As portas acordadas
As portas abriram sem pedir licença ao mundo.
Primeiro uma. Depois cinco. Depois tantas que o corredor atrás da tela deixou de parecer corredor e virou uma rua estreita de quartos impossíveis. De cada abertura vinha uma luz diferente: azul de celular no escuro, amarelo de cozinha de madrugada, branco frio de hospital, rosa exagerado de festa, cinza de chamada congelada.
E vinham vozes.
— Mãe?
— Quem está aí?
— Eu não quero sair.
— Desculpa, eu esqueci.
— Meu nome é...
A última voz falhou antes de terminar.
Nina ainda segurava Yasmin com uma mão e a foto impossível com a outra. Miguel Saldanha estava no chão, encolhido perto de Davi. A luz cedera espaço ao menino, embora suas bordas ainda tremessem sob uma sintonia ruim. Davi continuava de mãos dadas com ele.
Caio levantou devagar.
— Eu voto em correr.
Helena olhou para as portas.
— Para onde?
— Qualquer lugar que não tenha cem pessoas presas em quartos emocionais.
Bento abriu o caderno da avó. As páginas estavam agitadas, cobertas por letras que apareciam e desapareciam umas sobre as outras. O caderno tentava ouvir todas as portas e perdia o equilíbrio.
— Ele soltou o barulho de propósito — disse Bento.
Clara abraçou os próprios braços.
— Para a gente não conseguir escolher.
Yasmin olhou para ela.
— Ou para a gente escolher errado.
Uma porta próxima se abriu mais.
Dentro havia um quarto de menino, com cama desarrumada, pôster de futebol e uma televisão desligada. Sentado no tapete, um garoto de uns onze anos olhava para um controle remoto cujo uso esquecera. Quando levantou o rosto, seus olhos tinham o mesmo azul fraco que Davi tivera.
— Você sabe meu nome? — ele perguntou.
Ninguém respondeu.
O garoto sorriu, vazio.
— Tudo bem. Aqui ninguém cobra.
A porta começou a fechar.
Nina deu um passo, mas Helena segurou seu braço.
— Não dá para entrar em todas.
— Então a gente deixa ele?
Helena soltou o braço sob o choque da pergunta.
— Você entendeu errado.
— Mas é isso que acontece se a gente não sabe o que fazer.
O Monitor apareceu no teto, no chão e nas laterais, ocupando todas as superfícies refletivas. Sua figura havia se fragmentado em pedaços de rosto e luz espalhados por cada vidro, tela e poça escura.
Vocês querem salvar todos porque ainda não ouviram todos.
As portas gritaram mais alto.
Bento tampou os ouvidos. Clara se ajoelhou. Davi apertou a mão de Miguel. Caio olhou em volta como alguém procurando o disjuntor do inferno.
Escolham. Um nome por vez. Um quarto por vez. Uma dor por vez.
Nina entendeu a crueldade da proposta. O Monitor transformava compaixão em fila impossível. Se eles tentassem salvar uma pessoa de cada vez, se perderiam no labirinto. Se fugissem, carregariam a culpa. Se ficassem parados, as portas se fechariam.
Miguel levantou a cabeça.
— Não é assim que sai.
Todos olharam para ele.
A voz do menino ainda tremia, mas agora era dele. Não vinha com chiado. Não vinha com eco.
— Eu chamava por uma pessoa. Ninguém ouvia. Depois comecei a chamar por qualquer uma. Depois parei.
Ele olhou para as portas.
— A luz gosta quando cada um fica sozinho com a própria porta.
Bento se ajoelhou diante dele.
— Então como abre?
Miguel apontou para o corredor.
— Não abre. Junta.
A palavra pareceu simples demais para caber naquele lugar.
Caio piscou.
— Junta o quê?
— Os nomes que vocês sabem. Os pedaços. Mesmo se não forem nomes inteiros.
Davi levantou a mão, tímido.
— Estegossauro conta?
Miguel pensou por um segundo.
— Conta.
Yasmin respirou fundo e aceitou o peso da ideia.
— Então não é achar o nome perfeito. É lembrar algo real o bastante para puxar.
O caderno de Bento parou de tremer.
Na página aberta, surgiu uma frase nova:
CHAMADA COLETIVA.
Caio riu uma vez.
— Sério? O ponto fraco do demônio da tela é chamada em grupo?
— É uma chamada de gente — disse Nina.
Helena olhou para as portas, depois para a própria mão, ainda marcada pela presilha que dera a Yasmin.
— Se a gente fizer isso, ele vai usar nossos nomes também.
— Ele já usa — disse Clara. — Só que separados.
A frase mudou o ar.
Nina pegou a folha de Yasmin, aquela com o nome escrito em sangue. Estendeu no chão. Bento colocou o caderno da avó ao lado. Helena abriu a pasta da Casa da Luz. Caio tirou o celular do bolso, olhou para a tela apagada e o colocou virado para baixo, como quem decide que ele não seria o centro daquilo. Yasmin amarrou a pulseira vermelha de volta entre seu dedo e o de Nina.
Fizeram um círculo torto no meio do corredor.
