SEXTA PARTE — Capítulo V
SEXTA PARTE
Capítulo V
Acabavam de fechar todas as entradas do Voreux; e os sessenta soldados, com as armas descansadas junto aos pés, bloqueavam a única porta que permanecera livre, a que levava à sala de embarque por uma escada estreita, onde se abriam a sala dos capatazes e o barracão. O capitão os alinhara em duas fileiras contra a parede de tijolos, para que não pudessem ser atacados pela retaguarda.
A princípio, o bando de mineiros descido do conjunto habitacional manteve-se à distância. Eram no máximo uns trinta e discutiam entre si, em palavras violentas e confusas.
A Maheude, a primeira a chegar, desgrenhada sob um lenço amarrado às pressas, com Estelle adormecida no braço, repetia com voz febril:
— Que ninguém entre e ninguém saia! Temos de pegar todos eles lá dentro!
Maheu concordava quando o pai Mouque chegou justamente de Réquillart. Quiseram impedi-lo de passar. Mas ele se debateu, dizendo que seus cavalos continuavam comendo aveia e não davam a mínima para a revolução. Além disso, havia um cavalo morto, e esperavam por ele para retirá-lo. Étienne abriu passagem para o velho tratador, a quem os soldados permitiram subir ao poço. E, um quarto de hora depois, quando o bando dos grevistas, engrossando aos poucos, começava a ficar ameaçador, uma larga porta tornou a se abrir no térreo. Surgiram homens carregando o animal morto, um fardo lamentável, ainda apertado na rede de cordas, que abandonaram no meio das poças de neve derretida. O choque foi tamanho que ninguém os impediu de voltar para dentro e tornar a barricar a porta. Todos haviam reconhecido o cavalo pela cabeça dobrada e enrijecida contra o flanco. Correram murmúrios.
— É Trompette, não é? É Trompette.
Era Trompette, de fato. Desde que descera à mina, nunca conseguira se aclimatar. Permanecia sombrio, sem gosto pelo trabalho, como se o torturasse a saudade da luz. Em vão Bataille, o decano da mina, roçava amigavelmente as costelas nele e lhe mordiscava o pescoço, tentando transmitir-lhe um pouco da resignação adquirida em seus dez anos no fundo. Essas carícias apenas redobravam sua melancolia; o pelo estremecia sob as confidências do companheiro envelhecido nas trevas. E os dois, sempre que se encontravam e bufavam juntos, pareciam lamentar-se, o velho por já não conseguir se lembrar, o jovem por não conseguir esquecer. Na estrebaria, vizinhos de manjedoura, viviam de cabeça baixa, soprando um nas narinas do outro, compartilhando o sonho contínuo do dia, visões de ervas verdes, estradas brancas e claridades amarelas que se estendiam ao infinito. Depois, quando Trompette, encharcado de suor, agonizara sobre a cama de palha, Bataille começara a farejá-lo desesperadamente, com fungadas curtas, semelhantes a soluços. Sentia-o esfriar; a mina lhe tirava sua última alegria, aquele amigo caído lá de cima, ainda impregnado de bons aromas que lhe recordavam a juventude ao ar livre. E arrebentara a corda, relinchando de medo, ao perceber que o outro já não se movia.
Mouque, aliás, vinha avisando o capataz-chefe havia oito dias. Mas quem se importava com um cavalo doente naquele momento? Aqueles senhores não gostavam de deslocar os cavalos. Agora, porém, era preciso decidir-se a retirá-lo. Na véspera, o tratador passara uma hora com dois homens amarrando Trompette. Atrelaram Bataille para conduzi-lo até o poço. Lentamente, o velho cavalo puxava, arrastava o companheiro morto por uma galeria tão estreita que precisava avançar aos arrancos, correndo o risco de lhe esfolar o corpo; e, exausto, balançava a cabeça enquanto escutava o longo roçar daquela massa destinada ao esquartejador.
