O caderno da avó O Monitor · Capítulo 4 de 36
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O caderno da avó

Bento Arcoverde não contou para ninguém quando a avó começou a aparecer nos sonhos dele.

Não porque achasse impossível. Bento aceitava pouca coisa como impossível. Já tinha visto formiga carregando asa de barata maior que ela, vendedor de pastel acertando troco sem olhar, nuvem com formato de cavalo-marinho e uma professora de história chorar escondida atrás da biblioteca no dia em que todo mundo dizia que adulto não chorava. O mundo guardava coisas inventadas demais até alguém olhar de perto.

Ele não contou porque sabia o que diriam.

Que era saudade.

Que era normal.

Que o cérebro fazia isso para consolar.

Bento odiava quando alguém explicava uma coisa antes de escutar direito.

Na sexta-feira, depois da aula, ele encontrou Nina, Yasmin e Caio atrás da quadra coberta, perto do depósito de materiais que cheirava a bola velha e pano molhado. Os três estavam com cara de reunião secreta, o que seria mais legal se não parecessem também à beira de vomitar.

— Você disse que sua avó tinha um caderno — Nina falou.

Bento segurou a alça da mochila com as duas mãos.

— Eu disse?

— Disse no começo do ano. Na aula de artes. Quando a professora pediu para levar desenho antigo de família.

Caio olhou para Nina com uma sobrancelha levantada.

— Você lembra disso?

— Eu lembro de desenho.

Bento gostou dela um pouco mais por causa dessa resposta.

Ele era menor que os três, embora não muito. Tinha doze anos, uma franja que sempre parecia ter sido cortada por alguém com pressa e uma mochila cheia demais. Carregava coisas que, segundo a mãe, “não tinham função nenhuma”: tampa de caneta, pedrinhas lisas, chave sem fechadura, três tampinhas azuis iguais, um pedaço de espelho embrulhado em flanela, uma lanterna sem pilha e o caderno da avó.

O caderno nunca saía de casa.

Até aquela semana.

— Por quê? — ele perguntou.

Yasmin respondeu olhando para o chão.

— Porque tem alguma coisa nas telas.

— Tipo vírus?

— Tipo alguém — disse Caio.

Bento esperou a risada. Caio não riu. Isso foi o primeiro sinal de que a conversa talvez valesse a pena.

Nina abriu o próprio caderno e mostrou um desenho. Era uma porta comprida, sem maçaneta, com uma câmera pequena no lugar do olho mágico. Os traços tinham falhas e guardavam algo pior que perfeição: memória. Bento sentiu o estômago afundar.

— Onde você viu isso?

— Num sonho. Depois no monitor de casa.

Bento tirou a mochila das costas.

— Não mexe nas minhas coisas.

— Ninguém ia mexer — disse Yasmin.

— As pessoas mexem. Às vezes sem perceber. Às vezes achando que estão ajudando.

Ele se agachou, abriu o zíper maior e começou a esvaziar a mochila. Tirou o estojo e o caderno da escola. Encontrou um lanche esquecido sob o livro de ciências, cuja capa estava dobrada. Depois veio um saquinho de peças de LEGO que ninguém parecia disposto a reclamar. No fundo estava um caderno preto, menor que os outros, preso com elástico vermelho.

O ar mudou quando Bento colocou o caderno no chão.

Pelo menos foi o que Nina sentiu. Talvez fosse só o vento entrando por baixo da quadra, arrastando folhas secas. Talvez fosse só a expectativa. Mas alguma coisa naquele objeto parecia ter peso demais para o tamanho.

— Era da minha avó Lídia — Bento disse. — Ela escrevia coisas que ninguém levava muito a sério.

— Que tipo de coisa? — perguntou Caio.

— Coisas que agora vocês vão levar mais a sério.

Ele abriu o caderno.

As primeiras páginas tinham receitas, listas de compra, telefones antigos, letras de música incompletas. Depois vinham desenhos. Muitos. Espelhos cobertos por panos. Crianças dormindo com os olhos abertos. Velas diante de bacias d'água. Uma janela escura refletindo uma pessoa que não estava do lado de fora.

Nina se inclinou.

— Ela desenhava bem.

— Ela dizia que não desenhava. Dizia que copiava.

— Copiava de onde?

Bento virou uma página.

Ninguém respondeu por alguns segundos.

O desenho ocupava quase a folha inteira. Era o mesmo corredor que Nina tinha visto, mas mais antigo, sonhado antes das telas existirem. Em vez de monitores nas paredes, havia espelhos. Dezenas de espelhos estreitos, pendurados dos dois lados, todos refletindo uma porta no fim. No lugar da câmera, um círculo claro.

Embaixo, com letra trêmula, estava escrito:

Não é a tela. A tela é só a forma nova da fome.

Caio passou a mão pelo cabelo.

— Tá. Eu oficialmente não gostei disso.

Yasmin abraçou os próprios cotovelos.

— Sua avó viu a mesma coisa?

— Acho que sim. Só que ela chamava de outra coisa.

Bento folheou até uma página marcada por uma fita azul. Nela havia uma palavra escrita várias vezes, cada uma de um jeito diferente:

Lume.

Lúmen.

A luz que lembra.

O olho sem rosto.

A coisa que aprende a gente.

A última frase fez Yasmin apertar os lábios.

— Ela aprende mesmo.

Nina olhou para ela.

— O que ele te disse?

Yasmin demorou. Quando falou, a voz veio menor.

