Quartos mal copiados O Monitor · Capítulo 11 de 36
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Quartos mal copiados

O corredor por trás da tela era infinito e guardava memórias.

Nina percebeu isso quando passaram pela primeira janela aberta e viram a tentativa de reconstruir o quarto de alguém da escola. Havia cama e escrivaninha. Uma mochila estava jogada no chão, sob um pôster, e o ventilador girava no teto. A montagem convencia apenas quem desviava os olhos depressa.

A cama tinha travesseiro, mas não tinha sombra.

A mochila tinha zíper, mas nenhum puxador.

O pôster mostrava uma banda com seis integrantes, todos com o mesmo rosto.

No chão, um menino do sexto ano dormia sentado, abraçado aos joelhos. Havia fios azuis saindo de suas pálpebras fechadas e subindo até a janela, como raízes ao contrário.

— Ele está aqui? — Yasmin sussurrou.

Davi olhou sem parar de andar.

— Parte dele.

— E a outra parte?

— Na escola. Copiando matéria. Comendo. Dizendo que está tudo bem.

Caio engoliu seco.

— Detesto quando a resposta é pior que a pergunta.

Helena puxou o grupo para longe da janela.

— A gente veio buscar você, Davi. Depois a gente volta pelos outros.

Davi soltou uma risada fraca, quase sem ar.

— Não é assim que funciona.

— Então explica.

Ele apontou para as janelas dos dois lados do corredor. Algumas estavam apagadas. Outras tremiam com imagens de quartos, salas, banheiros, pátios, grupos de mensagem, vídeos em pausa, fotos de família, chamadas congeladas. Em cada uma havia um pedaço de alguém. Criança dormindo. Adolescente sorrindo para uma roda que não existia. Um menino conversando com a versão mais alta de si mesmo. Uma garota sentada em um quarto onde todos os comentários das redes diziam coisas bonitas.

— Ele monta lugar com o que a pessoa quer — Davi disse. — A gente entra porque parece nosso. Depois ele troca as portas.

Bento apertou o caderno contra o peito.

— Troca como?

Davi virou para ele.

— Você acha que está voltando para casa. Mas volta para outro quarto. Depois outro. Depois outro. Até esquecer qual era o verdadeiro.

Nina olhou para trás.

O ponto por onde tinham entrado havia desaparecido.

Não havia monitor. Não havia sala de informática. Apenas mais corredor e mais janelas.

— Pessoal — ela disse.

Todos se viraram.

Caio fechou os olhos.

— Claro. A saída decidiu ir tomar um café.

Helena respirou fundo. Nina viu o esforço dela para não entrar em modo comando. Era quase físico: os ombros subindo, a mandíbula travando, os olhos procurando tarefa onde havia pânico.

— Sem gritar — Helena disse.

— Ninguém gritou — respondeu Caio.

— Estou falando comigo.

Isso calou Caio melhor do que bronca.

Yasmin olhava para uma janela à esquerda. Nina percebeu tarde demais.

Dentro havia o quarto azul.

A roda de meninas estava mais nítida agora. Entre os rostos conhecidos, Yasmin reconheceu Clara, Bia e Júlia. Viu também duas meninas de outra turma e uma garota que seguia na internet, embora nunca tivesse recebido resposta aos seus comentários. Todas riam para acolhê-la, com o tipo de calor que não se pede duas vezes.

A almofada vazia estava no centro.

Yasmin deu um passo.

Nina segurou sua mão.

— Yas.

Yasmin não olhou para ela.

— Elas estão me chamando.

— Eu sei.

— Você não sabe.

A frase saiu mais dura do que ela queria, mas Lúmen aproveitou a rachadura. A janela aumentou. A moldura se abriu como cortina. Um cheiro de hidratante, pipoca doce e lençol limpo saiu do quarto azul. Era um cheiro absurdo, específico, inventado para parecer lembrança.

Uma das meninas estendeu a mão.

— Aqui você não precisa tentar.

Yasmin chorou sem piscar.

— Eu estou cansada de tentar.

Helena se aproximou devagar.

— Eu também.

Yasmin virou um pouco o rosto.

— Não é a mesma coisa.

— É diferente. Eu sei como é achar que, se você parar de se ajustar por um segundo, todo mundo vai embora.

A janela tremeu.

As meninas lá dentro olharam para Helena ao mesmo tempo.

Caio sussurrou para Bento:

— Acho que ele não curte conversa honesta.

Bento folheou o caderno rápido.

— Minha avó escreveu sobre isso. Usou outras palavras.

Yasmin ainda olhava para a mão estendida.

Nina apertou seus dedos.

— Se você entrar, ele vai fazer o quarto ficar perfeito. Mas perfeito do jeito dele. Não do seu.

— E se eu quiser mesmo assim?

Nina sentiu a pergunta como um corte. Não porque fosse egoísta. Porque era verdadeira.

Helena respondeu antes dela:

— Então a gente vai ficar aqui até você querer outra coisa.

Yasmin olhou para Helena e para Nina. Caio e Bento fingiam controlar o desespero; Davi entendia demais.

A mão dentro da janela continuava estendida.

Yasmin deu um passo para trás.

O quarto azul deformou.

A deformação começou pelos sorrisos imóveis. Os olhos das meninas repetiram o mesmo brilho azul. A cama afundou no centro, apodrecida por dentro, e as fotos na parede respiraram. O espaço vazio no círculo cresceu até adquirir o tamanho de uma boca.

Yasmin soltou um som pequeno.

A janela bateu fechada.

No vidro escuro, uma palavra apareceu:

depois

Sem ponto. Sem raiva. Sem pressa.

Isso deu mais medo.

Continuaram andando.

