-se salvos: os pequenos comerciantes de Montsou, arruinados por Maigrat, haviam oferecido crédito, tentando recuperar a freguesia; e, durante uma semana, Verdonck, o merceeiro, e os dois padeiros, Carouble e Smelten, realmente mantiveram as lojas abertas; mas seus adiantamentos se esgotaram, e os três pararam. Os oficiais de justiça se alegraram, pois disso resultava apenas um esmagamento de dívidas que haveria de oprimir os mineiros por muito tempo. Já não havia crédito em lugar algum, nem uma velha panela para vender. Podiam deitar-se num canto e morrer como cães sarnentos.

Étienne teria vendido a própria carne. Renunciara ao salário e fora a Marchiennes empenhar as calças e a sobrecasaca de tecido grosso, feliz por ainda fazer ferver a panela dos Maheu. Restavam-lhe apenas as botas, que conservava para manter os pés firmes, dizia. Seu desespero vinha de a greve ter começado cedo demais, quando a caixa de previdência ainda não tivera tempo de se encher. Via nisso a única causa do desastre, pois os operários certamente venceriam os patrões no dia em que encontrassem na poupança o dinheiro necessário para resistir. E recordava as palavras de Souvarine, acusando a Companhia de provocar a greve para destruir os primeiros fundos da caixa.

A visão do coron, daquela pobre gente sem pão nem fogo, transtornava-o. Preferia sair e se exaurir em longas caminhadas. Certa noite, quando voltava e passava perto de Réquillart, avistara à margem da estrada uma velha desmaiada. Sem dúvida, morria de inanição; e, depois de levantá-la, começou a chamar uma moça que via do outro lado da cerca.

— Ora, é você — disse, reconhecendo a Mouquette. — Ajude-me, precisamos fazê-la beber alguma coisa.

A Mouquette, comovida até as lágrimas, entrou depressa na construção cambaleante que o pai improvisara no meio dos escombros. Saiu logo com genebra e um pão. A genebra reanimou a velha, que, sem falar, mordeu o pão com avidez. Era mãe de um mineiro, morava num coron para os lados de Cougny e caíra ali quando voltava de Joiselle, onde tentara inutilmente pedir emprestados dez soldos a uma irmã. Depois de comer, afastou-se ainda atordoada.

Étienne permanecera no terreno baldio de Réquillart, cujos galpões desabados desapareciam sob as sarças.

— Então, não entra para beber um copinho? — perguntou a Mouquette, alegremente.

E, como ele hesitava:

— Ainda tem medo de mim?

Conquistado pelo riso dela, ele a seguiu. O pão que ela dera com tanta generosidade o enternecia. Ela não quis recebê-lo no quarto do pai, levou-o ao próprio quarto, onde imediatamente serviu dois copinhos de genebra. O cômodo era muito limpo, e ele a elogiou. Aliás, a família não parecia carecer de nada: o pai continuava seu serviço de tratador no Voreux; e ela, para não viver de braços cruzados, começara a trabalhar como lavadeira, o que lhe rendia trinta soldos por dia. Uma mulher podia se divertir com os homens sem por isso ser preguiçosa.

— Diga — murmurou ela de repente, aproximando-se e tomando-o gentilmente pela cintura —, por que você não quer me amar?

Ele também não pôde deixar de rir, de tão meigo que fora o jeito dela de dizer aquilo.

— Mas eu gosto de você — respondeu.

— Não, não do jeito que eu quero... Você sabe que morro de vontade. Diga, isso me faria tão feliz!

Era verdade, havia seis meses que ela lhe pedia. Ele continuava a olhá-la, colada ao seu corpo, apertando-o com os dois braços trêmulos, o rosto erguido numa súplica de amor tão grande que o comovia muito. Seu rosto gordo e redondo nada tinha de bonito, com a pele amarelada, comida pelo carvão; mas os olhos brilhavam como fogo, saía de sua pele um encanto, um estremecimento de desejo que a tornava rosada e muito jovem. Então, diante daquela entrega tão humilde, tão ardente, ele não ousou mais recusar.

— Oh, você aceita — balbuciou ela, encantada. — Oh, você aceita!

E se entregou com a inabilidade e o desfalecimento de uma virgem, como se fosse a primeira vez e jamais tivesse conhecido homem algum. Depois, quando ele a deixou, foi ela quem transbordou de gratidão: agradecia-lhe, beijava-lhe as mãos.

