TERCEIRA PARTE — Capítulo II Germinal · Capítulo 13 de 40
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TERCEIRA PARTE — Capítulo II

TERCEIRA PARTE

Capítulo II

Era o último domingo de julho, dia da festa de Montsou. Desde a noite de sábado, as boas donas de casa do conjunto operário haviam lavado a sala com água em abundância, um verdadeiro dilúvio, baldes atirados a esmo sobre as lajes e contra as paredes; e o chão ainda não secara, apesar da areia branca que espalhavam por cima, luxo custoso para aquelas bolsas de pobres. O dia, entretanto, anunciava-se muito quente, sob um daqueles céus pesados, opressivos de tempestade, que no verão sufocam as planícies do Norte, rasas e nuas até o infinito.

O domingo transtornava os horários de despertar na casa dos Maheu. Enquanto o pai, desde as cinco horas, se impacientava na cama e acabava se vestindo, as crianças dormiam até as nove. Naquele dia, Maheu foi fumar um cachimbo no jardim, depois voltou para comer sozinho uma fatia de pão, enquanto esperava. Passou assim a manhã, sem saber muito bem o que fazer: consertou a tina que vazava, colou sob o relógio de cuco um retrato do príncipe imperial que haviam dado aos pequenos.

Enquanto isso, os demais desciam um a um. O pai Bonnemort levara uma cadeira para sentar-se ao sol, a mãe e Alzire haviam se posto imediatamente a cozinhar. Catherine apareceu, empurrando à sua frente Lénore e Henri, que acabara de vestir; e já batiam onze horas, o cheiro do coelho que fervia com batatas enchia a casa, quando Zacharie e Jeanlin desceram por último, com os olhos inchados e ainda bocejando.

De resto, o conjunto operário estava de pernas para o ar, aceso pela festa, no auge da preparação do jantar, apressado para que todos pudessem partir em bandos para Montsou. Grupos de crianças galopavam, homens em mangas de camisa arrastavam chinelos, com o andar preguiçoso dos dias de descanso. As janelas e portas, escancaradas para o bom tempo, deixavam ver a sequência das salas, todas transbordando de gestos e gritos, do formigamento das famílias. E, de uma ponta a outra das fachadas, cheirava a coelho, um aroma de cozinha rica que naquele dia combatia o odor entranhado da cebola frita.

Os Maheu jantaram ao meio-dia em ponto. Não faziam grande algazarra, em meio às conversas de porta em porta, às vizinhanças que misturavam as mulheres num vaivém contínuo de chamados, respostas, objetos emprestados, crianças enxotadas ou trazidas de volta com um tapa.

Aliás, havia três semanas estavam de relações cortadas com os vizinhos, os Levaque, por causa do casamento de Zacharie com Philomène. Os homens continuavam se vendo, mas as mulheres fingiam não se conhecer. A briga estreitara as relações com a Pierronne. Só que a Pierronne, deixando Pierron e Lydie com a mãe, partira de madrugada para passar o dia na casa de uma prima, em Marchiennes; e faziam piadas, pois conheciam bem a prima: tinha bigodes e era o capataz-chefe do Voreux. A Maheude declarou que não era muito decente abandonar a família num domingo de festa.

Além do coelho com batatas, engordado no telheiro havia um mês, os Maheu tinham uma sopa gordurosa e carne bovina. O pagamento da quinzena caíra justamente na véspera. Não se lembravam de banquete semelhante. Nem na última Santa Bárbara, a festa dos mineiros, quando não trabalham durante três dias, o coelho fora tão gordo ou tão tenro.

Assim, os dez pares de mandíbulas, desde a pequena Estelle, cujos dentes começavam a nascer, até o velho Bonnemort, que começava a perder os seus, trabalhavam com tamanha vontade que os próprios ossos desapareciam. Carne era uma coisa boa; mas eles a digeriam mal, por vê-la raramente demais. Tudo acabou, restou apenas um pedaço de cozido para a noite. Acrescentariam fatias de pão, caso sentissem fome.