No embarcadouro, depois de desatrelado, acompanhara com os olhos sombrios os preparativos para a subida: o corpo empurrado sobre travessas, acima do poço de drenagem, a rede presa sob uma gaiola. Por fim, os carregadores deram o sinal de carne. Ele ergueu o pescoço para vê-lo partir, primeiro devagar, depois imediatamente afogado nas trevas, levado para sempre ao alto daquele buraco negro. E permaneceu com o pescoço estendido; sua memória vacilante de animal talvez se lembrasse das coisas da superfície. Mas estava acabado: o companheiro não veria mais nada. Ele próprio seria amarrado daquele modo, transformado num fardo lastimável, no dia em que tornasse a subir por ali. Suas pernas começaram a tremer, o ar livre vindo dos campos distantes o sufocava; e voltou pesadamente para a estrebaria, como se estivesse bêbado.
No pátio da mina, os carvoeiros permaneciam sombrios diante do cadáver de Trompette. Uma mulher disse em voz baixa:
— Agora, se algum homem quiser descer, que desça!
Mas uma nova onda chegava do conjunto habitacional, e Levaque, que vinha à frente, seguido pela Levaque e por Bouteloup, gritava:
— Morte aos borains! Nada de estrangeiros aqui! Morte! Morte!
Todos se precipitavam, e Étienne precisou detê-los. Ele se aproximara do capitão, um jovem alto e magro, de no máximo vinte e oito anos, com o rosto desesperado e resoluto; explicava-lhe a situação, tentava conquistá-lo, observando o efeito de suas palavras. Para que arriscar um massacre inútil? A justiça não estava do lado dos mineiros? Eram todos irmãos, deviam chegar a um entendimento. Ao ouvir a palavra república, o capitão tivera um gesto nervoso. Mantendo a rigidez militar, disse bruscamente:
— Afastem-se! Não me obriguem a cumprir meu dever.
Três vezes Étienne recomeçou. Atrás dele, os companheiros resmungavam. Corria o boato de que o senhor Hennebeau estava na mina, e falavam em descê-lo pelo pescoço, para ver se ele próprio arrancaria o carvão. Mas era um boato falso. Ali estavam apenas Négrel e Dansaert, que por um instante apareceram numa janela da sala de embarque. O capataz-chefe mantinha-se atrás, desconcertado desde a aventura com a Pierronne; enquanto o engenheiro, corajosamente, passeava sobre a multidão seus olhinhos vivos, sorrindo com o desprezo zombeteiro em que envolvia os homens e as coisas. Ergueram-se vaias, e os dois desapareceram. No lugar deles, viu-se apenas o rosto louro de Souvarine. Ele estava justamente de serviço e não deixara sua máquina um só dia desde o início da greve. Já não falava, absorvido pouco a pouco por uma ideia fixa, cujo cravo de aço parecia brilhar no fundo de seus olhos claros.
— Afastem-se! — repetiu o capitão em voz muito alta. — Não tenho nada a ouvir. Recebi ordem de guardar o poço e vou guardá-lo... E não pressionem meus homens, ou saberei fazê-los recuar.
Apesar da firmeza da voz, uma inquietação crescente o empalidecia diante da onda de mineiros que não parava de aumentar. Deveriam substituí-lo ao meio-dia; mas, temendo não conseguir resistir até lá, acabara de enviar a Montsou um galibot da mina para pedir reforços.
Vociferações lhe responderam:
— Morte aos estrangeiros! Morte aos borains!... Queremos mandar em nossa própria terra!
Étienne recuou, desolado. Era o fim, restava apenas lutar e morrer. Parou de conter os companheiros, e o bando avançou como uma onda até a pequena tropa. Já eram quase quatrocentos; os conjuntos habitacionais das redondezas se esvaziavam, e os moradores chegavam correndo. Todos soltavam o mesmo grito. Maheu e Levaque diziam furiosamente aos soldados:
— Vão embora! Não temos nada contra vocês, vão embora!
— Isso não é da conta de vocês — insistia a Maheude. — Deixem que cuidemos de nossos assuntos.
E, atrás dela, a Levaque acrescentava, ainda mais violenta:
— Vamos ter de comer vocês para passar? Estamos mandando vocês darem o fora!
Ouviu-se até a voz fina de Lydie, que se metera no mais cerrado da multidão com Bébert, dizer em tom agudo:
— Que bando de imbecis, esses soldados!
