Quem chama no corredor
A voz do inspetor veio outra vez pelo corredor.
— Tem alguém aí?
Era uma pergunta simples, capaz de tirar todos de trás das mesas em qualquer outra noite. Sairiam culpados e aliviados. Naquela noite, ninguém respondeu. Caio conteve um comentário; Davi fechou a boca. Helena se incomodava por conter o impulso de assumir o controle.
No monitor trincado, a frase continuava fraca e urgente:
NÃO RESPONDAM SEM PERGUNTAR QUEM CHAMA.
A lanterna passou pela fresta da porta.
A sombra atrás do inspetor ficou imóvel enquanto a luz avançava. Comprida e fina demais, inclinava a cabeça para aprender o formato de um adulto.
Nina sentiu Yasmin apertar sua mão.
— Pergunta — sussurrou Yasmin.
— Eu?
— Você vê portas. Eu vejo cilada social. Essa é sua vez.
Nina engoliu seco.
A porta da sala de informática estava entreaberta. Do lado de fora, o inspetor suspirou.
— Eu sei que tem alguém aí. A diretora já foi chamada.
Caio fez uma careta silenciosa.
Diretora era uma palavra com poder sobrenatural próprio.
Nina se aproximou da porta, mas não abriu mais. Miguel ficou atrás dela, quase transparente. Davi segurava o nome recém-recuperado contra o peito. Bento estava com o caderno aberto no chão, uma caneta pronta. Helena apontou para si, depois para a saída, como quem dizia: se der errado, eu puxo todo mundo. Clara mantinha Lili e Júlio agachados atrás da mesa.
Nina respirou.
— Quem está chamando?
O corredor mudou ao redor da pergunta.
O inspetor parou de respirar por meio segundo.
— Como assim quem está chamando? Sou eu. Seu Orlando.
Nina conhecia Seu Orlando. Bigode grisalho, molho de chaves preso no cinto, mania de chamar todo aluno de cidadão quando estava irritado. Uma vez ele tinha fingido não ver Yasmin entrando atrasada porque ela estava chorando. Outra vez confiscou o estegossauro de Davi por uma tarde inteira e depois devolveu embrulhado em guardanapo, dizendo que dinossauro também precisava estudar.
Ela não respondeu ainda.
— Seu Orlando, qual é a chave que o senhor sempre erra antes de abrir a biblioteca? — perguntou Nina.
Caio virou os olhos para ela como quem dizia: pergunta estranha, gostei.
Do corredor veio uma risada curta, cansada.
— A pequena redonda. Parece chave de armário, mas é do arquivo velho. Quem é? Nina?
A sombra atrás dele não riu.
Ela cresceu.
No monitor, outra frase apareceu:
ELE RESPONDEU. A SOMBRA NÃO.
Helena se levantou devagar.
— Tem alguma coisa atrás do senhor — disse ela.
Seu Orlando soltou um som irritado.
— Atrás de mim tem corredor, menina. Vocês invadiram a escola de madrugada?
A sombra inclinou a cabeça para perto do ombro dele.
Seu Orlando estremeceu.
— Que frio é esse?
Nina abriu a porta um pouco mais.
— Seu Orlando, não responda se ela chamar.
— Ela quem?
A sombra falou com a voz da diretora.
— Orlando, deixe as crianças comigo.
Seu Orlando virou o rosto automaticamente.
— Diretora?
O corredor apagou.
Não as lâmpadas. O corredor.
Por um instante, tudo além da porta virou o mesmo escuro liso que tinham fechado no núcleo. A silhueta do inspetor ficou recortada contra aquilo, pequena e comum, com uma lanterna na mão e nenhum preparo para ser personagem de terror.
Caio pulou para frente.
— Seu Orlando, pergunta alguma coisa!
— O quê?
— Qualquer coisa que a diretora de verdade saberia!
O inspetor, para seu crédito eterno, não discutiu. Tremendo, gritou:
— Diretora Márcia, qual foi o café que a senhora derrubou em cima do livro de ocorrências?
A sombra respondeu na mesma voz:
— Café preto.
Seu Orlando empalideceu.
— Ela só toma chá.
A sombra abriu onde deveria haver rosto.
Ninguém viu dentes, boca ou olhos. Viram ausência tentando imitar fome.
O inspetor caiu para trás, e Helena o puxou pela camisa para dentro da sala com uma força que surpreendeu até ela. Caio bateu a porta. Yasmin virou uma mesa contra ela. Clara ajudou. Bento rabiscou no caderno com tanta pressa que a caneta quase rasgou o papel.
— Isso segura? — perguntou Júlio.
— Não — disse Caio. — Mas faz a gente se sentir produtivo por três segundos.
Seu Orlando estava sentado no chão, ofegante.
Olhou para Miguel. Para Davi. Para Lili e Júlio. Para o monitor trincado. Para o caderno escrevendo sozinho.
— Eu vou desmaiar?
— Recomendo não — disse Helena. — Temos equipe demais no chão.
Nina se agachou diante dele.
— O senhor lembra da Casa da Luz?
Seu Orlando piscou.
O nome atingiu uma parte dele guardada havia décadas.
— Minha mãe mandava eu não chegar perto daquele depósito.
Bento levantou o rosto.
— Que depósito?
