SEXTA PARTE — Capítulo IV Germinal · Capítulo 33 de 40
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SEXTA PARTE — Capítulo IV

SEXTA PARTE

Capítulo IV

Quando saíram da casa de Rasseneur, Étienne e Catherine caminharam em silêncio. Começava o degelo, um degelo frio e lento, que sujava a neve sem derretê-la. No céu lívido, adivinhava-se a lua cheia atrás de grandes nuvens, farrapos negros que um vento de tempestade fazia rolar furiosamente, muito alto; e, sobre a terra, nenhum sopro passava, ouvia-se apenas o gotejar dos telhados, de onde caíam blocos brancos numa queda mole.

Étienne, constrangido com aquela mulher que lhe entregavam, não encontrava nada para dizer. A ideia de levá-la e escondê-la consigo em Réquillart parecia absurda. Quisera conduzi-la ao coron, à casa dos pais; mas ela recusara, aterrorizada: não, não, tudo antes de voltar a pesar sobre eles, depois de tê-los abandonado de modo tão vergonhoso! E nenhum dos dois tornou a falar; avançavam ao acaso por caminhos que se transformavam em rios de lama. Primeiro desceram em direção ao Voreux; depois viraram à direita e passaram entre o terril e o canal.

— Mesmo assim, você precisa dormir em algum lugar — disse ele por fim. — Eu, caso tivesse ao menos um quarto, bem que a levaria comigo...

Mas um acesso de estranha timidez o interrompeu. O passado voltava, os desejos violentos de outrora, e as delicadezas, e as vergonhas que os haviam impedido de ficar juntos. Então ainda a queria, para se sentir tão perturbado, aquecido pouco a pouco no coração por um desejo novo? A lembrança das bofetadas que ela lhe dera em Gaston-Marie agora o excitava, em vez de enchê-lo de rancor. E ele permanecia surpreso; a ideia de levá-la para Réquillart tornava-se inteiramente natural e fácil de executar.

— Vamos, decida-se, para onde quer que eu a leve?... Você me detesta tanto assim, para não querer ficar comigo?

Ela o seguia lentamente, retardada pelos penosos escorregões dos tamancos nas valetas; e, sem erguer a cabeça, murmurou:

— Já tenho sofrimento suficiente, meu Deus! Não me cause mais. De que adiantaria o que está pedindo, agora que tenho um homem e você também tem uma mulher?

Falava da Mouquette. Acreditava que ele estava com a moça, como se dizia havia quinze dias; e, quando jurou que não, ela balançou a cabeça, recordou a noite em que os vira beijando-se de boca cheia.

— Que pena, todas essas tolices! — retomou ele em voz baixa, parando. — Nós nos daríamos tão bem!

Ela teve um pequeno estremecimento e respondeu:

— Não lamente nada, você não perde grande coisa. Caso soubesse que trapo sou, não muito maior que dois soldos de manteiga, tão malfeita que nunca vou me tornar mulher, com certeza!

E continuou livremente, acusando-se como de uma culpa por aquele longo atraso de sua puberdade. Aquilo, apesar do homem que tivera, a diminuía, relegava-a entre as meninas. Ao menos se tem uma desculpa quando se pode fazer um filho.

— Minha pobre pequena! — disse Étienne em voz baixa, tomado por grande compaixão.

Estavam ao pé do terril, escondidos pela sombra da massa enorme. Justamente uma nuvem de tinta passava sobre a lua; já nem distinguiam os rostos, e os hálitos se confundiam, os lábios se procuravam para aquele beijo cujo desejo os atormentara durante meses. Mas, de repente, a lua reapareceu; viram acima deles, no alto das rochas brancas de claridade, a sentinela do Voreux destacada, inteiramente ereta. E, sem que enfim se beijassem, um pudor os separou, aquele antigo pudor onde havia cólera, vaga repugnância e muita amizade. Retomaram pesadamente a marcha, afundando na lama até os tornozelos.

— Está decidido, você não quer? — perguntou Étienne.

— Não — respondeu ela. — Você depois de Chaval, não é? E, depois de você, outro... Não, isso me dá nojo. Não sinto prazer algum, então para quê?

Calados, caminharam cem passos sem trocar uma palavra.

