O menino da calçada O Monitor · Capítulo 32 de 36
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O menino da calçada

O menino na calçada estava dolorosamente vivo.

Esse era o detalhe que deixava tudo pior. Usava camiseta de uniforme, chinelo azul e segurava um tablet apagado contra o peito. Tinha o cabelo amassado de quem dormiu mal e a expressão de quem chegou a um endereço dividido entre bater e fugir.

No tablet apagado apareceu a pergunta: VOCÊS AINDA ESTÃO OUVINDO?

Da massa enorme que os seguira pela escola restava uma lasca de desistência, paciente o bastante para atravessar bairros. Ficava perto de Ruan sem encostar, imitando o adulto que ensinou obediência antes de precisar gritar.

Ruan alternava o olhar entre a casa de Dona Célia e a sombra. Diante dela, seus ombros baixavam. Diante da casa, lembrava que ainda podia ter sede.

Nina ficou atrás da janela de Dona Célia. Yasmin ficou ao lado dela. Helena ergueu a mão antes que alguém fosse até a porta.

— Protocolo. Ninguém sai sozinho. Ninguém chama pelo nome sem ele oferecer. E ninguém abre a porta da casa enquanto a sombra estiver perto.

Dona Célia abriu a janela da cozinha só dois dedos.

— Quem chama? - perguntou Nina.

O menino levantou o tablet. Letras brancas apareceram na tela preta: EU NÃO SEI SE SOU EU QUE CHAMO.

Yasmin fechou os olhos por um instante.

— Boa resposta ruim.

Helena manteve distância.

— Que nome ou pedaço de nome podemos usar para falar com você?

Ele olhou para a sombra sob a árvore. Digitou com dedos trêmulos: RUAN. POR ENQUANTO.

Bento abriu o caderno. Uma linha surgiu: Ruan, por enquanto. Tablet apagado. Sombra próxima. Não abrir porta inteira.

— Ruan - disse Nina -, você quer entrar na casa?

O tablet respondeu: QUERO. ELA VEM JUNTO SE EU ENTRAR.

Caio sussurrou:

— Então a sombra depende da entrada dele para atravessar.

Miguel assentiu.

— Ela precisa de tanto faz. Se ele escolher alguma coisa pequena, ela perde aderência.

Nina voltou à janela.

— Ruan, você quer água, pão ou ficar aí mais um pouco?

O tablet ficou preto. Por um segundo, a sombra cresceu. Então o menino falou com voz própria, rouca:

— Água.

A sombra recuou meio palmo. Dona Célia colocou um copo d'água no parapeito da janela, ao alcance de quem escolhesse buscá-lo.

— Você pode vir buscar, se quiser. A porta continua fechada. A escolha é sua.

Ruan deu um passo. A sombra tentou imitar a voz de uma mulher:

— Filho, volta.

Yasmin perguntou rápido:

— Se for sua mãe, o que ela sempre pergunta quando você chega da rua?

A sombra respondeu primeiro:

— Onde você estava?

Ruan balançou a cabeça, chorando.

— Ela pergunta se eu comi.

Quando ele pegou o copo, a sombra se partiu em linhas finas e perdeu a forma de coisa convidada. Helena abriu a porta só depois de Ruan beber metade da água e dizer, com todas as letras, que queria entrar e que recusava a companhia da sombra.

Ao atravessar a soleira, o tablet acendeu sozinho. Mostrou mensagens salvas como Coordenação Aurora: Leve o dispositivo até a casa indicada. Não fale com adultos no caminho. Se perguntarem quem chama, responda: ninguém.

Havia outras mensagens acima. Instruções sobre rotas, horários, nomes de ruas. Uma foto da fachada da casa de Dona Célia tirada de longe. Um arquivo chamado protocolo de aproximação, bloqueado por senha.

Helena leu tudo sem tocar na tela.

— Eles já entenderam que não conseguem entrar pela força enquanto tiver gente olhando. Agora estão tentando entrar pelo cuidado.

Yasmin ficou pálida.

— Usando quem precisa de cuidado.

Dona Célia fechou os dedos em volta da bengala.

— É velho. Só mudou a embalagem.

Caio olhou para Helena.

— Eles tentaram entregar a sombra para a gente usando uma criança.

Ruan apertou o copo.

— Eu queria parar. Toda vez que tentava, as coisas perdiam a importância.

Nina se ajoelhou diante dele.

— Agora importa?

Ruan olhou para o copo, para o tablet, para as pessoas na cozinha.

— Água importa.

Dona Célia pegou outro copo.

— Então começamos bem.

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