Yasmin fica O Monitor · Capítulo 12 de 36
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Yasmin fica

A portinha apareceu onde antes havia apenas parede.

A porta era menor que uma porta de criança, estreita e baixa o bastante para obrigar qualquer corpo a se dobrar inteiro. Tinha uma maçaneta redonda, de metal claro. Por uma fresta inferior vazava uma luz azul quase branca.

Nina segurou o pedaço rasgado do próprio desenho contra o peito. Caio apontou a lanterna do celular, cujo feixe se desfez antes de tocar a madeira. Bento respirava curto, com o caderno da avó aberto numa página que tremia em suas mãos. Helena ficou tão reta que poderia quebrar.

Yasmin foi a única que ouviu música.

A música vinha baixa de dentro da porta, abafada por uma parede grossa. Vozes riam. Alguém chamou seu nome com a intimidade de quem guardava lugar para ela desde sempre.

— Vocês ouviram? — ela perguntou.

Caio franziu a testa.

— Ouvi um zumbido.

— Eu não — disse Nina.

Bento aproximou o ouvido do caderno, depois da porta, e recuou imediatamente.

— Eu ouvi vidro riscando vidro.

Yasmin engoliu seco. Para ela, o som vinha de gente.

Gente rindo sem maldade. Gente chamando. Gente que não precisava ser convencida a gostar dela.

A maçaneta girou sozinha.

A porta abriu apenas um dedo, o suficiente para revelar um quarto comprido, iluminado por telas penduradas como quadros. Cada tela continha uma conversa: grupos de escola e fotos marcadas se alternavam com áudios e mensagens incessantes. No centro, Clara estava sentada num colchão baixo, de pernas cruzadas, sorrindo para alguém fora da imagem.

— Clara! — Yasmin deu um passo.

Clara virou o rosto.

O sorriso dela demorou um segundo a mais do que deveria para reconhecer Yasmin.

— Você veio — disse.

A voz estava perfeita. Talvez perfeita demais. Tinha o tom exato das tardes em que as duas dividiam fone de ouvido no pátio e fingiam não ligar para as outras meninas. Tinha o jeito de Clara pedir desculpa sem dizer desculpa. Tinha tudo que Yasmin sentia falta desde antes de admitir que sentia falta.

Nina agarrou seu pulso.

— Não entra.

O toque assustou Yasmin mais do que a porta. Ela olhou para a mão de Nina, depois para o rosto dela. Nina estava pálida, os olhos grandes por trás do cabelo caído.

— Ela está ali — Yasmin sussurrou.

— Uma parte dela pode estar — disse Bento, com a voz quase sumindo. — Também pode ser uma cópia. Uma isca.

A palavra isca bateu errado.

Yasmin puxou o braço.

— Vocês sempre falam assim.

— Assim como?

— Como quem fala com uma burra.

Ninguém respondeu na hora. A demora doeu mais que uma resposta.

A porta abriu mais um pouco.

Dentro, Clara levantou. Atrás dela, outras meninas apareceram nas telas. Algumas eram da escola; as desconhecidas tratavam Yasmin com intimidade. Uma usava uma blusa que ela curtira meses antes e esquecera. Outra repetia uma frase apagada antes do envio. Uma terceira ria de uma piada que Yasmin nunca contara.

O Monitor falava sem precisar de boca.

Aqui você não precisa explicar.

Yasmin fechou os olhos.

Era essa a parte injusta: a mentira sabia onde colocar a mão.

Ela sabia que Yasmin estava cansada de chegar depois, de ser segunda opção, de medir cada mensagem antes de mandar. Cansada de fingir que não doía quando o grupo mudava de assunto sem ela. Cansada de rir junto para não parecer sensível demais. Cansada, principalmente, de ter vergonha de querer.

— Yasmin — chamou Helena.

Havia algo diferente na voz dela. Menos comando. Menos pose.

Yasmin olhou.

Helena estava com os olhos molhados, mas não deixava a lágrima cair. Até ali, naquele lugar impossível, ela ainda negociava com o próprio rosto.

— Ele oferece uma versão em que você nunca precisa pedir — disse Helena.

Yasmin soltou uma risada pequena, quebrada.

— Fácil falar quando todo mundo olha pra você.

Helena abriu a boca, fechou e ficou sem uma frase bonita.

Caio deu um passo para o lado, tentando enxergar melhor o quarto.

— A Clara está presa aí? Clara, se for você, fala alguma coisa que só a Yasmin saberia.

Clara inclinou a cabeça.

— No dia da prova de ciências, ela chorou no banheiro e disse que queria sumir por uma semana.

Yasmin sentiu o rosto queimar.

Caio ficou sério.

— Isso não prova nada. Ele pega coisa da cabeça.

— Pegou da minha — disse Yasmin. — Da sua, não.

Nina largou o pulso dela devagar. Entendeu tarde demais que segurar também podia empurrar.

— Desculpa — ela disse. — Eu estou com medo.

Yasmin piscou.

