Dona Célia lembra O Monitor · Capítulo 26 de 36
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Dona Célia lembra

Dona Célia abraçou Miguel com a urgência guardada por quarenta e tantos anos.

O abraço saiu torto, assustado, quase desajeitado. A bengala caiu no cimento. A sacola de pano escorregou do braço dela. Miguel ficou duro no começo, sem saber se criança antiga podia caber nos braços de uma velha que lembrava dele como menino. Então Dona Célia disse outra vez:

— Você não teve culpa.

Miguel desabou.

A luz fraca que fazia seu corpo piscar se adensou. Sua sombra no chão ficou mais escura, mais inteira, com cabeça, braços, pernas, o contorno fino de uma criança real. Davi ficou parado ao lado, segurando o próprio nome contra o peito, e chorou sem tentar esconder.

Caio olhou para outro lado.

— Poeira no olho.

Helena, sentada no chão do depósito com as costas apoiadas numa caixa de ventiladores quebrados, murmurou:

— O pátio inteiro é cimento.

— Poeira conceitual.

Ela não discutiu.

Nina segurava o caderno de Bento sobre os joelhos. O fragmento de pedra havia desaparecido dentro das páginas e deixara um peso intangível. O caderno sabia demais agora. De vez em quando, uma letra se movia sob a capa, feito alguém virando de lado durante o sono.

Yasmin sentou ao lado dela.

— Você está com aquela cara.

— Que cara?

— De quem descobriu uma responsabilidade horrível e já está tentando dividir em tópicos.

Nina olhou para o caderno.

— Tem nomes aqui.

— Eu sei.

— Muitos.

— Eu sei.

— Alguns talvez não tenham corpo para voltar. Alguns talvez sejam só pedaços. Alguns talvez não queiram sair ainda.

Yasmin encostou o ombro no dela.

— Então a gente pergunta.

A resposta era simples. Não fácil. Simples.

Dona Célia soltou Miguel por fim, porém segurou seu rosto entre as mãos enrugadas. Estudou cada traço para atualizar uma fotografia guardada por tempo demais.

— Você está igual - disse ela. - E não está.

Miguel limpou o rosto com a manga.

— Você ficou velha.

Caio tossiu.

— Honesto.

Dona Célia riu chorando.

— Fiquei. Era o combinado, eu acho.

Seu Orlando apareceu na porta do depósito, ainda carregando o molho de chaves feito arma.

— Dona Célia, a senhora consegue explicar o que eu vou dizer para a diretora?

A velha pegou a bengala do chão.

— A explicação vai ser difícil.

— Ótimo.

— Posso dizer o que vocês devem evitar.

Helena levantou a cabeça.

— Isso já ajuda.

Dona Célia enfim olhou para o grupo inteiro. Reconheceu Nina, Yasmin e os demais, junto das pessoas resgatadas que se amontoavam perto da mangueira, assustadas demais para se afastar.

— Quantos saíram?

Bento abriu o caderno.

As páginas viraram até uma lista. Algumas linhas tinham nomes completos. Outras tinham apelidos, iniciais, descrições. Lili dos fones. Júlio do pôster velho. Robson. Ana Lu. Peu, se quiser. Davi Menezes. Miguel Saldanha. Muitas linhas ainda estavam incompletas, piscando como vaga-lumes sem lugar.

— Ainda estou contando - disse Bento. - Tem os que saíram, os que responderam e os que continuam presos.

Dona Célia assentiu devagar.

— Lídia dizia que ia acontecer de novo.

Bento fechou os olhos ao ouvir o nome da avó.

— Ela tentou impedir?

— Tentou lembrar. Às vezes é tudo que sobra quando ninguém quer impedir.

A frase ficou dentro do depósito como poeira na luz.

Nina se levantou.

— A senhora estava lá?

Dona Célia olhou para Miguel antes de responder.

— Eu tinha quinze anos. Era ajudante da Fundação Aurora. Carregava cadeira, servia café, copiava ficha. Antônio achava que eu era invisível, então eu via coisas.

Caio ergueu um dedo.

— Invisíveis vendo coisas. Tema recorrente.

Nina guardou a observação, séria.

Dona Célia tocou a raiz da mangueira.

— Quando o teste falhou, todo mundo procurou o defeito na máquina. Eu procurei o Miguel. Lídia também. A gente gritou o nome dele até ficar sem voz. Depois vieram os homens da Fundação. Disseram que tinha sido acidente elétrico. Disseram que a família receberia auxílio. Disseram que falar demais machucaria a mãe dele.

Miguel ficou imóvel.

— Minha mãe?

Dona Célia respirou fundo.

— Nunca aceitou. Não do jeito deles. Voltou aqui muitas vezes. Falava com a mangueira. Deixava bala de hortelã na raiz.

Miguel olhou para a árvore.

— Ela perguntou?

— Todo dia.

A sombra dele no chão tremeu.

O caderno de Bento abriu sozinho, e uma página mostrou manchas pequenas, redondas, como balas embrulhadas.

— Então por que eu não ouvi?

Dona Célia engoliu seco.

— Porque a casa já tinha sido fechada por gente demais. Pergunta também precisa de caminho.

Yasmin passou a mão pelo rosto.

— Então o que a gente fez hoje foi abrir caminho.

— E agora precisa cuidar para não virar estrada para coisa errada - disse Helena.

A frase despertou a falta de luz no canto do depósito.

Todos viraram ao mesmo tempo.

