A devolução
O labirinto começou a cair por dentro.
O desabamento soltava pedaços das lembranças alheias. Uma parede virava corredor de escola e se desfazia em poeira azul. Um teto assumia a cor incompleta de um fim de tarde antes de apagar. Portas vazias batiam sem vento. As ocupadas tremiam, ainda segurando gente indecisa entre correr, chorar ou perguntar há quanto tempo estava presa.
No centro, o Monitor rachado piscava.
Se eu apagar, os nomes caem.
Caio ainda segurava a saída com Helena. Os dois estavam ligados a uma tomada ruim. A luz subia por seus braços e projetava sombras rápidas sobre os rostos. O pai e a cozinha atravessavam Caio. Helena recebia espelhos, aplausos e comentários. Nenhum dos dois soltava.
— Então não apaga — disse Yasmin.
O Monitor voltou o olho retangular para ela.
Eu não sei existir de outro jeito.
Yasmin deu uma risada curta, quase sem ar.
— Bem-vindo ao clube.
Nina estava de pé diante do núcleo, com a fotografia de quando era pequena numa mão e a folha com o nome de Yasmin na outra. Sentia o sangue pulsar nos dedos e a pulseira vermelha entre as duas. O sobrenome Saldanha pesava como uma porta mal explicada.
Miguel apareceu dentro da tela rachada.
Seu rosto estava mais nítido e também mais distante. Atrás dele giravam nomes inteiros e fragmentos ainda presos na boca escura do arquivo. Miguel era uma criança numa sala cheia de gavetas pesadas demais.
— Ele pode devolver — disse Miguel.
Bento ergueu o caderno.
— Como?
— Do mesmo jeito que pegou. Atenção, nome e caminho. Só que ao contrário.
Clara estava ajudando Lili a atravessar a saída. Parou ao ouvir.
— Isso parece simples demais.
— As coisas simples quase sempre são horríveis de fazer — disse Helena, rangendo os dentes.
Bento encontrou, na margem de uma página antiga, uma frase da avó Lídia escrita com tinta instável:
Arquivo não liberta. Arquivo transfere. Para devolver, é preciso deixar de possuir.
Caio soltou um riso fraco.
— Então o monstro precisa aprender desapego. Ótimo. Quem trouxe palestra motivacional?
Davi se aproximou da tela.
— Monitor.
Todos se calaram, porque Davi disse a palavra sem medo e sem ódio. Disse como quem chama alguém que está prestes a derrubar tudo porque não sabe pedir ajuda.
O olho piscou.
Eu não tenho nome.
— Tem apelido — disse Davi. — Todo mundo aqui te chama de Monitor.
Isso é função.
— Às vezes a gente começa assim.
Nina olhou para Davi, surpresa.
Ele ficou vermelho.
— O Caio me chamou de mini terapeuta.
— E me arrependo profundamente — disse Caio.
Mas havia algo ali.
O Monitor passara a história inteira roubando nomes, mas não tinha um que fosse seu. Lúmen era projeto, sistema, ambição de adultos. Monitor era forma nova, tela, função. A fome por trás da luz nem nome aceitava. Talvez por isso ele possuísse tudo: não sabia onde terminava.
Yasmin apertou a mão de Nina.
— Se ele tiver nome, vira pessoa?
— Não — disse Bento. — Mas talvez vire responsável.
Helena olhou para o olho rachado.
— Responsável não é absolvido.
Eu devolvo e desapareço?
A pergunta veio baixa e sincera.
Miguel respondeu antes de todos:
— Você devolve e para de decidir por quem fica.
O núcleo estremeceu.
As portas abertas começaram a fechar de novo, pressionadas pelo colapso.
— Sem tempo para terapia completa — disse Caio. — Plano prático, por favor.
Nina respirou.