Étienne ficou um pouco envergonhado daquela boa fortuna. Ninguém se gabava de ter possuído a Mouquette. Ao partir, jurou a si mesmo que não repetiria. Ainda assim, conservava por ela uma lembrança afetuosa: era uma boa moça.

Quando voltou ao coron, aliás, notícias graves o fizeram esquecer a aventura. Corria o rumor de que a Companhia talvez consentisse numa concessão, caso os delegados tentassem nova diligência junto ao diretor. Pelo menos, alguns porions haviam espalhado esse boato. A verdade era que, na luta travada, a mina sofria ainda mais do que os mineiros. Dos dois lados, a obstinação acumulava ruínas: enquanto o trabalho morria de fome, o capital se destruía. Cada dia parado consumia centenas de milhares de francos. Toda máquina que para é uma máquina morta. As ferramentas e o material se deterioravam, o dinheiro imobilizado desaparecia como água bebida pela areia. Desde que o pequeno estoque de hulha se esgotava nos pátios das minas, os clientes falavam em recorrer à Bélgica; e nisso havia uma ameaça para o futuro. Mas o que sobretudo assustava a Companhia, aquilo que escondia cuidadosamente, eram os estragos crescentes nas galerias e nas frentes de lavra. Os porions já não bastavam para os reparos, as madeiras quebravam por toda parte, desabamentos ocorriam a cada hora. Em pouco tempo, os danos se tornaram tão grandes que exigiriam longos meses de reparação antes que o desmonte pudesse ser retomado. Histórias já corriam pela região: em Crèvecœur, trezentos metros de galeria haviam desabado de uma vez, bloqueando o acesso ao veio Cinq-Paumes; em Madeleine, o veio Maugrétout se desfazia e se enchia de água. A Direção recusava-se a admitir tudo isso, quando, de repente, dois acidentes consecutivos a haviam obrigado a confessar. Certa manhã, perto da Piolaine, encontraram o solo rachado acima da galeria norte de Mirou, que desabara na véspera; e, no dia seguinte, um abatimento interno do Voreux sacudiu todo um trecho do subúrbio, a ponto de duas casas quase desaparecerem.

Étienne e os delegados hesitavam em arriscar uma diligência sem conhecer as intenções da Administração. Dansaert, interrogado por eles, evitou responder: certamente lamentavam o mal-entendido e fariam tudo para chegar a um acordo; mas ele não dava precisão alguma. Por fim, decidiram procurar o senhor Hennebeau para deixar a razão do próprio lado, pois não queriam que mais tarde os acusassem de ter recusado à Companhia uma oportunidade de reconhecer seus erros. Apenas juraram não ceder em ponto algum e manter a qualquer custo suas condições, as únicas justas.

A entrevista ocorreu na manhã de terça-feira, no dia em que o coron mergulhava na miséria mais negra. Foi menos cordial que a primeira. Maheu voltou a falar, explicou que os companheiros os enviavam para perguntar se aqueles senhores não tinham nada de novo a lhes dizer. A princípio, o senhor Hennebeau fingiu surpresa: nenhuma ordem lhe chegara, as coisas não poderiam mudar enquanto os mineiros persistissem naquela revolta detestável; e tamanha rigidez autoritária produziu o pior efeito, a tal ponto que, se os delegados haviam se deslocado com intenções conciliadoras, a maneira como eram recebidos teria bastado para fazê-los insistir ainda mais. Depois, o diretor se dispôs a procurar um terreno para concessões mútuas: os operários aceitariam o pagamento do escoramento à parte, enquanto a Companhia elevaria esse pagamento nos dois centavos dos quais a acusavam de se aproveitar. Acrescentou, aliás, que assumia pessoalmente a proposta, que nada estava decidido, mas esperava obter em Paris aquela concessão. Os delegados, porém, recusaram e repetiram suas exigências: manutenção do antigo sistema, com aumento de cinco centavos por vagoneta. Então ele admitiu que podia fechar o acordo imediatamente e os pressionou a aceitar, em nome das mulheres e dos pequenos que morriam de fome. E eles, de olhos baixos, a cabeça dura, disseram não, sempre não, com um obstinado balanço de cabeça. Separaram-se brutalmente. O senhor Hennebeau batia as portas. Étienne, Maheu e os demais se retiravam, fazendo os grossos saltos ressoarem no calçamento, na fúria muda de vencidos levados ao limite.