— Coisas que eu não tinha contado.

Bento assentiu, com a gravidade de quem fecha uma conta.

— Minha avó dizia que ele não arromba a porta. Ele descobre qual porta a pessoa quer abrir.

Caio se levantou e deu dois passos para longe.

— Isso está ficando muito poético para o meu gosto.

— Você prefere técnico? — Bento perguntou.

— Muito.

— Então pensa assim: ele acha uma falha.

Caio parou.

Bento continuou, os olhos no caderno:

— Só que a falha não é no computador. É na pessoa.

Ninguém gostou da frase. Justamente por isso ela ficou.

O vento mexeu as páginas. Bento segurou o caderno rápido, mas uma folha solta escapou de dentro e deslizou pelo chão da quadra. Nina pegou antes que fosse para debaixo da arquibancada.

Era um desenho diferente. Mais simples. Um círculo de crianças de mãos dadas em volta de um espelho coberto. No centro do espelho, apesar do pano, havia uma luz tentando atravessar. A legenda dizia:

Sozinho, ele chama. Juntos, ele imita mal.

Nina leu em voz alta.

— O que significa?

Bento deu de ombros, mas seu rosto mudou. Ficou mais velho por um segundo.

— Minha avó morreu antes de explicar tudo.

— Desculpa — disse Yasmin.

— Tudo bem. As pessoas sempre dizem isso quando não tem nada para consertar.

Caio olhou para ele, mas não fez piada.

Bento pegou a folha das mãos de Nina e guardou com cuidado. Depois virou para as últimas páginas do caderno. A letra ali era mais irregular. Algumas palavras pareciam escritas às pressas, outras riscadas até rasgar o papel.

— Tem uma parte que eu não mostrei para ninguém.

— Por quê? — perguntou Nina.

— Porque achei que, se eu fingisse que não entendi, talvez não fosse comigo.

Ele mostrou a página.

Havia um desenho de cristais enterrados sob camadas escuras de terra. Compridos e irregulares, eram atravessados por veios de luz. Em volta deles, a avó de Bento desenhara chamas, raízes e fios, feito cabos entrando no chão.

A legenda era curta:

Quando a luz encontrar pedra para virar corpo, cubram os olhos das crianças.

Yasmin deu um passo para trás.

— Isso fala da gente?

— Sei pouco — Bento respondeu.

Ainda assim, a resposta não soou convincente.

Um sinal tocou dentro do prédio. O som atravessou a quadra coberta, metálico e comprido. Todos se assustaram um pouco, embora nenhum admitisse.

No bolso de Caio, o celular vibrou.

Ele não pegou.

Vibrou de novo.

— Não atende — disse Nina.

— Não é ligação.

— Então pior.

Caio tirou o celular devagar. A tela estava bloqueada. Uma notificação sem aplicativo aparecia no alto, com o mesmo ícone preto de círculo azul que Yasmin já tinha visto.

ela nao terminou de escrever

Bento ficou pálido.

— Quem?

A notificação mudou.

lidia

O nome da avó dele apareceu sem acento, sem carinho, sem voz. Só letras frias numa tela comum.

Bento avançou para pegar o celular, mas Caio afastou a mão.

— Espera.

— Me dá.

— Bento...

— Me dá!

Nina segurou o braço dele, não com força, só o bastante para impedir o impulso.

— Ele quer que você toque.

Bento respirava rápido. Os olhos estavam cheios de raiva, mas por trás da raiva havia uma coisa mais difícil de olhar: esperança.

O celular vibrou pela terceira vez.

quer ouvir a voz dela?

A quadra pareceu ficar maior e mais vazia. Até os barulhos da escola se afastaram. Bento olhou para a mensagem feito porta aberta para o cômodo onde ele deixara metade da vida.

Yasmin, que até então estava quieta, falou:

— Não responde.

Ele olhou para ela.

— Você respondeu?

Yasmin não disse nada.

Essa resposta bastou.

Bento puxou o braço, pegou o caderno do chão e o apertou contra o peito.

— Minha avó não falaria assim.

A frase saiu fraca no começo. Depois ficou mais firme, como se ele estivesse repetindo para si mesmo.

— Minha avó não falaria assim.

A notificação piscou.

Por um segundo, o círculo azul no ícone pareceu se estreitar, como um olho irritado.

Depois a tela apagou.

Caio soltou o ar.

— Tá. Então temos uma coisa que sabe usar morto em conversa.

— Não fala assim — disse Bento.

— Desculpa. Sério.

Dessa vez, Bento pareceu acreditar.

Nina olhou para o caderno, para o celular apagado, para a quadra quase vazia.

— A gente precisa descobrir o que sua avó não terminou de escrever.

Bento passou a mão pela capa preta.

— Tem uma caixa em casa. Com mais coisas dela.

— Então a gente vai lá — disse Yasmin.

Todos olharam para ela.

Yasmin tentou parecer indiferente, mas não conseguiu.

— O quê? Eu não quero ficar sozinha hoje.

Ninguém fez piada. Ninguém disse que era drama. Ninguém explicou que ela estava com medo.

Por alguns segundos, ficaram só os quatro ali, diferentes demais, desconfortáveis demais, unidos por uma coisa que nenhum adulto ainda tinha visto.

No alto da quadra, uma lâmpada piscou.

Uma vez.

Duas.

Na terceira, continuou acesa.

Mas, bem no centro do vidro da lâmpada, havia um ponto azul olhando para baixo.

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