Reflexo atrasado O Monitor · Capítulo 5 de 36
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Reflexo atrasado

Helena Vidal tinha uma regra simples para dias ruins: ninguém saberia.

A regra nunca precisou de cartaz, frase motivacional ou fundo bonito. Era antiga e firme. Se a prova tinha ido mal, ela respirava fundo e perguntava a nota dos outros antes de falar da própria. Se a mãe mandava mensagem dizendo que chegaria tarde de novo, Helena respondia tudo bem, mesmo quando não estava tudo bem havia meses. Se a coordenação precisava de alguém para organizar campanha, feira, mural, grupo de estudos ou qualquer coisa que adultos chamavam de “liderança jovem”, Helena sorria e dizia que podia.

Podia sempre.

Era o que esperavam dela.

Naquela tarde, depois do episódio na quadra, ela atravessou o corredor principal com uma pasta contra o peito e três tarefas na cabeça: entregar a lista da gincana para a secretaria, cobrar o cartaz da turma do nono ano e descobrir por que Nina Saldanha, Yasmin Moura, Caio Ferraz e Bento Arcoverde estavam andando juntos com cara de seita silenciosa fundada atrás da escola.

Helena havia criado a terceira tarefa depois do que vira.

Ela via tudo.

Viu Yasmin voltar para a sala com os olhos vermelhos e fingir que era alergia. Viu Caio passar o resto do dia sem fazer piada, o que em Caio era praticamente um pedido de socorro. Viu Nina riscar a mesma forma de porta no canto do caderno durante a aula inteira. Viu Bento guardar um caderno preto dentro da mochila com cuidado de coisa viva.

E viu, acima de tudo, que ninguém tinha contado nada para ela.

Isso a irritou mais do que deveria.

Helena entrou no banheiro do segundo andar para lavar as mãos, embora não precisasse. Só queria um minuto longe do barulho. O banheiro estava vazio. As lâmpadas brancas zumbiam. Duas torneiras pingavam fora de ritmo. No espelho comprido sobre as pias, seu rosto parecia exatamente como devia: cabelo preso sem fios soltos, gola ajeitada, expressão alerta, nenhuma rachadura visível.

Ela abriu a torneira.

A água saiu fraca, morna, com cheiro leve de cano velho.

Helena apoiou as mãos na pia e ficou olhando para o próprio reflexo. Detestava o hábito. Ainda assim, conferia o rosto cansado e ensaiava um sorriso. Endireitava a postura até os olhos pararem de denunciar qualquer coisa. Tudo podia ser corrigido antes de alguém perceber.

No espelho, seu reflexo piscou.

Helena não piscou.

Ela ficou imóvel.

O reflexo também ficou, um segundo tarde demais, vídeo de chamada ruim.

O coração dela deu uma batida seca.

— Não — disse Helena.

No espelho, a boca dela repetiu a palavra depois.

Não.

Sem som.

Helena fechou os olhos, contou até cinco e abriu de novo. O reflexo estava normal. Talvez ela estivesse cansada. Talvez a luz do banheiro tivesse oscilado. Talvez seu cérebro, que vinha dormindo pouco, tivesse feito uma coisa idiota.

Ela desligou a torneira.

O reflexo continuou lavando as mãos.

Helena prendeu a respiração.

Do outro lado do vidro, a outra Helena esfregava os dedos devagar, metódica, perfeita. Depois ergueu o rosto. Não sorria. Isso era o pior. Se sorrisse, se fizesse cara de monstro, se tivesse olhos pretos ou dentes compridos, Helena poderia gritar. Mas o reflexo só parecia ela em um dia mais quieto.

Um dia em que não precisava fingir.

— Quem está fazendo isso?

A outra Helena inclinou a cabeça.

No espelho, a boca se mexeu.

Sem som.

Helena leu pelos lábios mesmo sem querer.

Você.

Ela deu um passo para trás e bateu na porta de um boxe. A tranca chacoalhou. O banheiro continuava vazio, mas o vazio agora assistia.

O celular vibrou dentro da pasta.

Helena não queria pegar.

Pegou.

Uma notificação sem aplicativo aparecia na tela. Ícone preto. Círculo azul fino no centro.

voce sabe liderar melhor quando ninguem atrapalha

Helena apagou a tela imediatamente.

— Eu não vou conversar com bug.

O celular acendeu de novo.

nao sou bug

Dessa vez ela sentiu medo de verdade.

Não o medo bonito das histórias, com trovão e castelo. Um medo doméstico, humilhante, que vinha com raiva junto. Como ousava? Como uma coisa qualquer entrava no celular dela, no reflexo dela, na cabeça dela, e escrevia com intimidade indevida?

Helena abriu a porta do banheiro e saiu rápido demais.

No corredor, duas meninas do sétimo ano quase trombaram com ela.

— Desculpa, Helena.

— Tudo bem — ela respondeu, automática.

Não estava tudo bem.

Ela continuou andando. Precisava achar Nina. Ou Caio. Ou Yasmin. Bento talvez não, porque Bento sempre olhava com cara de saber coisas sem autorização. O problema é que admitir isso significava admitir que tinha um problema. E Helena não admitia problemas sem antes preparar uma solução.

Passou pela porta de vidro que separava o corredor principal do pátio interno.