Por volta das duas horas, as mulheres do coron tentaram, por sua vez, uma diligência junto a Maigrat. Restava apenas aquela esperança: dobrar o homem, arrancar-lhe mais uma semana de crédito. A ideia partira da Maheude, que muitas vezes confiava demais no bom coração das pessoas. Convenceu a Brûlé e a Levaque a acompanhá-la; quanto à Pierronne, desculpou-se, dizendo que não podia abandonar Pierron, cuja doença nunca terminava de sarar. Outras mulheres se juntaram ao grupo, cerca de vinte ao todo. Quando os burgueses de Montsou as viram chegar, ocupando toda a largura da estrada, sombrias e miseráveis, balançaram a cabeça, inquietos. Portas se fecharam, uma senhora escondeu a prataria. Era a primeira vez que as viam assim, e nada constituía sinal pior: em geral, tudo se estragava quando as mulheres tomavam as estradas daquele modo.

Na casa de Maigrat, houve uma cena violenta. A princípio, ele as fizera entrar, rindo com escárnio, fingindo acreditar que vinham pagar as dívidas: isso sim era gentil, terem combinado trazer todo o dinheiro de uma vez. Depois, assim que a Maheude tomou a palavra, fingiu se enfurecer. Estavam zombando dele? Mais crédito, sonhavam então em levá-lo à ruína? Não, nem mais uma batata, nem uma migalha de pão! E as mandava procurar o merceeiro Verdonck, os padeiros Carouble e Smelten, já que agora se abasteciam com eles. As mulheres o escutavam com humildade medrosa, desculpavam-se, procuravam nos olhos dele algum sinal de enternecimento. Ele tornou a fazer gracejos, ofereceu sua loja à Brûlé caso ela o aceitasse como amante. Tal covardia dominava todas elas que chegaram a rir; e a Levaque aumentou a brincadeira, declarando que ela aceitava. Mas ele logo se tornou grosseiro e as empurrou para a porta. Como insistiam, suplicantes, tratou uma delas com brutalidade. As outras, já na calçada, chamaram-no de vendido, enquanto a Maheude, os dois braços erguidos num ímpeto de indignação vingadora, invocava a morte, gritando que um homem daqueles não merecia comer.

O retorno ao coron foi lúgubre. Quando as mulheres voltaram de mãos vazias, os homens olharam para elas e depois baixaram a cabeça. Estava acabado, o dia terminaria sem uma colherada de sopa; e os outros dias se estendiam dentro de uma sombra glacial, sem que esperança alguma brilhasse. Eles haviam desejado aquilo, e nenhum falava em se render. A miséria excessiva os fazia insistir ainda mais, mudos, como animais acuados, resolvidos a morrer no fundo da toca em vez de sair. Quem ousaria ser o primeiro a falar em submissão? Haviam jurado aos companheiros resistir todos juntos, e todos resistiriam, como resistiam na mina quando um deles ficava sob um desabamento. Era uma obrigação. Lá embaixo, tinham uma boa escola para aprender a se resignar; podiam apertar o ventre durante oito dias quando engoliam fogo e água desde os doze anos; e sua dedicação se duplicava com o orgulho de soldados, de homens orgulhosos do próprio ofício, que haviam adquirido, na luta diária contra a morte, uma fanfarronice do sacrifício.

Na casa dos Maheu, a noite foi terrível. Todos se calavam, sentados diante do fogo agonizante, onde fumegava a última papa de restos de carvão. Depois de esvaziarem os colchões, punhado após punhado, haviam se decidido, na antevéspera, a vender por três francos o relógio de cuco; e a sala parecia nua e morta desde que o tique-taque familiar deixara de enchê-la. Agora, no centro do aparador, não restava outro luxo além da caixa de papelão rosado, antigo presente de Maheu, que a Maheude estimava como uma joia. As duas cadeiras boas haviam partido; o pai Bonnemort e as crianças se apertavam num velho banco coberto de musgo, trazido do jardim. E o crepúsculo lívido que caía parecia aumentar o frio.

— O que fazer? — repetiu a Maheude, agachada junto ao fogão.