Jeanlin foi o primeiro a desaparecer. Bébert o esperava atrás da escola. Os dois rondaram por muito tempo antes de conseguirem levar Lydie, que a Brûlé queria manter consigo, decidida a não sair. Quando percebeu a fuga da menina, ela berrou, agitou os braços magros, enquanto Pierron, aborrecido com aquela gritaria, saía tranquilamente para passear, com o ar de um marido que se diverte sem remorso, sabendo que a mulher também se diverte.

O velho Bonnemort partiu em seguida, e Maheu decidiu tomar um pouco de ar, depois de perguntar à Maheude se ela iria encontrá-lo por lá. Não, dificilmente poderia, era uma verdadeira penitência com os pequenos; talvez fosse assim mesmo, pensaria, acabariam se encontrando.

Quando saiu, hesitou, depois entrou na casa dos vizinhos para ver se Levaque estava pronto. Mas encontrou Zacharie esperando Philomène; e a Levaque acabava de retomar o eterno assunto do casamento, gritando que zombavam dela, que teria uma última explicação com a Maheude. Aquilo era vida? Ter de cuidar dos filhos sem pai de sua filha, enquanto esta rolava por aí com o namorado?

Philomène terminou tranquilamente de pôr a touca, e Zacharie a levou, repetindo que, da parte dele, aceitava, se a mãe também aceitasse. Levaque, de resto, já havia escapado. Maheu mandou a vizinha falar com sua mulher e apressou-se a sair.

Bouteloup, que terminava um pedaço de queijo com os dois cotovelos apoiados sobre a mesa, recusou obstinadamente a oferta amistosa de uma caneca. Ficaria em casa, como bom marido.

Pouco a pouco, entretanto, o conjunto operário se esvaziava. Todos os homens partiam uns atrás dos outros; enquanto as moças, à espreita nas portas, seguiam na direção oposta, de braço dado com os namorados.

Quando o pai dobrou a esquina da igreja, Catherine, ao avistar Chaval, apressou-se a alcançá-lo para tomar com ele a estrada de Montsou. E a mãe, deixada sozinha no meio dos filhos dispersos, não encontrava forças para sair da cadeira, servia-se de uma segunda xícara de café fervente, que bebia em pequenos goles.

No conjunto operário, restavam apenas as mulheres, visitando umas às outras e terminando de escoar as cafeteiras, em torno das mesas ainda quentes e engorduradas pelo jantar.

Maheu farejava que Levaque estava no Avantage e desceu sem pressa até a casa de Rasseneur. De fato, atrás do estabelecimento, no jardim estreito cercado por uma sebe, Levaque jogava boliche com alguns companheiros. De pé, sem jogar, o pai Bonnemort e o velho Mouque acompanhavam a bola com tamanha absorção que até se esqueciam de se cutucar com o cotovelo.

Um sol ardente caía a pino. Havia apenas uma faixa de sombra ao longo da taberna; e Étienne estava ali, bebendo sua caneca diante de uma mesa, aborrecido porque Souvarine acabara de abandoná-lo para subir ao quarto. Em quase todos os domingos, o maquinista se trancava para escrever ou ler.

— Vai jogar? — perguntou Levaque a Maheu.

Mas este recusou. Estava quente demais, já morria de sede.

— Rasseneur! — chamou Étienne. — Traga uma caneca.

E, voltando-se para Maheu:

— Saiba que sou eu quem paga.

Agora todos se tratavam por você. Rasseneur não mostrava muita pressa, foi preciso chamá-lo três vezes; e acabou sendo a senhora Rasseneur quem trouxe a cerveja morna.

