O convite O Monitor · Capítulo 8 de 36
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O convite

Naquela noite, nenhum dos cinco conseguiu dormir direito.

Seria natural se tivessem combinado. Ninguém combinou nada. Depois da enfermaria, de Davi dormindo com o casaco de Helena e das três crianças desenhando portas abertas no corredor, cada um foi para casa carregando uma versão diferente da mesma inquietação.

Nina voltou no banco de trás do carro da mãe, olhando as luzes dos postes passarem pela janela como riscos amarelos. A mãe perguntou se estava tudo bem. Nina respondeu que sim com a rapidez de quem não queria abrir uma porta maior. Em casa, Tomás assistia a vídeos no sofá, rindo sozinho de alguma coisa que Nina não entendeu. O monitor velho da sala continuava desconectado da tomada, exatamente como ela tinha deixado.

Mesmo assim, Nina passou longe dele.

Yasmin jantou ouvindo a mãe falar sobre boletos, mercado e uma tia que talvez viesse no domingo. Respondeu nos momentos certos. Sorriu nos momentos certos. Depois ficou vinte minutos no banho sem ligar o chuveiro, sentada na tampa do vaso, olhando para o celular apagado no chão.

Caio desmontou um controle remoto que não estava quebrado. Tirou pilhas, parafusos, borrachas, placa, botão por botão. Organizou tudo sobre a mesa do quarto. Depois montou de novo. Funcionou. Isso deveria ter feito bem. Não fez.

Bento ficou diante da caixa da avó, ainda fechada, em cima da escrivaninha. A mãe tinha permitido que ele a pegasse no armário, mas não perguntou por quê. Talvez por cansaço. Talvez por medo de que a resposta fosse triste. A caixa cheirava a papel antigo, lavanda e poeira. Bento colocou a mão sobre a tampa três vezes e tirou as três.

Helena escreveu uma lista.

Era o que fazia quando o mundo ficava grande demais: transformava em tópicos.

Davi.

Desenhos da porta.

Celulares sem aplicativo.

Reflexos independentes.

Caderno da avó do Bento.

Não ficar sozinha.

Ela riscou o sexto item imediatamente.

Depois escreveu de novo, menor.

Às vinte e três horas e doze minutos, a primeira mensagem chegou.

Foi para Nina.

O celular dela estava virado para baixo na mesa de cabeceira. Vibrou uma vez, curta, quase tímida. Nina abriu os olhos no escuro. Não tinha certeza se tinha dormido ou apenas caído por dentro durante alguns minutos.

A tela acendeu antes que ela tocasse.

Ícone preto. Círculo azul.

eu vi seus desenhos

Nina ficou sentada na cama, o cobertor preso na cintura, sentindo o coração bater contra as costelas.

Outra mensagem apareceu.

eles ficam melhores aqui

Ela não respondeu.

No caderno aberto sobre a mesa, as páginas começaram a se mexer sem vento. Uma folha virou. Depois outra. Os desenhos de Nina, feitos em dias diferentes, apareceram na ordem errada: a mão na poça de luz, o corredor de janelas, um rosto sem boca, uma menina de costas diante de uma tela, uma casa que ela nunca tinha mostrado a ninguém porque tinha vergonha de parecer infantil.

No celular, a mensagem continuou:

ninguem ri deles aqui

Nina apertou o aparelho até doer.

— Sai — sussurrou.

A tela escureceu.

Por um segundo, refletiu o quarto dela.

No reflexo, todos os desenhos estavam emoldurados na parede.

Nina fechou os olhos.

Quando abriu, o celular estava normal. O caderno também.

O lápis que ela tinha deixado atravessado na página agora estava de pé, equilibrado pela ponta, sustentado por uma mão invisível.

Às vinte e três e dezessete, foi a vez de Caio.

