O núcleo dos nomes O Monitor · Capítulo 19 de 36
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O núcleo dos nomes

A porta preta pediu que entrassem sozinhos.

Ninguém se mexeu.

O corredor inteiro prendeu a respiração. As portas abertas nas paredes continuavam congeladas. Havia gente parada no meio da saída, com um pé fora do quarto ou uma mão no batente. Cada rosto guardava medo e esperança. Diante do núcleo, o Monitor perdera luminosidade e ganhara peso. Já desistira de parecer bonito.

Entrem sozinhos.

A voz veio de dentro da fresta preta.

Davi apertou a mão de Miguel.

— Eu não quero.

— Então já é uma péssima ideia — disse Caio. — Crianças pequenas têm bom senso quando adultos e adolescentes estão tentando virar lenda urbana.

Helena olhou para ele.

— Você está se incluindo em qual categoria?

— Na dos que querem ir embora vivos.

Bento estava com o caderno aberto, mas a página continuava branca. Isso o assustava mais do que qualquer frase ameaçadora. O caderno da avó sempre tinha alguma coisa. Um aviso, uma pista, uma metáfora irritante. Agora não havia nada.

— Ele cortou a escrita — disse Bento.

Miguel balançou a cabeça.

— Não. Lá dentro não tem lembrança escrita. Só nome guardado.

Nina encarou a porta.

A escuridão do núcleo vinha de uma luz que desistira de mostrar. Lembrava uma tela desligada em quarto escuro: quanto mais Nina olhava, mais via o próprio reflexo tentando aparecer.

— O que acontece se alguém entrar sozinho? — perguntou Yasmin.

Miguel demorou para responder.

— A pessoa encontra a versão dela que aceitou ficar.

Clara estremeceu.

— E se perder?

— A porta ganha outro nome.

Caio ergueu as mãos.

— Beleza. Votação encerrada. Ninguém entra.

O Monitor inclinou a cabeça.

Então eles ficam.

As pessoas congeladas nas portas tremeram. Algumas começaram a recuar para dentro dos quartos, como vídeos sendo rebobinados. A menina dos fones levou as mãos aos ouvidos de novo. O garoto do controle remoto sentou no tapete. A mulher adulta sorriu para a própria juventude perfeita.

Nina deu um passo.

Yasmin segurou sua mão.

— Não sozinha.

— Ele disse que tem que ser.

— Ele também diz um monte de coisa com voz de geladeira possuída. Não é exatamente fonte confiável.

Caio apontou para Yasmin.

— Finalmente, método científico.

Helena respirou fundo.

— Se o núcleo separa, a gente entra já se misturando.

Bento olhou para ela.

— Como?

Helena pareceu se arrepender de ter falado antes de ter uma resposta completa.

— Cada um leva uma coisa real de outro. Uma lembrança, uma vergonha, um detalhe. Algo que o Monitor não consiga transformar em perfil bonito.

Clara assentiu devagar.

— Tipo uma senha humana.

Caio fez uma careta.

— Eu odeio que isso faça sentido.

O Monitor permaneceu imóvel. A fresta da porta preta aumentou um pouco, movida pela fome de ouvir.

Nina virou para Yasmin.

— Você leva minha coisa.

— Qual?

Nina engoliu seco.

— Eu tenho medo de virar só observadora. Se eu começar a sumir lá dentro, você me chama de intrometida.

Yasmin piscou.

— Intrometida?

— É o contrário de desaparecer.

Yasmin sorriu, mesmo com os olhos molhados.

— Fechado.

Ela virou para Clara.

— Você leva a minha: eu quero ser escolhida, mas eu não quero mais aceitar qualquer escolha.

Clara segurou essa frase como quem pega algo frágil.

— Eu levo.

Clara olhou para Davi.

— Você leva a minha: eu fiquei com inveja e voltei mesmo assim.

Davi franziu a testa.

— Inveja é quando a pessoa quer o dinossauro do outro?

— Mais ou menos.

— Então eu levo.

Davi virou para Miguel.

— Você leva que eu gosto de estegossauro e que eu sou pequeno, mas não sou pouco.

Miguel repetiu baixinho:

— Pequeno não é pouco.

O corredor tremeu.

Miguel olhou para Bento.

— Você leva a minha. Eu fiquei quieto porque achei que quieto merecia ficar.

Bento fechou os dedos em torno do caderno.

— Eu levo. E você leva a minha: eu tenho medo de acreditar na minha avó e estar sozinho nisso.

Miguel colocou a mão sobre a capa do caderno.

— Você não está.

Bento mordeu o lábio, rápido, e virou para Caio.

— Você leva meu medo.

Caio tentou responder com piada, mas a voz falhou antes.

— Tá. Eu levo.

— E eu levo o seu? — perguntou Bento.

Caio olhou para a porta preta.

— Eu espero mensagem de quem me abandonou.

O grupo recebeu a frase com cuidado.

Bento assentiu.

— Eu levo.

Caio virou para Helena.

— Você leva que eu faço piada quando estou assustado.

Helena quase sorriu.

— Isso não é segredo, Caio.

— Mas é defesa.

— Então eu levo.

Helena ficou quieta por um segundo.

Depois disse:

— Você leva a minha. Eu treino sorriso porque acho que meu rosto pode me denunciar.

Caio não fez piada.

— Levo.

Helena virou para Nina.

— E você leva que eu não sou tão forte quanto pareço.

Nina segurou sua mão.

— Ninguém aqui é.

— Você mudou a frase combinada.

— Mas é melhor.

A porta preta rangeu.

Vocês estão apenas me dando mais material.

Nina olhou para a figura sem rosto.

— Não. A gente está tirando de você o direito de contar sozinho.

Dessa vez, o Monitor respondeu com raiva.