Étienne, de pé, olhava os retratos do imperador e da imperatriz colados à parede. Há muito os teria arrancado dali se a família não os defendesse como enfeite. Por isso murmurou, de dentes cerrados:

— E pensar que não tiraríamos nem dois soldos desses imprestáveis que ficam nos olhando morrer!

— E se eu levasse a caixa? — retomou a mulher, muito pálida, depois de hesitar.

Maheu, sentado à beira da mesa, com as pernas pendentes e a cabeça caída sobre o peito, endireitou-se.

— Não, não quero!

Penosamente, a Maheude se levantou e deu a volta pela sala. Seria possível, meu Deus, terem chegado àquela miséria? O aparador sem uma migalha, nada mais para vender, nem sequer uma ideia para conseguir um pão! E o fogo prestes a se apagar! Enfureceu-se contra Alzire, que mandara pela manhã recolher restos de carvão no terril e voltara de mãos vazias, dizendo que a Companhia proibia a coleta. Que se danasse a Companhia! Como se estivessem roubando alguém ao recolher os fragmentos de carvão perdidos! A pequena, desesperada, contou que um homem ameaçara esbofeteá-la; depois prometeu voltar no dia seguinte e se deixar bater.

— E aquele desgraçado do Jeanlin? — gritou a mãe. — Onde está outra vez, eu pergunto?... Devia trazer salada, ao menos poderíamos pastar como animais! Vocês vão ver, ele não voltará. Ontem já dormiu fora. Não sei o que anda tramando, mas o maldito sempre parece estar de barriga cheia.

— Talvez — disse Étienne — esteja recolhendo moedas pela estrada.

Ela então ergueu os dois punhos, fora de si.

— Se eu soubesse disso!... Meus filhos mendigando! Preferia matá-los e depois me matar.

Maheu tornara a desabar à beira da mesa. Lénore e Henri, espantados porque não comiam, começavam a choramingar; enquanto o velho Bonnemort, silencioso, passava filosoficamente a língua pela boca para enganar a fome. Ninguém falou mais, todos entorpecidos pela agravação dos males: o avô tossindo, cuspindo negro, novamente atacado por reumatismos que se transformavam em hidropisia; o pai asmático, com os joelhos inchados de água; a mãe e os pequenos atormentados pela escrófula e pela anemia hereditárias. Sem dúvida, o ofício exigia aquilo; só se queixavam quando a falta de alimento completava a destruição; e já caíam como moscas no coron. Ainda assim, precisavam encontrar o que comer à noite. O que fazer, aonde ir, meu Deus?

Então, no crepúsculo cuja tristeza lúgubre escurecia cada vez mais a sala, Étienne, que hesitava havia um instante, decidiu-se, com o coração dilacerado.

— Esperem por mim — disse. — Vou procurar em algum lugar.

E saiu. Lembrara-se da Mouquette. Ela certamente teria um pão e o daria de bom grado. Irritava-o ser obrigado a voltar assim a Réquillart: aquela moça lhe beijaria as mãos com seu ar de criada apaixonada; mas não se abandonavam amigos na desgraça, e ele seria gentil outra vez com ela, se fosse preciso.

— Eu também vou procurar — disse a Maheude, por sua vez. — Isso é absurdo demais.

Abriu a porta atrás do jovem e tornou a fechá-la violentamente, deixando os outros imóveis e mudos sob a luz escassa de uma ponta de vela que Alzire acabara de acender. Do lado de fora, uma breve reflexão a deteve. Depois, entrou na casa dos Levaque.

— Escute, emprestei um pão a você outro dia. E se me devolvesse agora?

Mas interrompeu-se. O que via não era nada animador; e a casa exalava miséria ainda mais do que a sua.

A Levaque, de olhos fixos, contemplava o fogo apagado, enquanto Levaque, embriagado por alguns fabricantes de pregos, de estômago vazio, dormia sobre a mesa. Encostado à parede, Bouteloup esfregava maquinalmente os ombros, com a perplexidade de um bom sujeito cujas economias haviam sido comidas e que se admirava de precisar apertar o ventre.

— Um pão! Ah, minha querida — respondeu a Levaque. — Eu é que queria pedir outro a você!

Então, como o marido gemesse de dor durante o sono, ela lhe esmagou o rosto contra a mesa.

— Cale a boca, porco! Bem feito que suas tripas estejam queimando!... Em vez de deixar que lhe pagassem bebida, não podia ter pedido vinte soldos emprestados a um amigo?

