O quarto que escuta
Do lado de dentro, a porta não existia.
Yasmin virou rápido, ainda esperando encontrar a madeira baixa e a fresta de luz. Queria ver Nina, Bento, Helena e Caio no corredor do outro lado. Encontrou apenas uma parede coberta de telas pequenas. Algumas eram do tamanho de celulares. Outras lembravam televisões antigas, com barriga de vidro e chiado preso no fundo. Todas mostravam alguma versão dela.
Yasmin no pátio da escola, fingindo procurar algo na mochila para não ficar parada sozinha.
Yasmin lendo uma mensagem e apagando a resposta três vezes.
Yasmin rindo alto demais, com medo de que uma pausa denunciasse tudo.
Ela deu um passo para trás.
— Não olha muito — disse Clara.
A amiga estava ao lado do colchão baixo, com os braços cruzados para conter o frio. De perto, a perfeição havia cedido. Pequenos pontos de luz azul cobriam sua pele, semelhantes à poeira deixada por uma obra. Uma mecha de cabelo saía do lugar. Os olhos continuavam sendo os de Clara, agora tomados por um cansaço desconhecido.
— Você é você? — perguntou Yasmin.
Clara tentou sorrir.
— Eu acho.
A resposta foi tão ruim que Yasmin quase riu. Era exatamente o tipo de coisa que Clara diria quando estivesse assustada e tentasse proteger os outros do próprio medo.
Davi apareceu atrás de uma fileira de cabos. Andava devagar, atento a um chão que mudava de lugar sob seus pés. A luz dentro dos olhos dele aumentava quando alguma tela piscava.
— Você fechou? — ele perguntou.
— Eu não. A porta fechou sozinha.
— Sempre fecha.
Yasmin apertou a folha em branco que Bento lhe dera. O papel estava quente, quase vivo. A presilha de Helena marcava a palma da outra mão. Sem a pulseirinha vermelha que ficara com Nina, seu pulso guardava um pequeno vazio.
— Tem saída?
Clara apontou para as paredes.
— Tem muitas.
As telas responderam à palavra. Em várias delas apareceram portas. Portas de quarto, de sala de aula, de ônibus, de casa, de banheiro de shopping, de perfil bloqueado, de conversa arquivada. Uma piscou com o nome de Yasmin escrito em letras brancas. Outra mostrava a cozinha da avó dela, iluminada por sol de fim de tarde, com bolo sobre a mesa.
O cheiro veio junto.
Yasmin fechou os olhos antes que o estômago escolhesse por ela.
— Essas não contam.
O quarto ficou quieto.
Quieto demais.
Todas as telas mostraram Nina do lado de fora. Ela estava no corredor, ajoelhada diante da parede lisa, batendo com os punhos até machucar os dedos. Caio tentava puxá-la. Bento falava alguma coisa com o caderno aberto. Helena olhava para o nada, imóvel após ouvir uma sentença.
Yasmin correu até a tela maior.
— Nina!
Nina não reagiu.
— Ela não escuta — disse Davi.
— Então por que eu vejo?
— Porque ele quer.
Na tela, Nina abriu a mão. A pulseira vermelha estava amarrada no dedo dela. Apertou sozinha uma vez.
Yasmin levou a mão ao próprio peito.
— Ela lembra.
A luz azul falhou no teto.
Davi deu um passo para perto, rápido demais para alguém tão pequeno.
— Faz de novo.
— Fazer o quê?
— Lembrar com ela.
Yasmin olhou para o papel de Bento. A página continuava branca, embora uma mancha cinza surgisse no centro. Uma palavra tentava atravessar pelo avesso.
Clara se aproximou.
— Quando a gente lembra alguma coisa que ele não consegue arrumar, o quarto engasga.
— Como assim arrumar?
Clara apontou para uma tela à esquerda.
Nela, Yasmin se via no aniversário de onze anos. A cena estava errada. A mesa tinha salgadinhos demais. As meninas que faltaram à festa apareciam cantando parabéns. Sua mãe sorria sem cansaço. Clara estava ali, com o braço sobre seu ombro, anos antes do início daquela amizade.
— Ele conserta tudo — disse Clara. — Só que conserta com cola falsa.
A imagem piscou. Por um instante, a festa verdadeira apareceu: mesa simples, poucos convidados, uma tia filmando com o celular na vertical, Yasmin tentando parecer feliz enquanto esperava mensagens que nunca chegaram.
O quarto rangeu.
Davi fechou os olhos, ferido pelo som.
— Não deixa ele trocar.
Yasmin respirou devagar.
Querer uma lembrança melhor era humano. Transformar esse desejo em coleira era a violência.
Ela encostou o papel na tela.
— Meu aniversário de onze anos foi meio ruim.
As luzes diminuíram.
— Eu fiquei olhando para o celular toda hora. Achei que se uma pessoa específica mandasse mensagem, ia provar alguma coisa. Ela não mandou. Eu comi brigadeiro demais e passei mal de noite.