O corredor começou a mudar. As janelas já não mostravam só quartos. Mostravam versões incompletas da própria escola. A biblioteca com prateleiras infinitas. O pátio sem sol. A cantina onde todos os salgadinhos tinham embalagens sem marca e gosto de coisa lembrada errado. A sala de aula com carteiras demais, todas viradas para um quadro onde se lia FIQUE em letras azuis.

Em cada lugar havia alguém ou a sombra de alguém.

Alguns alunos dormiam. Outros exibiam uma felicidade quieta. Havia também os que olhavam para o grupo e os tratavam como intrusos.

Caio parou diante de uma janela pequena.

Nina puxou sua mão, mas ele não se moveu.

— Caio?

Do outro lado havia uma oficina.

Não a bancada perfeita que ele vira antes. Uma oficina real, quase real. Bagunçada, com cheiro de graxa, rádio tocando baixo, copo de café frio, caixa de ferramentas velha. O pai dele estava de costas, tentando encaixar uma peça em um ventilador quebrado.

— Droga — Caio disse.

O pai virou metade do rosto.

— Me ajuda aqui, filho?

A voz estava melhor agora.

Menos metálica.

Mais perigosa.

Caio riu, mas foi uma risada horrível.

— Ele nem sabe consertar ventilador.

— Então vem me ensinar.

Nina segurou a mão de Caio com as duas dela.

— Não é ele.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Caio olhou para a oficina. O pai dele, ou a coisa vestida de pai, esperava com uma paciência que nunca tivera na vida real. Isso era o mais injusto. Lúmen não copiava as pessoas como eram. Copiava como a gente precisava que tivessem sido.

— Eu sei — Caio repetiu, mas a voz quebrou no meio.

Bento se aproximou.

— Minha avó disse que saudade é nossa. Ele só veste.

Caio ficou olhando para o pai.

— Sua avó era meio cruel com frases úteis.

— Era.

Caio respirou fundo e levantou a mão livre para a janela.

Por um instante, Nina achou que ele tocaria.

Mas ele só mostrou o dedo do meio.

— Aprende essa anatomia, luzinha.

A oficina apagou.

O corredor tremeu inteiro. Lúmen oscilava entre a ofensa e a curiosidade.

Yasmin deu uma risada curta.

Caio olhou para ela.

— O quê?

— Nada. Foi idiota. Ajudou.

— Esse é meu dom.

Por um tempo, o grupo avançou melhor ao compreender uma regra: as janelas se fortaleciam diante do desejo escondido. Nomear a tentação enfraquecia a imagem. Rir dela também ajudava. Quando falavam em voz alta sobre a dor, os contornos perdiam nitidez.

Então chegaram ao quarto de Nina.

Ela soube antes de ver.

A janela era maior que as outras, quase uma parede inteira. Do outro lado, seu quarto reunia perfeição e erro. Todos os desenhos estavam emoldurados. A luminária acendia sem fio; o pôster torto fora alinhado. A mãe sorria com orgulho, sentada na cama. No chão, Tomás folheava um caderno dela com o cuidado de quem finalmente entendia.

E, no centro do quarto, a outra Nina desenhava.

A canhota.

A menina levantou o rosto.

Dessa vez, Nina viu.

Era ela, mas mais bonita no sentido que as pessoas diziam sem perceber que machucava: mais arrumada, mais tranquila, mais fácil de gostar. Uma Nina sem excesso. Sem estranheza. Sem medo de mostrar os desenhos.

A outra Nina sorriu.

— Eu terminei para você.

Mostrou o caderno.

No desenho, os cinco estavam no corredor, de mãos dadas. Atrás deles, Davi. Atrás de Davi, muitas crianças. E por trás de todas, uma forma enorme de luz azul, quase um rosto, quase uma porta, quase um olho.

Nina sentiu o ar faltar.

— Isso ainda não aconteceu.

A outra respondeu:

— Mas vai.

O vidro da janela se abriu.

Diferente das outras, não tentou puxar só Nina.

Tentou puxar o desenho.

O caderno real dela, preso contra o peito, abriu sozinho. As páginas viraram furiosamente até encontrar uma folha em branco. Linhas começaram a surgir nela, traçadas por uma mão invisível: o mesmo corredor, o mesmo grupo, a mesma forma azul ao fundo.

Nina tentou fechar o caderno. Não conseguiu.

— Está usando minha mão por dentro — ela disse.

Helena segurou a capa.

Caio agarrou as páginas.

Yasmin pegou o lápis e quebrou ao meio.

As linhas continuaram aparecendo.

Bento abriu o caderno da avó e começou a procurar desesperado.

— Tem que ter alguma coisa. Tem que ter alguma coisa.

Davi deu um passo para trás.

— Ele está vendo pelo desenho.

Nina olhou para a outra Nina atrás da janela.

— Então não olha.

— Como assim? — perguntou Caio.

Nina respirou fundo, pegou a folha que se desenhava sozinha e a rasgou.

Do outro lado da janela, a outra Nina gritou.

Não de dor.

De raiva.

O corredor inteiro escureceu.

As janelas se fecharam ao mesmo tempo.

Por um segundo, tudo ficou preto.

Quando a luz azul voltou, Davi não estava mais com eles.

Yasmin foi a primeira a perceber.

— Cadê ele?

Chamaram. Procuraram. Olharam para trás, para frente, para as janelas fechadas. Nada.

Então ouviram a voz dele, muito longe, vindo de todas as superfícies ao mesmo tempo:

— Eu avisei que ele trocava as portas.

No fim do corredor, uma porta nova apareceu.

No lugar da maçaneta, havia uma câmera pequena que lembrava um olho mágico.

E estava aberta apenas o suficiente para uma criança passar.

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