O jovem baixara a voz para se queixar da casa: eram boas pessoas, sem dúvida, gente de ideias corretas; apenas a cerveja não valia nada e as sopas eram execráveis! Dez vezes já teria mudado de pensão, se não recuasse diante do caminho até Montsou. Cedo ou tarde, terminaria procurando uma família no conjunto operário.

— É claro — repetia Maheu com sua voz lenta. — É claro, você ficaria melhor numa família.

Mas gritos explodiram: Levaque derrubara todos os pinos de uma só vez. Mouque e Bonnemort, com o nariz voltado para a terra, mantinham no meio do tumulto um silêncio de profunda aprovação. E a alegria daquela jogada transbordou em brincadeiras, sobretudo quando os jogadores avistaram, por cima da sebe, o rosto alegre da Mouquette. Ela rondava havia uma hora e criara coragem para se aproximar ao ouvir as risadas.

— Como assim, está sozinha? — gritou Levaque. — E seus namorados?

— Meus namorados, pus todos de lado — respondeu ela com uma bela alegria despudorada. — Estou procurando um.

Todos se ofereceram, atiçaram-na com palavras grosseiras. Ela recusava com a cabeça, ria mais alto, fazia-se de dengosa. O pai, de resto, assistia à brincadeira sem sequer tirar os olhos dos pinos derrubados.

— Ora! — continuou Levaque, lançando um olhar para Étienne. — Todo mundo sabe muito bem quem você está cobiçando, minha filha!... Vai ter de pegá-lo à força.

Então Étienne também riu. Era de fato ao redor dele que a empurradora rondava. Dizia que não, divertido, embora não sentisse por ela desejo algum. Durante mais alguns minutos, ela ficou plantada atrás da sebe, olhando-o com os grandes olhos fixos; depois se afastou devagar, com o rosto de repente sério, como que abatida pelo sol opressivo.

Em voz baixa, Étienne retomara as longas explicações que dava a Maheu sobre a necessidade de os carvoeiros de Montsou fundarem uma caixa de previdência.

— Já que a Companhia afirma que nos deixa livres — repetia —, o que temos a temer? Só dispomos das pensões dela, e ela as distribui como quer, pois não desconta nada do salário. Pois bem, seria prudente criar, ao lado desse arbítrio, uma associação mútua de socorro, com a qual ao menos pudéssemos contar nos casos de necessidade imediata.

E entrava em detalhes, discutia a organização, prometia encarregar-se de todo o trabalho.

— Por mim, está bem — disse por fim Maheu, convencido. — Só que há os outros... Tente convencer os outros.

Levaque ganhara a partida, abandonaram os pinos para esvaziar as canecas. Mas Maheu recusou uma segunda: veriam depois, o dia ainda não terminara. Acabara de se lembrar de Pierron. Onde estaria Pierron? Sem dúvida na taberna Lenfant. E decidiu Étienne e Levaque; os três partiram para Montsou no momento em que um novo grupo invadia o jogo de boliche do Avantage.

No caminho, pela estrada pavimentada, foi preciso entrar no estabelecimento Casimir, depois na taberna do Progrès. Companheiros os chamavam das portas abertas, não havia como dizer não. A cada vez, era uma caneca, duas quando tinham a cortesia de retribuir. Ficavam ali dez minutos, trocavam quatro palavras e recomeçavam mais adiante, muito sensatos, conhecedores da cerveja, da qual podiam se encher sem outro incômodo além de uriná-la depressa, à medida que bebiam, clara como água de nascente.

Na taberna Lenfant, encontraram em cheio Pierron, que terminava a segunda caneca e, para não se recusar a brindar, engoliu uma terceira. Eles, naturalmente, beberam as suas. Agora eram quatro e saíram com a intenção de verificar se Zacharie não estaria na taberna Tison. A sala estava vazia, pediram uma caneca para esperá-lo um pouco. Depois se lembraram da taberna Saint-Éloi, onde aceitaram uma rodada do capataz Richomme; e a partir daí vagaram de estabelecimento em estabelecimento, sem pretexto algum, apenas pelo prazer de passear.