A poucos passos dali, Catherine olhava e escutava, atordoada por aquelas novas violências, no meio das quais a má sorte a fazia cair. Já não sofrera demais? Que falta cometera para que a desgraça não lhe desse descanso? Ainda na véspera, não compreendia nada da cólera da greve. Pensava que, quando alguém já recebia sua parte de bofetadas, era inútil sair à procura de outras. Naquela hora, porém, seu coração se enchia de uma necessidade de ódio. Lembrava-se do que Étienne contava antigamente nas noites de vigília e tentava ouvir o que ele dizia agora aos soldados. Chamava-os de companheiros, recordava-lhes que também pertenciam ao povo e que deviam ficar ao lado do povo, contra os exploradores da miséria.
De repente, uma longa agitação percorreu a multidão, e uma velha surgiu correndo. Era a Brûlé, assustadoramente magra, com o pescoço e os braços descobertos, vinda numa carreira tão desenfreada que mechas de cabelos grisalhos lhe cegavam os olhos.
— Ah! Pelo amor de Deus, estou dentro! — balbuciava, sem fôlego. — Aquele vendido do Pierron me trancou no porão!
E, sem esperar, atirou-se contra o exército, a boca negra vomitando insultos:
— Bando de canalhas! Bando de crápulas! Lambem as botas dos superiores e só têm coragem contra os pobres!
Então os outros se juntaram a ela, e começaram as salvas de insultos. Alguns ainda gritavam: “Vivam os soldados! O oficial para dentro do poço!”. Mas logo só restou um único clamor: “Abaixo as calças vermelhas!”.
Aqueles homens, que haviam escutado impassíveis, com rostos imóveis e mudos, os apelos à fraternidade e as tentativas amistosas de recrutamento, conservavam a mesma rigidez passiva sob aquela saraivada de palavrões. Atrás deles, o capitão desembainhara a espada; e, como a multidão os apertava cada vez mais, ameaçando esmagá-los contra a parede, ordenou que cruzassem as baionetas. Eles obedeceram, e uma dupla fileira de pontas de aço se abaixou diante do peito dos grevistas.
— Ah! Seus filhos da mãe! — berrou a Brûlé, recuando.
Todos já avançavam novamente, tomados por um desprezo exaltado pela morte. As mulheres se precipitavam, a Maheude e a Levaque clamavam:
— Matem a gente! Matem de uma vez! Queremos nossos direitos!
Correndo o risco de se cortar, Levaque agarrara com as duas mãos um feixe de baionetas, três baionetas, que sacudia e puxava para si, tentando arrancá-las; e as torcia com a força multiplicada pela cólera, enquanto Bouteloup, afastado, aborrecido por ter seguido o companheiro, observava-o tranquilamente.
— Vamos, experimentem — repetia Maheu. — Vamos, tentem um pouco, se são homens de verdade!
Ele abriu o casaco e afastou a camisa, expondo o peito nu, a carne peluda e tatuada de carvão. Empurrava-se contra as pontas e obrigava os soldados a recuar, terrível de insolência e bravura. Uma delas o ferira no peito. Aquilo o deixara como louco, e ele se esforçava para que entrasse mais fundo, para ouvir as costelas estalarem.
— Covardes, vocês não têm coragem... Há dez mil homens atrás de nós. Sim, podem nos matar, e depois ainda haverá outros dez mil para matar.
A situação dos soldados tornava-se crítica, pois haviam recebido ordens severas de usar as armas apenas em último caso. E como impedir aqueles furiosos de se espetarem por conta própria? Por outro lado, o espaço diminuía. Agora estavam acuados contra a parede, sem possibilidade de recuar mais. Sua pequena tropa, um punhado de homens diante da maré crescente de mineiros, mantinha-se firme, porém, executando com sangue-frio as ordens breves do capitão.
Ele, de olhos claros e lábios nervosamente apertados, tinha apenas um medo: que seus homens perdessem o controle sob os insultos. Um jovem sargento, alto e magro, com quatro fios de bigode eriçados, já piscava de maneira inquietante. Perto dele, um velho veterano, com a pele curtida por vinte campanhas, empalidecera ao ver sua baioneta torcida como um pedaço de palha. Outro, sem dúvida um recruta, ainda cheirando à lavoura, ficava muito vermelho sempre que ouvia alguém chamá-lo de crápula e canalha.
