Sonhos iguais
Na segunda-feira, vinte e sete alunos desenharam a mesma porta.
Ninguém percebeu de uma vez. Coisas estranhas raramente anunciam a entrada numa sala. Elas se espalham por canto, margem, intervalo, rabisco de caderno, conversa interrompida. Primeiro foi Lara, do sétimo ano, que desenhou uma porta sem maçaneta no verso da prova de geografia. Depois foi um menino do sexto, no papel de pão da cantina. Depois uma aluna do nono, com caneta preta, na própria mão.
Às dez e vinte, antes do recreio, Nina viu a quarta.
Era pequena, desenhada no canto do quadro branco da sala, quase escondida atrás da data. Uma porta comprida, com um círculo no lugar da maçaneta. A linha era torta, feita por alguém sem paciência ou sem controle, mas Nina reconheceu o formato antes de querer reconhecer.
Ela parou no meio da sala.
— Quem fez isso?
Metade da turma continuou conversando. A outra metade olhou para ela com aquele interesse preguiçoso diante de alguém prestes a passar vergonha.
— Fez o quê? — perguntou Clara, sentada sobre a carteira de Yasmin.
Nina apontou.
Clara virou, viu o desenho e deu de ombros.
— Uma porta?
— Quem desenhou?
— Sei lá. Deve ter sido o Murilo. Ele desenha caveira em tudo.
Murilo levantou as mãos do outro lado da sala.
— Eu desenho caveira boa, tá? Essa porta aí é triste.
Alguns riram.
Nina não.
Yasmin, que estava tentando parecer ocupada arrumando o estojo, ficou muito quieta. Caio largou o fone em cima da mesa. Helena, duas fileiras à frente, virou apenas o suficiente para ver a porta e depois encarou Nina com um aviso claro: não aqui.
Bento não estava na sala deles. Mesmo assim, cinco minutos depois, apareceu na porta com uma folha amassada na mão e o uniforme meio para fora da bermuda.
— Vocês precisam ver uma coisa.
— Agora não — disse Helena.
— Agora sim.
Ele estendeu a folha.
Havia sete portas desenhadas ali. Sete versões ruins da mesma porta, copiadas de cadernos diferentes. Embaixo, Bento tinha escrito nomes, turmas e horários.
Caio se levantou.
— De onde você tirou isso?
— Eu perguntei.
— Para quem?
— Para pessoas.
— Isso explica muito.
Bento não sorriu.
— Todas sonharam com um corredor ontem.
O barulho da sala pareceu diminuir um pouco, embora ninguém além deles tivesse parado de falar.
Yasmin pegou a folha da mão dele.
— Todas?
— As que eu consegui perguntar sem parecer mais esquisito que o normal.
Helena puxou a folha para ver melhor.
— Isso não prova que foi sonho. Pode ser alguém espalhando a imagem.
— Não tinha imagem para espalhar — disse Nina.
— Agora tem — Caio respondeu, olhando para o quadro.
O desenho da porta continuava ali, pequeno e imóvel. O círculo no centro clareava. Um ponto pálido, quase azul, no meio da tinta preta.
A professora de português entrou antes que alguém pudesse apagar.
Dona Marta era baixa, usava óculos pendurados por uma corrente fina e tinha a incrível capacidade de perceber chiclete a quinze metros, mas não perceber tragédia nenhuma quando a tragédia estava sentada com uniforme completo. Ela colocou os livros sobre a mesa, olhou para a turma e bateu palmas uma vez.
— Sentados. Hoje é produção textual.
Murilo reclamou. Clara perguntou se podia ser em dupla. Alguém no fundo imitou um choro. Dona Marta ignorou todos com experiência profissional.
— O tema está no quadro.
Nina sentiu o peito gelar.
A professora virou para escrever.
Parou diante da porta desenhada.
— Quem fez isso?
Dessa vez, ninguém riu.
Dona Marta pegou o apagador e passou sobre o desenho. A porta sumiu em uma nuvem branca de pó de marcador. Por um instante, o quadro ficou limpo.
Depois, bem devagar, a linha da porta apareceu de novo.
Não desenhada.
Emergindo.
Por trás do branco.
Yasmin prendeu a respiração. Caio murmurou um palavrão baixo. Helena fechou a mão ao redor da folha de Bento. Nina sentiu o mesmo gosto metálico do medo que tinha sentido na sala de casa.
Dona Marta piscou.
Passou o apagador outra vez, com mais força.
A porta desapareceu.
E voltou.
Agora com uma frase embaixo.
ENTRE
A pausa durou três segundos.
Depois a sala explodiu.
Alunos levantaram. Celulares apareceram. Murilo gritou que era edição ao vivo. Clara riu, mas a risada falhou no meio. Dona Marta mandou todo mundo sentar, depois mandou ninguém filmar, depois filmou ela mesma sem perceber que estava com o celular na mão.
Na tela do celular da professora, o quadro apareceu vazio.
— Não está gravando — disse Caio.
Nina olhou para ele.
— Como você sabe?
— Porque é assim que ele faz.
O ele escapou antes de Caio pensar. Ninguém corrigiu.