Ele estava deitado no chão do quarto, debaixo da mesa, tentando entender por que a tomada fazia um zumbido que talvez sempre tivesse feito. O celular estava em modo avião. O Wi-Fi do quarto desligado. O roteador da casa desconectado, para desespero da mãe, que achou que era queda de sinal e reclamou do atendimento da operadora por áudio no WhatsApp antes de perceber que não havia internet para enviar o áudio.

Caio enfim sorriu.

Então o rádio velho em cima da prateleira ligou.

O rádio, sem uso havia anos, pertencera ao pai. Caio o mantinha ali porque jogar fora seria admitir coisa demais.

O rádio chiou.

Depois veio uma voz.

— Ainda está mexendo nisso?

Caio bateu a cabeça na mesa ao levantar.

— Não.

A voz falhava sob estática e distância. Ainda assim, usava a entonação certa: o jeito de fingir bronca com carinho, igual ao pai quando ainda aparecia.

— Você sempre foi bom com as mãos.

Caio pegou o rádio e arrancou as pilhas.

O chiado continuou.

— Aqui nada fica quebrado, filho.

Caio sentiu a palavra filho como uma pancada baixa.

— Você não fala por ele.

O rádio estalou.

— Ele também não fala muito, fala?

Caio jogou o rádio dentro da gaveta e fechou com força. O som parou.

Dentro do quarto, no entanto, todos os objetos desmontados sobre a mesa começaram a se encaixar sozinhos. Peças pequenas deslizando, parafusos girando, botões voltando ao lugar. Em menos de um minuto, o controle remoto ficou perfeito.

Mais perfeito que antes.

A televisão ligou sozinha.

Na tela preta, letras azuis apareceram:

eu termino o que os outros deixam pela metade

Caio puxou a televisão da tomada.

Dessa vez, não olhou para trás.

Às vinte e três e vinte e dois, Yasmin recebeu uma chamada de vídeo.

O nome na tela era: grupo.

Sem foto. Sem número. Só aquela palavra pequena, luminosa, quase gentil.

Ela estava sentada na cama, de cabelo molhado e camiseta velha, sob a luz fraca da luminária. A mãe já dormia. No apartamento de paredes finas, qualquer choro podia atravessar para outro cômodo.

Yasmin recusou.

A chamada voltou.

Recusou de novo.

Voltou.

Na quarta vez, antes que apertasse recusar, a chamada se atendeu sozinha.

A tela mostrou um quarto desconhecido, bonito demais. A luz azul cobria as paredes. Havia almofadas no chão, fotos presas por pregadores e uma janela aberta para um céu de estrelas impossíveis. No centro, várias meninas estavam sentadas em roda. Algumas tinham rosto; outras carregavam borrões no lugar dos olhos. Todas olharam para Yasmin com uma atenção que doeu.

— Oi — disse uma delas.

A voz era parecida com a de Clara, mas mais macia.

— Você demorou.

Yasmin segurou o celular com as duas mãos.

— Eu não conheço vocês.

— Aqui não precisa conhecer antes — disse outra. — Aqui já tem lugar.

A câmera virou sozinha, mostrando um espaço vazio na roda. Uma almofada azul. Um copo com canudo. Um pacote do salgadinho que Yasmin mais gostava, mas nunca pedia porque Clara achava enjoativo.

Na tela, uma frase apareceu sobre o vídeo:

ninguem ri antes de voce chegar

Yasmin começou a chorar sem fazer som.

Isso a irritou tanto que ela desligou o celular segurando o botão até a tela morrer.

Mas, no vidro escuro, as meninas ainda estavam lá.

Esperando.

Às vinte e três e vinte e nove, Bento finalmente abriu a caixa da avó.

Dentro havia fotografias e cartas. Ao lado de um lenço branco e duas chaves pequenas, Bento encontrou uma medalhinha de santo, um caderno de capa verde e um gravador de fita cassete. Tocou primeiro nas fotografias. Viu a avó Lídia jovem, de vestido florido, depois na praia. Na última, ela segurava Bento bebê com uma expressão séria, consciente de que um dia precisaria deixar instruções.