E as violências não cessavam: punhos erguidos, palavras abomináveis, pás inteiras de acusações e ameaças que lhes esbofeteavam o rosto. Era necessária toda a força da ordem recebida para mantê-los assim, mudos, no altivo e triste silêncio da disciplina militar.
Uma colisão parecia inevitável quando, por trás da tropa, surgiu o capataz Richomme, com sua cabeça branca de bom policial, transtornada pela emoção. Ele falava em voz alta:
— Pelo amor de Deus, isso já está ficando idiota! Não se podem permitir besteiras assim.
E se lançou entre as baionetas e os mineiros.
— Companheiros, escutem... Vocês sabem que sou um velho operário e que nunca deixei de ser um dos seus. Pois bem! Pelo amor de Deus! Prometo que, se não forem justos com vocês, serei eu quem dirá umas verdades aos chefes... Mas isso já passou dos limites. Não adianta nada berrar palavrões contra esses bravos homens e querer que lhes furem a barriga.
Escutavam-no, hesitavam. Infelizmente, no alto, reapareceu o perfil agudo do pequeno Négrel. Sem dúvida temia que o acusassem de mandar um capataz em seu lugar, em vez de arriscar-se pessoalmente, e tentou falar. Mas sua voz se perdeu no meio de um tumulto tão medonho que ele precisou abandonar novamente a janela, depois de simplesmente dar de ombros. A partir daí, de nada adiantou Richomme suplicar em nome dele, repetir que aquilo devia ser resolvido entre companheiros: empurravam-no, desconfiavam dele. Mas ele se obstinou e permaneceu no meio deles.
— Pelo amor de Deus! Que quebrem minha cabeça junto com a de vocês, mas não vou abandonar ninguém enquanto continuarem tão idiotas!
Étienne, a quem ele suplicava ajuda para fazê-los ouvir a razão, teve um gesto de impotência. Era tarde demais; agora já passavam de quinhentos. E não havia apenas os enfurecidos que haviam corrido para expulsar os borains: curiosos permaneciam ali, brincalhões que se divertiam com a batalha. No meio de um grupo, a certa distância, Zacharie e Philomène assistiam como a um espetáculo, tão tranquilos que haviam trazido os dois filhos, Achille e Désirée. Uma nova onda chegava de Réquillart, na qual estavam Mouquet e a Mouquette. Ele foi imediatamente, rindo, bater no ombro do amigo Zacharie; enquanto ela, muito excitada, corria para a primeira fila dos exaltados.
A cada minuto, porém, o capitão se voltava para a estrada de Montsou. Os reforços solicitados não chegavam, seus sessenta homens já não poderiam resistir por muito tempo. Por fim, teve a ideia de impressionar a multidão e ordenou que carregassem os fuzis diante dela. Os soldados executaram a ordem, mas a agitação aumentou, entre fanfarronadas e zombarias.
— Vejam só! Esses preguiçosos vão treinar tiro ao alvo! — caçoavam as mulheres, a Brûlé, a Levaque e as outras.
A Maheude, com a garganta coberta pelo pequeno corpo de Estelle, que despertara e chorava, aproximava-se tanto que o sargento lhe perguntou o que vinha fazer ali com aquela pobre criança.
— O que você tem com isso? — respondeu ela. — Atire nela, se tiver coragem.
Os homens balançavam a cabeça com desprezo. Nenhum acreditava que pudessem atirar contra eles.
— Não há balas nos cartuchos — disse Levaque.
— Por acaso somos cossacos? — gritou Maheu. — Não se atira contra franceses, pelo amor de Deus!
Outros repetiam que quem participara da campanha da Crimeia não temia chumbo. E todos continuavam a se lançar contra os fuzis. Se uma descarga acontecesse naquele momento, teria ceifado a multidão.
Na primeira fila, a Mouquette se sufocava de fúria ao pensar que soldados queriam furar a pele de mulheres. Já lhes cuspira todos os palavrões que conhecia e não encontrava insulto bastante baixo quando, de repente, não lhe restando outra ofensa mortal para lançar na cara da tropa, mostrou-lhes o traseiro. Com as duas mãos, levantou as saias, empinou os quadris e expôs a enorme redondeza.