— Ao menos sabe para onde vai? — retomou ele. — Não posso deixá-la do lado de fora numa noite dessas.

Ela respondeu simplesmente:

— Vou voltar. Chaval é meu homem, não devo dormir em outro lugar senão na casa dele.

— Mas ele vai espancá-la!

O silêncio recomeçou. Ela dera de ombros, resignada. Ele bateria nela; quando se cansasse de bater, pararia. Não seria melhor aquilo do que percorrer os caminhos como uma vagabunda? Além disso, acostumava-se às bofetadas; dizia, para consolar-se, que, entre dez moças, oito não encontravam coisa melhor. Caso um dia seu homem a desposasse, ainda seria muito gentil da parte dele.

Étienne e Catherine haviam tomado maquinalmente a direção de Montsou; e, à medida que se aproximavam, os silêncios se tornavam mais longos. Era como se já não estivessem juntos. Ele não encontrava palavras para convencê-la, apesar da grande tristeza que sentia ao vê-la voltar para Chaval. Seu coração se partia; não tinha nada muito melhor a oferecer, uma existência de miséria e fuga, uma noite sem amanhã, caso a bala de um soldado lhe quebrasse a cabeça. Talvez, de fato, fosse mais prudente suportar o sofrimento conhecido, sem tentar outro. E a reconduzia à casa do amante, de cabeça baixa; não protestou quando, na estrada principal, ela o deteve na esquina dos Depósitos, a vinte metros da taberna Piquette, dizendo:

— Não venha mais longe. Caso ele o veja, haverá outra desgraça.

Batiam onze horas na igreja. A taberna estava fechada, mas claridades passavam pelas frestas.

— Adeus — murmurou ela.

Deu-lhe a mão; ele a reteve, e ela precisou retirá-la com dificuldade, num esforço lento, para abandoná-lo. Sem virar a cabeça, entrou pela pequena porta, levando seus andrajos. Mas ele não se afastava, permanecia de pé no mesmo lugar, com os olhos sobre a casa, inquieto com o que acontecia ali. Aguçava o ouvido, tremia com a possibilidade de escutar os gritos de uma mulher espancada. A casa continuou escura e silenciosa; viu apenas uma janela do primeiro andar iluminar-se. E, quando ela se abriu e ele reconheceu a sombra delgada que se inclinava para a estrada, avançou.

Catherine então soprou, em voz muito baixa:

— Ele não voltou, vou me deitar... Eu lhe imploro, vá embora!

Étienne partiu. O degelo aumentava; uma chuva escorria dos telhados, um suor de umidade cobria os muros, as paliçadas, todas as massas confusas daquele subúrbio industrial, perdidas na noite. Primeiro se dirigiu para Réquillart, doente de cansaço e tristeza, sentindo apenas a necessidade de desaparecer sob a terra, de se aniquilar ali. Depois, a ideia do Voreux tornou a tomá-lo; pensava nos trabalhadores belgas que desceriam, nos camaradas do coron exasperados contra os soldados, decididos a não tolerar estrangeiros dentro de sua mina. E voltou a acompanhar o canal, no meio das poças de neve derretida.

Quando se encontrou novamente perto do terril, a lua surgiu muito clara. Ergueu os olhos, contemplou o céu, onde os nuvens galopavam sob as chicotadas do grande vento que soprava lá no alto; mas elas embranqueciam, desfaziam-se em fios, mais finas, com uma transparência turvada de água suja sobre o rosto da lua; e se sucediam tão depressa que o astro, às vezes encoberto, reaparecia sem cessar em sua limpidez.

Com os olhos cheios daquela luz pura, Étienne baixava a cabeça quando um espetáculo no alto do terril o deteve. A sentinela, enrijecida pelo frio, agora caminhava, dando vinte e cinco passos voltada para Marchiennes e depois retornando voltada para Montsou. Via-se a chama branca da baioneta acima daquela silhueta negra, nitidamente recortada na palidez do céu. E o que interessava ao rapaz era, atrás da cabana onde Bonnemort se abrigava nas noites de tempestade, uma sombra móvel, um animal rastejante e à espreita, que reconheceu imediatamente como Jeanlin, pelas costas compridas e desossadas de fuinha. A sentinela não podia vê-lo. Aquele bandido de menino certamente preparava alguma brincadeira, pois não deixava de odiar os soldados e perguntava quando se livrariam daqueles assassinos enviados com fuzis para matar as pessoas.