Clara riu baixinho.
— Essa parte você nunca contou.
— Porque é ridícula.
— É você.
A frase atravessou o quarto como uma pedra numa vitrine.
Todas as telas tremeram.
No papel de Bento, surgiu uma palavra escrita em cinza: NOME.
Yasmin arregalou os olhos.
— Bento tinha razão.
— Sobre o quê? — perguntou Clara.
— Papel pega caminho melhor que tela.
Davi esticou a mão, mas parou antes de tocar a folha.
— Não escreve com luz.
— Como eu vou escrever?
Ele apontou para a presilha de Helena.
A presilha era de metal escuro, pontuda numa das extremidades. Yasmin entendeu. Rasgou de leve a ponta do dedo. Doeu menos do que ela esperava, ou talvez tudo ali já doesse bastante. Uma gota pequena de sangue apareceu.
Clara fez careta.
— Que nojo.
— Muito obrigada pelo apoio.
Yasmin escreveu na página, por cima da palavra cinza:
YASMIN MOURA
O quarto inteiro apagou por meio segundo.
No escuro, alguém respirou perto demais de seu ouvido.
Nome é só etiqueta.
Yasmin travou.
A voz ocupava o próprio quarto: o ar e as frestas entre uma lembrança e outra.
Eu posso te dar nomes melhores.
Quando a luz voltou, todas as telas mostravam perfis dela. Yasmin popular. Yasmin indispensável. Yasmin que nunca sobrava. Yasmin em fotos bonitas, cercada de comentários. Yasmin sendo marcada, chamada, escolhida.
A tentação trouxe sede.
Clara pegou sua mão antes que ela percebesse que estava indo para frente.
— Não.
— Eu sei.
— Não sabe tanto assim.
Yasmin olhou para a amiga, ofendida por um segundo. Depois viu que Clara falava de si mesma. Da parte dela que ainda olhava para as telas como quem olha uma janela aberta.
— Como você entrou? — perguntou Yasmin.
Clara abaixou os olhos.
— Eu queria saber se você ainda precisava de mim.
A resposta deixou o quarto mais frio.
— Clara...
— Eu vi você com Nina, Caio, Bento e Helena. Aquilo tinha jeito de grupo de verdade.
— Você continua tendo seu lugar.
— Eu sei agora. Mas ele perguntou primeiro.
Yasmin entendeu. O Monitor não inventava a ferida. Ele chegava antes dos outros com uma explicação pronta.
Davi se encolheu. Na parede atrás dele, uma tela acendeu sozinha. Não mostrava Yasmin, Clara ou os amigos no corredor. Mostrava um menino mais novo, talvez Davi, talvez não, sentado diante de um computador antigo. O quarto era diferente, com paredes amarelas e uma janela de madeira. Na mesa havia uma pedra transparente, cortada de modo irregular, atravessada por um brilho interno.
Bento chamaria de cristal.
Yasmin se aproximou da tela devagar.
— Quem é?
Davi começou a tremer.
— Não sei.
— Você lembra?
— Não é minha lembrança.
A imagem mudou. O menino colocou a mão sobre a pedra. A tela do computador acendeu sem estar ligada. No reflexo escuro, por trás dele, havia uma figura alta feita de luz partida.
No lugar do rosto, havia atenção.
Yasmin sentiu que aquilo era pior.
Na folha, abaixo de seu nome, apareceram novas letras escritas pelo avesso:
PRIMEIRA CASA
Clara leu em voz alta e o quarto gritou.
O grito reuniu o apito de um microfone junto à caixa de som e o estouro de uma lâmpada. Houve também o ruído de arquivo corrompido, chamada caída e mensagem enviada para a pessoa errada. Yasmin tampou os ouvidos. Davi caiu de joelhos. As telas começaram a mostrar corredores, todos iguais e todos errados.
Do lado de fora, na tela maior, Nina levantou de repente.
Ela olhou direto para Yasmin.
Não para a câmera. Para Yasmin.
A boca de Nina se mexeu.
Por um instante não saiu som nenhum. Depois, muito baixo, atravessando vidro, luz e medo, veio uma palavra:
— Nome.
Yasmin apertou a página contra o peito.
— Ela ouviu.
O Monitor apagou todas as telas menos uma.
Nessa última, apareceu uma porta grande no fim de um corredor antigo, com a maçaneta coberta de ferrugem e um símbolo riscado na madeira: um círculo sobre uma linha, igual a um olho aberto no alto de uma antena.
Abaixo da imagem, letras azuis piscaram.
NÃO PROCUREM A PRIMEIRA CASA.
Yasmin, Clara e Davi ficaram imóveis.
Então Caio apareceu na tela, do lado de fora, lendo a mesma frase numa parede que antes era lisa.
Ele sorriu.
Era um sorriso horrível, assustado, brilhante de raiva.
— Agora a gente procura — ele disse, e dessa vez Yasmin ouviu perfeitamente.