Azul de caneta mordida O Monitor · Capítulo 35 de 36
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Azul de caneta mordida

Duas semanas depois, Nina voltou para a escola.

A sala de informática estava interditada. Havia fita amarela na porta, um cartaz oficial dizendo manutenção preventiva e, por baixo, escrito de caneta por alguém anônimo: perguntem antes de lacrar. Seu Orlando fingiu não ver a frase. Depois fingiu também não ter colocado fita transparente por cima para a limpeza não apagar.

A escola inteira oscilava entre rumor e recusa. Alguns alunos tratavam Nina feito celebridade; outros evitavam chegar perto. Um menino perguntou se era verdade que ela tinha namorado um fantasma digital. Yasmin respondeu por ela com uma calma mais assustadora que um grito:

— Não espalha coisa que você não teve coragem de perguntar direito.

Davi voltou para casa no mesmo dia em que sua mãe chegou à casa de Dona Célia chorando tanto que quase perdeu a voz ao dizer o nome dele. Contou aos poucos. Disse que ficou preso, que teve medo, que gostava de estegossauro e que agora queria que perguntassem antes de chamá-lo de pequeno.

A mãe dele perguntou:

— Você quer colo ou espaço?

Davi escolheu colo primeiro. Espaço depois. Os dois foram respeitados.

Miguel ficou com Dona Célia enquanto Tereza tentava explicar juridicamente a existência de uma criança desaparecida em 1978 e reaparecida com sombra inteira, idade impossível e certidão ainda arquivada como morte presumida não declarada. Quando alguém perguntava a Miguel quantos anos tinha, ele respondia:

— Hoje, dez. No papel, ainda veremos.

Helena passou a falar menos e dizer mais. A mãe dela trouxe advogados, contatos e uma planilha que até Caio respeitou. Em troca, Helena contou sem frase perfeita que tinha medo de virar imagem de si mesma. A mãe chorou de um jeito contido e perguntou se podia abraçá-la. Helena autorizou um abraço rápido, que se alongou sem comentário.

Yasmin e Clara tiveram uma conversa que começou horrível, piorou e depois encontrou rumo. Admitiram inveja, abandono e o medo de sobrar. Saíram ainda feridas, levando uma regra: quem se sentisse do lado de fora perguntaria antes de sumir.

Caio recebeu outra ligação do pai. Dessa vez atendeu.

— Eu esperei mensagem sua. Isso foi ridículo e foi verdade. Não sei o que fazer com você agora.

Desligou tremendo. Depois mandou mensagem para o grupo: avancei uma fase péssima da vida adulta.

A rede de perguntas continuava em turnos, formulários cuidadosos e ligações mediadas por gente que aprendia a dizer não sei.

Mari e Estrela mandaram uma foto sem rostos: duas mãos segurando um caderno com estrelas nos cantos. A legenda dizia: perto, mas com janela.

O Instituto Aurora persistiu. Tentou derrubar páginas, questionou documentos, chamou Renata de irresponsável e acusou Dona Célia de manipular menores. Encontrou espelhos, Seu Orlando, Tereza e uma comunidade que começava a lembrar.

Nina descobriu que lembrar exigia trabalho.

Na terceira semana, ela desenhou a primeira porta sem medo. Escolheu o azul irregular de uma caneta mordida, com falhas deixadas pela tampa amassada entre os dentes. A porta tinha maçaneta, dobradiça e batente. Do lado de fora, mãos de idades diferentes cercavam uma pulseira vermelha e um caderno. A última era feita de luz.

Yasmin olhou o desenho.

— Essa porta abre para onde?

Nina pensou.

— Para fora, com companhia.

Naquela tarde, antes de ir embora, Nina parou diante da sala de informática interditada. O vidro da porta refletiu seu rosto, o corredor e, por um instante, uma moldura rachada atrás dela.

Nina Saldanha.

Ela não se assustou.

— Quem chama?

A moldura piscou.

Abertura. Há três nomes que responderam hoje. Dois pediram tempo. Um pediu música.

Nina encostou a testa no vidro frio.

— Então pergunta qual música.

A moldura apagou.

Seu Orlando apareceu no fim do corredor.

— Está falando com a porta, cidadã?

— Estou perguntando.

Ele assentiu com a naturalidade de um comentário sobre o tempo.

— Então tudo bem. Só não perde a última aula.

Nina foi para a sala e sentou perto da janela pelo gosto da luz.

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