A primeira criança vazia
Davi voltou para a sala depois do recreio sem qualquer sinal do que acontecera.
Essa foi a pior parte.
Se ele tivesse gritado, corrido, desmaiado ou falado com uma voz diferente, a escola teria entendido que havia alguma coisa errada. Adultos gostam de problemas que sabem nomear. Surto. Brincadeira. Crise. Febre. Influência ruim. Falta de limite. Qualquer etiqueta serviria, desde que coubesse em uma ficha de ocorrência.
Mas Davi só voltou.
Sentou no lugar de sempre, no canto perto da janela, abriu o caderno de matemática e começou a copiar a matéria. A letra dele estava igual. Pequena, inclinada para a direita, quase pedindo licença para existir. O uniforme estava igual. O casaco cinza, mesmo no calor, também. O cabelo caía nos olhos do mesmo jeito.
Só uma coisa tinha mudado.
Davi já não esperava que alguém o notasse.
Nina percebeu isso antes de conseguir explicar. A diferença era miúda e cortante. Antes, Davi tinha o corpo de quem se encolhia para não atrapalhar. Agora ocupava o próprio lugar com uma calma lisa, autorizado por alguém que para ele valia mais que todos ali.
— Ele está sorrindo — Yasmin sussurrou.
Nina olhou.
O que restava de um sorriso formava uma linha quase tranquila no canto da boca.
— Talvez ele só esteja... bem — disse Helena, mas não acreditou na própria frase.
Caio, sentado duas carteiras atrás, inclinou-se para frente.
— Ninguém fica bem depois de dizer “não tem Davi lá”.
Bento abriu o caderno da avó por baixo da mesa, escondido atrás do livro de português.
— Tem uma palavra aqui.
— Agora? — Helena perguntou.
— Você prefere depois que ele subir pela parede?
Caio apontou para Bento, sem tirar os olhos de Davi.
— Pela primeira vez, concordo com o pequeno arquivo morto.
— Não sou pequeno.
— Arquivo morto você aceitou?
— Foco — disse Nina.
Bento virou uma página amarelada e leu bem baixo:
— “Os chamados voltam leves. Leves demais. Como casa sem móveis.”
Yasmin abraçou os próprios braços.
— Que horror.
— Minha avó tinha um talento para piorar frases — Bento murmurou.
A professora de ciências, que substituía a de português depois do caos da manhã, falava sobre as camadas da Terra. Os nomes da crosta, do manto e do núcleo ficavam no quadro como uma piada de mau gosto. Nina desviou de Bento quando a professora desenhou uma bola cortada ao meio e pintou o centro de laranja.
Davi olhou.
Ele levantou a cabeça devagar, atento ao desenho do interior da Terra. Desde que entrara na sala, era o primeiro objeto real a despertar seu interesse.
A professora apontou para o manto.
— Essa região possui rochas sob altíssima temperatura e pressão...
Davi ergueu a mão.
A sala inteira estranhou. Davi sabia muitas respostas; quase nunca se oferecia para dá-las.
— Pode falar, Davi.
Ele olhou para o desenho no quadro.
— A luz pode ficar presa em pedra?
A professora piscou, surpresa.
— Como assim?
— Dentro. Se uma coisa for luz, mas precisar de corpo. Pedra serve?
O ruído da turma cedeu. O tédio havia virado atenção.
A professora deu uma risadinha de adulto encurralado por pergunta boa demais.
— Bem, alguns minerais têm propriedades ópticas. Cristais podem refratar, refletir, armazenar certas formas de energia em condições específicas, mas não no sentido de...
— Então serve — Davi disse.
Não perguntou.
Disse.
A professora perdeu o ritmo.
— Não exatamente.
Davi voltou a copiar.
Nina sentiu o celular vibrar dentro da mochila. Não pegou. O de Yasmin vibrou também. Depois o de Caio. Depois, no estojo de Helena, a tela acendeu por baixo do zíper. Bento fechou o caderno da avó com força.
A professora continuou explicando. Só eles perceberam.
Helena foi a primeira a olhar.
Na tela dela havia uma frase sem aplicativo.
ele aprendeu depressa
Nos outros celulares, a mesma frase.
Sem acento. Sem nome. Sem remetente.
Caio desligou o aparelho.
A tela acendeu de novo.
voces tambem podem aprender
— Eu vou jogar isso pela janela — ele sussurrou.
— Não joga — disse Helena.
— Por quê?
— Porque eu não quero que ele aprenda a voar.
Caio olhou para ela.
— Isso foi quase uma piada.
— Foi pânico com educação.
Nina teria rido, se Davi não tivesse virado o rosto para eles naquele momento.
Ele não podia ter ouvido. Estava longe demais. A turma fazia barulho demais. Mesmo assim, olhou direto para o grupo. Não para a sala. Não para a professora. Para os cinco.
Depois colocou o dedo indicador diante da boca.
Pedindo que ficassem quietos.
Igual ao reflexo de Helena.
O sinal tocou poucos minutos depois, e a sala se desmontou em mochila, cadeira arrastando, vozes, papel amassado. Davi guardou o material com calma e saiu antes que alguém conseguisse falar com ele.
— A gente precisa seguir — disse Nina.
— Isso sempre dá certo em filme — Caio respondeu. — Seguir a criança possivelmente vazia pelos corredores. Plano excelente.
— Tem ideia melhor?
— Tenho várias. Envolver polícia, bombeiro, NASA, exorcista, suporte técnico.
