TERCEIRA PARTE — Capítulo III
TERCEIRA PARTE
Capítulo III
Por volta de meados de agosto, Étienne instalou-se na casa dos Maheu, quando Zacharie, já casado, conseguiu da Companhia, para Philomène e os dois filhos, uma casa vaga no conjunto operário; e, nos primeiros tempos, o jovem sentiu certo constrangimento diante de Catherine.
Era uma intimidade de todos os minutos. Ele substituía em tudo o irmão mais velho, dividia a cama com Jeanlin, diante da cama da irmã. Ao deitar-se e ao levantar-se, precisava despir-se e tornar a vestir-se perto dela, via-a também tirar e recolocar as roupas.
Quando caía a última anágua, ela aparecia de uma brancura pálida, daquela neve transparente das louras anêmicas; e ele sentia uma emoção contínua ao vê-la tão branca, apesar das mãos e do rosto já estragados, como se estivesse mergulhada em leite dos calcanhares até o pescoço, onde a linha do bronzeado se destacava nitidamente como um colar de âmbar.
Fingia virar-se; mas pouco a pouco passava a conhecê-la: primeiro os pés, que seus olhos baixos encontravam; depois um joelho entrevisto, quando ela se insinuava sob a coberta; depois o peito, com os pequenos seios rígidos, sempre que pela manhã se inclinava sobre a bacia.
Ela, sem olhar para ele, apressava-se, contudo. Em dez segundos estava despida e estendida ao lado de Alzire, com um movimento tão flexível de serpente que ele mal acabava de tirar os sapatos quando ela desaparecia, voltando-lhe as costas e já não mostrando senão o pesado coque.
De resto, nunca teve motivo para se zangar. Se uma espécie de obsessão o fazia, contra a vontade, espreitar o momento em que ela se deitava, evitava as brincadeiras e os perigosos jogos de mãos. Os pais estavam ali, e ele conservava, além disso, por ela um sentimento feito de amizade e rancor, que o impedia de tratá-la como uma moça desejada, em meio ao abandono da vida que agora partilhavam, durante a toalete, as refeições e o trabalho, sem que nada de ambos permanecesse secreto, nem mesmo as necessidades mais íntimas.
Todo o pudor da família se refugiara na lavagem diária, que a jovem agora fazia sozinha no cômodo de cima, enquanto os homens se banhavam embaixo, um depois do outro.
Ao cabo do primeiro mês, Étienne e Catherine já pareciam não se enxergar quando, à noite, antes de apagarem a vela, circulavam despidos pelo quarto. Ela deixara de se apressar, retomava o antigo hábito de prender os cabelos à beira da cama, com os braços erguidos e a camisa subindo até as coxas; e ele, sem calça, por vezes a ajudava, procurando os grampos que ela perdia.
O hábito matava a vergonha da nudez. Achavam natural estarem assim, pois não faziam mal algum, e não era culpa deles se havia apenas um quarto para tanta gente.
Entretanto, perturbações lhes voltavam de repente, nos momentos em que não pensavam em nada culpável. Depois de passar várias noites sem ver a palidez daquele corpo, ele tornava a vê-lo subitamente, todo branco, daquela brancura que o sacudia com um arrepio e o obrigava a desviar-se, por medo de ceder à vontade de tomá-la.
Ela, em outras noites, sem razão aparente, caía num pudor inquieto, fugia, enfiava-se entre os lençóis como se tivesse sentido as mãos do rapaz agarrá-la.
Depois, apagada a vela, compreendiam que nenhum dos dois adormecia, que pensavam um no outro apesar do cansaço. Isso os deixava inquietos e mal-humorados durante todo o dia seguinte, pois preferiam as noites tranquilas, quando se punham à vontade como camaradas.
Étienne só se queixava de Jeanlin, que dormia encolhido como um cão. Alzire respirava com um sopro leve; pela manhã, Lénore e Henri eram encontrados nos braços um do outro, exatamente como haviam sido deitados.
Na casa escura, não havia outro ruído além dos roncos de Maheu e da Maheude, que se alternavam a intervalos regulares, como foles de forja.
No conjunto, Étienne se sentia melhor do que na casa de Rasseneur. A cama não era ruim e os lençóis eram trocados uma vez por mês. Também comia uma sopa melhor; sofria apenas com a raridade da carne. Mas todos estavam na mesma situação, e ele não podia exigir, por quarenta e cinco francos de pensão, um coelho a cada refeição.