— Tomem, isto é para vocês! E ainda está limpo demais para um bando de desgraçados!
Ela se abaixava, se virava, girava para que cada um recebesse sua parte, recomeçando a cada impulso que dava.
— Isto é para o oficial! Isto é para o sargento! Isto é para os militares!
Ergueu-se uma tempestade de risadas. Bébert e Lydie se contorciam; o próprio Étienne, apesar da sombria expectativa, aplaudiu aquela nudez insultante. Todos, os brincalhões e também os enfurecidos, vaiavam agora os soldados, como se os vissem sujos por um jorro de imundície. Apenas Catherine, afastada, de pé sobre antigas peças de madeira, permanecia muda, com o sangue subindo à garganta, invadida pelo ódio cujo calor sentia crescer.
Mas houve um empurra-empurra. Para acalmar a irritação de seus homens, o capitão decidira fazer prisioneiros. Com um salto, a Mouquette escapou, lançando-se entre as pernas dos companheiros. Três mineiros, Levaque e mais dois, foram agarrados no meio dos mais violentos e mantidos sob vigilância no fundo da sala dos capatazes. Do alto, Négrel e Dansaert gritavam para o capitão entrar e se trancar com eles. Ele recusou. Sentia que aqueles edifícios, com portas sem fechaduras, seriam tomados de assalto e que sofreria ali a vergonha de ser desarmado. Sua pequena tropa já resmungava de impaciência: não podiam fugir diante daqueles miseráveis de tamancos. Os sessenta, acuados contra a parede, com os fuzis carregados, tornaram a enfrentar o bando.
A princípio, houve um recuo, um silêncio profundo. Os grevistas permaneciam atônitos diante daquele golpe de força. Depois, ergueu-se um grito exigindo os prisioneiros, reclamando sua libertação imediata. Vozes diziam que os degolavam lá dentro. E, sem se consultarem, arrastados pelo mesmo impulso, pela mesma necessidade de revanche, todos correram para as pilhas de tijolos próximas, tijolos cuja argila era fornecida pelo solo margoso e que eram cozidos no próprio local. As crianças os carregavam um a um, as mulheres enchiam as saias com eles. Logo, cada qual tinha munição aos pés, e começou a batalha a pedradas.
A Brûlé foi a primeira a se posicionar. Quebrava os tijolos na aresta magra do joelho e, com a mão direita e a esquerda, lançava os dois pedaços. A Levaque deslocava os ombros de tanto arremessar; tão gorda e tão mole, precisara aproximar-se para acertar, apesar das súplicas de Bouteloup, que a puxava para trás, na esperança de levá-la embora agora que o marido estava preso. Todas se exaltavam. A Mouquette, cansada de ensanguentar-se ao partir tijolos nas coxas gordas demais, preferia lançá-los inteiros. Até os garotos entravam em ação, e Bébert mostrava a Lydie como se arremessava por baixo do cotovelo. Era uma saraivada, granizos enormes cujos impactos surdos se ouviam.
E, de repente, no meio daquelas fúrias, viram Catherine, com os punhos erguidos, brandindo também metades de tijolos e lançando-as com toda a força dos braços pequenos. Ela não teria sabido dizer por quê. Sufocava, morria de vontade de massacrar o mundo. Aquela maldita existência de desgraça não iria acabar logo? Estava cansada de apanhar e de ser expulsa por seu homem, de chafurdar como um cão perdido na lama das estradas, sem poder sequer pedir uma sopa ao pai, que passava fome como ela. Nada jamais melhorava; ao contrário, tudo se estragava desde que ela se conhecia por gente. E quebrava tijolos, lançava-os diante de si, com a única ideia de varrer tudo, os olhos tão cegos de sangue que nem sequer via em quem esmagava os maxilares.
