A primeira casa
Caio disse que agora eles procuravam a Primeira Casa, mas a frase ficou muito melhor antes de alguém perguntar como.
O corredor atrás da tela não tinha mapa, sinal de internet ou qualquer coisa parecida com lógica. A parede onde a porta de Yasmin havia desaparecido agora exibia a frase em letras azuis, queimando devagar como aviso em aparelho velho:
NÃO PROCUREM A PRIMEIRA CASA.
Nina estava ajoelhada diante dela, com a pulseira vermelha amarrada no dedo. A linha apertava de tempos em tempos. Do outro lado, Yasmin puxava o mundo para lembrar que ainda existia.
— Ele mandou a gente não procurar — disse Caio. — Então já temos uma direção moral.
Helena passou a mão pelo rosto.
— Isso não é direção. É provocação.
— Provocação também aponta.
Bento ficou fora da discussão. Sentou no chão, abriu o caderno da avó no colo e folheou com cuidado. Algumas páginas antes vazias exibiam manchas cinzentas, palavras desenhadas por uma umidade impossível.
— Aqui — ele disse.
Nina se aproximou primeiro. A caligrafia da avó Lídia era inclinada, firme, antiga sem parecer fraca.
A primeira morada da luz nunca é onde ela nasce. É onde alguém a convida a permanecer.
Caio leu por cima do ombro dele.
— Super específico. Adoro quando pessoas mortas são vagas.
Bento fechou a cara.
— Ela não está sendo vaga. Está dizendo que o Monitor não começou como monstro de computador.
— Então começou como o quê?
A resposta veio da parede.
As letras azuis derreteram e escorreram para baixo. Formaram linhas, telhados, janelas. O desenho tremia, incompleto, mas todos reconheceram uma casa velha: varanda estreita, portão de ferro, uma mangueira enorme inclinada sobre o quintal.
Nina sentiu a pulseira apertar.
— Yasmin está vendo também.
A frase abriu uma fresta. A parede ficou translúcida e revelou o quarto onde Yasmin segurava uma folha contra o peito. Clara estava perto dela. Atrás das duas, Davi encolhia a cada piscada das telas.
— Nina! — gritou Yasmin.
O som veio baixo, cheio de falhas, mas veio.
Nina encostou as duas mãos na parede.
— A gente está aqui.
Yasmin olhou para trás, assustada. Talvez, do lado dela, a parede também tivesse falado.
— Primeira Casa — disse Yasmin, rápido. — Tem uma pedra. Um computador antigo. Um menino. Ele não é Davi.
A imagem falhou.
Caio bateu na parede.
— Menino de quando? Casa onde?
Mas a comunicação já estava indo embora. Clara apareceu na frente da imagem, dizendo algo que não chegou. Davi ergueu a mão. Atrás dele, uma figura alta feita de clarões inclinou a cabeça.
A parede ficou opaca.
Nina foi lançada um passo para trás.
— Ela está viva.
— Viva e dando pista — disse Caio. — Melhor do que a média.
Helena encarou o desenho da casa.
— Eu já vi esse lugar.
Todos olharam para ela.
Helena ficou incomodada com a atenção, mas não desviou.
— Não pessoalmente. No arquivo da escola.
— Arquivo da escola? — perguntou Bento.
— Minha mãe fez parte da comissão do centenário. Teve uma exposição com fotos antigas do bairro, dos primeiros prédios, essas coisas. Uma das fotos era uma casa com uma mangueira torta no quintal.
Caio apontou para o desenho.
— Essa mangueira torta?
— Talvez.
— Talvez é ótimo. Talvez salva vidas em mais ou menos quarenta por cento dos filmes.
Helena ignorou.
— A casa não existe mais. Virou alguma coisa. Um depósito, acho. Ou um centro de manutenção.
Bento levantou com o caderno na mão.
— Manutenção do quê?
A resposta veio de cima.
Todas as lâmpadas do corredor acenderam juntas e revelaram a extensão do lugar. Centenas de portas se empilhavam nas laterais, distribuídas por andares impossíveis. Atrás de cada uma, uma tela piscava com um rosto diferente. Crianças, adolescentes e adultos olhavam em todas as direções, inclusive para dentro de alguma coisa que devolvia o olhar.
Então as lâmpadas apagaram, uma por uma.
Na escuridão, a voz do Monitor veio calma:
Toda casa precisa de manutenção.
Helena deu um passo para trás.
— Ele ouviu.
— Ele sempre ouve — disse Bento.
— Então vamos falar baixo?
Caio riu sem humor.
— Isso é literalmente o sonho de professor de prova: a gente preso num lugar onde falar baixo não adianta.
Nina ainda encarava a parede. O dedo com a pulseira tremia.
— Não é só falar baixo. É pensar diferente.
Caio virou para ela.
— Como assim?
— Quando a gente sente medo do jeito que ele espera, o lugar fica mais forte. Quando a Yasmin lembrou o nome dela, a parede abriu. Quando ela lembrou uma coisa verdadeira, mesmo ruim, ele falhou.