O Monitor ficou quieto por meio segundo.
Isso foi pior que qualquer ameaça.
— Eu começo — disse Nina.
Ela olhou para a porta do garoto do controle remoto, que ainda estava meio aberta.
— Você gosta de futebol, mas seu quarto está com pôster velho, então talvez você tenha parado de gostar e ninguém percebeu.
O garoto dentro da porta levantou o rosto.
Nina continuou:
— Você está segurando o controle porque alguém deixou a televisão ligada por você, não com você.
A porta tremeu.
— Isso não é nome — disse o Monitor, suave.
— É começo — respondeu Nina.
Yasmin fechou os olhos.
— Você talvez seja o menino que guardava figurinha repetida para trocar no recreio e ficava com vergonha quando ninguém queria trocar.
O garoto respirou.
Clara entrou:
— Você parece alguém que fala "tanto faz" quando quer muito.
Davi apertou a mão de Miguel.
— Você pode gostar de dinossauro também. Se quiser.
Caio olhou para ele.
— Forte contribuição.
— É real — disse Davi.
O garoto no quarto piscou. A luz azul em seus olhos falhou.
— Eu... — ele tentou.
A porta escancarou.
O Monitor atacou.
O Monitor atacou por meio da vergonha.
Em cada porta, uma memória dos amigos apareceu exposta como tela pública. Nina chorando sem som no banheiro de casa. Yasmin atualizando uma conversa vazia. Caio esperando mensagem do pai no próprio aniversário. Bento ouvindo adultos chamarem sua avó de confusa. Helena treinando sorriso no espelho até odiar o próprio rosto. Clara relendo convite que não veio. Davi fingindo que não tinha medo de escuro.
As imagens ficaram gigantes, altas como prédios.
Chamem, então. Chamem enquanto todos veem.
Helena levantou primeiro.
Tremia, mas levantou.
— Eu treino sorriso — ela disse.
As imagens dela piscaram.
— Treino mesmo. Porque acho que, se meu rosto sair errado, alguém vai descobrir que eu estou errada por dentro.
A porta do garoto abriu mais.
Caio encarou Helena, surpreso. Depois soltou o ar.
— Eu espero mensagem de quem não merece resposta minha.
O Monitor perdeu nitidez em uma das paredes.
— E eu fico com raiva de mim por esperar. E faço piada antes que alguém perceba.
Bento abriu o caderno em cima dos joelhos.
— Eu tenho medo de minha avó estar certa e de todo mundo achar que eu enlouqueci junto.
Yasmin segurou a pulseira.
— Eu quero ser escolhida. Muito. De um jeito meio feio, às vezes. E isso não me torna vazia.
Clara pegou a mão dela.
— Eu tive inveja da minha melhor amiga.
Davi engoliu seco.
— Eu não gosto quando falam que eu sou pequeno. Porque às vezes eu sou mesmo.
Miguel olhou para todos eles.
— Eu fiquei quieto porque achei que quieto merecia ficar.
A frase quebrou algo.
Não uma porta. Muitas.
O corredor se encheu de ar. As luzes azuis recuaram para dentro das frestas. Do quarto do controle remoto, o garoto levantou. De outro, uma menina tirou fones que não tocavam música. De outro, um adolescente apagou uma conversa perfeita demais. De outro, uma mulher adulta encarou a própria versão jovem e disse não.
Nem todos saíram.
Alguns fecharam as portas por dentro.
Isso doeu em Nina mais do que ela esperava.
Miguel viu seu rosto.
— Nem todo mundo consegue na primeira chamada.
— E se a porta fechar?
— Agora eles sabem que tem lado de fora.
O Monitor se reuniu no fim do corredor. Menor do que antes, mas mais denso. A figura sem rosto tinha agora uma espécie de contorno escuro. Onde deveria haver olhos, duas telas mostravam o reflexo do círculo que eles haviam feito.
Vocês acham que estar juntos é salvação.
Nina ficou de pé.
— Não. É trabalho.
Caio levantou ao lado dela.
— Péssima propaganda, aliás.
Yasmin sorriu de canto, cansada.
O Monitor ergueu uma das mãos. Todas as portas abertas congelaram. As pessoas que começavam a sair ficaram presas no meio do movimento, como vídeos pausados. O ar perdeu som. Até o caderno de Bento ficou branco.
Então trabalhem mais rápido.
No chão, os reflexos se apagaram.
Uma nova porta apareceu atrás do Monitor.
Era enorme, lisa, preta, sem maçaneta. No alto, o símbolo do círculo sobre a linha brilhava em azul profundo. Diferente das outras, não mostrava desejo, lembrança ou quarto nenhum.
Mostrava apenas escuridão.
Miguel recuou.
— O núcleo.
Bento olhou para ele.
— O que tem lá?
Miguel respondeu sem tirar os olhos da porta:
— O lugar onde ele guarda os nomes que ninguém chamou de volta.
A porta preta abriu um risco vertical.
De dentro, veio uma voz que todos reconheceram e ninguém conhecia.
Era a voz de cada pessoa quando pede socorro sem som.
E ela dizia:
— Entrem sozinhos.