— O da manutenção, atrás do ginásio. Antes era uma casa velha. Tinha uma mangueira torta.
Todos se olharam.
Miguel deu um passo.
— A mangueira ainda existe?
Seu Orlando encarou o menino de luz, e a pergunta comum pareceu ajudá-lo a não surtar.
— Existe. Cortaram metade, mas existe.
O monitor trincado piscou.
Raiz.
Davi franziu a testa.
— Raiz de árvore?
Bento escreveu a palavra no caderno. A tinta espalhou ramos escuros pela página, formando o desenho da mangueira.
— A primeira casa foi demolida, mas a raiz ficou.
Yasmin olhou para a porta barricada.
Do outro lado, a sombra começou a bater sem punho ou ruído. A cada pancada, todos esqueciam por um segundo o motivo do medo. A urgência escorria do corpo. Lili baixou os olhos. Júlio sentou devagar. Seu Orlando parou de ofegar e ficou vazio.
— Perguntas — disse Nina, lutando contra o torpor. — Continuem perguntando.
Clara sacudiu Lili.
— Fone no pescoço ou na mochila?
— Pescoço — respondeu Lili, voltando.
Davi empurrou Júlio.
— Rasga o pôster hoje ou amanhã?
— Amanhã — disse Júlio.
Caio agarrou Seu Orlando pelos ombros.
— Seu Orlando, pastel de feira com caldo de cana ou cachorro-quente duvidoso da cantina?
O inspetor piscou, indignado.
— Pastel, claro. Eu tenho amor à vida.
— Discutível hoje, mas ótimo.
A sombra recuou um centímetro.
Helena foi até o monitor.
— Se a raiz está no depósito, é por lá que essa coisa entrou?
Fresta antiga.
— Fecha como?
A tela demorou.
Perguntar ao lugar o que ainda prende.
Caio riu alto demais.
— Agora interrogamos árvore. A noite evoluiu muito.
Bento, porém, estava sério.
— Minha avó dizia que lugares lembram do jeito deles.
Helena apontou para a porta.
— E como chegamos até o depósito com isso no corredor?
Miguel olhou para a janela da sala.
Era pequena, basculante, alta demais para uma saída confortável. Do outro lado havia o pátio lateral, escuro, e além dele o caminho para o ginásio.
— Pela janela.
Caio seguiu o olhar dele.
— Claro. Por que usar portas depois de tudo que vivemos?
Seu Orlando levantou com dificuldade.
— A janela tem grade.
Helena pegou o molho de chaves caído no chão.
— Qual chave?
— A pequena redonda.
Nina quase sorriu.
— A que o senhor sempre erra.
— Hoje vou acertar por trauma.
Enquanto Helena abria a grade, o monitor trincado chamou Nina outra vez.
Nina Saldanha.
Yasmin apareceu no mesmo segundo.
— Com gente.
— Com gente — repetiu Nina.
A tela mostrou por um instante o depósito atrás do ginásio: paredes baixas, telhas de amianto, caixas antigas e a mangueira atravessando o concreto com raízes grossas. Embaixo da árvore, algo brilhava enterrado.
Era um fragmento da pedra.
O escuro entrou pela parte que ficou sem pergunta.
Nina sentiu frio.
— O que ficou sem pergunta?
A tela mostrou a casa de 1978, depois o depósito, depois a árvore, depois Miguel olhando pela janela enquanto todos corriam.
Yasmin respondeu em voz baixa:
— Ninguém perguntou se ele tinha saído.
Miguel fechou os olhos.
Davi segurou sua mão.
Do outro lado da porta, a sombra imitou a voz de Dona Célia.
— Abram, meninos. Sou eu.
Bento ficou branco.
Caio apontou para ele.
— Pergunta.
Bento chegou perto da porta, tremendo.
— Dona Célia, que bala a senhora dava para o Miguel?
A sombra respondeu depressa:
— De morango.
Miguel abriu os olhos.
— Hortelã.
A porta empenou para dentro.
— Todo mundo pela janela agora — ordenou Helena.
A grade abriu com um gemido metálico. Seu Orlando ajudou Lili a subir. Clara foi depois. Júlio passou chorando de medo e fingindo que era alergia. Davi empurrou Miguel, que quase não tinha peso. Bento jogou o caderno para Yasmin e subiu. Caio ficou para ajudar Helena a segurar a mesa contra a porta.
Nina foi a penúltima.
Antes de passar, olhou para o monitor trincado.
— Você vem?
Sou portal.
— Portal também pode ter lado de fora.
A tela se apagou por um instante.
Então uma linha de luz se desprendeu do vidro quebrado e entrou no caderno de Bento, formando o símbolo partido: olho de um lado, porta do outro.
Chame se houver pergunta.
Nina pegou o caderno e passou pela janela.
Caio e Helena vieram por último, segundos antes da porta da sala ceder para dentro.
A sombra entrou na sala vazia.
Não encontrou resposta.
No pátio lateral, o grupo correu em direção ao ginásio, guiado por Seu Orlando e pela luz fraca do caderno. Atrás deles, na sala de informática, todos os monitores desligados acenderam ao mesmo tempo.
Em cada tela, a sombra perguntava com vozes diferentes:
— Tem alguém aí?
Ninguém respondeu.
Dessa vez, era uma vitória.