Yasmin fica
A portinha apareceu onde antes havia apenas parede.
A porta era menor que uma porta de criança, estreita e baixa o bastante para obrigar qualquer corpo a se dobrar inteiro. Tinha uma maçaneta redonda, de metal claro. Por uma fresta inferior vazava uma luz azul quase branca.
Nina segurou o pedaço rasgado do próprio desenho contra o peito. Caio apontou a lanterna do celular, cujo feixe se desfez antes de tocar a madeira. Bento respirava curto, com o caderno da avó aberto numa página que tremia em suas mãos. Helena ficou tão reta que poderia quebrar.
Yasmin foi a única que ouviu música.
A música vinha baixa de dentro da porta, abafada por uma parede grossa. Vozes riam. Alguém chamou seu nome com a intimidade de quem guardava lugar para ela desde sempre.
— Vocês ouviram? — ela perguntou.
Caio franziu a testa.
— Ouvi um zumbido.
— Eu não — disse Nina.
Bento aproximou o ouvido do caderno, depois da porta, e recuou imediatamente.
— Eu ouvi vidro riscando vidro.
Yasmin engoliu seco. Para ela, o som vinha de gente.
Gente rindo sem maldade. Gente chamando. Gente que não precisava ser convencida a gostar dela.
A maçaneta girou sozinha.
A porta abriu apenas um dedo, o suficiente para revelar um quarto comprido, iluminado por telas penduradas como quadros. Cada tela continha uma conversa: grupos de escola e fotos marcadas se alternavam com áudios e mensagens incessantes. No centro, Clara estava sentada num colchão baixo, de pernas cruzadas, sorrindo para alguém fora da imagem.
— Clara! — Yasmin deu um passo.
Clara virou o rosto.
O sorriso dela demorou um segundo a mais do que deveria para reconhecer Yasmin.
— Você veio — disse.
A voz estava perfeita. Talvez perfeita demais. Tinha o tom exato das tardes em que as duas dividiam fone de ouvido no pátio e fingiam não ligar para as outras meninas. Tinha o jeito de Clara pedir desculpa sem dizer desculpa. Tinha tudo que Yasmin sentia falta desde antes de admitir que sentia falta.
Nina agarrou seu pulso.
— Não entra.
O toque assustou Yasmin mais do que a porta. Ela olhou para a mão de Nina, depois para o rosto dela. Nina estava pálida, os olhos grandes por trás do cabelo caído.
— Ela está ali — Yasmin sussurrou.
— Uma parte dela pode estar — disse Bento, com a voz quase sumindo. — Também pode ser uma cópia. Uma isca.
A palavra isca bateu errado.
Yasmin puxou o braço.
— Vocês sempre falam assim.
— Assim como?
— Como quem fala com uma burra.
Ninguém respondeu na hora. A demora doeu mais que uma resposta.
A porta abriu mais um pouco.
Dentro, Clara levantou. Atrás dela, outras meninas apareceram nas telas. Algumas eram da escola; as desconhecidas tratavam Yasmin com intimidade. Uma usava uma blusa que ela curtira meses antes e esquecera. Outra repetia uma frase apagada antes do envio. Uma terceira ria de uma piada que Yasmin nunca contara.
O Monitor falava sem precisar de boca.
Aqui você não precisa explicar.
Yasmin fechou os olhos.
Era essa a parte injusta: a mentira sabia onde colocar a mão.
Ela sabia que Yasmin estava cansada de chegar depois, de ser segunda opção, de medir cada mensagem antes de mandar. Cansada de fingir que não doía quando o grupo mudava de assunto sem ela. Cansada de rir junto para não parecer sensível demais. Cansada, principalmente, de ter vergonha de querer.
— Yasmin — chamou Helena.
Havia algo diferente na voz dela. Menos comando. Menos pose.
Yasmin olhou.
Helena estava com os olhos molhados, mas não deixava a lágrima cair. Até ali, naquele lugar impossível, ela ainda negociava com o próprio rosto.
— Ele oferece uma versão em que você nunca precisa pedir — disse Helena.
Yasmin soltou uma risada pequena, quebrada.
— Fácil falar quando todo mundo olha pra você.
Helena abriu a boca, fechou e ficou sem uma frase bonita.
Caio deu um passo para o lado, tentando enxergar melhor o quarto.
— A Clara está presa aí? Clara, se for você, fala alguma coisa que só a Yasmin saberia.
Clara inclinou a cabeça.
— No dia da prova de ciências, ela chorou no banheiro e disse que queria sumir por uma semana.
Yasmin sentiu o rosto queimar.
Caio ficou sério.
— Isso não prova nada. Ele pega coisa da cabeça.
— Pegou da minha — disse Yasmin. — Da sua, não.
Nina largou o pulso dela devagar. Entendeu tarde demais que segurar também podia empurrar.
— Desculpa — ela disse. — Eu estou com medo.
Yasmin piscou.
Essa frase foi a primeira coisa real que alguém lhe deu desde que a porta abriu. Nina, apavorada, entregara a própria verdade sem conselho, aviso ou tentativa de conserto.