Dona Marta saiu para chamar a coordenação. Assim que a porta da sala fechou, todos os alunos se levantaram de vez. Alguns foram até o quadro e passaram a mão no desenho. Outros filmaram a própria reação. Teve quem achasse engraçado, quem achasse montagem, quem dissesse que era desafio novo da internet.
Um menino chamado Davi ficou parado, olhando.
Ele era do tipo que quase nunca falava. Sentava no canto, tirava notas medianas, usava sempre o mesmo casaco mesmo no calor e parecia pedir desculpa antes de ocupar espaço. Nina só sabia o nome dele porque tinha visto na chamada.
Davi estendeu a mão para o quadro.
— Não encosta — disse Nina.
Ele não ouviu.
Ou ouviu e não se importou.
Quando a ponta dos dedos tocou o círculo no desenho, a luz da sala piscou. Todos gritaram, mas foi um grito curto, mais de susto que de pânico. Davi não gritou.
Ele sorriu.
Não muito. Só um sorriso pequeno, aliviado, de quem finalmente encontra uma cadeira vazia depois de tempo demais em pé.
— Eles lembraram de mim — Davi disse.
Yasmin ficou branca.
— Quem?
Davi virou para ela.
Os olhos dele estavam normais. Era isso que dava medo.
— Lá dentro.
A porta da sala abriu de repente. Dona Marta voltou com a coordenadora Silene, que tinha a expressão oficial de quem já decidira que aquilo seria classificado como indisciplina coletiva antes de entender qualquer coisa.
— Todo mundo sentado agora — disse Silene.
Ninguém obedeceu de primeira. Ela apagou o quadro com movimentos duros, sem olhar para a porta mais do que precisava. Dessa vez, o desenho sumiu e não voltou. Talvez porque a coordenadora estivesse vendo. Talvez porque a coisa tivesse conseguido o que queria.
Silene confiscou três celulares, deu bronca em Murilo sem motivo claro e disse que qualquer brincadeira envolvendo símbolos, desafios, sustos ou “essas coisas de rede social” seria tratada com seriedade.
— Estamos em uma escola, não em um circo — completou.
Caio sussurrou:
— Nunca fui num circo que invadisse quadro branco.
Helena pisou no pé dele sem olhar.
Depois da aula, a escola inteira já falava da porta.
Falava errado, claro. Diziam que alguém hackeou o projetor, embora não houvesse projetor ligado. Diziam que Davi tinha desmaiado, embora ele continuasse andando. Diziam que Nina sabia de tudo porque era ela quem desenhava coisa esquisita. Diziam que Yasmin chorou, que Caio quebrou um computador, que Bento fazia parte de uma religião secreta, que Helena estava organizando uma reunião para proibir celular.
Nenhuma versão era verdadeira.
Mas todas ajudavam a espalhar.
No intervalo, os desenhos começaram a aparecer em outros lugares. Na parede perto da cantina. No vapor do espelho do banheiro feminino. No vidro do bebedouro. No canto de uma folha de exercício. Na tela rachada de um celular antigo que ninguém conseguia ligar havia semanas.
As frases eram piores que as portas.
AQUI TEM LUGAR.
NINGUEM FICA DE FORA.
SONHE DE NOVO.
Sem acento. Sem voz. Sem erro suficiente para parecer humano.
Yasmin leu a segunda frase no espelho do banheiro e precisou sentar no chão.
Nina ficou ao lado dela.
— Não olha muito.
— Eu sei.
— Sabe?
Yasmin deu uma risada curta, sem graça.
— Só estou tentando parecer que sei.
Nina quase sorriu. Quase era alguma coisa.
Helena chegou logo depois, seguida por Caio e Bento. Ninguém precisou combinar onde se encontrar. A escola inteira os empurrava para o mesmo ponto.
Bento abriu o caderno da avó no chão do banheiro, o que teria sido nojento em qualquer outro dia. Naquele, ninguém comentou.
— Tem uma anotação sobre sonhos repetidos — ele disse.
Caio se agachou.
— Ótimo. Porque aparentemente agora temos pacote família.
Bento passou o dedo por uma página amarelada.
— “Quando muitos sonham a mesma entrada, não é sonho. É chamada.”
Nina sentiu um arrepio subir pelos braços.
— Chamada para onde?
Bento não respondeu na hora. Virou a página.
Havia um desenho de várias crianças dormindo em camas diferentes, todas ligadas por fios saindo dos olhos. Os fios encontravam uma porta no centro da folha. Atrás da porta, um círculo azul.
— Para dentro — ele disse.
A palavra ficou entre eles.
Do lado de fora do banheiro, o sinal tocou. Ninguém se mexeu.
Então ouviram passos.
Lentos.
Um de cada vez.
Helena guardou o celular. Caio pegou o primeiro objeto que encontrou, um rodo encostado no canto. Nina fechou o caderno dela. Yasmin levantou do chão. Bento abraçou o caderno da avó.
A porta do banheiro abriu.
Davi estava do outro lado.
Sozinho.
Ele olhou para os cinco com o alívio estranho de quem os procurava desde cedo.
— Vocês ainda estão do lado errado — disse.
Yasmin deu um passo para trás.
— Davi?
Ele sorriu o mesmo sorriso pequeno de antes.
— Não tem Davi lá.
A luz do banheiro piscou.
No espelho atrás deles, o reflexo da porta apareceu de novo.
Dessa vez, estava aberta.