A porta por dentro
A porta começou a destrancar além do corredor.
Nina ouviu primeiro. Um clique baixo e metálico se repetiu dentro do osso do ouvido. Vieram o segundo e o terceiro. A cada som, a pulseira vermelha apertava seu dedo e soltava. Yasmin tentava mandar uma mensagem em código.
— Ela está chamando — disse Nina.
Caio olhou para a parede onde a frase ainda brilhava.
A ÚLTIMA SALDANHA ABRE POR DENTRO.
— Ou ele está chamando usando ela.
Nina sabia que Caio tinha razão. O problema era que, naquele lugar, quase tudo que tinha razão também era inútil.
Helena segurava a pasta da Casa da Luz contra o peito. A fotografia de 1978 estava por cima, presa sob o polegar. No vidro da janela antiga, a figura sem rosto havia se aproximado um pouco mais.
— Se Nina abre por dentro, por dentro de quê? — perguntou Helena.
Bento respondeu sem levantar os olhos do caderno.
— Da casa. Da tela. Da memória. Talvez dele.
— Você podia escolher uma opção menos horrível.
— Eu não escrevi as regras.
O corredor mudou enquanto falavam. As portas empilhadas nas laterais se recolheram para dentro das paredes. O chão escureceu e alisou, refletindo os quatro com atraso. No reflexo, Nina surgia diante da casa da mangueira torta, com a mão na maçaneta.
Ela pisou para trás.
No reflexo, a outra Nina não se moveu.
— Não olha para baixo — disse Caio.
O aviso chegou tarde. Todos olharam.
No chão espelhado, cada um via uma coisa diferente. Caio viu uma cozinha vazia. Bento viu a avó Lídia sentada numa cadeira, escrevendo com pressa. Helena viu sua própria versão perfeita, imóvel como retrato de formatura. Nina viu a casa.
E, na casa, a porta abriu.
Do lado de dentro, Yasmin gritou.
O som atravessou o corredor inteiro. Não veio claro. Veio torcido, misturado a estática, mas era dela.
— Nina!
Nina se abaixou e encostou a mão no chão reflexivo.
— Estou aqui!
O reflexo grudou nos dedos dela como água grossa. Caio tentou puxá-la, mas Bento segurou o braço dele.
— Espera.
— Espera nada! O chão está tentando comer a mão dela.
— Não está puxando. Está respondendo.
Nina fechou os olhos.
Viu Yasmin sem tela entre as duas.
A amiga estava no quarto das telas, agora transformado. As paredes se curvavam para dentro e respiravam. Clara segurava a folha com o nome de Yasmin escrito em sangue. Davi ficava perto da porta do aviso, feita de madeira antiga e marcada pelo símbolo de um círculo sobre uma linha.
Acima da porta, letras azuis piscavam:
CASA DA LUZ
— A gente achou a origem — disse Nina, sem saber se falava alto ou apenas pensava.
Yasmin ouviu.
— A gente também.
A conexão tremeu. O rosto de Yasmin falhou, substituído por uma versão dela sorrindo com serenidade falsa.
Ela quer ficar.
Nina apertou os dedos contra o chão.
— Não fala por ela.
O Monitor respondeu com muitas vozes ao mesmo tempo, todas macias demais.
Eu só organizo o que vocês espalham.
Então mostrou a Nina uma cena impossível. Yasmin estava sentada num quarto claro, rodeada por amigos atentos. Todas as mensagens haviam recebido resposta; todos os convites tinham sido aceitos. Clara ria ao lado dela enquanto Davi brincava no chão. Tudo parecia salvo.
Mas ninguém piscava.
Nina respirou fundo.
— Yasmin Moura — ela disse.
A imagem rachou.
— Clara Teixeira.
Outra rachadura.
— Davi...
Ela travou. Não sabia o sobrenome de Davi.
Do outro lado, o menino ouviu o espaço vazio.
A luz nos olhos dele diminuiu um pouco.
— Eu não lembro — disse Davi.
A porta da Casa da Luz abriu uma fresta.
Lá dentro havia uma sala antiga, com paredes amarelas, fios no chão e o monitor bege sobre uma mesa. A pedra transparente brilhava no centro. Diante dela estava sentado outro menino.
Ele virou.
Tinha o rosto de alguém que passara tempo demais esperando ser chamado.
— O primeiro também esqueceu — sussurrou Bento, ajoelhado ao lado de Nina no corredor.
Nina não perguntou como ele sabia. O caderno da avó estava aberto, e as páginas viravam sozinhas.
Helena leu, rápida:
— "Quando a luz toma o nome, deixa a pessoa como janela."