Por um instante, Étienne hesitou em chamá-lo, para impedi-lo de cometer alguma estupidez. A lua se escondera; vira-o encolher-se, pronto para saltar. Mas a lua reapareceu, e o menino permaneceu agachado. A cada volta, a sentinela avançava até a cabana, depois lhe dava as costas e retomava a marcha. E, de repente, quando uma nuvem lançou a escuridão, Jeanlin saltou sobre os ombros do soldado, num pulo enorme de gato selvagem, agarrou-se a ele com as unhas e lhe enterrou na garganta a faca aberta. A gola de crina resistiu; precisou apoiar as duas mãos no cabo, lançar sobre ele todo o corpo. Muitas vezes sangrara galinhas surpreendidas atrás das fazendas. Tudo aconteceu tão depressa que houve apenas, na noite, um grito abafado, enquanto o fuzil caía com um ruído de ferragem. A lua já voltava a brilhar, muito branca.

Imóvel de estupor, Étienne continuava olhando. O chamado se estrangulava no fundo de seu peito. No alto, o terril estava vazio; nenhuma sombra se destacava contra a fuga apavorada das nuvens. Subiu correndo e encontrou Jeanlin de quatro diante do cadáver, estendido de costas, com os braços abertos. Na neve, sob a claridade límpida, as calças vermelhas e o capote cinza recortavam-se duramente. Nenhuma gota de sangue correra; a faca ainda estava na garganta, enterrada até o cabo.

Num soco irracional, furioso, derrubou o menino ao lado do corpo.

— Por que fez isso? — balbuciava, desvairado.

Jeanlin se encolheu, arrastou-se sobre as mãos, com o arqueamento felino das costas magras; e as orelhas largas, os olhos verdes, os maxilares salientes estremeciam e flamejavam sob o abalo do crime cometido.

— Com mil diabos! Por que fez isso?

— Não sei, estava com vontade.

Obstinou-se nessa resposta. Havia três dias que sentia vontade. Aquilo o atormentava, a cabeça doía atrás das orelhas de tanto pensar. Por acaso precisava ter consideração por aqueles porcos de soldados que incomodavam os carvoeiros em sua própria terra? Dos discursos violentos na floresta, dos gritos de devastação e morte berrados através das minas, restaram-lhe cinco ou seis palavras, que repetia como menino brincando de revolução. E não sabia mais nada; ninguém o incitara, aquilo lhe viera sozinho, como lhe vinha a vontade de roubar cebolas num campo.

Étienne, apavorado com aquela germinação surda do crime no fundo de um crânio infantil, afastou-o com outro pontapé, como a um animal inconsciente. Tremia com a possibilidade de o posto do Voreux ter ouvido o grito abafado da sentinela; lançava olhares para a mina sempre que a lua se descobria. Mas nada se movera. Curvou-se, tocou as mãos que pouco a pouco gelavam, escutou o coração parado sob o capote. Da faca só se via o cabo de osso, no qual a divisa galante, aquela palavra simples, “Amor”, estava gravada em letras negras.

Seus olhos passaram da garganta para o rosto. De repente, reconheceu o pequeno soldado: era Jules, o recruta com quem conversara certa manhã. Uma grande compaixão o tomou diante daquele rosto loiro e doce, coberto de sardas. Os olhos azuis, escancarados, contemplavam o céu com aquele olhar fixo que ele vira procurar no horizonte a terra natal. Onde ficava Plogof, que lhe surgia num deslumbramento de sol? Lá longe, muito longe. O mar rugia ao longe naquela noite de tempestade. O vento que passava tão alto talvez tivesse soprado sobre a charneca. Duas mulheres estavam de pé, a mãe e a irmã, segurando as toucas arrancadas pelo vento, olhando também, como se pudessem ver o que naquele instante acontecia com o pequeno, além das léguas que os separavam. Agora o esperariam para sempre. Que coisa abominável, pobres-diabos matarem-se uns aos outros por causa dos ricos!

