A gravação limpa
Caio Ferraz acreditava em três coisas: fio mal encaixado, configuração errada e gente exagerada.
Todo problema do mundo cabia, pelo menos no começo, em uma dessas categorias. Se o controle da televisão não funcionava, era pilha. Se a internet caía, era roteador. Se alguém dizia que tinha visto uma coisa impossível em uma tela, era susto, sono, brincadeira ruim ou vontade de aparecer.
Ele não falava isso em voz alta sempre. Só quase sempre.
Naquela tarde, sentado no fundo da sala de informática, com Nina Saldanha e Yasmin Moura olhando para ele com a expectativa de quem o promovia a adulto responsável por acidente, Caio se arrependeu um pouco de ter fama de quem sabia mexer em tudo.
— Então deixa eu ver se entendi — ele disse, girando uma chave Philips pequena entre os dedos. — O computador velho da sua casa mostrou uma porta do seu sonho. E o monitor daqui chamou a Yasmin para um grupo de meninas sem rosto.
Yasmin cruzou os braços.
— Aquilo estava longe de ser um grupo.
— Era o quê?
Ela abriu a boca, fechou, olhou para Nina.
— Parecia uma espera.
Caio piscou.
— Tá. Isso foi pior.
Nina estava sentada na cadeira ao lado, apertando o caderno contra o peito. Tinha o tipo de rosto de quem não queria estar ali e, ao mesmo tempo, não conseguiria ir embora. Caio conhecia aquele rosto. Ele conhecia aquele rosto do espelho: o pai prometia passar no fim de semana e desaparecia até segunda.
Ele afastou o pensamento antes que fizesse barulho.
— Vocês tiraram print? Gravaram? Alguma coisa?
Yasmin levantou o celular.
— Sumiu tudo.
— Claro que sumiu.
— Você não acredita.
— Eu acredito que vocês viram alguma coisa. A diferença importa.
Nina franziu a testa.
— Diferente como?
— Diferente no sentido de que olho humano é um aparelho péssimo. Vê coisa que não tem, completa desenho, inventa rosto em tomada, acha que sombra é pessoa. O celular pelo menos grava o que está lá.
Quando terminou a frase, Caio percebeu que tinha soado arrogante demais. Só o suficiente.
Yasmin pegou a mochila.
— Então esquece.
— Ei. Eu não disse que não vou ajudar.
— Disse com outras palavras.
Caio respirou pelo nariz. Contou até três. Era uma técnica que a psicóloga da escola tinha ensinado uma vez depois de ele responder a um professor de um jeito que, segundo a coordenação, “não ajudava o ambiente”. Caio achava que o ambiente também não se ajudava muito.
— Eu vou testar — ele disse. — Se tiver alguma coisa acontecendo, a gente grava. Se gravar, existe. Se existe, dá para entender.
Nina olhou para o monitor do fundo.
— E se não quiser ser gravado?
Caio riu sem humor.
— Aí vai ter que conversar com a câmera.
A sala de informática estava ainda mais abandonada no fim da aula. O sol entrava pelas venezianas e cortava a poeira em listras. Dos vinte computadores, só seis ainda ligavam, e desses seis, dois faziam barulho de liquidificador. O monitor do fundo, o mesmo que Yasmin dizia ter acendido sozinho, estava escuro.
Caio puxou uma cadeira, conectou seu celular ao carregador portátil e abriu o aplicativo de câmera. Escolheu vídeo. Ligou a lanterna. Depois apoiou o aparelho em um estojo, mirando direto para a tela.
— Pronto. Se aparecer menina sem rosto, porta, mensagem carente ou qualquer entidade audiovisual, vai sair em 4K.
— Seu celular nem grava em 4K — disse Nina.
Caio apontou para ela.
— O importante é a intenção.
Yasmin quase sorriu. Quase.
Ele apertou gravar.
Durante o primeiro minuto, nada aconteceu. Só o reflexo dos três no monitor apagado: Caio no meio, com o cabelo caindo na testa; Nina atrás dele, pequena e tensa; Yasmin perto da porta, fingindo que não estava pronta para sair correndo.
No segundo minuto, um computador da primeira fileira ligou sozinho.
O som foi baixo: um clique, depois o zumbido do gabinete acordando com preguiça. Yasmin deu um passo para trás. Nina segurou o caderno com mais força. Caio ergueu a mão.
— Calma. Wake-on-LAN.
— O quê?
— Computador pode ligar por comando de rede.
— Alguém mandou comando?
— Essa é a parte que eu ainda vou fingir que sei.
A tela da primeira fileira acendeu. Mostrou a área de login da escola, com o brasão pixelado no canto. Nada de estranho. Caio pegou o celular, girou um pouco para enquadrar também aquele computador, e continuou gravando.
Então o monitor do fundo piscou.
Uma linha azul atravessou a tela apagada de cima a baixo, como uma rachadura de luz.
Caio parou de respirar.
