Atrás da tela O Monitor · Capítulo 10 de 36
Obra Menu

Atrás da tela

A sala de informática estava trancada.

Isso deveria ter impedido alguma coisa.

Não impediu.

Quando os cinco chegaram ao corredor, com Clara alguns passos atrás deles e todos os celulares da escola tocando ao mesmo tempo como um enxame preso em bolsos e mochilas, a maçaneta girou sozinha. A porta abriu um palmo, devagar, educada demais para o tamanho do horror.

Do lado de dentro, todos os monitores estavam acesos.

Não mostravam a área de login. Não mostravam erro. Não mostravam a palavra FIQUE.

Mostravam o mesmo corredor de janelas azuis.

Vinte telas. Vinte corredores. Vinte portas no fim.

Caio parou na entrada.

— Eu voto por não entrar.

— Anotado — disse Helena.

— Não, eu quero dizer literalmente. Meu voto é não entrar.

Do fundo da sala, uma das telas piscou. Depois outra. Depois todas. A palavra VENHA apareceu por um segundo em cada monitor, seguindo uma sequência que os chamava por uma fileira de olhos.

Clara deu um soluço baixo.

Yasmin virou para ela.

— Você pode ir para a coordenação.

— E falar o quê?

Ninguém respondeu.

Essa tinha virado a pergunta oficial do grupo.

Bento abriu o caderno da avó. As páginas tremiam sem vento.

— Tem uma coisa aqui sobre entrada.

— Claro que tem — disse Caio. — Sua avó deixou manual de instruções do apocalipse e ninguém avisou antes.

Bento ignorou.

— “Toda porta da fome imita uma falta. Para atravessar sem ser comido, ninguém deve entrar pelo próprio vazio.”

Helena fechou os olhos por um segundo.

— Isso quer dizer o quê?

— Que a gente não pode seguir o que ele oferece — Nina respondeu.

Yasmin olhou para as telas.

— E como a gente sabe?

O monitor mais próximo acendeu com o quarto azul de Yasmin. A roda de meninas estava lá. O espaço vazio também. A almofada azul parecia ainda mais macia, ainda mais dela.

O monitor ao lado mostrou a bancada perfeita de Caio, com ferramentas novas e o rádio do pai inteiro, sem arranhões.

Outro mostrou a sala silenciosa de Helena, onde tudo estava organizado e ninguém precisava dela.

Outro exibia os desenhos de Nina em uma exposição impossível, cada quadro iluminado para obrigar o mundo inteiro a parar e olhar.

No último, Bento viu a sala da avó Lídia. O crochê no braço do sofá. O copo de água sobre a mesa. A caixa de costura aberta. E, de costas, uma mulher sentada perto da janela.

Ele fechou o caderno com força.

— Assim — disse, com a voz pequena.

Nina segurou a mão dele.

Bento não puxou de volta.

Foi Yasmin quem deu o primeiro passo para dentro.

Clara tremia atrás dela. Yasmin percebeu que podia ser a pessoa que não deixava outra sozinha. Essa escolha era mais nova que o medo.

Assim que seu tênis tocou o piso da sala, todos os monitores ficaram pretos.

O ar da sala pesou.

Depois a tela do fundo acendeu.

A porta estava aberta.

Era uma abertura real dentro da imagem. Revelava um corredor profundo demais para caber em uma tela. O ar em volta do monitor ondulava feito calor sobre o asfalto, embora a sala estivesse fria.

Caio ergueu o celular para gravar.

— Eu sei, eu sei. Pode falhar. Vou fazer mesmo assim porque sou insistente e desagradável.

A câmera mostrou a porta.

Todos viram ao mesmo tempo.

Caio abaixou o celular devagar.

— Isso é novo.

No vídeo, a porta continuava lá.

Helena olhou para Bento.

— O que mudou?

Bento abriu o caderno, mas a resposta veio de Nina:

— Talvez ele queira que a gente registre.

No monitor, a porta abriu mais.

Do outro lado havia um chão brilhante, escuro, atravessado por reflexos de janelas que não existiam na sala. A luz azul escorria pela moldura da tela, descia pelo suporte do monitor e pingava sobre a mesa sem molhar.

Uma gota caiu no teclado.

A tecla Enter afundou sozinha.

A palavra apareceu no monitor:

ENTREM JUNTOS

— Isso parece armadilha — disse Caio.

— É armadilha — respondeu Helena.

— Ótimo. Estamos alinhados. Próxima etapa: escapar da armadilha.

Davi apareceu dentro da tela.

Davi estava no corredor azul, perto da primeira janela, de costas para eles. Ali parecia menor que na escola. Quando virou o rosto, não sorriu.

— Eu não consigo sair sozinho — disse.

A voz saiu por todos os alto-falantes da sala.

Yasmin levou a mão à boca.

Clara começou a chorar de novo.

— Davi? — Nina chamou.

Ele olhou para trás, para alguma coisa que os outros não viam.

— Eles estão montando lugares para todo mundo.

— Quem são eles? — perguntou Helena.

Davi respondeu:

— Pedaços.

A imagem tremeu. Por um instante, o rosto dele se multiplicou em vários, cada um meio segundo atrasado, como janelas abertas do mesmo vídeo.

