A conta sem nome
Yasmin Moura apagou a foto pela terceira vez e, pela terceira vez, se arrependeu antes mesmo de a tela voltar para a galeria.
Era uma selfie no espelho do banheiro da escola. Nada demais. Yasmin aparecia de uniforme azul-marinho e cabelo preso, com duas mechas soltas de propósito. O batom quase invisível era, segundo a mãe, desnecessário. Yasmin sentia o contrário, embora não soubesse explicar a razão. A luz era ruim, como sempre. O espelho tinha manchas antigas no canto. Ao fundo, aparecia a porta do boxe com uma pichação pequena: você não sabe.
Yasmin tinha achado a frase boa. Meio dramática, meio ridícula, o tipo exato de frase que virava legenda quando a pessoa tinha coragem de postar sem pedir atenção.
Ela não tinha.
Apagou de novo.
Do lado de fora, o intervalo estava no auge. Vozes no corredor, tênis rangendo no piso, uma risada alta demais perto dos bebedouros, alguém batendo na porta do banheiro e gritando para a amiga sair logo. Yasmin ficou mais um segundo diante do espelho, treinando um rosto natural. Natural era difícil. Natural dava trabalho.
A tela do celular acendeu na mão dela.
Uma notificação.
Nenhum aplicativo conhecido exibia aquele aviso.
O ícone era um quadrado preto. No centro, um círculo finíssimo de luz azul, parecido com um olho visto de muito longe. Embaixo, só uma palavra:
olha
Yasmin franziu a testa.
Desbloqueou.
A notificação sumiu antes que ela tocasse em qualquer coisa. Não abriu conversa, não abriu vídeo, não abriu página. Só desapareceu, deixando a tela inicial comum: foto de fundo com ela e duas meninas da sala no aniversário de Lara, todos os aplicativos alinhados, três mensagens no grupo da turma, uma chamada perdida da mãe.
Yasmin esperou a sensação passar.
Não passou.
Ela abriu o Instagram. Nada. TikTok. Nada. WhatsApp. Nada novo além de Clara mandando figurinha no grupo 8B sem professor. Voltou para a tela inicial. O ícone preto não estava em lugar nenhum.
— Yasmin, vai morar aí?
Era Clara, do lado de fora.
— Já vou.
A voz saiu normal. Esse era um talento dela: parecer normal enquanto alguma coisa virava uma cadeira dentro dela.
Guardou o celular no bolso da saia e saiu.
Clara estava encostada na parede, segurando dois pacotes de salgadinho, um em cada mão. Tinha o cabelo muito liso, muito brilhante, e uma facilidade irritante para pertencer a qualquer lugar. Perto dela estavam Júlia e Bia, rindo de alguma coisa no celular de Júlia. As três pararam meio segundo quando Yasmin apareceu. Meio segundo era pouco para acusar alguém de qualquer coisa, mas o suficiente para doer.
— Que foi? — Yasmin perguntou.
— Nada — disse Júlia, rápido demais.
— A gente só estava vendo um negócio — completou Bia.
Yasmin sorriu como se não ligasse. O sorriso certo: nem carente, nem ofendido, nem curioso demais.
— Me mostra.
Júlia bloqueou o celular.
— Depois.
A palavra era pequena. Tão pequena que ninguém no mundo chamaria aquilo de crueldade. Mas Yasmin sentiu como se alguém tivesse fechado uma porta devagar, tomando cuidado para não fazer barulho.
Clara entregou um dos pacotes.
— Pega. Comprei para você.
Era para compensar. Yasmin percebeu na hora. Mesmo assim, pegou.
— Valeu.
Foram andando para o pátio. O sol batia no cimento e deixava tudo claro demais. Perto da quadra, alguns meninos disputavam uma bola murcha. No banco da árvore, Caio Ferraz mexia num controle quebrado com a concentração de quem preferia qualquer objeto a qualquer pessoa. Helena Vidal atravessou o pátio com uma prancheta debaixo do braço, falando com a coordenadora como se tivesse trinta anos. Nina Saldanha estava sentada perto da biblioteca, desenhando alguma coisa no caderno, o cabelo caindo na frente do rosto.
Yasmin reparava em todo mundo por hábito. Saber quem estava com quem, quem tinha brigado, quem tinha sido incluído, quem tinha ficado sobrando. Ela chamava isso de sobrevivência, embora nunca dissesse em voz alta.
O celular vibrou no bolso.
Dessa vez, ela não pegou na hora. Esperou três passos. Quatro. Riu de uma frase de Clara sem entender a frase. Só então olhou.
O ícone preto estava de volta.
elas riram antes de você sair
Yasmin parou.
— Que foi? — perguntou Clara.
— Nada. Minha mãe.
Mentir rápido também era um talento.
Ela abriu a notificação. De novo, nada. Nenhum aplicativo. Nenhuma conversa. A frase sumiu como se nunca tivesse existido. Yasmin sentiu raiva, mas não sabia de quem. De Clara, talvez. De Júlia. De Bia. Dela mesma por se importar. Do celular por saber.
