A palavra que pisca
A palavra apareceu primeiro no relógio do micro-ondas da casa de Nina.
Ela tinha acordado cedo demais, depois de uma noite feita de pedaços. A chamada em grupo só terminou quando a mãe de Yasmin bateu na porta do quarto dela perguntando com quem estava falando àquela hora. Ninguém teve coragem de dormir logo depois. Permaneceram na linha por mais alguns minutos; ouvir a respiração dos outros mantinha a noite do lado de fora.
Quando Nina finalmente desceu para beber água, a cozinha ainda estava escura. Só o visor verde do micro-ondas brilhava no balcão.
Não marcava hora.
Marcava:
FIQUE
Nina parou no batente.
A palavra piscou uma vez, sumiu e voltou com a discrição de um defeito elétrico. FIQUE. Verde. Pequena. Doméstica. A coisa mais assustadora que um aparelho de cozinha já tinha dito.
Ela tirou o micro-ondas da tomada.
O visor apagou.
Na janela acima da pia, o reflexo do visor continuou aceso.
FIQUE
Nina fechou os olhos, contou até três e abriu de novo. O vidro mostrava só a cozinha escura e seu próprio rosto pálido.
O celular vibrou no bolso do pijama.
Nina: alguém mais viu uma palavra?
A resposta de Caio veio quase imediata.
Caio: se for FIQUE, sim. apareceu no controle remoto. achei ofensivo.
Yasmin: no espelho do banheiro.
Bento: na fita da minha avo. escrito com chiado.
Helena: no meu caderno de planejamento. varias vezes.
Nina olhou para o lugar onde a palavra estivera e sentiu reconhecimento antes do medo. Era a sensação de ouvir o próprio nome do outro lado da rua, pronunciado por uma voz que não deveria conhecê-la.
Na escola, a palavra já tinha chegado antes deles.
FIQUE estava rabiscado na poeira dos carros estacionados perto do portão. FIQUE aparecia no painel da catraca eletrônica, piscando entre liberado e bloqueado. FIQUE surgia na tela da secretaria sempre que alguém tentava imprimir comunicado. FIQUE foi escrito com corretivo na capa de um caderno do sexto ano, embora o dono jurasse que não tinha sido ele.
Os adultos chamaram de vandalismo.
Os alunos chamaram de trend.
Isso talvez tenha sido o pior.
Na hora do recreio, três meninas gravavam vídeo perto do mural de avisos, apontando para a palavra que piscava no projetor do auditório mesmo desligado.
— Gente, olha que bizarro — uma dizia, rindo para a câmera. — A escola foi hackeada por alguém carente.
Outra completou:
— Fique onde, querido? Na recuperação?
Elas riram.
Yasmin não.
— Elas não deviam brincar com isso.
Caio mordeu um pedaço de pão de queijo comprado na cantina.
— Concordo, mas também acho que você não consegue proibir adolescente de fazer piada com ameaça sobrenatural. Está no contrato.
Helena estava com o celular na mão, tentando montar uma lista dos pontos onde a palavra tinha aparecido. Tinha parado de fingir que aquilo era excesso de imaginação. Ainda tentava transformar em mapa.
— Ela aparece em tela, vidro, metal, poeira, papel e reflexo — disse.
— Então em tudo — resumiu Bento.
— Não em tudo. Em superfícies que recebem marca ou imagem.
Caio apontou o pão de queijo para ela.
— Você percebe que isso continua sendo quase tudo?
Nina olhava para o pátio.
Davi estava sentado sozinho no banco perto da árvore torta. Desde o episódio da vitrine, a coordenação mandara a mãe dele buscá-lo. Naquela manhã, ele voltara com um bilhete dizendo que estava bem. A mãe dele acreditava. Adultos confiavam em bilhetes com assinatura.
Davi não falava com ninguém.
De vez em quando, alguma criança se aproximava dele e ficava por perto quase sem falar. Um menino do sexto sentou ao seu lado por dois minutos e saiu sorrindo. Uma garota do sétimo mostrou a palma da mão, onde havia uma pequena porta desenhada. Davi tocou o círculo com o dedo. Ela fechou os olhos, satisfeita.
— Ele virou uma antena — Caio disse, mais baixo.
Bento folheou o caderno da avó.
— Minha avó escreveu uma coisa parecida. “Quando um volta vazio, os outros ouvem melhor.”
Yasmin olhou para Davi com culpa.
— Ele ainda está ali?
Ninguém respondeu.
Porque essa era a pergunta que doía mais. Não se Davi estava vivo, acordado, presente no pátio. Isso todos podiam ver. A pergunta era se havia Davi suficiente dentro de Davi para voltar.
O sinal do fim do recreio tocou.
Davi levantou antes de todos.
No mesmo instante, todos os celulares próximos vibraram.
Havia outros.
Do pátio inteiro.
Uma onda de telas acesas apareceu como vaga-lume errado: bolsos, mochilas, mãos, mesas da cantina. Alguns alunos riram, outros reclamaram. A maioria olhou.
A mensagem era a mesma.
FIQUE
Sem remetente.
Sem aplicativo.
Sem opção de apagar.
A coordenadora Silene saiu da secretaria quase correndo, mandando todo mundo guardar o celular. O problema é que os celulares continuavam acesos mesmo dentro das mochilas. Luz azul atravessava tecido, zíper, bolso, mão fechada.
No mural de avisos, o cartaz da feira de ciências mudou.