Mas era preciso fazer o cadáver desaparecer. Étienne pensou primeiro em jogá-lo no canal. A certeza de que o encontrariam o fez desistir. Então sua angústia se tornou extrema; os minutos urgiam, que decisão tomar? Teve uma inspiração repentina: caso conseguisse levar o corpo até Réquillart, saberia enterrá-lo ali para sempre.

— Venha aqui — disse a Jeanlin.

— Não, você quer bater em mim. E ainda tenho negócios. Boa noite.

De fato, marcara encontro com Bébert e Lydie num esconderijo, um buraco aberto sob a pilha de madeira do Voreux. Era uma grande aventura passarem a noite fora, para participar caso quebrassem os ossos dos belgas a pedradas quando descessem.

— Escute — repetiu Étienne. — Venha aqui, ou chamo os soldados, que cortarão sua cabeça.

Quando Jeanlin se decidiu, ele enrolou o lenço e apertou-o firmemente ao redor do pescoço do soldado, sem retirar a faca, que impedia o sangue de correr. A neve derretia; não havia no chão poça vermelha nem marcas de luta.

Jeanlin agarrou as pernas; Étienne segurou os ombros, depois de prender o fuzil às costas. E os dois desceram lentamente o terril, cuidando para não fazer as pedras rolarem. Felizmente, a lua se encobrira. Mas, quando seguiam ao longo do canal, reapareceu muito clara; foi um milagre que o posto não os visse. Em silêncio, apressavam-se, atrapalhados pelo balanço do cadáver, obrigados a pousá-lo no chão a cada cem metros. Na esquina da viela de Réquillart, um ruído os gelou; mal tiveram tempo de esconder-se atrás de um muro para evitar uma patrulha. Mais adiante, um homem os surpreendeu, mas estava bêbado e se afastou insultando-os. Por fim chegaram à antiga mina, cobertos de suor, tão abalados que os dentes batiam.

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Étienne já imaginava que não seria fácil fazer o soldado passar pelo compartimento das escadas. Foi um trabalho atroz. Primeiro, Jeanlin, permanecendo no alto, precisou deixar o corpo escorregar, enquanto ele, suspenso nas moitas, o acompanhava para ajudá-lo a transpor os dois primeiros patamares, onde alguns degraus estavam quebrados. Depois, em cada escada, teve de repetir a mesma manobra, descer à frente e recebê-lo nos braços; e assim percorreu trinta escadas, duzentos e dez metros, sentindo o corpo cair continuamente sobre ele. O fuzil lhe raspava as costas; não quis que o menino fosse buscar o pedaço de vela, que guardava com avareza. Para quê? A luz apenas os atrapalharia naquele estreito conduto. No entanto, quando chegaram à plataforma de embarque, sem fôlego, mandou o pequeno buscar a vela. Sentou-se e esperou no meio das trevas, junto do corpo, com o coração batendo violentamente.

Assim que Jeanlin reapareceu com a luz, Étienne o consultou, pois o menino explorara aqueles trabalhos antigos até as fendas por onde um homem não conseguia passar. Retomaram o caminho, arrastaram o morto por quase um quilômetro, através de um labirinto de galerias em ruínas. Por fim, o teto se abaixou, e tiveram de ficar de joelhos sob uma rocha quebradiça sustentada por madeiras meio partidas. Era uma espécie de caixa comprida, onde deitaram o pequeno soldado como dentro de um caixão; depositaram o fuzil junto ao seu flanco e, com grandes golpes de calcanhar, terminaram de quebrar as madeiras, correndo o risco de ficarem ali também. A rocha se fendeu imediatamente; mal tiveram tempo de rastejar sobre os cotovelos e os joelhos. Quando Étienne se voltou, tomado pela necessidade de olhar, o desabamento do teto continuava, esmagando lentamente o corpo sob seu impulso enorme. E não restou mais nada, nada além da massa profunda da terra.

Jeanlin, de volta ao seu canto da caverna de ladrões, estendeu-se sobre o feno, murmurando, quebrado de cansaço:

— Que se danem! Os moleques vão esperar, vou dormir uma hora.