A linha abriu em duas, depois em quatro, depois em várias. Defeito de LCD era aleatório, feio, burro. Aquilo tinha desenho. As linhas se organizaram em um corredor estreito, cheio de janelas brancas nas paredes. No fim, havia uma porta.
Nina sussurrou:
— É ela.
Caio olhou para o celular. A gravação continuava. Na tela pequena, porém, o monitor do fundo aparecia preto.
Ele baixou o celular e olhou de novo para o monitor real.
A porta estava lá.
Olhou para o celular.
Preto.
Monitor real.
Porta.
Celular.
Preto.
— Não — Caio disse.
A palavra saiu pequena, irritada, quase pessoal.
Ele parou a gravação, abriu o vídeo e voltou alguns segundos. O arquivo mostrava ele mesmo fazendo cara de idiota para uma tela vazia. Mostrava Nina assustada. Mostrava Yasmin perto da porta. Mostrava a primeira fileira acesa. Mas o monitor do fundo permanecia apagado, limpo, refletindo nada além da sala.
— Está vendo? — disse Yasmin, a voz falhando. — Está vendo que não dá?
Caio não respondeu.
Abriu a câmera de novo. Dessa vez, usou o modo foto. Tirou uma imagem. O clique ecoou na sala.
Na foto, nada.
No monitor, a porta.
Ele aproximou o celular da tela, quase encostando vidro com vidro.
— Vamos lá, bonito. Escolhe um lado.
A porta no monitor abriu um centímetro.
Nina puxou o ar.
Caio apertou para tirar outra foto.
No instante do flash, a tela do celular travou. A imagem congelou no rosto dele. O monitor havia sumido do enquadramento.
Caio encarou o próprio reflexo capturado pela câmera frontal, embora a câmera frontal não estivesse ligada.
Na foto, ele sorria.
Na vida real, não.
— Que droga é essa?
A foto tremeu na tela do celular. O sorriso dele, dentro da imagem, aumentou um pouco. Não muito. O bastante para deixar de ser dele.
Depois apareceu uma mensagem abaixo da foto, digitada em letras brancas sobre o aplicativo da câmera:
voce gosta de consertar coisas quebradas
Caio sentiu o rosto esquentar.
— Quem escreveu isso?
Nina se aproximou, mas ele afastou o celular.
— Não encosta.
Outra frase surgiu.
e quando nao da para consertar seu pai?
Por um segundo, ninguém falou.
A sala inteira pareceu recuar. O zumbido dos computadores ficou longe. A poeira parou no ar. Caio apertou tanto o celular que a capa estalou.
— Isso não tem graça.
O monitor do fundo respondeu com um brilho mais forte. A porta abriu mais alguns centímetros. Do outro lado surgiu a oficina que Caio sempre imaginava e nunca conseguia manter. Peças e ferramentas ocupavam uma bancada perfeitamente organizada. No centro, uma caixa preta pulsava feito coração.
Na tela do celular, a mensagem mudou:
aqui nada fica faltando
Caio deu um passo para trás.
— Desliga — disse Nina.
— Eu sei.
— Caio.
— Eu sei.
Mas ele não desligou.
Porque, por trás da bancada, havia uma porta aberta. E além dela, em uma sala desfocada, um homem sentado de costas mexia em um rádio antigo. O homem tinha os ombros do pai de Caio. O jeito de inclinar a cabeça do pai de Caio. Até a camisa xadrez vermelha que o pai usava na última vez que prometeu levá-lo ao cinema.
Caio esqueceu por um instante que estava com Nina e Yasmin. Esqueceu a escola. Esqueceu a porta impossível. Seu corpo inteiro foi puxado para a lembrança como fio entrando em tomada.
O homem do outro lado falou sem virar.
— Eu estava esperando você terminar.
A voz não saiu pelo alto-falante.
Saiu de dentro do celular na mão de Caio.
Ele quase deixou o aparelho cair.
Yasmin foi quem reagiu. Pegou a mochila do chão e jogou contra o monitor do fundo. A tela balançou, a imagem falhou, a porta fechou com um clarão azul. O computador apagou.
O celular de Caio voltou ao normal.
A foto sumiu.
A mensagem sumiu.
A voz também.
Só ficou o vídeo salvo na galeria.
Caio abriu com a mão tremendo, odiando que a mão tremesse. Os três se juntaram em volta da tela pequena.
O vídeo mostrava a sala de informática vazia de qualquer milagre. Mostrava Caio mexendo no celular. Mostrava Nina dizendo alguma coisa sem som claro. Mostrava Yasmin pegando a mochila e jogando contra um monitor apagado, como se tivesse perdido a cabeça por motivo nenhum.
Não havia porta.
Não havia bancada.
Não havia pai.
No fim do vídeo, porém, no último segundo antes de Yasmin acertar a tela, uma coisa apareceu.
Não no monitor.
No reflexo da janela atrás deles.
Uma luz azul, pequena como um olho, piscou uma vez para a câmera.
Depois a gravação terminou.
Caio baixou o celular devagar.
Quando falou, a voz dele já não tentava parecer engraçada.
— Isso não é bug.