Bento assentiu devagar.
— Minha avó escreveu que lembrança imperfeita pesa mais que imagem bonita.
Helena cruzou os braços.
— Então a arma é passar vergonha?
— Talvez — disse Nina.
Caio suspirou.
— Estamos perdidos, mas pelo menos eu tenho munição infinita.
Desde que Yasmin entrara na porta, Nina ainda não chegara tão perto de sorrir.
O corredor reagiu ao quase sorriso com um ruído seco.
Uma das portas laterais se abriu.
A abertura revelou uma sala de arquivo escolar. Armários de metal e caixas de papelão ocupavam o espaço sob uma janela alta com grade. Um ventilador de teto girava com a lentidão de quem se cansara de existir.
Helena empalideceu.
— Esse é o arquivo.
— O arquivo de verdade? — perguntou Bento.
— Era. Ou uma cópia.
— A diferença importa?
Caio já estava na frente da porta.
— Se tiver informação, menos do que deveria.
Nina segurou o braço dele.
— Juntos.
Caio olhou para a mão dela, depois para a pulseira vermelha.
— Juntos.
Entraram os quatro.
A sala cheirava a poeira, cola velha e papel molhado. As caixas tinham etiquetas escritas com caneta azul: fotos antigas, recortes, jornal local, eventos escolares. O ventilador fazia uma sombra circular sobre tudo, como um olho piscando muito devagar.
Helena foi direto a um armário no fundo.
— A exposição estava aqui.
— Você tem certeza? — perguntou Bento.
— Minha mãe reclama de tudo com riqueza de detalhes. É quase uma visita guiada traumática.
Ela puxou uma gaveta. Estava trancada.
Caio tirou um grampo do bolso.
Nina olhou para ele.
— Por que você tem isso?
— Cabelo rebelde e crimes leves.
— Caio.
— Estou brincando. Mais ou menos.
Ele se ajoelhou diante da fechadura. A primeira tentativa falhou. A segunda também. Na terceira, a sala inteira sussurrou o nome dele.
Caio Ferraz.
O grampo caiu de sua mão.
Na parede oposta, uma tela que não existia antes acendeu. Mostrou um homem sentado à mesa de uma cozinha, mexendo em um copo vazio. O pai de Caio não olhava para a câmera. Olhava para o próprio erro.
— Não — disse Caio.
A voz saiu baixa demais.
O homem na tela levantou os olhos.
— Filho.
Nina sentiu o ar do arquivo ficar mais pesado. Bento fechou o caderno. Helena, que talvez tivesse uma frase dura pronta, não disse nada.
Caio pegou o grampo outra vez, mas os dedos não obedeciam.
— Barato — ele falou. — Muito barato.
O Monitor respondeu com a voz do pai:
— Eu queria explicar.
Caio riu. Uma risada pequena, torta.
— Claro que queria. Todo sumido vira palestrante quando aparece.
A tela aproximou o rosto do homem.
— Eu voltei.
— Não voltou nada. Você é um arquivo mal compactado usando a cara dele.
O insulto funcionou por meio segundo. A imagem chiou. Mas então a voz mudou, acertando um ponto mais fundo:
— E se eu for o máximo que você vai ter?
Caio parou.
Essa era a pergunta que não tinha piada pronta.
Nina deu um passo, mas Bento tocou seu ombro. Não para impedi-la. Para lembrar que nem todo socorro era entrar na frente.
Caio respirou pela boca.
— Então é pouco — ele disse.
A tela tremeu.
— É pouco pra caramba. E eu queria mais. Queria uma explicação, queria uma ligação, queria que ele tivesse sido menos covarde. Pronto. Feliz?
O Monitor não respondeu.
Caio enfiou o grampo na fechadura de novo.
— Mas eu não vou aceitar uma sobra brilhante só porque dói olhar para o buraco.
A fechadura abriu.
O arquivo inteiro soltou um estalo.
Bento abriu os olhos, impressionado.
— Vergonha como arma.
— Nunca repita isso em público — disse Caio, puxando a gaveta.
Lá dentro havia envelopes pardos, fotos coladas em cartolina e uma pasta fina com etiqueta datilografada:
CASA DA LUZ - 1978
Helena pegou a pasta com as duas mãos.
Dentro, a primeira fotografia mostrava a casa da mangueira torta. Na varanda, havia três adultos, duas crianças e um menino magro segurando uma pedra transparente contra o peito.
No verso da foto, alguém escrevera:
Primeiro teste público do sistema Lúmen. Residência Saldanha. Bairro Aurora. Agosto de 1978.
Nina leu o sobrenome e percebeu o corredor inteiro se calar.
Saldanha.
O mesmo sobrenome dela.
A pulseira vermelha apertou seu dedo com força.
Na fotografia, o menino com a pedra olhava direto para a câmera.
Mas o reflexo no vidro da janela atrás dele olhava para Nina.