Étienne, que permanecera diante dos soldados, por pouco não teve o crânio partido. A orelha começou a inchar. Ele se virou e estremeceu ao compreender que o tijolo partira das mãos febris de Catherine. E, correndo o risco de morrer, não se afastou, ficou olhando para ela. Muitos outros também se esqueciam ali, fascinados pela batalha, com os braços pendentes. Mouquet avaliava os golpes como se assistisse a uma partida de boliche: oh, aquele fora bem dado! E o outro, que falta de sorte! Ria e cutucava Zacharie com o cotovelo. Este discutia com Philomène porque dera tapas em Achille e Désirée, recusando-se a carregá-los nas costas para que pudessem enxergar. Havia espectadores aglomerados ao longe, ao longo da estrada. E, no alto da encosta, na entrada do conjunto habitacional, o velho Bonnemort acabava de aparecer, arrastando-se apoiado numa bengala, agora imóvel, recortado contra o céu cor de ferrugem.
Desde os primeiros tijolos lançados, o capataz Richomme tornara a se plantar entre os soldados e os mineiros. Suplicava a uns, exortava os outros, indiferente ao perigo, tão desesperado que lágrimas grossas lhe escorriam dos olhos. Suas palavras não podiam ser ouvidas no meio do tumulto; viam-se apenas os grandes bigodes grisalhos tremendo.
Mas a chuva de tijolos ficava mais cerrada. Seguindo o exemplo das mulheres, os homens também começaram.
Então a Maheude percebeu que Maheu permanecia atrás. Ele estava de mãos vazias e tinha o ar sombrio.
— O que foi? — gritou ela. — Ficou covarde? Vai deixar levarem seus companheiros para a cadeia?... Ah! Se eu não estivesse com esta criança, você ia ver!
Estelle, agarrada a seu pescoço e berrando, impedia-a de se juntar à Brûlé e às outras. E, como o marido parecia não ouvir, ela empurrou tijolos com o pé contra as pernas dele.
— Pelo amor de Deus! Pegue isso! Será preciso cuspir na sua cara diante de todo mundo para lhe dar coragem?
De novo muito vermelho, ele partiu os tijolos e os lançou. Ela o chicoteava com as palavras, atordoava-o, latia atrás dele frases de morte, sufocando a filha contra a garganta nos braços crispados; e ele continuava avançando, até se encontrar diante dos fuzis.
Sob aquela rajada de pedras, a pequena tropa desaparecia. Felizmente, elas passavam alto demais e crivavam a parede. O que fazer? A ideia de entrar, de dar as costas, tingiu por um instante o rosto pálido do capitão; mas aquilo já nem sequer era possível. Ao menor movimento, seriam despedaçados. Um tijolo acabara de quebrar a viseira de seu quepe, e gotas de sangue escorriam da testa. Vários de seus homens estavam feridos; e ele os sentia fora de si, naquele instinto desenfreado de defesa pessoal em que se deixa de obedecer aos chefes.
O sargento soltara um palavrão, com o ombro esquerdo quase deslocado, a carne machucada por um impacto surdo, semelhante a uma pancada de batedor sobre roupa. Esfolado duas vezes, o recruta tinha o polegar esmagado, enquanto uma ardência o atormentava no joelho direito. Até quando se deixariam importunar? Uma pedra ricocheteara e atingira o velho veterano abaixo do ventre; suas faces esverdearam, o fuzil tremeu e se estendeu na ponta dos braços magros.
Três vezes o capitão esteve a ponto de ordenar fogo. Uma angústia o estrangulava. Uma luta interminável de poucos segundos fazia chocarem-se nele ideias, deveres, todas as suas crenças de homem e de soldado. A chuva de tijolos redobrava; e ele abria a boca, ia gritar “Fogo!”, quando os fuzis dispararam por conta própria: três tiros primeiro, depois cinco, depois uma descarga cerrada do pelotão, depois um tiro isolado, muito tempo mais tarde, no grande silêncio.
Foi um estupor. Tinham atirado. A multidão, de boca aberta, permaneceu imóvel, sem acreditar ainda. Mas gritos dilacerantes se ergueram, enquanto a corneta tocava o cessar-fogo. E houve um pânico enlouquecido, um galope de gado metralhado, uma fuga desesperada pela lama.
