A última pergunta da primeira casa
A última pergunta da primeira casa surgiu no quintal de Dona Célia, entre um varal de panos de prato e um pé de acerola. O caderno indicou o lugar pouco depois do almoço. A sombra deixara a rua e a janela para se instalar no fundo do terreno, onde o muro fazia um canto úmido e nenhuma planta crescia.
Dona Célia olhou para o canto e fez o sinal da cruz.
— Esse pedaço sempre foi ruim.
Caio pegou uma lanterna.
— A senhora podia ter mencionado o canto ruim antes?
— Todo quintal antigo tem canto ruim. A gente não apresenta para visita.
O Conselho decidiu que não iriam todos. Também decidiram que ninguém iria só. Foram Nina, Yasmin, Bento, Miguel e Dona Célia. Helena ficou na porta da cozinha com Tereza na chamada. Caio ficou monitorando a transmissão fechada. Davi reclamou, mas aceitou ficar com Ruan, Lili e Júlio depois que Miguel prometeu ouvir uma explicação sobre tricerátops na volta.
No canto do quintal, a sombra formava uma poça sem água. Quieta, esvaziava a importância de tudo ao redor.
Esse era o jeito mais discreto de vencer.
Nina percebeu quando esqueceu, por dois segundos, por que estava com medo. O esquecimento veio macio, quase gentil. Talvez fosse exagero. Talvez o quintal estivesse só escuro. Talvez todos precisassem dormir. Talvez perguntar tanto não mudasse nada.
Então Miguel sussurrou:
— É assim que começa.
A frase devolveu peso às coisas. O varal voltou a ser varal. O muro voltou a ser muro. A mão de Yasmin voltou a estar na dela.
Yasmin segurou a mão de Nina.
— Pizza ou pastel?
— Agora?
— Principalmente agora.
— Pastel.
— Sabor?
— Queijo com caldo de cana.
A sombra recuou o suficiente para o ar voltar a ter cheiro.
Bento abriu o caderno. A página estava quase preta. No centro, uma frase brilhava: O ESCURO VENCE QUANDO A PERGUNTA PERDE O SENTIDO.
Miguel se aproximou da poça.
— Ele estava comigo antes do Monitor ter voz. Ele sabe apagar vontade. Não sabe o que fazer quando alguém quer pouco.
Nina ajoelhou diante da sombra. Não perguntou quem chamava, porque a sombra não chamava. Perguntou outra coisa.
— O que você quer que a gente pare de perguntar?
A poça tremeu. A resposta veio como frio: Tudo.
Yasmin perguntou:
— Você quer entrar ou quer que a gente desista?
A sombra hesitou.
Bento olhou para a página.
— Ela desconhece a diferença.
Miguel disse, baixo:
— Então pergunta com escolha menor.
Nina tentou de novo.
— Você quer ficar nesse canto ou ir embora desse quintal?
A sombra se encolheu. A pergunta obrigava contorno. Ficar aqui. Ir embora. Duas bordas onde antes havia só tanto faz.
A resposta veio como frio: Embora.
Dona Célia soltou o ar.
— Então vá.
O caderno abriu na página um quadrado escuro com bordas de luz fraca. O Monitor falou pela tinta: Sem arquivo. Sem nome. Apenas fora.
Nina entendeu o perigo. A sombra pedia para sair do lugar onde se alimentara de perguntas interrompidas. Havia testemunhas e limites. Dona Célia tocou o muro, Miguel tocou a terra, Bento segurou o caderno, Yasmin segurou Nina.
— Você sai desse quintal - disse Nina. - Não entra em pessoa. Não entra em tela. Não fica na casa. Vai para onde não há pergunta humana para comer.
A sombra deslizou para a página. Antes de sumir, mostrou uma última imagem: a casa de 1978, Miguel no vidro, adultos correndo, a mangueira batendo na janela, e uma pergunta presa no ar havia décadas.
Alguém viu o menino?
Dona Célia chorou.
— Eu vi.
Miguel respondeu:
— Agora eu saí.
A sombra desapareceu. O canto do quintal continuou úmido, rachado e carente de limpeza. Uma formiga atravessou o cimento.
Ninguém comemorou de imediato.
Dona Célia foi até a terra junto ao muro e tocou o lugar com a ponta da bengala, como quem cumprimenta uma casa depois de uma briga longa.
— Amanhã eu planto alguma coisa aqui.
Caio gritou da cozinha:
— Sugiro algo que não abra portal.
— Manjericão, então - respondeu ela.
Bento escreveu no caderno, por conta própria desta vez: o lugar que guardou abandono precisa receber cuidado que não vire arquivo.
A página aceitou a frase.
Dona Célia olhou para ela.
— Melhorou.