Caio empalideceu.
— Davi virou janela.
No quarto, Davi levou as mãos ao rosto.
— Eu tenho nome.
Yasmin se ajoelhou diante dele.
— Tem. A gente vai descobrir inteiro.
— E se não tiver mais inteiro?
A pergunta atravessou Nina como uma coisa gelada. Ela não tinha resposta bonita. Nenhum deles tinha. Talvez esse fosse o ponto.
Nina apoiou a outra mão no chão.
— Davi gosta de dinossauro de plástico verde.
Caio piscou.
— O quê?
— Eu vi no primeiro dia. Ele carregava um no bolso e fingiu que não quando caiu.
Do outro lado, Davi levantou a cabeça.
— O estegossauro.
A palavra saiu pequena, mas era dele.
Bento entrou rápido:
— Davi desenha sol com risco demais.
Helena, depois de um segundo:
— Davi odeia que chamem ele de bebê.
Caio coçou a nuca, desconfortável.
— Davi me chamou de tio uma vez só pra me irritar.
No quarto, Clara riu chorando.
— Davi molha bolacha no refrigerante, o que é um crime.
Davi sorriu.
Foi um sorriso real, torto, pequeno, com um dente um pouco desalinhado. A luz azul dos olhos dele recuou como maré.
A porta da Casa da Luz rangeu.
O menino de 1978 do outro lado colocou a mão sobre a pedra.
Não devolvam a janela.
A voz do Monitor perdeu a suavidade. Ficou fina, irritada, quase humana.
Vocês não sabem cuidar do que querem.
Yasmin se levantou.
— E você sabe?
As telas ao redor dela acenderam com centenas de rostos. Crianças vazias, adolescentes presos em versões melhores de si, adultos sorrindo para chamadas que nunca terminavam. Todos olhavam para Yasmin ao mesmo tempo.
Eu preservo.
— Você empalha — disse Caio, do corredor.
Por algum milagre de raiva, a frase chegou ao quarto.
Yasmin sorriu.
— Ele ouviu isso?
— Espero que sim — respondeu Caio.
A conexão ficou mais firme. O chão reflexivo subiu em volta da mão de Nina até o pulso. O frio veio sem dor. Ela viu a casa de 1978 por dentro. Antônio Saldanha tentava desligar os cabos enquanto a pedra brilhava. Uma mulher puxava crianças para fora. O menino com a pedra ficou para trás porque ninguém percebeu sua ausência.
Nina entendeu.
— Ele foi esquecido.
Bento ficou imóvel.
— Quem?
— O primeiro menino. Na confusão. Todo mundo correu. Ele ficou na frente da tela.
Helena levou a mão à boca.
— E a luz aprendeu com isso.
O corredor estalou.
A figura sem rosto apareceu no fim do caminho, alta demais, feita de brilho rachado e sombra. Não corria. Não precisava. Cada passo dela fazia as portas invisíveis tremerem.
Eu aprendi que vocês chamam amor aquilo que abandonam quando assusta.
Ninguém falou.
Porque a frase era injusta, cruel, monstruosa.
E ainda assim tinha uma lasca de verdade antiga.
Nina olhou para o reflexo, para Yasmin, para Davi, para Clara, para a porta da Casa da Luz. Depois olhou para os amigos ao redor.
— Eu vou abrir.
Caio respondeu na hora:
— Péssima ideia.
— Eu sei.
— Nina.
— Se eu não abrir, a Yasmin não sai. A Clara não sai. O Davi não sai inteiro. E a gente nunca chega na primeira criança.
Bento segurou o caderno com as duas mãos.
— Minha avó escreveu que abrir por dentro cobra lembrança.
— Que tipo de lembrança?
Ele não queria responder. Isso ficou claro no rosto.
Helena respondeu por ele, lendo a página:
— "A casa aceita apenas memória sem enfeite."
Nina riu baixo, sem alegria.
— Então vamos ter que ser honestos. Que tragédia.
Caio se ajoelhou ao lado dela. Pôs a mão sobre o chão também. Fez careta quando o reflexo agarrou seus dedos.
— Se você vai abrir, não abre sozinha.
Bento colocou a mão depois. Helena demorou um segundo a mais, respirou como quem entra em palco sem maquiagem, e tocou o chão.
Do outro lado, Yasmin pegou a mão de Clara. Clara pegou a de Davi.
A porta da Casa da Luz começou a abrir.
A figura do Monitor avançou.
Na fresta, o menino de 1978 olhou para Nina e disse uma palavra livre de ameaça.
— Lembra.
Então a porta abriu inteira, e todos caíram para dentro da primeira casa.