Onde antes se lia Projetos sustentáveis para o futuro, agora aparecia:
FIQUE ATE ABRIR
— Até abrir o quê? — perguntou Yasmin.
Nina já sabia a resposta.
Não queria saber.
No banheiro feminino, o espelho respondeu primeiro.
A porta.
O desenho apareceu no vidro com linhas de vapor, embora ninguém tivesse ligado chuveiro nenhum. Uma porta estreita, sem maçaneta, com o círculo no centro. Abaixo:
FIQUE ATE ABRIR A PORTA
Helena fotografou com o celular de Caio, porque o dela tinha travado.
A foto saiu mostrando apenas cinco adolescentes assustados diante de um espelho limpo.
— Claro — disse Caio. — Porque facilitar seria contra a política da empresa.
Bento encostou o ouvido na porta de uma cabine.
— Tem som.
Todos ficaram quietos.
Do outro lado da porta de madeira da cabine vinha um ruído baixo: muitas vozes falando ao mesmo tempo, quase confundidas com o som do próprio ouvido quando a gente tapa tudo.
Nina se aproximou.
As vozes diziam uma palavra.
Fique.
Fique.
Fique.
Yasmin deu um passo para trás.
— Eu odeio essa palavra agora.
— Ótimo — disse Bento. — Acho que é melhor odiar do que querer obedecer.
Helena olhou para ele.
— Você quer obedecer?
Bento demorou um segundo demais para responder.
— Às vezes.
Ninguém a acusou. O medo era compartilhado porque todos entenderam. A palavra carregava uma ordem e uma promessa. Fique onde não dói. Fique onde entendem. Fique onde sua avó volta. Onde seu pai espera. Onde suas amigas acolhem você. Onde seus desenhos importam. Onde sua versão perfeita assume o lugar.
Fique era uma mão segurando pelo lado de dentro.
A porta da cabine tremeu.
Caio ergueu o rodo que, por algum motivo, tinha virado arma oficial do grupo.
— Se sair alguma coisa daí, eu vou bater primeiro e filosofar depois.
— Não bate — disse Nina.
— Por quê?
— E se for alguém?
A pergunta ficou sem resposta.
Helena respirou fundo, tomou a frente e empurrou a porta da cabine com dois dedos.
Estava vazia.
Ou quase.
No chão, perto do ralo, havia uma folha de caderno dobrada quatro vezes. Nina pegou antes que alguém impedisse. O papel estava úmido e frio. Ao abrir, encontrou um desenho feito com lápis grafite.
Era a sala de informática.
Todas as telas acesas.
No centro da sala, os cinco estavam de mãos dadas.
Mas havia espaços entre eles. Espaços pequenos. Vazios. Do tamanho de outras mãos.
Embaixo do desenho, escrito em letra infantil, estava:
nao cabem so voces
Yasmin passou a mão pelos braços arrepiados.
— Ele quer mais gente.
— Ele já tem mais gente — disse Bento.
A porta do banheiro abriu com violência.
Clara entrou ofegante, segurando o celular longe do corpo, entre dois dedos.
— Yasmin.
Yasmin ficou rígida.
— O que foi?
Clara mostrou a tela.
Havia uma chamada de vídeo em andamento.
No nome do contato, apenas:
grupo
Yasmin sentiu o rosto perder calor.
— Não atende.
— Já atendeu sozinho.
Na tela aparecia o pátio da escola, vazio e escuro, filmado à noite. Davi estava sentado no banco da árvore torta. Ao lado dele havia uma fileira de lugares vazios.
Um deles tinha o nome de Clara escrito.
Outro, o de Yasmin.
Clara tremia.
— Isso é montagem?
Ninguém mentiu.
Da chamada, uma voz de menina disse:
— Aqui ninguém precisa escolher quem fica de fora.
Yasmin pegou o celular de Clara e desligou.
Dessa vez, a chamada caiu de vez. A palavra apareceu na parede do banheiro, desenhada por dentro da tinta, letra por letra.
FIQUE
Helena segurou a mão de Clara antes que ela caísse. Clara sempre soubera escolher a postura, encaixar a risada e deixar todo mundo confortável com um comentário. Agora chorava sem entender nada.
Yasmin ficou olhando para ela.
Durante meses, talvez anos, Yasmin imaginara o que sentiria ao ver Clara desarmada. Esperava alguma espécie de vitória. Sentiu medo e uma tristeza estranha. Lúmen escolhia qualquer fresta, inclusive as escondidas por quem vivia cercado de gente.
Nina dobrou o desenho e guardou no caderno.
— A sala de informática — disse.
Caio fechou a cara.
— De novo?
— A porta começou lá para Yasmin. A gravação falhou lá. Agora o desenho mandou a gente para lá.
— Tecnicamente, o desenho não mandou. Só ameaçou de forma artística.
Helena olhou para Clara, depois para a palavra na parede.
— A gente precisa ir antes que mais alguém atenda.
Bento apertou o caderno da avó.
— Minha avó escreveu que quando a palavra fixa, a entrada fica perto.
— O que significa “fixa”? — perguntou Caio.
Como resposta, todas as luzes do banheiro apagaram.
Por um segundo, só a palavra na parede continuou brilhando.
FIQUE.
Então uma segunda palavra apareceu embaixo.
VENHA
E, no corredor do lado de fora, todos os celulares da escola começaram a tocar ao mesmo tempo.