Esses quarenta e cinco francos ajudavam a família. Conseguia-se fechar as contas, deixando sempre para trás pequenas dívidas; e os Maheu se mostravam agradecidos ao pensionista. Sua roupa era lavada e remendada, os botões eram pregados, suas coisas, postas em ordem. Enfim, sentia ao redor de si o asseio e os cuidados de uma mulher.
Foi a época em que Étienne começou a ouvir as ideias que zumbiam em seu crânio. Até então, só tivera a revolta do instinto, em meio à fermentação surda dos companheiros. Toda espécie de perguntas confusas se apresentava a ele: por que a miséria de uns? Por que a riqueza de outros? Por que estes sob o calcanhar daqueles, sem esperança de um dia lhes tomar o lugar?
E sua primeira etapa foi compreender a própria ignorância. Desde então, uma vergonha secreta, uma dor escondida começaram a corroê-lo: nada sabia, não ousava conversar sobre aquelas coisas que o apaixonavam, a igualdade entre todos os homens, a justiça que exigia a divisão dos bens da terra entre eles.
Por isso lançou-se ao estudo com o gosto sem método dos ignorantes enlouquecidos pela ciência. Mantinha agora correspondência regular com Pluchart, mais instruído e muito envolvido no movimento socialista. Mandou buscar livros, cuja leitura mal digerida terminou de exaltá-lo: sobretudo um livro de medicina, A higiene do mineiro, no qual um médico belga resumira os males de que morria o povo das regiões carboníferas; além de tratados de economia política de uma aridez técnica incompreensível, panfletos anarquistas que o transtornavam, antigos números de jornais que depois guardava como argumentos irrefutáveis para possíveis discussões.
Souvarine também lhe emprestava volumes, e a obra sobre as sociedades cooperativas o fizera sonhar durante um mês com uma associação universal de trocas, abolindo o dinheiro e fundamentando no trabalho toda a vida social.
A vergonha de sua ignorância desaparecia. Nascia-lhe um orgulho, desde que se sentia pensar.
Durante aqueles primeiros meses, Étienne permaneceu no deslumbramento dos neófitos, o coração transbordando de generosas indignações contra os opressores, lançando-se à esperança do próximo triunfo dos oprimidos. Ainda não chegara a construir um sistema, no vago de suas leituras. As reivindicações práticas de Rasseneur misturavam-se dentro dele às violências destrutivas de Souvarine; e, quando saía da taberna do Avantage, onde quase todos os dias continuava a vociferar com os dois contra a Companhia, caminhava num sonho, assistia à regeneração radical dos povos, sem que fosse preciso quebrar uma vidraça nem derramar uma gota de sangue.
Os meios de execução, de resto, continuavam obscuros. Preferia acreditar que tudo correria muito bem, pois sua cabeça se perdia quando tentava formular um programa de reconstrução. Mostrava-se até cheio de moderação e incoerência, repetia às vezes que era preciso afastar a política da questão social, uma frase que lera e lhe parecia boa para pronunciar no meio dos carvoeiros fleumáticos entre os quais vivia.
Agora, todas as noites, na casa dos Maheu, demoravam-se meia hora antes de subir para dormir. Étienne retomava sempre a mesma conversa. Desde que sua natureza se refinava, sentia-se mais ferido pela promiscuidade do conjunto operário. Por acaso eram animais, para viverem assim amontoados uns contra os outros no meio dos campos, tão apertados que não se podia trocar de camisa sem mostrar o traseiro aos vizinhos? E como aquilo fazia bem à saúde, como os rapazes e as moças inevitavelmente apodreciam juntos!
— Ora! — respondia Maheu. — Se tivéssemos mais dinheiro, teríamos mais espaço... Mesmo assim, é verdade que não faz bem a ninguém viver uns em cima dos outros. Acaba sempre em homens bêbados e moças grávidas.
E a família partia daí, cada qual dando sua opinião, enquanto o petróleo da lâmpada corrompia o ar da sala, já empesteado de cebola frita. Não, com certeza a vida não tinha graça. Trabalhavam como verdadeiros animais numa tarefa que antigamente servia de castigo aos condenados às galés, deixavam a pele ali mais vezes do que deviam, tudo isso para nem sequer ter carne sobre a mesa à noite.
Sem dúvida, recebiam sua papa, comiam alguma coisa; mas tão pouco, apenas o necessário para sofrer sem morrer, esmagados por dívidas, perseguidos como se roubassem o próprio pão. Quando chegava o domingo, dormiam de cansaço. Os únicos prazeres eram embebedar-se ou fazer um filho na mulher; ainda assim, a cerveja inchava demais a barriga, e o filho, mais tarde, zombava deles. Não, não havia graça alguma naquilo.
