A sala depois
A sala de informática não aplaudiu ninguém.
Continuou sendo uma sala de informática: mesas arranhadas, cadeiras tortas, cartazes desbotados sobre postura correta no computador, poeira grudada nos cantos dos teclados. A luz de emergência piscava perto da porta. O ar cheirava a fio queimado, chão encerado e chuva, embora lá fora não estivesse chovendo.
Nina atravessou por último e caiu de joelhos.
Yasmin veio junto e segurou sua mão até o fim, resistindo à força que ainda tentava separá-las. Clara apareceu logo depois, trazendo Lili pelo ombro. Caio tropeçou para fora com Júlio e quase derrubou uma fileira de cadeiras. Helena saiu com a postura destruída e o cabelo grudado no rosto. Ainda procurava primeiro quem precisava de ajuda. Bento caiu abraçado ao caderno da avó.
Davi atravessou segurando Miguel.
Foi quando todos pararam.
Miguel Saldanha estava na sala real.
Não completamente.
Seu corpo era feito de luz cansada, uma projeção ameaçada por qualquer respiração forte. Os pés tocavam o chão; as mãos tremiam. Miguel acompanhava tudo com o espanto de uma criança saída de 1978 para um mundo onde até os computadores da escola eram futuristas e velhos ao mesmo tempo.
— Isso é escola? — ele perguntou.
Caio olhou para os computadores, para as cadeiras, para o teto manchado.
— Infelizmente.
Davi apertou a mão dele.
— Você saiu.
Miguel respirou devagar.
— Acho que sim.
No canto da sala, o monitor antigo estava sobre a bancada.
A tela, que antes mostrava portas, olhos e corredores, agora estava trincada em linhas finas. No centro, havia uma moldura escura, pequena, como janela para um lugar muito distante. De vez em quando, uma letra passava do outro lado e sumia.
O Monitor continuava ali, reduzido.
E isso era quase mais assustador.
Helena foi até a porta da sala e tentou abrir.
A maçaneta girou.
Ninguém impediu. Ninguém gritou. Não apareceu frase azul.
Do lado de fora havia o corredor da escola, escuro e vazio, com as luzes de segurança acesas. Um relógio de parede marcava 03h17.
Clara soltou um som que era metade riso, metade soluço.
— A gente ficou a noite inteira lá?
Caio tirou o celular do bolso. A tela estava rachada. Acendeu mesmo assim.
— Sem sinal. Bateria em dois por cento. Mensagens da minha mãe, da escola, da minha mãe, da minha mãe em caixa alta, e uma ligação do... — Ele parou.
Ninguém perguntou.
Mas todos souberam.
O pai dele.
Caio guardou o celular sem abrir a chamada.
— Problema para o Caio do futuro, que eu espero ser mais estável.
Helena olhou para ele.
— Você vai precisar responder.
— Eu sei.
— Não precisa ser agora.
Caio a encarou. Uma gentileza vinda de Helena exigia checagem de autenticidade.
— Obrigado.
— Não acostuma.
Nina ficou diante do monitor antigo.
A tela trincada refletia seu rosto e, atrás dele, dezenas de sombras pequenas. Eram nomes esperando pergunta, alguns em movimento e outros adormecidos.
Nina Saldanha.
A voz veio baixa, pelo alto-falante estourado.
Yasmin apareceu ao lado dela no mesmo instante.
— Com gente, lembra?
Nina assentiu.
— Estou com gente.
O Monitor demorou a responder.
Há nomes que não conseguem escolher.
Bento abriu o caderno. As páginas estavam cheias e organizadas em listas, fragmentos, desenhos de portas e perguntas. Algumas anotações eram dele; outras, da avó Lídia. Encontrou uma página quase limpa e escreveu no topo:
PROTOCOLO DE RETORNO
Caio se inclinou por cima.
— Claro. Agora a gente escreve um manual pós-apocalipse.
Bento segurou a caneta.
— Vamos registrar o que aprendemos.
Nina começou:
— Abrir em grupo. Perguntar e aceitar a resposta dada.
Yasmin continuou:
— Deixar a pessoa sair. Imagem nenhuma substitui quem está do lado de fora.
Bento escreveu a última linha:
CHAMAR. OUVIR. REGISTRAR. VOLTAR.
Helena cruzou os braços.
— Isso parece regra de grupo.
Yasmin olhou para Clara.
— Grupo de verdade dá trabalho.
Clara apertou sua mão.
— Eu sei.
Davi levantou a palavra filho, agora mais próxima de um papel dobrado do que de luz.
— E meu nome?
Todos olharam para ele.
Davi ficou vermelho, mas continuou:
— Eu lembrei. Davi Menezes. Mas minha mãe vai estar brava? Ela percebeu que eu sumi?
Nina se agachou diante dele.
— A gente vai descobrir.
— E se ela não percebeu?
A pergunta era pequena e terrível.
Caio se ajoelhou também.
— Então a gente percebeu. E vai fazer barulho suficiente para ela perceber também.
Davi olhou para ele.