— Temos de ir ao Volcan! — disse de repente Levaque, que começava a se acender.

Os outros riram, hesitaram, depois acompanharam o companheiro em meio à multidão cada vez maior da festa.

Na sala estreita e comprida do Volcan, sobre um estrado de tábuas erguido ao fundo, cinco cantoras, o refugo das prostitutas de Lille, desfilavam com gestos e decotes monstruosos; e os fregueses pagavam dez soldos quando queriam uma delas, atrás das tábuas do estrado. Havia sobretudo empurradores, operários das máquinas de extração, até aprendizes de catorze anos, toda a juventude das minas, bebendo mais aguardente que cerveja. Alguns mineiros velhos também se arriscavam, os maridos devassos dos conjuntos operários, aqueles cujas famílias caíam na imundície.

Assim que o grupo se acomodou ao redor de uma pequena mesa, Étienne agarrou Levaque para lhe explicar a ideia da caixa de previdência. Tinha a obstinação propagandista dos recém-convertidos, que criam para si uma missão.

— Cada associado — repetia — poderia pagar vinte soldos por mês. Com esses vinte soldos acumulados, ao fim de quatro ou cinco anos teríamos uma boa quantia; e, quando se tem dinheiro, tem-se força, não é? Em qualquer circunstância... Hein, o que você acha?

— Por mim, não digo que não — respondia Levaque, distraído. — Depois conversamos.

Uma loira enorme o excitava; e ele teimou em ficar quando Maheu e Pierron, depois de beberem a caneca, quiseram partir sem esperar uma segunda canção.

Lá fora, Étienne, que saíra com eles, tornou a encontrar a Mouquette, que parecia segui-los. Continuava ali, olhando-o com os grandes olhos fixos, rindo seu riso de boa moça, como se dissesse: “Quer?” O jovem brincou, deu de ombros. Então ela fez um gesto de raiva e se perdeu na multidão.

— Onde está Chaval? — perguntou Pierron.

— É verdade — disse Maheu. — Está com certeza na casa de Piquette... Vamos à casa de Piquette.

Mas, quando os três chegaram à taberna Piquette, um barulho de briga à porta os deteve. Zacharie ameaçava com o punho um cravador valão, baixo e fleumático; enquanto Chaval, com as mãos nos bolsos, observava.

— Ora, aí está Chaval — retomou tranquilamente Maheu. — Está com Catherine.

Havia cinco longas horas que a empurradora e o namorado passeavam pela festa. Ao longo da estrada de Montsou, daquela rua larga de casas baixas e pintadas, descendo em curvas, rolava sob o sol uma torrente humana, semelhante a uma fileira de formigas, perdida na nudez rasa da planície. A lama negra de sempre secara, uma poeira negra subia e voava como nuvem de tempestade.

Dos dois lados, as tabernas transbordavam de gente e prolongavam suas mesas até a estrada, onde se alinhavam duas fileiras de vendedores ambulantes, bazares ao ar livre, lenços e espelhos para as moças, facas e bonés para os rapazes; sem contar os doces, confeitos e biscoitos.

Diante da igreja, atirava-se com arco. Havia jogos de bolas em frente aos Armazéns. Na esquina da estrada de Joiselle, ao lado da Régie, dentro de um cercado de tábuas, a multidão se precipitava para uma briga de galos: dois grandes galos vermelhos, armados com esporas de ferro, cuja garganta aberta sangrava. Mais adiante, na casa de Maigrat, ganhavam-se aventais e calças no bilhar.

E de repente formavam-se longos silêncios. A multidão bebia, empanturrava-se sem um grito, uma indigestão muda de cerveja e batatas fritas alastrava-se sob o calor espesso, que as frigideiras fervendo ao ar livre tornavam ainda mais sufocante.

