Azul de caneta mordida
Duas semanas depois, Nina voltou para a escola.
A sala de informática estava interditada. Havia fita amarela na porta, um cartaz oficial dizendo manutenção preventiva e, por baixo, escrito de caneta por alguém anônimo: perguntem antes de lacrar. Seu Orlando fingiu não ver a frase. Depois fingiu também não ter colocado fita transparente por cima para a limpeza não apagar.
A escola inteira oscilava entre rumor e recusa. Alguns alunos tratavam Nina feito celebridade; outros evitavam chegar perto. Um menino perguntou se era verdade que ela tinha namorado um fantasma digital. Yasmin respondeu por ela com uma calma mais assustadora que um grito:
— Não espalha coisa que você não teve coragem de perguntar direito.
Davi voltou para casa no mesmo dia em que sua mãe chegou à casa de Dona Célia chorando tanto que quase perdeu a voz ao dizer o nome dele. Contou aos poucos. Disse que ficou preso, que teve medo, que gostava de estegossauro e que agora queria que perguntassem antes de chamá-lo de pequeno.
A mãe dele perguntou:
— Você quer colo ou espaço?
Davi escolheu colo primeiro. Espaço depois. Os dois foram respeitados.
Miguel ficou com Dona Célia enquanto Tereza tentava explicar juridicamente a existência de uma criança desaparecida em 1978 e reaparecida com sombra inteira, idade impossível e certidão ainda arquivada como morte presumida não declarada. Quando alguém perguntava a Miguel quantos anos tinha, ele respondia:
— Hoje, dez. No papel, ainda veremos.
Helena passou a falar menos e dizer mais. A mãe dela trouxe advogados, contatos e uma planilha que até Caio respeitou. Em troca, Helena contou sem frase perfeita que tinha medo de virar imagem de si mesma. A mãe chorou de um jeito contido e perguntou se podia abraçá-la. Helena autorizou um abraço rápido, que se alongou sem comentário.
Yasmin e Clara tiveram uma conversa que começou horrível, piorou e depois encontrou rumo. Admitiram inveja, abandono e o medo de sobrar. Saíram ainda feridas, levando uma regra: quem se sentisse do lado de fora perguntaria antes de sumir.
Caio recebeu outra ligação do pai. Dessa vez atendeu.
— Eu esperei mensagem sua. Isso foi ridículo e foi verdade. Não sei o que fazer com você agora.
Desligou tremendo. Depois mandou mensagem para o grupo: avancei uma fase péssima da vida adulta.
A rede de perguntas continuava em turnos, formulários cuidadosos e ligações mediadas por gente que aprendia a dizer não sei.
Mari e Estrela mandaram uma foto sem rostos: duas mãos segurando um caderno com estrelas nos cantos. A legenda dizia: perto, mas com janela.
O Instituto Aurora persistiu. Tentou derrubar páginas, questionou documentos, chamou Renata de irresponsável e acusou Dona Célia de manipular menores. Encontrou espelhos, Seu Orlando, Tereza e uma comunidade que começava a lembrar.
Nina descobriu que lembrar exigia trabalho.
Na terceira semana, ela desenhou a primeira porta sem medo. Escolheu o azul irregular de uma caneta mordida, com falhas deixadas pela tampa amassada entre os dentes. A porta tinha maçaneta, dobradiça e batente. Do lado de fora, mãos de idades diferentes cercavam uma pulseira vermelha e um caderno. A última era feita de luz.
Yasmin olhou o desenho.
— Essa porta abre para onde?
Nina pensou.
— Para fora, com companhia.
Naquela tarde, antes de ir embora, Nina parou diante da sala de informática interditada. O vidro da porta refletiu seu rosto, o corredor e, por um instante, uma moldura rachada atrás dela.
Nina Saldanha.
Ela não se assustou.
— Quem chama?
A moldura piscou.
Abertura. Há três nomes que responderam hoje. Dois pediram tempo. Um pediu música.
Nina encostou a testa no vidro frio.
— Então pergunta qual música.
A moldura apagou.
Seu Orlando apareceu no fim do corredor.
— Está falando com a porta, cidadã?
— Estou perguntando.
Ele assentiu com a naturalidade de um comentário sobre o tempo.
— Então tudo bem. Só não perde a última aula.
Nina foi para a sala e sentou perto da janela pelo gosto da luz.