— Você é muito chato.
— Estou vendo que minha influência está salvando vidas.
Lili, que até então não tinha falado muito, sentou no chão com os fones no pescoço.
— Eu não sei onde eu moro.
Júlio levantou a mão devagar.
— Lembro pouco. O pôster ainda está comigo.
Clara respirou fundo.
Nenhum adulto seguro ou explicação pronta os esperava na sala. Um boletim de ocorrência comum jamais comportaria dezenas de resgatados, entre pessoas físicas e possíveis pedaços devolvidos.
Helena tomou a decisão com a cara de quem odiava ser necessária.
— Primeiro, ninguém sai sozinho. Segundo, a gente liga para um adulto que não vá chamar todo mundo de maluco.
Todos olharam para Bento.
Bento abraçou o caderno.
— Minha avó morreu.
O grupo se calou.
— Desculpa — disse Yasmin.
— Tudo bem. Mas ela tinha uma amiga.
Ele folheou o caderno até uma página final, onde havia um telefone escrito com caneta azul antiga.
— Dona Célia. Ela ajudou a esconder o monitor depois do primeiro teste. Minha avó escreveu que, se as portas voltassem, era para chamar ela.
Caio olhou para o número.
— Pessoa que ajudou a esconder um monitor possuído por quarenta anos. Confiável em nível preocupante.
— Melhor que a polícia agora — disse Helena.
Nina olhou para Miguel.
— Você lembra dela?
Miguel fechou os olhos.
— Célia usava trança. Me dava bala de hortelã. Chorou quando Antônio fechou a sala.
— Ela está viva? — perguntou Clara.
Bento olhou para o número.
— Tem que estar.
Caio ergueu o celular rachado.
— Dois por cento de bateria. Vou gastar com uma senhora possivelmente guardiã de tecnologia amaldiçoada. Uso adulto da telefonia.
Ele discou.
A chamada tocou uma vez.
Duas.
Três.
No quarto toque, alguém atendeu.
— Alô?
A voz era velha, áspera, acordada depressa e, ainda assim, já assustada antes de ouvir qualquer coisa.
Bento tomou o celular.
— Dona Célia?
Veio uma pausa.
— Quem fala?
— Bento Arcoverde. Neto da Lídia.
Do outro lado, a respiração mudou.
— O que aconteceu?
Bento olhou para o monitor trincado, para Miguel, para Nina, para as pessoas sentadas no chão da sala de informática.
— As portas voltaram.
Dona Célia não perguntou que portas.
Isso foi resposta suficiente.
— Onde vocês estão?
— Na escola.
— O menino saiu?
Bento olhou para Miguel.
— Saiu.
Do outro lado da linha, a mulher começou a chorar.
Miguel ouviu.
Talvez porque a sala estivesse muito quieta. Talvez porque uma parte dele ainda existisse em toda tecnologia que tinha aprendido a chamá-lo errado. Ele se aproximou do celular com passos cuidadosos.
— Célia?
A respiração da mulher falhou.
— Miguel?
O nome dito por ela não abriu porta nenhuma.
Fez algo melhor.
Fez Miguel parecer mais pesado, mais presente. A luz do corpo dele diminuiu e sua sombra apareceu no chão, fraca, mas real.
— Eu demorei — disse ele.
Dona Célia chorou sem tentar esconder.
— Você não teve culpa, menino.
Miguel apertou os olhos.
Davi segurou sua mão.
O Monitor trincado piscou.
Nome confirmado.
Nina olhou para a tela.
— Não arquiva.
Uma pausa.
Registrado para retorno.
— Melhor — disse Yasmin.
Caio pegou o celular de volta antes que a bateria morresse.
— Dona Célia, precisamos de ajuda, transporte, adulto, talvez advogado e provavelmente café.
— Não mexam no monitor — disse ela.
Todos olharam para o monitor ao mesmo tempo.
— Meio tarde para essa parte — respondeu Caio.
— Então não deixem ninguém mexer mais.
A ligação caiu.
O celular apagou.
Por alguns segundos, o único som foi a luz de emergência zumbindo.
Então, no corredor da escola, passos surgiram.
Os passos estavam perto demais e eram rápidos demais para pertencer a Dona Célia.
Helena apagou a luz da sala com um tapa no interruptor.
Todos se abaixaram.
Pela fresta da porta, passou uma luz branca de lanterna.
Uma voz adulta chamou:
— Tem alguém aí?
Nina reconheceu a voz.
Era o inspetor da escola.
Normal. Cansado. Irritado.
O tipo de adulto que deveria ser alívio.
Mas atrás dele havia outra sombra.
Uma sombra comprida, sem corpo certo, estava parada no corredor. Havia aprendido a sair por lugares pequenos demais.
O escuro atrás da luz ficara do outro lado da porta. Alguma coisa dele, contudo, encontrara uma fresta no mundo real.
No monitor trincado, uma frase apareceu, fraca e urgente:
NÃO RESPONDAM SEM PERGUNTAR QUEM CHAMA.