Bébert e Lydie haviam desabado um sobre o outro nos três primeiros tiros, a menina atingida no rosto, o menino perfurado abaixo do ombro esquerdo. Ela, fulminada, já não se movia. Ele, porém, ainda se agitava, agarrava-a com os dois braços nas convulsões da agonia, como se quisesse tomá-la novamente para si, como fizera no fundo do esconderijo negro onde acabavam de passar sua última noite. E Jeanlin, que justamente enfim chegava de Réquillart, inchado de sono, pulando no meio da fumaça, viu-o abraçar sua pequena mulher e morrer.
Os cinco tiros seguintes haviam derrubado a Brûlé e o capataz Richomme. Atingido pelas costas no momento em que suplicava aos companheiros, ele caíra de joelhos; depois, escorregando sobre um quadril, agonizava no chão, os olhos ainda cheios das lágrimas que chorara. A velha, com a garganta aberta, tombara inteiriça e estaladiça como um feixe de madeira seca, balbuciando um último palavrão no borbulhar do sangue.
Mas então a descarga do pelotão varreu o terreno, ceifando a cem passos os grupos de curiosos que riam da batalha. Uma bala entrou na boca de Mouquet e o derrubou, com o rosto despedaçado, aos pés de Zacharie e Philomène, cujos dois pequenos ficaram cobertos de gotas vermelhas.
No mesmo instante, a Mouquette recebeu duas balas no ventre. Vira os soldados apontarem e, num movimento instintivo de boa moça, lançara-se diante de Catherine, gritando-lhe que tomasse cuidado. Soltou um grito alto e caiu de costas, derrubada pelo choque. Étienne correu, quis levantá-la, carregá-la; mas, com um gesto, ela dizia que estava acabada. Depois, soluçou, sem deixar de sorrir para os dois, como se estivesse feliz de vê-los juntos agora que partia.
Tudo parecia terminado. O furacão das balas se perdera ao longe, chegando até as fachadas do conjunto habitacional, quando o último tiro partiu, isolado e atrasado.
Maheu, atingido em pleno coração, girou sobre si mesmo e caiu de rosto numa poça d’água negra de carvão.
Atônita, a Maheude se abaixou.
— Ei, meu velho, levante. Não foi nada, diga?
Com as mãos atrapalhadas por Estelle, precisou colocá-la sob um braço para virar a cabeça do marido.
— Fale! Onde está doendo?
Ele tinha os olhos vazios, a boca babando uma espuma ensanguentada. Ela compreendeu: estava morto. Então permaneceu sentada na lama, a filha sob o braço como um embrulho, olhando o marido com ar embrutecido.
A mina estava livre. Com um gesto nervoso, o capitão tirara e tornara a colocar o quepe rasgado por uma pedra; conservava sua rigidez lívida diante do desastre de sua vida, enquanto os homens, com os rostos mudos, recarregavam as armas. Avistaram-se os semblantes aterrorizados de Négrel e Dansaert na janela da sala de embarque. Souvarine estava atrás deles, a testa atravessada por uma grande ruga, como se o cravo de sua ideia fixa tivesse se imprimido ali, ameaçador.
Do outro lado do horizonte, à borda do planalto, Bonnemort não se movera, apoiado com uma das mãos na bengala, a outra sobre as sobrancelhas para enxergar melhor, lá embaixo, a matança dos seus. Os feridos berravam, os mortos esfriavam em posturas quebradas, cobertos pela lama líquida do degelo, aqui e ali atolados entre as manchas de tinta do carvão, que reapareciam sob os farrapos sujos da neve.
E, no meio daqueles cadáveres de homens, tão pequenos, de aparência miserável em sua magreza de indigentes, jazia o cadáver de Trompette, um monte de carne morta, monstruoso e lamentável.
Étienne não fora morto. Continuava esperando, perto de Catherine, caída de cansaço e angústia, quando uma voz vibrante o fez estremecer. Era o abade Ranvier, que voltava de celebrar a missa e, com os dois braços erguidos, numa fúria de profeta, invocava contra os assassinos a cólera de Deus. Anunciava a era da justiça, a próxima exterminação da burguesia pelo fogo do céu, pois ela levava seus crimes ao limite ao mandar massacrar os trabalhadores e os deserdados deste mundo.