O sobrenome na janela
Nina leu o próprio sobrenome no verso da fotografia. Uma gaveta desconhecida se abriu dentro dela e remexeu algo antigo.
Residência Saldanha. Bairro Aurora. Agosto de 1978.
A foto tremia nas mãos de Helena. Nina percebeu que o movimento vinha da imagem. A casa da mangueira torta respirava devagar. A janela atrás do menino com a pedra refletia um rosto ausente da varanda e do quintal, fora do alcance de qualquer câmera.
Esse rosto olhava para Nina.
— Não gosto disso — disse Caio.
— Você gosta de alguma coisa? — perguntou Helena, mas sem força.
— De fechadura que abre e arquivo que não conhece minha família.
Bento pegou a fotografia com cuidado e a virou para a luz fraca do arquivo. Durante um segundo, viu apenas adultos sérios e crianças paradas sob roupas antigas. O sol estourava no canto. Então o vidro da janela escureceu sozinho, e uma letra apareceu no reflexo.
N
Nina recuou.
A letra sumiu.
— Ele escreveu meu nome?
— Só a primeira letra — disse Bento.
— Isso não melhora.
A pulseira vermelha apertou seu dedo outra vez. Mais forte. Não como lembrança. Como aviso.
Do outro lado, no quarto do Monitor, Yasmin devia ter sentido algo também, porque a parede do arquivo começou a mostrar manchas azuis, formando imagens rápidas: Yasmin correndo entre telas, Clara segurando a folha, Davi apontando para algum lugar acima da cabeça deles. Nenhum som atravessou.
Nina levou a mão à parede.
— Calma. A gente achou uma coisa.
A imagem se desfez.
Helena abriu a pasta outra vez. Havia recortes de jornal, uma planta baixa da casa e uma folha datilografada com carimbo da prefeitura. Ela leu em voz alta:
— "Demonstração comunitária de transmissão luminosa experimental. Coordenação: Fundação Aurora de Educação Técnica. Responsável residente: Antônio Saldanha."
Nina não conhecia nenhum Antônio Saldanha.
Ou achava que não conhecia.
O nome alcançou algum lugar da infância, entre histórias interrompidas em almoços de família. Parentes eram citados feito móveis velhos, gente anterior a ela e livre da obrigação de fazer sentido.
— Meu avô se chama Renato — ela disse. — Meu bisavô... eu não sei.
Caio ergueu as sobrancelhas.
— Todo mundo tem bisavô, estatisticamente.
— Obrigada, professor árvore genealógica.
Bento se ajoelhou no chão com o caderno da avó e colocou a fotografia ao lado de uma página manchada. A tinta antiga começou a escurecer, revelando uma frase que antes não estava ali.
A família que abriu a casa não sabia que abria também a linhagem.
Nina leu duas vezes.
— Linhagem?
Helena ficou mais pálida.
— Isso parece ruim.
— No nosso contexto, qualquer palavra com mais de duas sílabas parece ruim — disse Caio.
Bento passou o dedo perto da frase, sem tocar.
— Talvez o Monitor reconheça descendentes. Não como família bonita de novela. Como caminho.
— Caminho para quê?
A resposta veio da janela do arquivo.
Não havia janela ali segundos antes.
Agora havia: alta, estreita, com grade, mostrando do lado de fora um quintal iluminado por sol antigo. A mangueira torta projetava sombra sobre a terra. Crianças corriam sem som. Uma mulher de vestido claro estendia panos num varal. No centro do quintal, o menino da foto segurava a pedra transparente e olhava para dentro da sala de arquivo, direto para Nina.
Caio deu um passo para trás.
— Janela nova. Odeio janela nova.
O menino levantou a mão.
No vidro entre eles, apareceu a palavra:
VOLTA
Nina sentiu vontade de obedecer. Era a saudade impossível de um lugar onde nunca estivera.
Helena segurou seu braço.
— Não.
— Eu sei.
— Você disse isso com a cara de quem não sabe.
Nina tentou rir e não conseguiu.
O menino encostou a mão no vidro. Do lado deles, a janela embaçou. Uma voz infantil atravessou o arquivo, baixinha:
— Eu também não queria.
Bento fechou o caderno com força.
— Isso é ele usando uma criança.
— Ou é uma criança presa — disse Nina.
— As duas coisas podem ser verdade — respondeu Helena.
A frase ficou no ar porque era exatamente esse o tipo de verdade que o Monitor adorava tornar insuportável.
Na janela, o menino virou o rosto. Atrás dele, na varanda da casa, um homem adulto apareceu. Magro, alto, camisa social de manga curta, cabelo penteado para trás. Ele sorriu com orgulho cansado, como quem apresenta uma invenção que finalmente será compreendida.
— Antônio Saldanha — sussurrou Nina.
O homem não podia ter ouvido.
Mesmo assim, olhou para ela.
— Nina — disse.
Caio imediatamente puxou Nina para trás.
— Não. Nomes completos vindo de janela amaldiçoada estão proibidos.
Antônio continuou sorrindo.