Essa frase foi a primeira coisa real que alguém lhe deu desde que a porta abriu. Nina, apavorada, entregara a própria verdade sem conselho, aviso ou tentativa de conserto.

A luz azul tremeu.

Lá dentro, as telas começaram a piscar mais rápido.

Ela vai te deixar também.

A voz não soou como ameaça. Soou como cuidado. Como alguém abrindo um guarda-chuva antes da chuva.

Todos deixam. Aqui, não.

Bento virou uma página do caderno. As palavras antigas estavam tão borradas que ele precisou aproximar o rosto.

— Minha avó escreveu uma coisa aqui. Escuta. “A fome da luz vence quando a pessoa acredita que desejar companhia é vergonha.”

Yasmin olhou para ele.

Bento não levantou os olhos do caderno. Talvez porque, se levantasse, não conseguisse continuar.

— Eu acho que ele quer fazer você sentir vergonha de precisar da gente.

A porta rangeu.

Clara estendeu a mão.

— Yas, por favor. Está frio aqui quando eu lembro que é mentira.

Dessa vez, a voz falhou.

O que Yasmin ouviu foi uma rachadura, além da imitação.

Yasmin viu a amiga por um segundo sem brilho, sem filtro, sem sorriso pronto. Clara estava com medo. O quarto inteiro tentou cobrir aquilo com música, mensagens e risadas, mas não conseguiu rápido o bastante.

Davi apareceu atrás dela.

Ou o que restava de Davi.

O menino estava parado no fundo do quarto, quase escondido por uma cortina de cabos. Os olhos eram duas manchas claras. A boca se mexeu antes do som chegar.

— Não fecha — ele pediu.

Yasmin sentiu o corredor inteiro se inclinar.

— Davi?

— Quando fecha, a gente esquece o caminho.

Caio xingou baixinho.

— Então a gente entra todo mundo.

Ele tentou avançar. A porta diminuiu, estreita como uma pupila, até permitir apenas a entrada de alguém do tamanho exato de Yasmin. Clara e Davi não caberiam. Só ela.

Helena segurou o ombro de Caio.

— Não cabe.

— Então arromba.

Caio chutou a porta. O pé atravessou a luz e bateu no próprio corredor. A entrada havia saltado para outro lugar no instante do golpe.

O Monitor riu com todas as telas.

Yasmin entendeu, e odiou entender.

A armadilha queria levá-la e transformar qualquer escolha em culpa. Se ficasse, traía os amigos. Se recusasse, abandonava Clara e Davi. Chorar seria fraqueza; decidir seria um erro.

Ela respirou fundo.

— Nina.

— Não.

— Escuta.

— Não.

A palavra saiu pequena, quase infantil, e por isso doeu mais.

Yasmin segurou a mão de Nina por vontade própria. Depois segurou a de Bento. Bento segurou a de Helena. Helena puxou Caio, que reclamou sem força, mas entrou na corrente.

Por um instante, a luz da porta recuou.

As telas lá dentro falharam. Os rostos piscaram. Clara levou a mão ao peito, tomada pela lembrança do próprio nome.

— Ele odeia isso — disse Yasmin.

— Então não solta — disse Caio.

Yasmin apertou os dedos deles.

— Eu vou soltar só por um pouco.

Todos falaram ao mesmo tempo.

Ela não escutou as frases inteiras. Escutou medo, raiva, carinho malvestido. Escutou a parte mais humana deles, desorganizada e sem legenda.

Era o oposto daquele quarto.

Por isso ela sabia que precisava ir.

— A Clara chamou quando a mentira falhou — disse Yasmin. — O Davi pediu para não fechar. É por eles que eu vou.

Nina balançou a cabeça.

— E se você esquecer?

Yasmin tirou do pulso uma pulseirinha de linha vermelha, velha, quase arrebentando. Amarrou no dedo de Nina.

— Então lembra por mim.

Bento arrancou uma página em branco do caderno da avó e a entregou a ela.

— Papel pega caminho melhor que tela.

Helena tirou uma presilha do cabelo e colocou na mão de Yasmin.

— Se aparecer uma versão minha lá dentro mandando você ser perfeita, quebra isso na cara dela.

Caio tentou sorrir.

— Péssimo plano. Nota dois. Talvez três pela coragem.

Yasmin sorriu de volta.

— Você é muito chato.

— Mantém isso na memória.

A porta abriu o bastante.

Yasmin se abaixou. O ar que vinha de dentro tinha cheiro de chuva em fio elétrico, de perfume conhecido, de quarto fechado depois de muitas horas online. Ela passou um joelho, depois o ombro. A luz grudou em sua pele como poeira.

Antes de entrar de vez, olhou para trás.

Nina chorava sem fazer som. Bento segurava o caderno com força. Sem a postura perfeita, Helena havia encolhido. Caio mantinha a lanterna apontada, inútil e teimoso.

— Eu fico — disse Yasmin.

Era uma promessa.

A porta fechou.

Do lado de fora, por baixo da madeira, a luz azul desapareceu.

No corredor, a pulseira vermelha no dedo de Nina apertou sozinha uma vez, como um coração tentando continuar.

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