Yasmin já estava indo para a porta.
— Ele falou comigo antes.
Todos pararam.
— Quando? — perguntou Helena.
— No banheiro. Antes de aparecer para vocês. Ele disse que lá dentro não tinha Davi.
— E você não contou? — Caio perguntou.
Yasmin virou para ele, ferida e furiosa.
— Eu estava ocupada tentando não surtar, tá?
Caio abriu a boca, fechou, depois assentiu.
— Tá. Justo.
Esse pequeno acordo, estranho e torto, fez Nina sentir que o grupo começava a formar uma ponte improvisada, dessas de madeira ruim sobre buraco fundo. Amizade e confiança ainda levariam tempo. A ponte era pouco. Era melhor que nada.
Encontraram Davi no corredor dos laboratórios.
Ele estava parado diante da vitrine onde a escola guardava troféus antigos, placas de olimpíada científica, maquetes de feira e um esqueleto humano de plástico que tinha perdido dois dedos. A vitrine refletia o corredor inteiro em uma versão escura. Outras crianças surgiam atrás de Davi no reflexo.
Nina contou pelo menos seis.
Na vida real, o corredor estava vazio.
— Não olha para o vidro — disse Bento.
Todo mundo olhou menos Bento.
As crianças refletidas eram borradas. Não dava para saber nomes nem distinguir rostos ou idades. Algumas eram menores. Outras, quase adolescentes. Estavam alinhadas atrás de Davi, quietas, com a mesma paciência lisa.
Davi tocou a vitrine com a ponta dos dedos.
— Eles querem entrar na escola.
— Quem são eles? — Nina perguntou.
Ele respondeu olhando para o reflexo, não para ela.
— Os que entenderam.
— Entenderam o quê?
Davi sorriu.
— Que ninguém precisa ficar do lado de fora.
A frase fez Yasmin recuar um passo.
Helena percebeu.
— Yasmin.
— Eu estou bem.
— Você não precisa dizer isso toda hora.
Yasmin olhou para ela, surpresa. Talvez porque Helena fosse justamente a pessoa menos autorizada do mundo a dar esse conselho. Talvez por isso mesmo funcionasse.
Caio avançou para Davi.
— Sai de perto do vidro.
Davi virou.
Por um instante, seu rosto tremeu. Não como pessoa chorando. Como imagem carregando com internet ruim. O olho esquerdo ficou um pouco fora de lugar, depois voltou. A boca atrasou meio segundo em relação à cabeça.
Nina sentiu o estômago embrulhar.
— Davi? — ela chamou.
Ele piscou.
Quando abriu os olhos, havia algo dele outra vez. Um menino menor, assustado.
— Eu estou cansado — disse.
A voz era baixa. Humana.
Yasmin deu um passo à frente.
— Então vem com a gente.
Davi olhou para ela. O sorriso tinha sumido.
— Lá dentro, eu não sou cansado.
— Lá dentro não é você — disse Nina.
Essa frase pareceu acertá-lo.
Ou a coisa dentro dele.
As luzes do corredor piscaram juntas. Na vitrine, as crianças refletidas deram um passo à frente. O vidro estalou. Uma linha fina surgiu no canto sob uma pressão que vinha de dentro.
Caio puxou Davi pelo braço.
O gesto foi rápido e quase bruto. Davi caiu contra ele, leve demais, com um corpo que perdera parte do peso. A vitrine escureceu. As crianças sumiram do reflexo. A rachadura continuou.
Davi começou a tremer.
Não como imagem.
Como menino.
— Está frio — ele disse.
Helena tirou o próprio casaco, mesmo sem pensar se isso a deixaria menos apresentável, e colocou sobre os ombros dele. Nina percebeu. Guardou a informação com cuidado, como quem encontra uma pista boa sobre uma pessoa difícil.
— Vamos levar ele para a enfermaria — disse Helena.
— E falar o quê? — perguntou Caio. — Que ele foi parcialmente baixado por uma porta no vidro?
— Que ele está passando mal.
— Isso é verdade incompleta.
— É o tipo de verdade que adulto aceita.
Começaram a andar. Caio e Yasmin sustentavam Davi. Bento apertava o caderno contra o peito; Nina vigiava cada superfície refletora. À frente, Helena ainda tentava transformar horror em procedimento.
Na metade do corredor, Davi falou de novo.
— Ele não gosta quando vocês ficam juntos.
Ninguém respondeu.
Davi engoliu seco.
— Fica difícil ouvir.
Nina sentiu a frase atravessar o grupo como um fio aceso.
Sozinho, ele chama. Juntos, ele imita mal.
A anotação da avó de Bento talvez fosse mais que metáfora.
Na enfermaria, Davi dormiu em menos de um minuto.
A funcionária disse que devia ser pressão baixa, calor, pouca água, talvez ansiedade. Helena assentiu em todos os momentos certos. Caio não fez piada. Yasmin ficou perto da porta. Bento abriu o caderno de novo.
Nina observou Davi dormir.
Ele voltara a ser uma criança comum: cansada, pálida, com o casaco de Helena cobrindo os braços. Quase dava para acreditar que o pior tinha passado.
Então ele sussurrou dormindo:
— Eles estão desenhando mais portas.
Do lado de fora da enfermaria, no corredor, alguém riu.
Não uma risada má.
Uma risada feliz.
Quando Nina saiu para olhar, viu três alunos do sexto ano sentados no chão, cada um com uma folha no colo.
Os três desenhavam a mesma coisa.
Uma porta aberta.