Quem ouve por ela O Monitor · Capítulo 30 de 36
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Quem ouve por ela

Nina dormiu como quem cai de uma escada.

O sono veio como apagão. Um segundo antes, ela ainda ouvia a professora da Santa Brígida chorando do outro lado da chamada. No seguinte, estava afundada no sofá de Dona Célia, com uma almofada dura de crochê contra o rosto e o corpo inteiro reclamando por ter servido de chave e testemunha quando ainda era uma menina.

Sonhou com uma porta.

Claro.

Dessa vez, a porta surgia entreaberta numa casa comum, com cheiro de café e roupa secando. Do outro lado, ela ouvia vozes conhecidas trabalhando. Caio falava rápido, Helena corrigia, Yasmin perguntava baixo. Bento virava páginas enquanto Clara oferecia água e Davi explicava dinossauros para alguém que não tinha pedido.

Nina tentou levantar no sonho.

A porta a cobriu e impediu que levantasse.

Dorme.

A voz vinha talvez da parte dela que finalmente entendera uma coisa simples e ofensiva: o mundo continuava quando Nina fechava os olhos.

Na sala, o mundo realmente não acabou.

Helena assumiu a mesa central com talento para comandar crise sobrenatural por planilha. Criou colunas para relato, local e tipo de abertura. Acrescentou consentimento, adulto responsável, risco imediato e próxima pergunta. Caio reclamou do excesso de organização enquanto formatava tudo melhor do que ela tinha pedido.

— Você está alinhando células - disse Helena.

— Para odiar com clareza.

— Está usando cores.

— O caos também merece legenda.

Yasmin e Clara ficaram com as respostas. Usavam moldes de cuidado, pois frases prontas demais viravam armadilha.

Você tem autorização da pessoa para contar isso?

Há um adulto de confiança por perto?

Antes de chamar pelo nome, pergunte que nome ou pedaço ela aceita.

Não desligue a tela sozinho. Não entre sozinho. Não prometa que entende.

Clara leu a última frase em voz alta.

— Essa é importante.

Yasmin assentiu.

— A gente queria muito que alguém entendesse. Às vezes dá vontade de fingir isso para ajudar.

— E ajuda por pouco tempo.

No sofá, Lili dormia sentada, com os fones no pescoço. Júlio dormia segurando o controle remoto. Davi não dormia porque tinha descoberto que Miguel não conhecia praticamente nenhum animal pré-histórico e considerava isso uma emergência educacional.

— Esse é pterodáctilo - disse Davi.

Miguel olhou desconfiado para a imagem.

— Parece passarinho errado.

— Não é passarinho.

— Voa.

— Voar não transforma em passarinho.

— Então é erro com asa.

Davi calou, abalado pela possibilidade filosófica.

Dona Célia ouviu e riu tão baixo que quase não fez som. Depois voltou ao telefone. Falava com mães, pais, avós, professoras aposentadas, gente velha o bastante para lembrar nomes anteriores do Instituto Aurora.

— Não diga que a criança está inventando - ela repetia. - Pergunte o que ela viu. Não complete. Não corrija. Não chame de sonho antes dela chamar.

Bento ficou com o caderno.

Era a função mais difícil, porque o caderno seguia vontade própria. Mostrava pistas, abria listas e riscava nomes usados sem consentimento. Às vezes escrevia frases da avó Lídia. Em outras, assumia o tom curto e técnico do Monitor. Também desenhava uma porta e esperava que Bento respirasse até entender.

Na chamada da Santa Brígida, a professora disse:

— Mari perguntou se a irmã quer sair junto. A irmã não fala. Só desenha estrela na tela.

Helena olhou para Bento.

O caderno mostrou duas estrelas. Uma grande, uma pequena. Entre elas, uma linha pontilhada.

— Pergunte se a estrela pequena quer ficar perto da grande - disse Bento.

Caio digitou a instrução na conversa privada.

A professora repetiu do outro lado.

Seguiu-se uma espera longa.

Depois, na chamada, ouviram um som como giz riscando quadro.

— Apareceu outra frase - disse a professora. A voz dela tremia tanto que cada palavra atravessava cascalho. - "Perto, mas com janela."

Yasmin fechou os olhos.

— Ela quer sair junto e manter algum espaço.

Clara assentiu.

— Pergunta se pode abrir duas passagens lado a lado.

Caio começou a digitar e parou.

— Isso é uma pergunta para quem? Para a professora, para Mari, para a irmã, para a tela ou para a física do inferno?

A linha de luz no caderno acendeu.

Para a abertura.

Caio apontou para a página.

— Eu sinto falta de quando computadores só travavam.

Helena ignorou.

— Escreve: pergunte à abertura se ela consegue criar duas saídas sem separar as irmãs.

Ele escreveu.

Do outro lado, a professora repetiu.

A ligação chiou.

Por um instante, todas as luzes da casa de Dona Célia piscaram. A sombra apareceu no reflexo da janela outra vez, fina, paciente, esperando cansaço. Yasmin viu primeiro.

— Quem chama?

A sombra não respondeu.

— Então não entra - disse Clara.

As luzes estabilizaram.

A professora voltou, chorando e rindo ao mesmo tempo.

— Abriu. Meu Deus, abriu. Tem duas meninas aqui. Uma está segurando o caderno. A outra está segurando a manga dela. Elas estão... elas estão no chão da sala. Estão aqui.