Então a Maheude se intrometia:
— O pior, vejam vocês, é quando a gente pensa que isso não pode mudar... Quando se é jovem, imagina-se que a felicidade virá, esperam-se coisas; depois, a miséria recomeça sempre, e ficamos presos dentro dela... Eu não desejo mal a ninguém, mas há momentos em que essa injustiça me revolta.
Fazia-se um silêncio. Todos respiravam por um instante no mal-estar vago daquele horizonte fechado. Apenas o pai Bonnemort, quando estava ali, abria os olhos surpresos, pois em seu tempo ninguém se atormentava daquela maneira: nascia-se no carvão, golpeava-se a camada, sem pedir mais nada; enquanto agora passava um ar que dava ambição aos carvoeiros.
— Não se deve cuspir em coisa nenhuma — murmurava. — Uma boa caneca é uma boa caneca... Os chefes muitas vezes são canalhas; mas sempre haverá chefes, não é? Não adianta quebrar a cabeça pensando nisso.
Então Étienne se animava. Como assim? Seria proibido ao operário refletir? Pois justamente as coisas logo mudariam, porque agora o operário refletia.
No tempo do velho, o mineiro vivia na mina como um bruto, como uma máquina de extrair hulha, sempre debaixo da terra, com os ouvidos e os olhos fechados aos acontecimentos de fora. Assim, os ricos que governavam podiam entender-se à vontade, vendê-lo e comprá-lo, devorar-lhe a carne: ele nem desconfiava.
Mas agora o mineiro despertava no fundo, germinava na terra como uma verdadeira semente; e veriam certa manhã o que brotaria no meio dos campos: sim, brotariam homens, um exército de homens que restabeleceria a justiça.
Desde a Revolução, por acaso todos os cidadãos não eram iguais? Já que votavam juntos, o operário devia continuar escravo do patrão que lhe pagava? As grandes Companhias, com suas máquinas, esmagavam tudo, e contra elas já nem restavam as garantias de antigamente, quando pessoas do mesmo ofício, reunidas em corporações, sabiam se defender.
Era por isso, nome de Deus, e por outras coisas, que tudo estouraria um dia, graças à instrução. Bastava olhar para o próprio conjunto operário: os avós não sabiam assinar o nome, os pais já o assinavam e, quanto aos filhos, liam e escreviam como professores.
Ah, aquilo crescia, crescia pouco a pouco, uma dura colheita de homens amadurecendo ao sol! Desde que ninguém mais permanecia colado ao mesmo lugar pela vida inteira e podia ambicionar ocupar o lugar do vizinho, por que então não lutar com os punhos, tentando ser o mais forte?
Maheu, abalado, continuava, porém, desconfiado.
— Assim que a gente se mexe, devolvem o livrete — dizia. — O velho tem razão, será sempre o mineiro que carregará o sofrimento, sem esperança de um pedaço de carneiro de vez em quando como recompensa.
Calada havia algum tempo, a Maheude parecia sair de um sonho.
— Ainda se fosse verdade o que os padres contam, se os pobres deste mundo fossem ricos no outro!
Uma gargalhada a interrompia. Até as crianças davam de ombros, todos tornados incrédulos pelo vento de fora, conservando o medo secreto dos fantasmas da mina, mas divertindo-se com o céu vazio.
— Ora, os padres! — exclamava Maheu. — Se acreditassem nisso, comeriam menos e trabalhariam mais, para reservar lá em cima um bom lugar... Não, quando se morre, morreu.
A Maheude soltava grandes suspiros.
— Ah, meu Deus! Ah, meu Deus!
Depois, com as mãos caídas sobre os joelhos e uma expressão de imenso abatimento:
— Então é verdade, estamos perdidos.
Todos se entreolhavam. O pai Bonnemort cuspia no lenço, enquanto Maheu, com o cachimbo apagado, esquecia-o entre os lábios. Alzire escutava, entre Lénore e Henri, adormecidos à beira da mesa.
Mas Catherine, sobretudo, com o queixo apoiado na mão, não tirava de Étienne os grandes olhos claros, quando ele protestava, proclamava sua fé, abria o futuro encantado de seu sonho social.
Ao redor deles, o conjunto operário adormecia. Já não se ouvia senão o choro perdido de uma criança ou a discussão de algum bêbado retardatário. Na sala, o cuco batia devagar, uma umidade fresca subia das lajes cobertas de areia, apesar do abafamento do ar.
— Que ideias são essas ainda! — dizia o jovem. — Por acaso vocês precisam de um bom Deus e de seu paraíso para serem felizes? Não podem construir vocês mesmos a felicidade sobre a terra?