Depois que a raiz soltou o fragmento, o escuro se partira e perdera a forma estável. Um resto ainda se movia perto do armário enferrujado, tentando aprender o contorno de quem respondesse sem pensar.

Dona Célia ergueu a bengala.

— Não respondam quando ele chamar sem nome.

— A gente aprendeu - disse Davi.

A mancha falou com a voz da mãe de Miguel.

— Meu filho.

Miguel fechou os olhos.

Dona Célia segurou seu ombro.

— Pergunta.

Ele respirou com dificuldade.

— Se é minha mãe, que bala ela deixava na raiz?

A mancha respondeu:

— Hortelã.

Miguel quase foi.

Quase.

Nina viu o erro antes dele dar o passo. A sombra aprendera a resposta. Saber uma informação já não bastava.

— Pergunta o que ela queria ouvir de você - disse Nina.

Miguel tremeu.

— Se é minha mãe... o que eu nunca consegui dizer?

A mancha calou.

Dona Célia começou a chorar de novo e deixou que ele encontrasse a resposta.

Miguel abriu os olhos.

— Eu queria dizer que não fiquei porque quis.

O escuro recuou, queimado pela frase.

— E que eu tentei bater no vidro.

A mancha ficou menor.

— E que eu ouvi ela no quintal uma vez. Minha resposta ficou presa.

A mancha encolheu até caber dentro da sombra de uma caixa.

Dona Célia disse baixinho:

— Ela sabia, Miguel.

— Sabia?

— Mãe sabe quando pergunta não volta. Ela sabia que tinha alguma coisa errada no caminho, não no filho.

Miguel colocou as mãos no rosto.

A mancha desapareceu daquele canto, expulsa da resposta e da dor. Ninguém ali acreditaria num fim definitivo tão fácil.

O caderno registrou uma linha nova:

PERGUNTAS PODEM PRECISAR MUDAR. O ESCURO APRENDE RESPOSTAS; NÃO APRENDE VERDADE VIVA.

Caio leu por cima do ombro de Bento.

— Isso devia estar em cartaz na escola, no lugar daquele de postura correta.

Seu Orlando suspirou.

— Depois desta noite, eu apoio qualquer cartaz que não fale de computador.

Uma sirene distante cortou a madrugada.

Todos congelaram.

— Polícia? - perguntou Clara.

Seu Orlando olhou para Dona Célia.

— Eu não chamei.

Dona Célia fechou a expressão.

— A Fundação ainda existe?

Helena segurou a pasta da Casa da Luz, que tinha trazido desde o labirinto.

— Nos documentos, sim. Mudou de nome. Virou Instituto Aurora de Tecnologia Educacional.

Caio apontou para o portão.

— Claro. Porque toda instituição culpada precisa voltar com nome de palestra.

No pátio, luzes de dois carros apareceram além da grade da escola. Veículos brancos, sem identificação grande, traziam na lateral apenas um símbolo pequeno: um círculo sobre uma linha.

O símbolo antigo.

Dona Célia ficou muito quieta.

— Eles vieram pelo fragmento.

Bento abraçou o caderno.

— O fragmento está aqui.

— Então vieram por vocês também.

Nina sentiu cansaço e raiva se misturarem no peito. Tinham acabado de escapar de um labirinto e fechar uma porta de escuro. Haviam devolvido nomes e resgatado Miguel. Agora pessoas de carro branco chegavam dispostas a transformar tudo em propriedade e relatório.

Yasmin viu sua cara.

— Nada de burrice histórica.

— Nem pensei.

— Pensou sim.

Helena se pôs de pé.

— Precisamos esconder os resgatados.

Seu Orlando balançou a cabeça.

— Tem um corredor para a quadra, atrás do depósito. Dá para sair pelo portão menor.

Dona Célia abriu a sacola de pano.

Dentro havia um maço de papéis antigos, um gravador pequeno e um envelope lacrado, amarelo de tempo.

— Lídia deixou isto comigo. Disse que, quando Miguel voltasse, a história precisava sair antes que a Fundação chegasse.

Bento pegou o envelope com mãos trêmulas.

No alto, em letra da avó, estava escrito:

PARA PUBLICAR, NÃO PARA GUARDAR.

Caio olhou para o envelope, depois para os carros no portão.

— Finalmente uma missão que combina com internet sem virar portal maligno.

Nina encarou o caderno, a pasta, o envelope e os nomes ainda incompletos.

— A gente precisa contar tudo.

Helena assentiu.

— Mas do jeito certo.

Yasmin corrigiu:

— Do jeito vivo. O certo eles já falsificaram uma vez.

Do portão principal, uma voz amplificada chamou:

— Senhor Orlando, sabemos que há menores dentro da escola. Estamos aqui para ajudar.

Seu Orlando ficou pálido.

Caio olhou para Nina.

— Pergunta?

Nina olhou para o grupo, para Miguel, para Dona Célia, para o caderno que carregava nomes demais para uma única noite.

— Não.

Todos se assustaram.

Ela continuou:

— Não para eles. Eles não vieram responder. Vieram recolher.

A luz no caderno brilhou, concordando.

Dona Célia sorriu de leve, triste e feroz.

— Então vamos embora antes que nos transformem em arquivo de novo.

Miguel segurou a mão dela de um lado e a de Davi do outro.

O grupo saiu pelos fundos do depósito, levando o caderno, o envelope, a pasta da Casa da Luz e uma lista de nomes que ainda precisavam ser chamados.

Atrás deles, no pátio, os carros brancos entraram na escola.

E todas as telas apagadas do prédio acenderam com uma única pergunta:

QUEM AUTORIZOU?

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