Porque aquilo era o pior: não parecia uma ameaça.
Confirmava.
Na sala, a aula de matemática começou com quinze minutos de atraso porque o projetor não queria ligar. O professor Renato batia no controle remoto com o mesmo respeito que teria por uma pedra. A turma aproveitou para conversar. Yasmin sentou na terceira fileira, entre Clara e uma cadeira vazia que Bia poderia ter ocupado, mas não ocupou.
No quadro, o professor escreveu equações. No celular, escondido no colo de Yasmin, a tela permanecia apagada.
Até que acendeu sozinha.
Ela cobriu o brilho com a mão.
O ícone preto.
você muda de rosto para elas gostarem de você
O sangue subiu para as orelhas de Yasmin.
Dessa vez, junto com a frase, havia uma imagem. Pequena. Quase um anexo. Ela tocou antes de decidir se queria tocar.
A tela ficou preta.
Depois apareceu o banheiro da escola.
O mesmo espelho. A mesma luz ruim. A mesma pichação: você não sabe.
Yasmin aparecia acompanhada na imagem.
No reflexo, atrás dela, havia uma segunda menina. Tinha a altura dela, o cabelo dela, o uniforme dela. Só que o rosto estava borrado, de foto carregada pela metade. A menina sem rosto inclinava a cabeça para perto do ouvido de Yasmin, quase carinhosa.
Embaixo da imagem, uma nova frase apareceu:
eu sei qual é o seu rosto quando ninguém está olhando
Yasmin levantou tão rápido que a cadeira arranhou o chão.
Todo mundo olhou.
— Algum problema? — perguntou o professor.
Ela apertou o celular contra a barriga.
— Posso ir beber água?
O professor fez aquela cara de adulto tentando decidir se uma coisa era drama ou necessidade.
— Vai.
Yasmin saiu sem olhar para Clara.
No corredor, a luz parecia comum. Cartazes de feira de ciências, aviso de recuperação, uma seta torta apontando para a secretaria. Tudo normal demais para combinar com a mão dela tremendo. Ela abriu o celular de novo.
A imagem tinha sumido.
A galeria estava igual. A selfie apagada continuava apagada. Nenhum arquivo novo. Nenhum aplicativo estranho. Ela abriu configurações, procurou instalações recentes, permissões, qualquer coisa que Caio talvez soubesse explicar melhor. Não encontrou nada.
O bebedouro ficava perto da sala de informática, que quase nunca era usada. A porta estava fechada, mas não trancada. Por baixo dela, uma linha azul tremia no chão.
Yasmin ficou parada.
Devia voltar para a sala.
Devia procurar alguém.
Devia chamar Clara, mesmo sabendo que Clara perguntaria primeiro se era sério e só depois se ela estava bem.
A linha azul pulsou.
O celular vibrou.
aqui ninguem ri antes de voce chegar
Yasmin leu a frase uma vez.
Duas.
Havia um erro nela. Faltava acento. Faltava alguma coisa humana. Mesmo assim, doeu no lugar certo.
Ela encostou a mão na maçaneta da sala de informática.
— Isso é muito idiota — sussurrou.
Mas abriu.
Os computadores estavam desligados. Vinte telas pretas em duas fileiras, cobertas por uma película fina de poeira. As cadeiras empurradas para baixo das mesas. O cheiro de sala fechada, fio velho e plástico quente. Nenhum professor. Nenhum aluno. Nenhuma explicação.
Só um monitor aceso no fundo.
Yasmin deu um passo para dentro.
Na tela, uma roda de meninas estava sentada no chão de um quarto bonito, iluminado por luz azul. Todas riam. A risada acolhia Yasmin e prometia a melhor parte da conversa. No meio delas havia um espaço vazio, do tamanho exato de uma pessoa.
Do tamanho exato dela.
Uma das meninas virou o rosto.
Não tinha olhos. Só dois pontos claros.
Mesmo assim, sorriu sem olhos.
Na tela, surgiram letras brancas.
voce nao precisa mudar aqui
Yasmin sentiu vontade de chorar, e isso a deixou furiosa.
— Quem é você?
O monitor demorou para responder.
Primeiro, a imagem das meninas ficou granulada, como vídeo ruim. Depois os rostos se embaralharam, cada um pegando um pedaço do outro, até formarem por um segundo uma única face incompleta. Atenta demais para que Yasmin a julgasse bonita ou feia.
Atenta demais.
As letras vieram devagar.
alguem que viu voce
A porta da sala de informática bateu atrás dela.
Yasmin se virou com um susto.
Nina Saldanha estava parada na entrada, segurando o caderno contra o peito. Tinha os olhos arregalados e a respiração curta, como se tivesse corrido.
— Você também viu? — Nina perguntou.
Yasmin não respondeu.
Quando olhou de volta para o fundo da sala, o monitor estava apagado.
Mas, no vidro escuro, o reflexo mostrava as duas meninas.
Nina, perto da porta.
Yasmin, no meio da sala.
E, sentada no espaço vazio entre as duas, uma terceira figura de luz azul, esperando como se fizesse parte do grupo desde sempre.