Ela viu a saída sendo segurada por mãos cansadas. Viu Clara empurrando pessoas para o mundo real. Viu Davi tentando parecer grande o bastante para o próprio medo. Viu Miguel dentro da tela, ainda preso, mas não mais sozinho. Viu o Monitor, arquivo ferido, monstro sem desculpa e sem manual.
— Você vai abrir os nomes — disse Nina para o Monitor. — Não jogar. Abrir. Cada pessoa pega o que é dela. Quem não conseguir agora, a gente deixa caminho, não prisão.
E se o escuro voltar?
— A gente pergunta coisas pequenas — disse Yasmin. — Pizza ou pastel. Azul de caneta mordida. Essas bobagens que você nunca entendeu.
Bobagens não seguram portas.
Helena, ainda na fenda, gritou:
— Seguram, sim. Inclusive estou segurando uma neste exato momento e adoraria menos debate.
O Monitor ficou imóvel.
Depois, no centro do olho rachado, apareceu uma palavra:
COMO?
Bento virou páginas depressa.
— Ele está perguntando de que forma devolve sem apagar.
Clara olhou para as pessoas que já tinham saído e para as que ainda esperavam.
— Com autorização.
A palavra caiu pesada, simples, inteira.
Yasmin assentiu.
— Pergunta.
O Monitor piscou.
Eu pergunto para todos?
Caio quase soltou a fenda de irritação.
— Sim, tela gigante. Esse é o conceito de autorização.
Nina chegou perto do olho rachado. Cada passo fazia o chão sumir um pouco sob seus pés.
— Começa por Miguel.
Miguel levantou a cabeça.
O Monitor deixou de projetar versões, memórias e desejos. Apenas perguntou:
Miguel Saldanha, você quer sair?
Miguel fechou os olhos.
O labirinto inteiro pareceu esperar com ele.
— Quero — disse. — Mas quero levar os nomes que consigo empurrar comigo.
Você não consegue todos.
— Então levo alguns e volto por outros quando puder. Não sozinho.
Nina sorriu sem perceber.
O Monitor abriu uma fenda dentro da própria tela. Miguel estendeu as mãos, e nomes começaram a sair ao redor dele. Não como chuva caótica agora. Como fila desorganizada de recreio, cada um tropeçando para fora com seu tamanho, seu peso, sua pressa.
— Ana Lu.
Uma menina em uma porta distante levantou o rosto.
— Sou eu.
— Robson.
Um homem adulto desabou chorando.
— Bia de óculos.
— Eu tirei o óculos — respondeu uma voz. — Mas sou eu.
— Peu.
— Ninguém me chama assim faz anos.
— Quer de volta? — perguntou Clara, rápido.
Houve uma pausa.
— Quero.
Cada resposta abria uma saída menor, espalhada pelo corredor. As pessoas não precisavam mais passar todas pela fenda principal. Algumas acordavam em suas próprias portas. Outras seguiam até Helena e Caio. Outras apenas recebiam o nome e sentavam no chão, vivas demais para andar naquele segundo.
O Monitor tremia.
Há muitos.
— Pergunta de novo — disse Nina.
Há muitos.
— Um por vez também vale quando você não está prendendo.
Davi encostou a palavra filho na tela.
— Pergunta para mim.
O Monitor hesitou.
Davi, você quer seu nome inteiro?
Davi ficou sério.
— Quero. Mas se não vier inteiro, eu fico com as partes até lembrar.
Da boca do arquivo saiu uma luz pequena, enrolada como barbante.
DAVI MENEZES
Davi pegou o nome com as duas mãos.
Um menino respirou com mais espaço dentro do próprio peito. Nenhuma explosão ou música acompanhou o retorno.
— Menezes — repetiu Caio. — Bom sobrenome. Combina com estegossauro.
Davi sorriu chorando.
A saída cresceu mais.
O Monitor começou a perguntar.
Não com doçura. Não com bondade instantânea. Perguntava duro, falhando, às vezes quase voltando ao comando. E toda vez que escorregava, alguém corrigia.
— Pergunta sem agir como dono — dizia Yasmin.