Com voz ardente, falava sem parar. De repente, o horizonte fechado se rompia, uma abertura de luz se escancarava na vida sombria daquela pobre gente. O eterno recomeço da miséria, o trabalho de animal, aquele destino de gado que fornece a lã e depois é degolado, toda a desgraça desaparecia, como varrida por uma grande rajada de sol; e, sob um deslumbramento de feitiço, a justiça descia do céu.
Já que o bom Deus estava morto, a justiça garantiria a felicidade dos homens, fazendo reinar a igualdade e a fraternidade. Uma sociedade nova brotava em um dia, como nos sonhos, uma cidade imensa, de esplendor miraculoso, onde cada cidadão vivia de sua tarefa e recebia sua parte das alegrias comuns.
O velho mundo apodrecido caíra em pó, uma humanidade jovem, purgada de seus crimes, já não formava senão um único povo de trabalhadores, tendo por lema: a cada um segundo seu mérito, e a cada mérito segundo suas obras.
E o sonho se alargava sem cessar, tornava-se mais belo, tanto mais sedutor quanto mais se elevava no impossível.
A princípio, a Maheude recusava-se a ouvir, tomada por um medo surdo. Não, não, era belo demais, não se devia embarcar naquelas ideias, pois depois elas tornavam a vida abominável, e uma pessoa acabaria massacrando tudo para ser feliz. Quando via brilharem os olhos de Maheu, perturbado, conquistado, inquietava-se e gritava, interrompendo Étienne:
— Não escute, meu homem! Você não vê que ele está nos contando histórias?... Por acaso os burgueses consentirão algum dia em trabalhar como nós?
Mas, pouco a pouco, o encanto também agia sobre ela. Acabava sorrindo, com a imaginação desperta, entrando naquele mundo maravilhoso da esperança. Era tão doce esquecer por uma hora a triste realidade! Quando se vivia como animais, com o nariz voltado para a terra, era preciso conservar um canto de mentira, onde se pudesse brincar de saborear as coisas que jamais se possuiria.
E o que a apaixonava, o que a punha de acordo com o jovem, era a ideia da justiça.
— Nisso você tem razão! — gritava. — Eu, quando uma coisa é justa, deixaria que me fizessem em pedaços... E, de verdade, seria justo que chegasse a nossa vez de aproveitar.
Então Maheu ousava inflamar-se.
— Trovão de Deus! Não sou rico, mas daria de bom grado cem soldos para não morrer antes de ver tudo isso... Que reviravolta! Hein? Será logo? E como vamos fazer?
Étienne recomeçava a falar. A velha sociedade rachava, aquilo não poderia durar mais do que alguns meses, afirmava categoricamente. Quanto aos meios de execução, mostrava-se mais vago, misturando suas leituras, sem receio, diante daqueles ignorantes, de lançar-se em explicações nas quais ele próprio se perdia.
Todos os sistemas passavam por ali, suavizados pela certeza de um triunfo fácil, por um beijo universal que poria fim ao mal-entendido entre as classes; embora não deixasse de considerar as cabeças ruins entre patrões e burgueses, que talvez fosse preciso obrigar a aceitar a razão.
E os Maheu pareciam compreender, aprovavam, aceitavam as soluções miraculosas com a fé cega dos novos crentes, semelhantes àqueles cristãos dos primeiros tempos da Igreja que esperavam a chegada de uma sociedade perfeita sobre o esterco do mundo antigo.
A pequena Alzire captava algumas palavras, imaginava a felicidade sob a forma de uma casa muito aquecida, onde as crianças brincavam e comiam quanto quisessem. Catherine, sem se mexer, com o queixo ainda apoiado na mão, mantinha os olhos fixos em Étienne; e, quando ele se calava, um leve arrepio a percorria, toda pálida, como se sentisse frio.
Mas a Maheude olhava para o cuco.
— Já passou das nove, será possível! Amanhã ninguém vai conseguir se levantar.
E os Maheu deixavam a mesa, com o coração inquieto, desesperados. Parecia-lhes que acabavam de ficar ricos e que, de repente, tornavam a cair em sua lama.
O pai Bonnemort, que partia para a mina, resmungava que aquelas histórias não tornavam a sopa melhor; enquanto os outros subiam em fila, tornando a perceber a umidade das paredes e o abafamento empesteado do ar.
No alto, dentro do sono profundo do conjunto operário, Étienne, depois que Catherine se deitava por último e apagava a vela, ouvia-a virar-se febrilmente antes de adormecer.
Muitas vezes, vizinhos se apertavam durante aquelas conversas: Levaque, que se exaltava com as ideias de partilha; Pierron, que a prudência fazia ir para a cama assim que começavam a atacar a Companhia. De vez em quando, Zacharie entrava por um instante; mas a política o entediava, preferia descer ao Avantage para beber uma caneca.