Continuou praguejando, aliviando-se no meio da sujeira da casa, abandonada havia tanto tempo que um odor insuportável se erguia do piso. Tudo podia desabar, ela não se importava! O filho, aquele canalha do Bébert, também desaparecera desde manhã, e ela gritava que seria um belo alívio se nunca mais voltasse. Depois disse que iria se deitar. Ao menos ficaria aquecida. Empurrou Bouteloup.

— Vamos, depressa! Suba... O fogo morreu, não há necessidade de acender a vela para ver os pratos vazios... Você vem ou não, Louis? Estou dizendo que vamos nos deitar. A gente se encosta, isso alivia... E que esse maldito bêbado morra sozinho de frio aqui!

Quando se encontrou novamente lá fora, a Maheude atravessou decidida os jardins para chegar à casa dos Pierron. Ouviam-se risadas. Ela bateu, e fez-se um silêncio brusco. Levaram um longo minuto para abrir.

— Ora, é você! — exclamou a Pierronne, fingindo grande surpresa. — Pensei que fosse o médico.

Sem permitir que a outra falasse, continuou, mostrando Pierron sentado diante de um grande fogo de hulha:

— Ah, ele não está bem, continua sem melhorar. O rosto parece bom, mas é o ventre que o atormenta. Então precisa de calor, estamos queimando tudo o que temos.

Pierron, de fato, parecia vigoroso, de pele corada e carne gorda. Em vão soprava para aparentar doença. Além disso, ao entrar, a Maheude sentira forte cheiro de coelho: certamente haviam escondido o prato. Migalhas se espalhavam pela mesa; e, bem no meio, avistou uma garrafa de vinho esquecida.

— Mamãe foi a Montsou tentar conseguir um pão — retomou a Pierronne. — Estamos morrendo de ansiedade, esperando por ela.

Mas a voz se estrangulou. Acompanhara o olhar da vizinha e também encontrara a garrafa. Recuperou-se imediatamente e contou a história: sim, era vinho, os burgueses da Piolaine haviam trazido aquela garrafa para seu marido, a quem o médico receitara bordeaux. E não parava de agradecer, que bons burgueses! Sobretudo a senhorita, nada orgulhosa, entrando nas casas dos operários, distribuindo pessoalmente suas esmolas!

— Eu sei — disse a Maheude. — Conheço todos eles.

O coração se apertava ao pensar que o bem sempre ia para os menos pobres. Nunca falhava, aquela gente da Piolaine levaria água ao rio. Como não os vira no coron? Talvez ainda tivesse conseguido alguma coisa.

— Eu vim, então — confessou finalmente —, para saber se aqui há mais fartura do que em nossa casa... Você teria ao menos um pouco de aletria, que eu devolveria depois?

A Pierronne se desesperou ruidosamente.

— Nada, minha querida. Nem o que se poderia chamar de um grão de sêmola... Se mamãe ainda não voltou, é porque não conseguiu. Vamos nos deitar sem jantar.

Nesse momento, choros vieram do porão, e ela se enfureceu, batendo com o punho na porta. Era aquela vagabunda da Lydie, que trancara ali, dizia, para castigá-la por ter voltado apenas às cinco horas, depois de passar o dia inteiro perambulando. Já não se conseguia dominá-la, desaparecia a toda hora.

A Maheude, entretanto, continuava de pé, sem conseguir decidir-se a partir. Aquele grande fogo penetrava-a com um bem-estar doloroso, e a ideia de que ali se comia escavava ainda mais seu estômago. Evidentemente, haviam mandado a velha embora e trancado a pequena para devorarem o coelho. Ah, por mais que dissessem, quando uma mulher se comportava mal, isso trazia sorte à sua casa!

— Boa noite — disse de repente.

Do lado de fora, a noite caíra, e a lua, atrás das nuvens, iluminava a terra com claridade suspeita. Em vez de tornar a atravessar os jardins, a Maheude deu a volta, desolada, sem coragem de regressar à própria casa. Mas, ao longo das fachadas mortas, todas as portas cheiravam a fome e soavam ocas. De que adiantaria bater? Era a mesma miséria por toda parte. Havia semanas que já não comiam, e até o cheiro da cebola desaparecera, aquele odor forte que anunciava o coron de longe, no meio do campo; agora, havia apenas cheiro de velhas criptas, a umidade dos buracos onde nada vive. Os ruídos vagos morriam, lágrimas sufocadas, palavrões perdidos; e, no silêncio que se tornava pouco a pouco mais opressivo, ouvia-se chegar o sono da fome, o abatimento dos corpos atirados de través sobre as camas, sob os pesadelos dos ventres vazios.