Chaval comprou para Catherine um espelho de dezenove soldos e um lenço de três francos. A cada volta, encontravam Mouque e Bonnemort, que também tinham vindo à festa e a atravessavam lado a lado, pensativos, com suas pernas pesadas. Mas outro encontro os indignou: avistaram Jeanlin instigando Bébert e Lydie a roubar garrafas de aguardente de uma venda improvisada à margem de um terreno baldio. Catherine só teve tempo de esbofetear o irmão, pois a pequena já galopava com uma garrafa. Aquelas crianças do diabo acabariam na prisão.

Então, ao chegarem diante da taberna da Tête-Coupée, Chaval teve a ideia de levar a namorada para assistir a um concurso de tentilhões, anunciado na porta havia oito dias. Quinze cravadores das oficinas de Marchiennes haviam respondido à convocação, cada qual com uma dúzia de gaiolas; e as pequenas gaiolas escuras, onde os tentilhões cegados permaneciam imóveis, já estavam penduradas numa paliçada, no pátio da taberna.

Tratava-se de contar qual deles repetiria mais vezes, durante uma hora, a frase de seu canto. Cada cravador, com uma lousa, permanecia junto às gaiolas, marcando os pontos, vigiando os vizinhos e sendo vigiado por eles.

E os tentilhões começaram: os “chichouïeux”, de canto mais cheio, os “batisecouics”, de sonoridade aguda, primeiro tímidos, arriscando apenas frases raras; depois, excitando-se uns aos outros, apressando o ritmo; e, por fim, arrebatados por tamanha fúria de emulação que alguns eram vistos tombando mortos.

Os cravadores os açoitavam violentamente com a voz, gritavam-lhes em valão que cantassem mais, mais, só mais uma vez; enquanto os espectadores, cerca de cem pessoas, permaneciam mudos e apaixonados em meio àquela música infernal de cento e oitenta tentilhões repetindo todos a mesma cadência, fora de compasso. Um “batisecouic” ganhou o primeiro prêmio, uma cafeteira de ferro batido.

Catherine e Chaval ainda estavam ali quando Zacharie e Philomène entraram. Apertaram-se as mãos e ficaram juntos. Mas Zacharie se enfureceu de repente, ao surpreender um cravador, que viera por curiosidade com os companheiros, beliscando as coxas de sua irmã; e ela, muito vermelha, tentava fazê-lo calar, tremendo diante da ideia de uma matança, de todos aqueles cravadores se atirando sobre Chaval, caso ele não aceitasse que a beliscassem. Sentira perfeitamente o homem, mas nada dizia, por prudência.

De resto, o namorado limitava-se a rir com escárnio. Os quatro saíram, e o caso pareceu encerrado. Mal haviam entrado na taberna Piquette para beber uma caneca, porém, o cravador reapareceu, zombando deles, soprando-lhes no rosto com ar de provocação. Zacharie, ultrajado em seus bons sentimentos de família, lançou-se sobre o insolente.

— É minha irmã, seu porco!... Espere, nome de Deus, vou ensinar você a respeitá-la!

Todos se precipitaram entre os dois homens, enquanto Chaval, muito calmo, repetia:

— Deixe disso, isso é comigo... Estou dizendo que não dou a mínima para ele!

Maheu chegava com seu grupo e acalmou Catherine e Philomène, que já choravam. Agora a multidão ria, o cravador desaparecera. Para afogar de vez o assunto, Chaval, que estava em casa na taberna Piquette, ofereceu canecas.

Étienne teve de brindar com Catherine. Todos beberam juntos, o pai, a filha e o namorado, o filho e a amante, dizendo com polidez:

— À saúde da companhia!

Depois Pierron teimou em pagar sua rodada. E todos estavam em perfeita harmonia quando Zacharie foi novamente tomado de fúria ao avistar o amigo Mouquet. Chamou-o para irem resolver, dizia ele, o caso do cravador.