Étienne apagara a vela, da qual restava apenas um pequeno pedaço. Ele também estava moído, mas não sentia sono; pensamentos dolorosos de pesadelo golpeavam-lhe o crânio como martelos. Logo restou apenas um, torturante, esgotando-o com uma pergunta à qual não conseguia responder: por que não golpeara Chaval quando o tinha sob a faca? E por que aquele menino acabara de degolar um soldado cujo nome nem sequer conhecia? Aquilo transtornava suas crenças revolucionárias, a coragem de matar, o direito de matar. Seria então covarde? No feno, o menino começara a roncar, com ronco de homem bêbado, como se digerisse a embriaguez de seu assassinato. E Étienne, enojado, irritado, sofria por sabê-lo ali, por ouvi-lo. De repente, estremeceu, o sopro do medo lhe passara pelo rosto. Um leve roçar, um soluço pareciam ter saído das profundezas da terra. A imagem do pequeno soldado deitado lá embaixo, com o fuzil, sob as rochas, gelou-lhe as costas e lhe eriçou os cabelos. Era estúpido, toda a mina estava cheia de vozes; precisou acender novamente a vela e só se acalmou ao rever o vazio das galerias sob aquela claridade pálida.

Durante mais um quarto de hora, refletiu, ainda devastado pela mesma luta, com os olhos fixos no pavio que queimava. Mas houve um crepitar, o pavio se afogou, e tudo tornou a cair nas trevas. Um estremecimento o tomou outra vez; teria esbofeteado Jeanlin para impedi-lo de roncar tão alto. A proximidade do menino se tornava tão insuportável que fugiu, atormentado pela necessidade de ar livre, apressando-se pelas galerias e pelo compartimento das escadas, como se ouvisse uma sombra ofegando atrás de seus calcanhares.

Lá em cima, no meio dos escombros de Réquillart, Étienne pôde enfim respirar profundamente. Já que não ousava matar, cabia a ele morrer; e aquela ideia da morte, que já o tocara antes, renascia, entrava-lhe na cabeça como uma esperança derradeira. Morrer com bravura, morrer pela revolução, aquilo encerraria tudo, acertaria suas contas, boas ou más, impediria que continuasse pensando. Caso os camaradas atacassem os belgas, estaria na primeira fila; certamente teria a sorte de receber algum golpe fatal. Foi com passo mais firme que voltou a rondar o Voreux. Batiam duas horas, e um grande rumor de vozes saía da sala dos capatazes, onde acampava o posto que guardava a mina. O desaparecimento da sentinela acabava de transtornar o posto; haviam ido despertar o capitão, terminaram acreditando numa deserção, depois de examinarem atentamente o local. E, à espreita na sombra, Étienne recordava aquele capitão republicano de quem o pequeno soldado lhe falara. Quem sabia se não conseguiriam levá-lo para o lado do povo? A tropa ergueria as coronhas, aquilo poderia ser o sinal do massacre dos burgueses. Um novo sonho o arrebatou; já não pensou em morrer, permaneceu durante horas com os pés na lama, a garoa do degelo sobre os ombros, febril com a esperança de uma vitória ainda possível.

Até as cinco horas, ficou à espera dos belgas. Então percebeu que a Companhia tivera a astúcia de fazê-los dormir no Voreux. A descida começava; os poucos grevistas do coron dos Duzentos e Quarenta, postados como vigias, hesitavam em avisar os camaradas. Foi ele quem os alertou para aquela manobra, e eles partiram correndo, enquanto Étienne esperava atrás do terril, no caminho de sirga. Bateram seis horas; o céu terroso empalidecia, iluminava-se com uma aurora avermelhada, quando o abade Ranvier surgiu por uma trilha, com a batina erguida sobre as pernas magras. Toda segunda-feira, ia celebrar uma missa matinal na capela de um convento, do outro lado da mina.

— Bom dia, meu amigo! — gritou ele com voz forte, depois de examinar o rapaz com os olhos flamejantes.

Mas Étienne não respondeu. Ao longe, entre os cavaletes do Voreux, acabava de ver passar uma mulher e se precipitara, tomado de inquietação, pois julgara reconhecer Catherine.