Quando passava diante da igreja, viu uma sombra escapar rapidamente. Uma esperança a fez apressar o passo, pois reconhecera o pároco de Montsou, o abade Joire, que celebrava a missa aos domingos na capela do coron. Sem dúvida, saía da sacristia, aonde algum assunto o chamara. De costas encurvadas, corria com seu jeito de homem gordo e manso, desejoso de viver em paz com todos. Se fizera aquela visita à noite, devia ser para não se comprometer no meio dos mineiros. Dizia-se, aliás, que acabara de receber uma promoção. Já havia mesmo passeado com seu sucessor, um padre magro, de olhos como brasas vermelhas.

— Senhor pároco, senhor pároco — balbuciou a Maheude.

Mas ele não parou.

— Boa noite, boa noite, minha boa mulher.

Ela se encontrava diante de casa. As pernas já não a sustentavam, e entrou.

Ninguém se mexera. Maheu permanecia à beira da mesa, abatido. O velho Bonnemort e os pequenos se apertavam no banco para sentir menos frio. E nenhuma palavra fora pronunciada; apenas a vela queimara, agora tão curta que em breve até a luz lhes faltaria. Ao ruído da porta, as crianças viraram a cabeça; mas, ao verem que a mãe não trazia nada, tornaram a olhar para o chão, reprimindo uma grande vontade de chorar, com medo de receber uma bronca. A Maheude tornou a cair em seu lugar, junto ao fogo agonizante. Ninguém a interrogou, e o silêncio prosseguiu. Todos haviam compreendido, julgavam inútil ainda se cansarem falando; e agora era uma espera aniquilada, sem coragem, a espera derradeira pelo socorro que Étienne talvez conseguisse desenterrar em algum lugar. Os minutos passavam, e acabaram por não contar mais com ele.

Quando Étienne reapareceu, trazia, embrulhadas num pano, cerca de doze batatas cozidas e frias.

— Foi tudo o que encontrei — disse.

Na casa da Mouquette, também faltava pão: era o jantar dela que a moça lhe enfiara à força naquele pano, beijando-o com todo o coração.

— Obrigado — respondeu ele à Maheude, que lhe oferecia sua parte. — Comi lá.

Mentia, e olhava sombriamente as crianças se atirarem sobre a comida. O pai e a mãe também se continham para deixar mais a elas; mas o velho devorava tudo com avidez. Precisaram tirar-lhe uma batata para Alzire.

Então Étienne contou que soubera de novidades. A Companhia, irritada com a obstinação dos grevistas, falava em devolver as carteiras de trabalho aos mineiros comprometidos. Queria a guerra, definitivamente. E corria um rumor ainda mais grave: ela se gabava de ter convencido grande número de operários a voltar ao fundo; no dia seguinte, a Victoire e Feutry-Cantel estariam com o quadro completo; até em Madeleine e Mirou haveria um terço dos homens. Os Maheu se enfureceram.

— Com mil diabos! — gritou o pai. — Se houver traidores, precisamos ajustar as contas com eles!

E, levantando-se, entregue à exasperação do sofrimento:

— Amanhã à noite, na floresta!... Já que nos impedem de nos entender no Bon-Joyeux, é na floresta que estaremos em nossa casa.

Aquele grito despertara o velho Bonnemort, adormecido pela voracidade. Era o antigo grito de convocação, o encontro onde os mineiros de outros tempos iam conspirar contra os soldados do rei.

— Sim, sim, em Vandame! Eu também vou, se formos para lá!

A Maheude fez um gesto enérgico.

— Iremos todos. Essas injustiças e traições precisam acabar!

Étienne decidiu que a convocação seria transmitida a todos os corons para a noite seguinte. Mas o fogo morrera, como na casa dos Levaque, e a vela se apagou de repente. Já não havia hulha nem petróleo; foi preciso deitar-se às cegas, no frio intenso que beliscava a pele. As crianças choravam.

1/1
Menu

Fazer anotação