— Tenho de arrebentar aquele sujeito!... Escute, Chaval, fique com Philomène e Catherine. Eu já volto.

Por sua vez, Maheu oferecia canecas. Afinal, se o rapaz queria vingar a irmã, não era um mau exemplo. Mas, desde que vira Mouquet, Philomène, já tranquila, balançava a cabeça. Sem dúvida, os dois malandros haviam escapado para o Volcan.

Nas noites de festa, terminava-se a diversão no baile do Bon-Joyeux. Quem mantinha o salão era a viúva Désir, uma mulherona de cinquenta anos, redonda como um barril, mas ainda tão viçosa que tinha seis amantes, um para cada dia da semana, dizia ela, e os seis ao mesmo tempo aos domingos. Chamava todos os carvoeiros de filhos, enternecida ao pensar no rio de cerveja que lhes servia havia trinta anos; e também se gabava de que nenhuma empurradora engravidava sem antes ter soltado as pernas em sua casa.

O Bon-Joyeux compunha-se de duas salas: a taberna, onde ficavam o balcão e as mesas; depois, comunicando-se no mesmo nível por uma larga abertura, o salão de baile, um cômodo vasto, com assoalho apenas no centro e ladrilhos ao redor. Uma decoração o enfeitava: duas grinaldas de flores de papel cruzavam-se de um canto a outro do teto e se uniam, no centro, numa coroa das mesmas flores; enquanto, ao longo das paredes, sangravam brasões dourados com nomes de santos, santo Elói, padroeiro dos trabalhadores do ferro, são Crispim, padroeiro dos sapateiros, santa Bárbara, padroeira dos mineiros, todo o calendário das corporações.

O teto era tão baixo que os três músicos, em sua tribuna do tamanho de um púlpito, batiam a cabeça. Para iluminar à noite, penduravam-se quatro lampiões de petróleo nos quatro cantos do salão.

Naquele domingo, dançava-se desde as cinco horas, à plena luz das janelas. Mas foi por volta das sete que as salas se encheram. Lá fora, levantara-se um vento de tempestade, soprando grandes nuvens de poeira negra que cegavam as pessoas e crepitavam nas frigideiras.

Maheu, Étienne e Pierron, que haviam entrado para se sentar, acabavam de reencontrar no Bon-Joyeux Chaval dançando com Catherine, enquanto Philomène, sozinha, os observava. Nem Levaque nem Zacharie tinham reaparecido. Como não havia bancos ao redor do salão, Catherine, depois de cada dança, descansava à mesa do pai. Chamaram Philomène, mas ela preferia ficar de pé.

O dia escurecia, os três músicos tocavam com fúria, e já não se via no salão senão o movimento dos quadris e dos peitos, em meio a uma confusão de braços. Um grande alarido recebeu os quatro lampiões e, de repente, tudo se iluminou: os rostos vermelhos, os cabelos desfeitos, colados à pele, as saias esvoaçantes, varrendo o cheiro forte dos casais suados.

Maheu mostrou a Étienne a Mouquette, que, redonda e gorda como uma bexiga de banha, girava violentamente nos braços de um alto operário magro das máquinas de extração. Ela devia ter se consolado e encontrado um homem.

Por fim, batiam oito horas quando a Maheude apareceu, com Estelle ao peito e seguida pela criançada, Alzire, Henri e Lénore. Vinha diretamente procurar o marido ali, sem receio de se enganar. Ceavam mais tarde, ninguém sentia fome, o estômago afogado em café e engrossado de cerveja.

Outras mulheres chegavam. Houve cochichos quando, atrás da Maheude, entrou a Levaque, acompanhada de Bouteloup, que trazia pela mão Achille e Désirée, os pequenos de Philomène. E as duas vizinhas pareciam muito de acordo, uma se voltava e conversava com a outra.