Quanto a Chaval, ainda exagerava, queria sangue. Quase todas as noites, passava uma hora na casa dos Maheu; e, naquela assiduidade, havia um ciúme não confessado, o medo de que lhe roubassem Catherine. Aquela moça, da qual já começava a se cansar, tornara-se preciosa para ele desde que outro homem dormia perto dela e poderia tomá-la durante a noite.
A influência de Étienne se ampliava, ele revolucionava pouco a pouco o conjunto operário. Era uma propaganda surda, tanto mais segura quanto mais crescia na estima de todos.
A Maheude, apesar da desconfiança de dona de casa prudente, tratava-o com consideração, como um jovem que pagava pontualmente, não bebia nem jogava, sempre com o nariz metido num livro; e construía para ele, entre as vizinhas, a reputação de rapaz instruído, da qual elas abusavam, pedindo-lhe que escrevesse suas cartas.
Ele se tornara uma espécie de homem de negócios, encarregado das correspondências, consultado pelas famílias nos casos delicados.
Assim, já no mês de setembro, finalmente criara sua famosa caixa de previdência, ainda muito precária, contando apenas com os habitantes do conjunto operário; mas esperava conseguir a adesão dos carvoeiros de todas as minas, sobretudo se a Companhia, que permanecera passiva, continuasse sem lhe criar obstáculos.
Acabavam de nomeá-lo secretário da associação, e ele até recebia uma pequena remuneração pelo trabalho de escrituração. Aquilo o tornava quase rico. Se um mineiro casado não consegue fechar as contas, um rapaz sóbrio, sem nenhum encargo, pode fazer economias.
Desde então, ocorreu em Étienne uma lenta transformação. Instintos de elegância e conforto, adormecidos em sua pobreza, revelaram-se e o levaram a comprar roupas de tecido fino. Presenteou-se com um par de botas delicadas e, de repente, passou a chefe, todo o conjunto operário agrupou-se em torno dele.
Foram deliciosas satisfações de amor-próprio. Embriagou-se com aqueles primeiros prazeres da popularidade: estar à frente dos outros, comandar, ele tão jovem, que ainda na véspera era um simples trabalhador braçal, enchia-o de orgulho, ampliava seu sonho de uma revolução próxima, na qual desempenharia um papel.
Seu rosto mudou, tornou-se grave, começou a escutar a si mesmo enquanto falava; ao mesmo tempo que a ambição nascente tornava febris suas teorias e o empurrava para ideias de combate.
Entretanto, o outono avançava, os frios de outubro haviam enferrujado os pequenos jardins do conjunto operário. Atrás dos lilases magros, os aprendizes já não derrubavam as empurradoras sobre o telheiro; e só restavam os legumes de inverno, as couves cobertas de geada branca, os alhos-porós e as alfaces guardadas para conservação.
Novamente, as chuvas batiam nas telhas vermelhas, escorriam para os barris sob as calhas, com ruídos de torrente. Em cada casa, o fogo não esfriava, carregado de hulha, envenenando a sala fechada. Começava outra estação de grande miséria.
Em outubro, numa daquelas primeiras noites geladas, Étienne, febril por ter falado lá embaixo, não conseguiu adormecer. Vira Catherine enfiar-se sob a coberta, depois apagar a vela. Ela também parecia sacudida, atormentada por um daqueles acessos de pudor que ainda a faziam apressar-se algumas vezes, com tamanha falta de jeito que acabava se descobrindo ainda mais.
Na escuridão, permanecia como morta; mas ele ouvia que ela também não dormia; e sentia que ela pensava nele, assim como ele pensava nela. Nunca aquela troca muda entre os dois os enchera de tamanha perturbação.
Os minutos passavam. Nem ele nem ela se mexiam, apenas a respiração de ambos se embaraçava, apesar do esforço para contê-la.
Duas vezes, ele esteve a ponto de se levantar e tomá-la. Era uma estupidez terem tamanho desejo um do outro sem jamais se satisfazerem. Por que teimavam assim contra a própria vontade? As crianças dormiam, ela consentiria imediatamente, ele tinha certeza de que o esperava, sufocando, de que fecharia os braços sobre ele, muda, com os dentes cerrados.
Quase uma hora passou. Ele não foi tomá-la, ela não se virou, com medo de chamá-lo. Quanto mais viviam lado a lado, mais uma barreira se erguia entre eles, feita de vergonhas, repugnâncias e delicadezas de amizade que nem eles próprios saberiam explicar.