— Não oferece versão melhor — dizia Helena.
— Não completa resposta dos outros — dizia Clara.
— Não arquiva sem ouvir — dizia Bento.
— E abandona a voz de atendimento automático — dizia Caio, com uma utilidade discutível.
O labirinto foi mudando.
Portas deixaram de ser armadilhas e viraram rotas instáveis. As telas abandonaram os mundos perfeitos e mostraram pedaços de fora. Uma cama bagunçada deu lugar a um ônibus, seguido por uma cozinha e uma sala de aula. Um celular estava caído no chão; um rosto acordava assustado. O mundo real estava despreparado para recebê-los. Ainda assim, continuava lá.
Miguel saiu da tela por último.
Quando seus pés tocaram o corredor, ele quase caiu. Davi o segurou.
— Você voltou — disse Davi.
— Por enquanto.
— Não gostei desse por enquanto.
Miguel olhou para o Monitor.
O olho retangular estava menor, suspenso no ar feito uma janela rachada. Dentro dele ainda giravam muitos nomes, o bastante para que apagar repetisse o abandono.
— Eu posso ajudar a perguntar — disse Miguel.
Nina sentiu o protesto subir imediatamente.
Yasmin também.
— Você acabou de sair — disse ela.
— Eu sei o caminho lá dentro.
— Isso não significa que você tem que voltar.
Miguel olhou para Davi, depois para Nina.
— Eu não quero voltar para ficar preso. Quero voltar com porta aberta.
Bento registrou a condição no caderno:
GUARDIÃO TEM DIREITO DE SAIR QUANDO FOR CHAMADO.
Caio fechou os olhos.
— Estamos oficialmente criando escala de plantão sobrenatural?
Helena soltou a fenda por um instante, ofegante, e Yasmin assumiu seu lugar.
— Revezamento — ela disse. — Continua sendo a regra.
Nina encarou o Monitor.
— Você não fica sozinho com eles.
Então quem fica?
— A gente visita. Chama. Confere. Pergunta. Abre. Você pode ser um portal, jamais uma casa.
O Monitor demorou a responder.
Quando respondeu, a voz veio menor que uma tela desligada.
Portal.
A palavra mudou sua forma.
O olho retangular perdeu a boca escura. Virou uma moldura rachada, ainda perigosa, ainda instável, mas aberta dos dois lados. O símbolo do círculo sobre a linha se partiu em dois: de um lado, olho; do outro, porta.
A saída principal brilhou.
Do lado de fora, finalmente, apareceu a sala de informática da escola.
Luz de emergência. Mesas. Cadeiras viradas. O monitor antigo sobre a bancada, com a tela trincada. O mundo real, feio e maravilhoso, esperando sem entender nada.
— Todo mundo para fora — disse Helena.
Dessa vez, ninguém discutiu.
Clara levou Lili. Caio levou Júlio e reclamou do peso simbólico da situação. Bento segurou o caderno aberto, deixando nomes restantes caírem nas páginas como lembretes de busca. Yasmin manteve a fenda até o último grupo passar. Nina ficou ao lado dela.
Miguel parou diante da saída.
— Eu não sei se tenho casa.
Nina sentiu a frase como uma mão pequena.
— Então começa pela sala.
Davi pegou a mão dele.
— E depois a gente vê.
Miguel atravessou.
O Monitor, agora um portal rachado, ficou para trás com os nomes que ainda não tinham conseguido responder.
Antes que Nina saísse, a voz dele chamou:
Nina Saldanha.
Ela virou.
Yasmin apertou sua mão.
Você volta?
Nina olhou para os nomes suspensos, para o portal aberto e para o lugar onde o escuro havia sido fechado. Pensou em prometer algo grande e bonito. Já conhecia o perigo dessa espécie de promessa.
— Eu volto com gente — disse.
Então atravessou para a sala de informática, levando o cheiro de fio quente e chuva impossível grudado na roupa.