No caminho, houvera uma grande explicação. A Maheude resignara-se ao casamento de Zacharie, desolada por perder o salário do filho mais velho, mas vencida pela razão de que já não podia conservá-lo sem cometer uma injustiça. Tratava, portanto, de mostrar bom semblante, com o coração ansioso de dona de casa que se perguntava como conseguiria fechar as contas, agora que começava a sair a parte mais importante de sua renda.

— Sente-se aqui, vizinha — disse ela, indicando uma mesa perto daquela onde Maheu bebia com Étienne e Pierron.

— Meu marido não está com vocês? — perguntou a Levaque.

Os companheiros lhe contaram que ele logo voltaria. Todos se apertavam, Bouteloup, as crianças, comprimidos de tal modo no esmagamento dos bebedores que as duas mesas acabaram formando uma só. Pediram canecas.

Ao avistar a mãe e os filhos, Philomène decidiu aproximar-se. Aceitou uma cadeira, pareceu satisfeita ao saber que enfim a casariam; depois, quando procuraram por Zacharie, respondeu com sua voz frouxa:

— Estou esperando. Ele está por aí.

Maheu trocara um olhar com a mulher. Então ela consentia? Ficou sério, fumando em silêncio. Ele também era tomado pela inquietação do dia seguinte, diante da ingratidão daqueles filhos que se casariam um após outro, deixando os pais na miséria.

Continuavam dançando. O fim de uma quadrilha afogava o salão numa poeira ruiva; as paredes estalavam, um instrumento de sopro lançava assobios agudos, como uma locomotiva em agonia; e, quando os dançarinos pararam, fumegavam como cavalos.

— Você se lembra? — disse a Levaque, inclinando-se ao ouvido da Maheude. — Você que falava em estrangular Catherine, caso ela fizesse a besteira!

Chaval reconduzia Catherine à mesa da família, e os dois, de pé atrás do pai, terminavam a caneca.

— Ora! — murmurou a Maheude, resignada. — A gente diz essas coisas... O que me tranquiliza é que ela não pode ter filhos, disso tenho certeza!... Imagine se essa também aparece grávida e eu sou obrigada a casá-la! O que comeríamos então?

Agora era uma polca que o pistão assobiava; e, enquanto o ensurdecimento recomeçava, Maheu comunicou em voz baixa à mulher uma ideia. Por que não tomavam um pensionista, Étienne, por exemplo, que procurava hospedagem? Teriam lugar, já que Zacharie ia deixá-los, e o dinheiro perdido de um lado seria em parte recuperado do outro.

O rosto da Maheude se iluminou. Sem dúvida, era uma boa ideia, precisavam acertar aquilo. Parecia salva da fome mais uma vez, e seu bom humor voltou com tamanha vivacidade que ela mandou servir uma nova rodada de canecas.

Étienne, entretanto, procurava doutrinar Pierron, a quem explicava seu projeto de caixa de previdência. Já o fizera prometer que aderiria, quando cometeu a imprudência de revelar seu verdadeiro objetivo.

— E, se entrarmos em greve, você compreende a utilidade dessa caixa. Podemos mandar a Companhia ao diabo, pois encontraremos ali os primeiros fundos para resistir... Hein? Está decidido, você entra?

Pierron baixara os olhos, empalidecendo. Gaguejou:

— Vou pensar... Quando a gente se comporta bem, essa é a melhor caixa de socorro.

Então Maheu apoderou-se de Étienne e lhe propôs, sem rodeios, como homem franco, que viesse morar com eles. O jovem aceitou do mesmo modo, muito desejoso de viver no conjunto operário, na ideia de conviver mais de perto com os companheiros. Resolveram o assunto em três palavras, e a Maheude declarou que esperariam o casamento dos filhos.

E, justamente, Zacharie enfim voltava, com Mouquet e Levaque. Os três traziam consigo os odores do Volcan, um hálito de aguardente, uma acidez almiscarada de mulheres malcuidadas. Estavam muito bêbados, satisfeitos consigo mesmos, cutucando-se com os cotovelos e rindo às escondidas.