A luz azul tremeu.
Lá dentro, as telas começaram a piscar mais rápido.
Ela vai te deixar também.
A voz não soou como ameaça. Soou como cuidado. Como alguém abrindo um guarda-chuva antes da chuva.
Todos deixam. Aqui, não.
Bento virou uma página do caderno. As palavras antigas estavam tão borradas que ele precisou aproximar o rosto.
— Minha avó escreveu uma coisa aqui. Escuta. “A fome da luz vence quando a pessoa acredita que desejar companhia é vergonha.”
Yasmin olhou para ele.
Bento não levantou os olhos do caderno. Talvez porque, se levantasse, não conseguisse continuar.
— Eu acho que ele quer fazer você sentir vergonha de precisar da gente.
A porta rangeu.
Clara estendeu a mão.
— Yas, por favor. Está frio aqui quando eu lembro que é mentira.
Dessa vez, a voz falhou.
O que Yasmin ouviu foi uma rachadura, além da imitação.
Yasmin viu a amiga por um segundo sem brilho, sem filtro, sem sorriso pronto. Clara estava com medo. O quarto inteiro tentou cobrir aquilo com música, mensagens e risadas, mas não conseguiu rápido o bastante.
Davi apareceu atrás dela.
Ou o que restava de Davi.
O menino estava parado no fundo do quarto, quase escondido por uma cortina de cabos. Os olhos eram duas manchas claras. A boca se mexeu antes do som chegar.
— Não fecha — ele pediu.
Yasmin sentiu o corredor inteiro se inclinar.
— Davi?
— Quando fecha, a gente esquece o caminho.
Caio xingou baixinho.
— Então a gente entra todo mundo.
Ele tentou avançar. A porta diminuiu, estreita como uma pupila, até permitir apenas a entrada de alguém do tamanho exato de Yasmin. Clara e Davi não caberiam. Só ela.
Helena segurou o ombro de Caio.
— Não cabe.
— Então arromba.
Caio chutou a porta. O pé atravessou a luz e bateu no próprio corredor. A entrada havia saltado para outro lugar no instante do golpe.
O Monitor riu com todas as telas.
Yasmin entendeu, e odiou entender.
A armadilha queria levá-la e transformar qualquer escolha em culpa. Se ficasse, traía os amigos. Se recusasse, abandonava Clara e Davi. Chorar seria fraqueza; decidir seria um erro.
Ela respirou fundo.
— Nina.
— Não.
— Escuta.
— Não.
A palavra saiu pequena, quase infantil, e por isso doeu mais.
Yasmin segurou a mão de Nina por vontade própria. Depois segurou a de Bento. Bento segurou a de Helena. Helena puxou Caio, que reclamou sem força, mas entrou na corrente.
Por um instante, a luz da porta recuou.
As telas lá dentro falharam. Os rostos piscaram. Clara levou a mão ao peito, tomada pela lembrança do próprio nome.
— Ele odeia isso — disse Yasmin.
— Então não solta — disse Caio.
Yasmin apertou os dedos deles.
— Eu vou soltar só por um pouco.
Todos falaram ao mesmo tempo.
Ela não escutou as frases inteiras. Escutou medo, raiva, carinho malvestido. Escutou a parte mais humana deles, desorganizada e sem legenda.
Era o oposto daquele quarto.
Por isso ela sabia que precisava ir.
— A Clara chamou quando a mentira falhou — disse Yasmin. — O Davi pediu para não fechar. É por eles que eu vou.
Nina balançou a cabeça.
— E se você esquecer?
Yasmin tirou do pulso uma pulseirinha de linha vermelha, velha, quase arrebentando. Amarrou no dedo de Nina.
— Então lembra por mim.
Bento arrancou uma página em branco do caderno da avó e a entregou a ela.
— Papel pega caminho melhor que tela.
Helena tirou uma presilha do cabelo e colocou na mão de Yasmin.
— Se aparecer uma versão minha lá dentro mandando você ser perfeita, quebra isso na cara dela.
Caio tentou sorrir.
— Péssimo plano. Nota dois. Talvez três pela coragem.
Yasmin sorriu de volta.
— Você é muito chato.
— Mantém isso na memória.
A porta abriu o bastante.
Yasmin se abaixou. O ar que vinha de dentro tinha cheiro de chuva em fio elétrico, de perfume conhecido, de quarto fechado depois de muitas horas online. Ela passou um joelho, depois o ombro. A luz grudou em sua pele como poeira.
Antes de entrar de vez, olhou para trás.
Nina chorava sem fazer som. Bento segurava o caderno com força. Sem a postura perfeita, Helena havia encolhido. Caio mantinha a lanterna apontada, inútil e teimoso.
— Eu fico — disse Yasmin.
Era uma promessa.
A porta fechou.
Do lado de fora, por baixo da madeira, a luz azul desapareceu.
No corredor, a pulseira vermelha no dedo de Nina apertou sozinha uma vez, como um coração tentando continuar.