— Cada um parece alguém. Mas é tudo ele.

O corredor atrás de Davi escureceu.

Uma mão azul pousou no ombro dele.

Davi arregalou os olhos.

A tela chiou.

Yasmin avançou.

Nina segurou o braço dela.

— Juntos.

Yasmin engoliu o choro e assentiu.

Helena respirou fundo.

— Clara, você fica do lado de fora. Se a coordenadora aparecer, enrola.

— Enrolar como?

— Chora.

Clara soltou uma risada desesperada.

— Isso eu consigo.

Caio colocou o celular gravando no bolso da camisa, câmera virada para frente.

— Se isso postar sozinho, por favor escolham uma legenda digna.

Ninguém respondeu.

Os cinco se aproximaram do monitor do fundo. A tela havia adquirido a consistência de água escura esticada em uma moldura. Nina foi a primeira a tocar. A ponta dos dedos atravessou uma resistência fria, semelhante à de uma gelatina. Algo a puxou.

Não forte.

Convincente.

Caio segurou sua outra mão. Yasmin segurou a de Caio. Helena pegou a de Yasmin. Bento segurou Helena e Nina ao mesmo tempo, fechando um círculo desajeitado que só funcionava porque todos aceitaram ficar desconfortáveis.

— Ninguém solta — disse Helena.

— Se alguém falar com voz de parente morto, ignora — acrescentou Bento.

— Se alguém vir um pai perfeito com caixa de ferramentas, também ignora — disse Caio.

Yasmin apertou a mão dele.

— Se tiver um grupo perfeito?

— A gente te puxa — Nina respondeu.

Yasmin olhou para ela.

— Mesmo se eu não quiser?

Nina não mentiu.

— Mesmo assim.

Yasmin assentiu.

Então entraram.

O mundo virou luz.

Durante a travessia, Nina virou imagem por um segundo. O corpo se desfez em pontos brilhantes; pensamentos viraram pixels e lembranças foram puxadas para fora em fios. Imagens passavam depressa demais: seu quarto, a sala, o rosto da mãe. Depois vieram o caderno, Tomás dormindo e o monitor velho. A mão de Caio apertou a sua e devolveu uma forma ao corpo.

Caiu de joelhos em um chão preto e liso.

A superfície sob os joelhos era um reflexo.

O corredor se estendia diante deles, longo e impossível, com janelas acesas dos dois lados. Algumas mostravam quartos; outras guardavam vídeos congelados. Fotos de alunos piscavam, esquecidas da própria imobilidade. Portas de aplicativos substituíam as comuns. Ícones boiavam como placas, e mensagens antigas permaneciam presas às paredes feito insetos em âmbar azul.

Caio apareceu ao lado dela, ofegante.

— Eu retiro tudo que disse sobre não entrar. Eu tinha razão.

Yasmin caiu sentada, pálida. Helena ficou de pé por pura teimosia. Bento vomitou luz.

Um fio azul saiu da boca de Bento e se dissolveu no ar. Caio fez uma careta.

— Isso vai aparecer na minha terapia imaginária.

Bento limpou a boca.

— Eu odeio aqui.

— Ótimo — disse Helena. — Mantém isso.

Ao fundo, Davi apareceu correndo.

— Não olhem nas janelas!

Tarde demais.

Nina olhou para uma delas e viu seu próprio quarto, só que perfeito. Seus desenhos em molduras, sua mãe sentada na cama dizendo que acreditava nela, Tomás olhando para ela com admiração em vez de reclamar que ela era esquisita. A imagem a puxou como cheiro de comida quando a gente está com fome.

Caio apertou sua mão.

— Ei.

Nina piscou.

O quarto perfeito sumiu, substituído por uma tela cheia de ruído.

— Obrigada — ela disse.

— De nada. Depois você me puxa quando eu for idiota.

— Agora ou depois?

— Justo.

Davi chegou até eles. De perto, o vazio dera lugar ao cansaço. Ele sustentava os próprios pedaços com as mãos.

— Vocês não deviam ter vindo.

— Você pediu ajuda — disse Yasmin.

— Eu pedi porque ele quis que eu pedisse.

O corredor inteiro piscou.

Nas janelas, centenas de rostos apareceram por um segundo. Alguns conhecidos. Outros não. Todos olhando.

Uma voz veio de todos os lados:

— Entraram juntos.

As janelas se abriram.

Não para fora.

Para dentro deles.

Cada protagonista viu, ao mesmo tempo, uma porta particular se formando no ar.

Para Nina, a exposição dos desenhos.

Para Caio, a oficina com o pai.

Para Yasmin, a roda de meninas.

Para Bento, a sala da avó.

Para Helena, a versão perfeita de si mesma estendendo a mão.

Davi gritou:

— Se escolherem uma, ele separa vocês!

O chão-reflexo começou a se dividir em cinco caminhos.

As mãos deles ainda estavam unidas.

Mas, entre os dedos, a luz azul começou a passar como água, procurando frestas.

Nina enfim entendeu que entrar tinha sido a parte fácil.

Ficar juntos lá dentro seria quase impossível.

1/1
Menu

Fazer anotação