Quando soube que enfim o casariam, Zacharie começou a rir tão forte que quase se engasgou. Philomène declarou tranquilamente que preferia vê-lo rir a vê-lo chorar.

Como já não havia cadeira, Bouteloup recuara para ceder metade da sua a Levaque. E este, de súbito muito enternecido ao ver todos ali, reunidos em família, mandou servir cerveja mais uma vez.

— Nome de Deus! A gente não se diverte tantas vezes! — berrava.

Ficaram até as dez horas. Mulheres continuavam chegando para encontrar e levar os maridos; bandos de crianças vinham atrás; e as mães já não se constrangiam, tiravam para fora seios longos e louros como sacos de aveia, sujavam de leite os bebês rechonchudos; enquanto os pequenos que já andavam, empanturrados de cerveja e engatinhando sob as mesas, aliviavam-se sem vergonha.

Era um mar crescente de cerveja, os tonéis da viúva Désir arrombados, a cerveja arredondando ventres, escorrendo por toda parte, pelo nariz, pelos olhos e por outros lugares. Todos inchavam tanto dentro daquela massa que cada qual tinha um ombro ou um joelho enfiado no vizinho, e se alegravam, satisfeitos por sentirem assim os cotovelos uns dos outros.

Um riso contínuo mantinha as bocas abertas, rasgadas até as orelhas. Fazia um calor de forno, todos cozinhavam, punham-se à vontade, com a carne exposta, dourada na fumaça espessa dos cachimbos; e o único inconveniente era precisar se afastar. De tempos em tempos, uma moça se levantava, ia ao fundo, junto à bomba, erguia as saias e depois voltava.

Sob as grinaldas de papel pintado, os dançarinos já não se enxergavam, tamanho era o suor; o que encorajava os aprendizes a derrubar as empurradoras ao acaso dos movimentos de quadril. Mas, quando uma moça forte caía com um homem por cima, o pistão abafava a queda com sua música enfurecida, e o sapateado dos pés os fazia rolar, como se o próprio salão desabasse sobre eles.

Alguém, ao passar, avisou Pierron de que sua filha Lydie dormia à porta, atravessada na calçada. Bebera sua parte da garrafa roubada, estava bêbada, e ele precisou carregá-la nos ombros, enquanto Jeanlin e Bébert, mais resistentes, seguiam-no de longe, achando tudo muito engraçado.

Aquilo deu o sinal da partida. As famílias começaram a sair do Bon-Joyeux, e os Maheu e os Levaque decidiram voltar ao conjunto operário. Naquele momento, o pai Bonnemort e o velho Mouque também deixavam Montsou, com o mesmo passo de sonâmbulos, obstinados no silêncio de suas lembranças.

Todos regressaram juntos, atravessando uma última vez a festa, as frigideiras de fritura que começavam a esfriar, as tabernas de onde as últimas canecas escorriam em regatos até o meio da estrada.

A tempestade continuava ameaçando. Assim que deixaram as casas iluminadas para se perderem na escuridão do campo, subiram risadas. Um sopro ardente saía dos trigais maduros; naquela noite, certamente muitos filhos seriam concebidos.

Chegaram dispersos ao conjunto operário. Nem os Levaque nem os Maheu ceiaram com apetite, e estes adormeciam enquanto terminavam a carne cozida da manhã.

Étienne levara Chaval para beber mais um pouco na casa de Rasseneur.

— Estou dentro! — disse Chaval, quando o companheiro lhe explicou a questão da caixa de previdência. — Bata aqui, você é dos bons!

Um começo de embriaguez fazia arder os olhos de Étienne. Ele gritou:

— Sim, fiquemos unidos... Escute, eu daria tudo pela justiça, a bebida e as mulheres. Só uma coisa me aquece o coração: a ideia de que vamos varrer os burgueses.

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