Enquanto houver pergunta
O primeiro mês terminou numa reunião. Para quem passara por tudo sem dormir direito, aquilo bastava como encerramento provisório. Aconteceu na biblioteca do bairro, pois a casa de Dona Célia já não comportava tanta gente e Tereza queria ensinar a rede pública a ocupar um lugar público.
Vieram poucos presencialmente e muitos por chamada. Dona Célia, Seu Orlando, Tereza e Renata ocuparam a primeira fileira. A professora da Santa Brígida apareceu ao lado das mães de Helena e Davi. Dois conselheiros tutelares ouviam mais do que falavam, sob a vigilância de uma bibliotecária que pediu calma três vezes antes de perceber a ironia.
Nina, Yasmin, Caio e os amigos vieram como fundadores involuntários de uma coisa que nenhum deles teria escolhido e que, ainda assim, precisava existir.
Na mesa central, havia uma placa provisória impressa por Caio: CONSELHO DAS PORTAS. Embaixo, menor: Perguntar. Ouvir. Revezar. Respeitar.
Bento abriu o caderno da avó naquela reunião, encerrando seu tempo como objeto central. A decisão passava às pessoas; a memória de Lídia seria honrada sem virar governo.
A página escreveu: AGORA VOCÊS SABEM O BASTANTE PARA NÃO OBEDECER AO LIVRO.
Bento riu e chorou ao mesmo tempo.
— Vó insuportável.
Renata publicou a primeira reportagem naquela manhã. Documentos e perguntas abertas acompanhavam o áudio de Antônio, autorizado pelo Conselho, e a frase que Lídia deixara: para publicar, não para guardar. Miguel e as demais crianças tiveram seus rostos preservados.
O Instituto respondeu com ameaça jurídica. A página respondeu com espelhos. Famílias responderam com relatos. O Conselho respondeu com formulário de consentimento.
Miguel subiu numa cadeira porque ainda era baixo demais para o microfone.
— Eu ainda desconheço o que sou no papel - disse ele. - Posso crescer, lembrar tudo ou esquecer coisas que ainda me prendem. Passei muito tempo sem poder responder. Quando forem chamar alguém, deixem um caminho de volta.
Ninguém aplaudiu na hora.
Foi melhor assim. As pessoas só ouviram.
Nina falou depois. Tinha escrito três versões de discurso e odiado todas. No fim, levou o desenho da porta azul de caneta mordida.
— Eu achava que observar era uma forma de desaparecer antes que alguém percebesse que eu estava ali - disse. - Aí uma porta apareceu num monitor e quase me convenceu de que ser vista era ser usada. Ainda estou aprendendo a diferença. Acho que a diferença é pergunta.
Ela olhou para Yasmin, Caio, Helena, Bento, Clara, Davi, Miguel, Lili, Júlio, Ruan. Para Dona Célia, que segurava uma bala de hortelã na mão.
— Um olhar sem pergunta pode transformar você em imagem. Quando a pessoa pergunta e aceita que a resposta mude, uma porta se torna possível.
Ela colocou o desenho sobre a mesa.
— Essa é a nossa.
A bibliotecária limpou os óculos.
— Pode ficar no mural, se vocês quiserem.
Nina perguntou ao grupo com os olhos. Um por um, assentiram.
— Pode - disse ela. - Com autorização.
A reunião terminou com tarefas. Tereza protocolaria pedidos de proteção e Renata publicaria a segunda parte. Dona Célia guardaria cópias físicas. Seu Orlando vigiaria a escola sem bancar herói. Helena organizaria turnos. Caio ensinaria adultos a reconhecer links obviamente amaldiçoados.
Yasmin e Clara revisariam textos enviados por adolescentes antes que adultos transformassem dor em denúncia mal escrita. Bento criaria, com ajuda de Miguel, um glossário das portas. Davi insistiu em ilustrar os níveis de risco com dinossauros; a ideia ficou sem votação e ele seguiu desenhando.
Quando a biblioteca esvaziou, Nina ficou diante do mural. A porta azul de caneta mordida estava presa com quatro percevejos tortos. Ao lado, alguém tinha colocado uma folha em branco com a pergunta: QUE NOME OU PEDAÇO VOCÊ QUER USAR HOJE?
O celular dela vibrou. Mensagem no canal protegido. Escola pequena no interior. Um professor dizia que uma televisão desligada tinha mostrado uma menina sentada numa escada, recusando-se a sair porque esperava o irmão. Havia adulto presente, autorização para perguntar e medo. O método acompanhava os três.
Yasmin apareceu ao lado dela.
— Turno de quem?
Nina olhou a escala.
— Clara e Bento. Com Dona Célia ouvindo.
— Então você vai fazer o quê?
Nina pensou.
— Comer pastel.
Yasmin abriu um sorriso enorme.
— Finalmente uma protagonista aprendendo.
No caminho para fora, passaram por um computador público desligado. Por um instante, a tela refletiu as duas e, atrás delas, uma moldura rachada.
Nina Saldanha.
Nina parou.
Yasmin ficou.
— Com gente - disse ela, repetindo o lembrete habitual.
Nina sorriu para o reflexo.
— Quem chama?
A moldura piscou.
Abertura. Há uma pergunta em espera.
— O turno é da Clara e do Bento.
Registrado.
A tela ficou preta.
Nina saiu da biblioteca para a tarde barulhenta. Carros, vendedores, crianças, sol batendo no ponto de ônibus. Mundo demais. Mundo imperfeito. Mundo cheio de portas que ninguém via até precisar.
A companhia mudava a forma do medo, mesmo com Nina ainda ferida e despreparada para muitas coisas.
Enquanto caminhavam, Yasmin perguntou:
— Pastel de quê?
— Queijo.
— Caldo de cana?
— Óbvio.
Yasmin riu.
Em algum lugar, uma tela acendeu. Em outro, alguém perguntou antes de chamar.
E, enquanto houvesse pergunta, nenhuma porta estaria completamente sozinha.