— Você cresceu parecida com sua avó.
Nina gelou.
— Como você sabe?
— Porque a casa guarda tudo que a luz toca.
Bento abriu o caderno depressa, à procura de uma defesa.
— Evita conversar.
Nina já tinha dado meio passo.
— O que vocês fizeram?
A pergunta saiu antes do medo pedir licença.
A imagem da janela mudou.
O quintal escureceu. A casa ficou cheia de gente. Vizinhos, professores, crianças, jornalistas locais. Todos reunidos em torno de uma mesa onde a pedra transparente descansava ligada por fios a um monitor antigo. O aparelho era pesado, bege, com uma tela convexa que refletia rostos distorcidos.
Antônio falava para o público, mas o som vinha picado, como fita estragada.
— ...a luz como memória... transmissão afetiva... contato à distância...
Helena franziu a testa.
— Eles tentaram inventar videochamada antes da internet?
— Mais ou menos — disse Bento, olhando o caderno. — Minha avó escreveu que queriam criar uma máquina para aproximar famílias. Gente que trabalhava longe, parentes no interior, alunos sem escola...
Caio soltou uma risada curta.
— Claro. Toda história de terror começa com alguém tentando ajudar de um jeito péssimo.
A imagem avançou.
Na tela antiga, apareceu uma mulher idosa que não estava na sala. Todos aplaudiram. A mulher sorriu, emocionada. Uma criança estendeu a mão para tocá-la. O vidro brilhou.
Por um segundo, pareceu bonito.
Depois a imagem da mulher ficou parada, mas o sorriso continuou abrindo.
Abriu demais.
As pessoas pararam de aplaudir. A luz da pedra aumentou. O monitor chiou. A criança diante da tela começou a chorar sem fazer som.
Antônio correu para desligar os cabos.
A tela não apagou.
No reflexo do vidro, a figura sem rosto enfim apareceu.
Nina recebeu a voz do Monitor diretamente na cabeça, sob a forma de um entendimento:
Vocês me chamaram de companhia.
Ela caiu de joelhos.
Helena a segurou antes da queda. Caio se plantou diante da janela, pronto para brigar fisicamente com 1978. Bento abriu o caderno numa página em branco, desesperado.
— Nina, fala alguma coisa sua — pediu ele.
— O quê?
— Qualquer coisa verdadeira. Agora.
A janela começou a se abrir sozinha.
O ar que entrou cheirava a manga madura, poeira de quintal e plástico queimado. Uma infância alheia tentava vestir a pele de Nina.
Ela apertou os olhos.
— Eu odeio quando minha mãe guarda pote sem tampa.
Caio virou a cabeça.
— Sério?
— É o que veio!
A janela tremeu, mas continuou abrindo.
Bento balançou a cabeça.
— Mais fundo.
Nina respirou. A pulseira vermelha apertou seu dedo. Yasmin estava ali de algum jeito, lembrando por ela como tinham combinado.
— Eu tenho medo de ser esquecida dentro de casa — disse Nina.
A janela parou.
Ela continuou, com a voz menor:
— Não esquecida tipo ninguém sabe meu nome. Esquecida tipo todo mundo acha que eu estou bem porque eu desenho, fico quieta e não dou trabalho. Eu tenho medo de virar uma pessoa que só observa até desaparecer.
O arquivo inteiro ficou mudo.
Na janela, Antônio Saldanha baixou os olhos.
O Monitor não gostou.
As paredes rangiam. As caixas de arquivo se abriram. Fotografias antigas voaram pelo ar, cada uma mostrando um rosto da família Saldanha em algum reflexo: espelho, copo, televisão desligada, vidro de ônibus, tela de celular. Gerações inteiras sendo observadas por uma luz paciente.
Helena segurou Nina pelos ombros.
— Você não desapareceu.
Nina riu chorando.
— Você fala isso como ordem.
— Porque eu não sei falar bonito sob ameaça sobrenatural.
Caio pegou uma das fotos no ar. Era recente. Nina pequena, talvez com cinco anos, sentada no chão da sala desenhando. No fundo, a televisão desligada refletia uma porta azul.
— Isso estava no arquivo de 1978? — ele perguntou.
Bento empalideceu.
— Não devia estar.
No verso da foto recente havia uma anotação escrita por outra mão:
A menina vê portas sem ter sido ensinada.
Nina pegou a foto.
Quando seus dedos tocaram o papel, a janela se fechou com violência. A sala de arquivo apagou. Por um segundo, todos ficaram sem chão.
Então estavam de volta ao corredor atrás da tela.
A pasta da Casa da Luz continuava nas mãos de Helena. O caderno da avó estava no chão. A fotografia de Nina pequena permanecia entre os dedos dela, impossível e real.
Na parede, as letras azuis escreveram uma frase nova:
A ÚLTIMA SALDANHA ABRE POR DENTRO.
Nina sentiu a pulseira apertar.
Desta vez, Yasmin puxava.
E do outro lado da parede, muito longe, uma porta começou a destrancar.