Desde a meia-noite, Catherine percorria as estradas encharcadas pelo degelo. Chaval, ao voltar e encontrá-la deitada, fizera-a levantar com uma bofetada. Gritava que saísse imediatamente pela porta, caso não quisesse sair pela janela; e, chorando, malvestida, com as pernas machucadas pelos pontapés, ela precisara descer, empurrada para fora por um último tapa. Aquela separação brutal a atordoava. Sentara-se num marco de pedra, olhando para a casa, sempre à espera de que ele a chamasse; pois não era possível, ele a espreitava, mandaria que subisse quando a visse tremendo daquela maneira, abandonada, sem ninguém que a acolhesse.

Depois de duas horas, decidiu-se, morrendo de frio naquela imobilidade de cão expulso à rua. Saiu de Montsou, voltou sobre os próprios passos, não ousou nem chamar da calçada nem bater à porta. Por fim, seguiu pelo calçamento, pela longa estrada reta, com a ideia de ir ao coron, à casa dos pais. Mas, quando chegou, uma vergonha tão grande a tomou que correu ao longo dos jardins, receosa de ser reconhecida por alguém, apesar do sono profundo que pesava atrás das venezianas fechadas. E, a partir daí, vagou, assustada com o menor ruído, tremendo de ser recolhida e levada, como uma mendiga, àquela casa pública de Marchiennes cuja ameaça a perseguia como um pesadelo havia meses. Duas vezes esbarrou no Voreux, assustou-se com as vozes grossas do posto, fugiu sem fôlego, olhando para trás a fim de ver se não a perseguiam. A viela de Réquillart continuava cheia de homens bêbados; mesmo assim, voltava para lá, com a vaga esperança de encontrar aquele que repelira poucas horas antes.

Naquela manhã, Chaval deveria descer; e esse pensamento reconduziu Catherine à mina, embora sentisse a inutilidade de lhe falar: tudo terminara entre eles. Como não se trabalhava mais em Jean-Bart, ele jurara estrangulá-la se ela voltasse a trabalhar no Voreux, onde temia comprometer-se por causa dela. Então, o que fazer? Partir para outro lugar, morrer de fome, ceder aos golpes de todos os homens que passassem? Arrastava-se, cambaleava no meio das valetas, com as pernas quebradas, coberta de lama até as costas. O degelo agora corria pelos caminhos como um rio de lodo; ela se afogava nele, continuando a andar, sem ousar procurar uma pedra onde se sentar.

O dia apareceu. Catherine acabava de reconhecer as costas de Chaval, que contornava prudentemente o terril, quando avistou Lydie e Bébert, saindo de seu esconderijo sob a pilha de madeira. Haviam passado a noite de vigia, sem se permitirem voltar para casa, já que a ordem de Jeanlin era esperá-lo; e, enquanto este, em Réquillart, digeria a embriaguez do assassinato, as duas crianças se abraçaram para se aquecer. O vento assobiava entre as estacas de castanheiro e carvalho; encolhiam-se, como numa cabana abandonada de lenhador. Lydie não ousava dizer em voz alta seus sofrimentos de pequena mulher espancada, assim como Bébert não encontrava coragem para se queixar das bofetadas com que o capitão lhe inchava as faces. Mas, por fim, ele abusava demais, arriscando os ossos dos dois em pilhagens insensatas e depois se recusando a dividir qualquer coisa; e seus corações se erguiam em revolta. Acabaram por se beijar, apesar da proibição, dispostos a receber a bofetada do invisível, como ele os ameaçava. Como a bofetada não veio, continuaram a beijar-se docemente, sem imaginar outra coisa, colocando naquela carícia sua longa paixão contrariada, tudo o que havia neles de martirizado e enternecido. Durante a noite inteira, aqueceram-se assim, tão felizes no fundo daquele buraco perdido que não se lembravam de ter sentido felicidade maior, nem mesmo no dia de Santa Bárbara, quando comiam bolinhos e bebiam vinho.

Um toque repentino de clarim fez Catherine estremecer. Ergueu-se e viu o posto do Voreux pegar em armas. Étienne chegava correndo, Bébert e Lydie saltaram de uma vez para fora do esconderijo. E, ao longe, sob o dia crescente, um grupo de homens e mulheres descia do coron, com grandes gestos de cólera.

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