Foi ali que viu de novo.

No vidro, seu reflexo parou.

Helena, do lado real, continuou andando mais dois passos antes de perceber. Voltou devagar. O reflexo estava parado no vidro da porta, pasta contra o peito, cabelo preso, expressão impecável. A Helena refletida aguardava com paciência.

A porta de vidro refletia também o pátio, os bancos, a árvore torta, os alunos passando. Tudo normal. Só Helena estava errada.

— Para — ela sussurrou.

A outra Helena ergueu a mão direita.

Helena não ergueu.

A mão refletida tocou o vidro por dentro.

No celular, uma nova mensagem apareceu sem vibração.

eu posso fazer a parte dificil

Helena sentiu a garganta apertar.

Porque uma parte dela, pequena e vergonhosa, quis perguntar qual parte.

Organizar tudo? Responder por ela? Sorrir por ela? Ser amada por ela? Tirar notas por ela? Dizer não por ela? Chorar por ela em algum lugar onde ninguém visse?

O reflexo moveu a boca.

Todas.

Helena afastou o celular como se queimasse.

— Você não sabe de nada.

O reflexo sorriu.

Era o sorriso de Helena em foto de premiação, em reunião de pais, em apresentação de trabalho. O sorriso certo. O sorriso que dizia: estou bem, podem continuar precisando de mim.

No vidro, atrás da outra Helena, apareceu uma sala que não existia no pátio. Uma sala ampla, limpa, silenciosa. Havia uma mesa no centro, com tudo organizado em pilhas perfeitas. Na parede, quadros, medalhas, certificados, mensagens de elogio. Nenhum barulho. Nenhuma interrupção. Nenhum pedido de última hora. Nenhuma expectativa mudando de forma.

Era horroroso.

Era maravilhoso.

Helena quase tocou o vidro.

— Helena?

A voz de Nina atravessou o corredor como uma pedra jogada em água parada.

Helena virou. Nina estava a poucos metros, com Bento atrás dela e Yasmin logo depois. Caio vinha mais devagar, olhando para todos os cantos odiando superfícies refletoras recém-descobertas.

Quando Helena olhou de volta para a porta de vidro, o reflexo estava normal.

Ela viu apenas a si mesma: pálida, séria, segurando a pasta com força demais.

— Você viu alguma coisa? — perguntou Nina.

Helena teve vontade de dizer não.

O não já estava pronto. Redondo, fácil, treinado. Podia dizer que estava procurando a coordenadora. Podia perguntar por que eles estavam reunidos. Podia transformar tudo em uma investigação sobre o comportamento estranho dos colegas e escapar de si mesma.

O celular aceso em sua mão bloqueava essa saída.

A última mensagem continuava na tela.

eles vao atrapalhar

Yasmin leu por cima do ombro de Helena.

— Ele falou com você também.

Helena odiou o alívio que sentiu.

Odiou mais ainda precisar perguntar:

— O que é isso?

Bento apertou o caderno preto contra o peito.

— Minha avó chamava de Lúmen. Mas acho que ele gosta mais quando a gente acha que não tem nome.

Caio olhou para a porta de vidro.

— Ele apareceu no reflexo?

Helena assentiu uma vez.

— Ele era eu.

Ninguém riu. Ninguém disse que era impossível. Ninguém perguntou se ela tinha dormido pouco. A reação desarmou Helena. Então Nina estendeu a mão e a deixou suspensa entre as duas. O gesto dizia que ela continuava ali.

— O que ele ofereceu?

Helena olhou para o vidro.

Por um instante, só por um instante, o reflexo dela no vidro pareceu mais perfeito que o corpo. Mais ereto. Mais calmo. Mais pronto.

— Ajuda — ela disse.

A palavra saiu ridícula. Pequena demais para o tamanho da tentação.

— Ele ofereceu ajuda.

Yasmin entendeu antes dos outros.

— A ajuda que não cobra nada?

Helena a encarou.

Yasmin continuou:

— A que parece que finalmente alguém percebeu que você está cansada?

Helena desviou o olhar.

No corredor, estudantes passavam sem notar o grupo parado junto à porta de vidro. Uma menina ria ao telefone. Um menino reclamava da prova. Alguém corria com um pacote de bolacha. O mundo inteiro seguia normal em volta deles, e isso tornava tudo mais assustador, não menos.

Bento abriu o caderno da avó em uma página marcada.

— Tem uma frase aqui que eu não tinha entendido.

Ele leu baixo:

Ele não aparece primeiro como monstro. Aparece como descanso.

Helena fechou os olhos.

O celular vibrou outra vez.

Ninguém se mexeu.

Na tela, a mensagem nova apareceu:

se voce quiser, eu posso ser a helena por um dia

Por um segundo, o grupo inteiro ficou olhando.

Depois Caio pegou o celular da mão dela e virou a tela para baixo.

— Hoje não.

Helena teria reclamado em qualquer outro dia. Ninguém pegava as coisas dela. Ninguém decidia por ela.

Mas naquele dia não reclamou.

Porque, do outro lado da porta de vidro, o reflexo de Helena ainda estava sorrindo.

E, quando ninguém além dela pareceu notar, o reflexo levantou um dedo diante da boca.

Pedindo que ficassem quietos.

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