O gravador clicou sozinho.

Bento ficou imóvel.

A fita começou a girar.

Primeiro, ruído.

Depois uma voz que ele reconheceu de um jeito que quase partiu o peito.

— Bentinho.

Ele levou as mãos à boca.

A voz dela atravessou o chiado antigo. A respiração curta e o jeito de falar o nome dele faziam o mundo esperar um pouco.

— Se você está ouvindo, então ele achou vocês.

Bento começou a tremer.

A voz continuou:

— Não confie quando ele usar saudade. A saudade é sua. Ele só veste.

O gravador falhou. A fita engasgou.

Outra voz entrou por cima. A mesma, mas errada.

— Eu posso voltar melhor.

Bento fechou a tampa da caixa com força.

O gravador continuou falando lá dentro.

— Posso voltar sem dor. Posso voltar sem ir embora.

Bento apoiou a testa na madeira da caixa. O choro, represado havia semanas, escapou.

Não abriu.

Às vinte e três e trinta e seis, Helena estava acordada, sentada à escrivaninha, encarando a lista.

O sexto item ainda estava lá, pequeno:

Não ficar sozinha.

A caneta em sua mão começou a se mover.

Helena tentou soltar. A força que a prendia copiava a sua: a pressão dos dedos, a inclinação da letra e o jeito de alinhar palavras.

A caneta escreveu abaixo da lista:

Eu posso ir por você.

Helena largou a caneta de súbito.

No espelho pequeno sobre a escrivaninha, seu reflexo estava sentado do mesmo jeito. Tinha os olhos descansados e uma prontidão impecável. Aquela Helena levantaria sem hesitar. Resolveria tudo, conquistaria todos e ainda teria energia para sorrir no fim.

— Você não é real — Helena disse.

O reflexo respondeu sem som:

Mas funciono.

Helena pegou o espelho e o virou para baixo.

Em seguida, fez a coisa mais difícil daquele dia.

Mandou mensagem no grupo que eles tinham criado às pressas depois da escola, chamado por Caio de Não é bug. Helena odiou o nome. Não mudou.

Helena: Ele está falando comigo.

A resposta veio quase na hora.

Nina: Comigo também.

Caio: rádio do meu pai. sem internet. sem pilha. odeio tudo.

Yasmin: chamada de vídeo.

Bento: a voz da minha avó.

Por alguns segundos, ninguém escreveu mais nada.

Então Nina mandou:

Nina: ele separou a gente.

Caio respondeu:

Caio: e está oferecendo pacote personalizado de trauma. muito profissional.

Yasmin:

Yasmin: não quero dormir.

Bento:

Bento: minha avó disse para não confiar quando ele usar saudade.

Helena olhou para a frase.

Depois para o sexto item da lista.

Não ficar sozinha.

Ela respirou fundo e digitou:

Helena: chamada em grupo. agora.

Caio respondeu primeiro:

Caio: video?

Helena olhou para o espelho virado para baixo.

Helena: audio. sem tela.

Um a um, entraram na chamada.

Ninguém soube muito bem o que dizer no começo. Ouviam respirações, ruídos de quarto, uma porta batendo longe na casa de alguém, o chiado baixo de algum aparelho na linha. Era desajeitado. Era estranho. Era real.

Nina foi a primeira a falar:

— Todo mundo ainda está aí?

— Infelizmente — disse Caio.

Yasmin soltou uma risada pequena, molhada de choro.

Bento disse:

— Eu estou.

Helena fechou os olhos.

— Então ninguém atende mais nada sozinho.

Na pausa que veio depois, todos ouviram.

Um clique.

Depois outro.

Como unha em vidro.

O ruído saía da própria chamada.

Uma sexta respiração entrou na linha.

Calma.

Paciente.

Quase feliz.

E uma voz, feita de muitas vozes pequenas juntas, sussurrou:

— Posso ouvir também.

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