A última pergunta da primeira casa O Monitor · Capítulo 34 de 36
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A última pergunta da primeira casa

A última pergunta da primeira casa surgiu no quintal de Dona Célia, entre um varal de panos de prato e um pé de acerola. O caderno indicou o lugar pouco depois do almoço. A sombra deixara a rua e a janela para se instalar no fundo do terreno, onde o muro fazia um canto úmido e nenhuma planta crescia.

Dona Célia olhou para o canto e fez o sinal da cruz.

— Esse pedaço sempre foi ruim.

Caio pegou uma lanterna.

— A senhora podia ter mencionado o canto ruim antes?

— Todo quintal antigo tem canto ruim. A gente não apresenta para visita.

O Conselho decidiu que não iriam todos. Também decidiram que ninguém iria só. Foram Nina, Yasmin, Bento, Miguel e Dona Célia. Helena ficou na porta da cozinha com Tereza na chamada. Caio ficou monitorando a transmissão fechada. Davi reclamou, mas aceitou ficar com Ruan, Lili e Júlio depois que Miguel prometeu ouvir uma explicação sobre tricerátops na volta.

No canto do quintal, a sombra formava uma poça sem água. Quieta, esvaziava a importância de tudo ao redor.

Esse era o jeito mais discreto de vencer.

Nina percebeu quando esqueceu, por dois segundos, por que estava com medo. O esquecimento veio macio, quase gentil. Talvez fosse exagero. Talvez o quintal estivesse só escuro. Talvez todos precisassem dormir. Talvez perguntar tanto não mudasse nada.

Então Miguel sussurrou:

— É assim que começa.

A frase devolveu peso às coisas. O varal voltou a ser varal. O muro voltou a ser muro. A mão de Yasmin voltou a estar na dela.

Yasmin segurou a mão de Nina.

— Pizza ou pastel?

— Agora?

— Principalmente agora.

— Pastel.

— Sabor?

— Queijo com caldo de cana.

A sombra recuou o suficiente para o ar voltar a ter cheiro.

Bento abriu o caderno. A página estava quase preta. No centro, uma frase brilhava: O ESCURO VENCE QUANDO A PERGUNTA PERDE O SENTIDO.

Miguel se aproximou da poça.

— Ele estava comigo antes do Monitor ter voz. Ele sabe apagar vontade. Não sabe o que fazer quando alguém quer pouco.

Nina ajoelhou diante da sombra. Não perguntou quem chamava, porque a sombra não chamava. Perguntou outra coisa.

— O que você quer que a gente pare de perguntar?

A poça tremeu. A resposta veio como frio: Tudo.

Yasmin perguntou:

— Você quer entrar ou quer que a gente desista?

A sombra hesitou.

Bento olhou para a página.

— Ela desconhece a diferença.

Miguel disse, baixo:

— Então pergunta com escolha menor.

Nina tentou de novo.

— Você quer ficar nesse canto ou ir embora desse quintal?

A sombra se encolheu. A pergunta obrigava contorno. Ficar aqui. Ir embora. Duas bordas onde antes havia só tanto faz.

A resposta veio como frio: Embora.

Dona Célia soltou o ar.

— Então vá.

O caderno abriu na página um quadrado escuro com bordas de luz fraca. O Monitor falou pela tinta: Sem arquivo. Sem nome. Apenas fora.

Nina entendeu o perigo. A sombra pedia para sair do lugar onde se alimentara de perguntas interrompidas. Havia testemunhas e limites. Dona Célia tocou o muro, Miguel tocou a terra, Bento segurou o caderno, Yasmin segurou Nina.

— Você sai desse quintal - disse Nina. - Não entra em pessoa. Não entra em tela. Não fica na casa. Vai para onde não há pergunta humana para comer.

A sombra deslizou para a página. Antes de sumir, mostrou uma última imagem: a casa de 1978, Miguel no vidro, adultos correndo, a mangueira batendo na janela, e uma pergunta presa no ar havia décadas.

Alguém viu o menino?

Dona Célia chorou.

— Eu vi.

Miguel respondeu:

— Agora eu saí.

A sombra desapareceu. O canto do quintal continuou úmido, rachado e carente de limpeza. Uma formiga atravessou o cimento.

Ninguém comemorou de imediato.

Dona Célia foi até a terra junto ao muro e tocou o lugar com a ponta da bengala, como quem cumprimenta uma casa depois de uma briga longa.

— Amanhã eu planto alguma coisa aqui.

Caio gritou da cozinha:

— Sugiro algo que não abra portal.

— Manjericão, então - respondeu ela.

Bento escreveu no caderno, por conta própria desta vez: o lugar que guardou abandono precisa receber cuidado que não vire arquivo.

A página aceitou a frase.

Dona Célia olhou para ela.

— Melhorou.

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