Ninguém na casa gritou.

Foi estranho.

Talvez porque o grito gastasse energia que ainda precisavam. Talvez porque vitória, depois de uma noite dessas, não viesse como explosão. Vinha como gente sentando antes de cair.

Davi levantou os dois braços.

— Estrelas salvaram.

Miguel considerou.

— Estrelas são melhores que pterodáctilos.

— Não exagera.

Caio marcou a linha da planilha em verde.

Helena olhou para ele.

— Verde?

— Verde significa saiu sem a gente cometer todos os erros possíveis.

— Nome da categoria longo.

— Posso abreviar para VSAGCTOEP.

— Verde está ótimo.

A professora da Santa Brígida perguntou o que fazer agora.

Dona Célia pegou o telefone.

— Agora a senhora não deixa ninguém recolher a tela. Não deixa imprensa filmar as meninas. Não deixa Instituto nenhum chegar perto sem conselho tutelar, família e testemunha. E pergunta se elas querem água ou cobertor.

— Água ou cobertor?

— Sim. Antes de relatório, corpo.

A frase foi para o topo da lista de Helena sem ninguém discutir.

ANTES DE RELATÓRIO, CORPO.

Nina acordou com cheiro de café novo.

A princípio não lembrou onde estava. Viu teto baixo, luz amarela, uma rachadura fina na parede. Ouviu teclas, vozes, choro distante em telefone. Por um segundo o pânico subiu: dormi, deixei, falhei.

Yasmin apareceu ao lado do sofá com uma caneca.

— Antes que você faça a cara de mártir irritante: a Mari saiu. A irmã também.

Nina ficou imóvel.

— Sério?

— Sem você.

A frase doeu e aliviou ao mesmo tempo.

Yasmin percebeu as duas coisas.

— Isso é bom.

— Eu sei.

— Está com cara de quem aprendeu apanhando.

— Foi exatamente assim.

Nina sentou devagar. O corpo ainda lhe pertencia pela metade. Do outro lado da sala, Caio mostrava a Miguel como fechar abas no navegador. Helena falava com uma jornalista independente, usando a expressão de quem poderia derrubar um prédio apenas com formalidade. Bento dormia debruçado sobre o caderno, e o caderno, educadamente, preservava sua bochecha em branco.

Clara entregou um copo d'água para Lili. Davi e Júlio discutiam se controle remoto funcionaria em porta dimensional.

O mundo impossível continuava.

Nina foi até a mesa.

— O que eu perdi?

Caio respondeu sem olhar:

— Duas irmãs resgatadas, três relatos falsos, um senhor querendo vender curso de proteção energética, sete escolas com indícios reais, Helena ameaçando processar alguém com tanta classe que acho que curou minha rinite, e Miguel descobrindo que pterodáctilo é controverso.

— Então pouco.

— Bem pouco.

Helena desligou a ligação e se virou para Nina.

— A página não caiu. Espelhos em doze lugares. O Instituto emitiu nota dizendo que é desinformação e que vai colaborar com as autoridades.

Yasmin traduziu:

— Estão com medo.

Dona Célia entrou da cozinha com uma bandeja de pão.

— Medo não impede gente poderosa. Só faz correr torto. Comam.

Nina pegou um pedaço de pão porque, depois da frase antes de relatório, corpo, desobedecer seria falta de respeito.

O caderno de Bento se abriu.

Bento acordou imediatamente, com uma marca vermelha no rosto.

— Estou acordado.

— Mentira - disse Caio.

Todos olharam para a página.

Um mapa começava a se desenhar. Pontos espalhados por cidades. Linhas fracas entre escolas, depósitos, antigos projetos da Fundação, laboratórios desativados. No centro, a Casa da Luz. Em volta, a rede.

No canto da página, uma frase apareceu:

O PRIMEIRO CICLO FECHOU. A REDE COMEÇOU.

Nina leu para si.

Primeiro ciclo.

O primeiro ciclo encerrava uma forma de medo e abria um trabalho longo: continuar perguntando depois que a adrenalina acabasse.

A sombra no vidro da janela observava.

Menor.

Mais distante.

Ainda lá.

Nina não respondeu a ela.

Virou para os amigos.

— Quem é o próximo turno?

Yasmin sorriu.

— Bom dia para você também.

Caio levantou a caneca.

— À rede de perguntas: péssimo nome para banda, ótimo jeito de não morrer sozinho.

Helena suspirou.

— Vamos fingir que ele não disse isso.

Miguel, sério, perguntou:

— Banda é tipo Fundação?

Davi colocou a mão no ombro dele.

— Temos muito trabalho cultural pela frente.

A sala soltou uma risada baixa.

Na tela do computador, uma nova mensagem chegou:

Meu nome é Mari. Minha irmã quer ser chamada de Estrela por enquanto. Obrigada por perguntarem.

Nina olhou para a mensagem até as letras embaçarem.

Depois passou o computador para Yasmin.

— Responde você?

Yasmin aceitou sem fazer piada.

— Respondo.

E respondeu:

Obrigada por dizerem como querem ser chamadas. Estamos ouvindo.

Dessa vez, quando a mensagem foi enviada, nenhuma porta abriu sozinha. Muitas ficaram menos fechadas.

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