O corredor se curvou. As paredes aproximaram as portas abertas, espremendo os rostos congelados para dentro de molduras estreitas. As telas acenderam com versões perfeitas do grupo: Nina invisível e em paz, Yasmin amada por todos, Clara perdoada sem conversa, Davi grande e corajoso, Miguel nunca esquecido, Bento acreditado por todos, Caio indiferente ao pai, Helena impecável sem esforço.

Cada imagem chamava pelo nome certo.

Por um instante, ninguém era imune.

A versão de Caio indiferente sorriu para ele, e Caio sentiu o alívio como uma cama limpa. A versão de Helena impecável não precisava explicar nada, e Helena quase chorou de inveja de si mesma. Nina viu a paz assustadora de não querer mais ser vista. Yasmin viu uma mesa cheia de gente que a escolheria primeiro, sempre.

Então Clara disse:

— Yasmin Moura quer ser escolhida, mas não por qualquer mentira.

Yasmin acordou como quem puxa ar depois de mergulhar.

— Nina Saldanha é intrometida — disse ela, rápido.

Nina riu. A versão invisível dela rachou.

— Helena Vidal não é tão forte quanto parece.

Helena respirou.

— Caio Ferraz faz piada quando está com medo.

Caio piscou, voltando.

— Bento Arcoverde não está sozinho com a avó dele.

Bento apertou o caderno.

— Miguel Saldanha ficou quieto, mas não merecia ficar.

Miguel ergueu o rosto.

— Davi é pequeno, mas não é pouco.

Davi sorriu com medo e coragem misturados.

— Clara Teixeira teve inveja e voltou mesmo assim.

Clara soltou um soluço.

O círculo estava completo.

A porta preta abriu inteira.

Do outro lado, um espaço vertical era feito de nomes suspensos. Milhares de letras flutuavam no escuro, inteiras ou quebradas. Nomes próprios se misturavam a apelidos e iniciais. Palavras infantis para coisas importantes giravam ao redor de uma estrutura enorme: vó, mano, filha, sumido, meu amor, campeão, pequena, professorinha, peste.

Era um monitor formado por todas as telas do mundo esmagadas numa só. Um olho retangular, cercado por vidro e luz. No lugar da imagem, uma boca escura guardava os nomes presos.

O Monitor verdadeiro tinha um arquivo no lugar do rosto.

Entrem sozinhos.

A voz veio de todos os nomes ao mesmo tempo.

Nina segurou Yasmin. Yasmin segurou Clara. Clara segurou Davi. Davi segurou Miguel. Miguel segurou Bento. Bento segurou Caio. Caio segurou Helena. Helena segurou Nina.

O círculo deles era estranho, desconfortável e nada heroico. Braços cruzados, mãos suadas, cotovelos batendo. Um grupo sem pose.

Entraram juntos.

O núcleo tentou separá-los imediatamente.

O chão sumiu sob os pés. Cada um caiu para uma direção diferente, puxado por um nome que doía. Caio ouviu a voz do pai; Helena, aplausos. Yasmin recebeu notificações, enquanto Nina foi cercada pela ausência de som. Bento ouviu risadas de adultos. Clara ficou do lado de fora de uma conversa. Davi escutou que era pequeno demais. Para Miguel, uma porta se fechou em 1978.

Mas cada dor vinha agora com outra voz junto.

— Intrometida! — gritou Yasmin, de algum lugar.

— Não é pouco! — gritou Miguel.

— Voltou mesmo assim! — gritou Davi.

— Piada quando está com medo! — gritou Helena.

— Não está sozinho! — gritou Caio.

As frases eram tortas, incompletas, quase ridículas.

Por isso funcionavam.

O núcleo perdeu aderência. Os nomes no ar começaram a se acender, um por um, com a irritação de gente recém-acordada. Algumas letras se juntaram. Outras escaparam da boca escura do monitor central e voaram para portas distantes.

Vocês não podem devolver todos.

Nina flutuava no escuro, segurando a mão de Helena e sentindo os dedos de Yasmin quase escaparem.

— Não hoje — ela disse. — Mas podemos abrir a saída.

O Monitor riu.

Saída para onde? O mundo que os esqueceu?

A pergunta caiu pesada.

Alguns nomes pararam de brilhar.

Miguel olhou para eles, entendendo melhor do que todos.

— Voltar dói.

A boca escura do monitor se abriu maior.

Ficar também dói menos com o tempo.

— Não — disse Miguel.

Ele soltou a mão de Davi.

Davi gritou.

— Miguel!

— Eu preciso lembrar de dentro.

Antes que alguém pudesse impedir, Miguel se lançou em direção ao monitor central. O corpo dele virou luz quente, pequena, atravessando o escuro como uma faísca teimosa. O Monitor tentou fechar a boca, mas Miguel era o primeiro nome. A primeira falha. A primeira criança que ele usara para aprender a prender.

E agora Miguel lembrava.

— Miguel Saldanha! — gritou Nina.

Todos repetiram.

O nome bateu no núcleo.

Miguel entrou no centro do Monitor e, por um instante, todas as telas do labirinto mostraram um menino de dez anos dizendo:

— Eu não sou a casa. Eu quero ir pra casa.

A boca escura rachou.

Uma chuva de nomes caiu sobre o grupo.

Poucos eram legíveis. Havia sílabas, sensações e apelidos sem dono. Cada fragmento que tocava o círculo abria uma porta em algum lugar do labirinto.

Yasmin segurou um nome que veio como calor de recreio.

Clara segurou outro que cheirava a shampoo infantil.

Caio pegou uma inicial que pesava como chave.

Bento deixou várias caírem sobre o caderno, e as páginas finalmente voltaram a escrever.

Helena segurou um apelido bobo e não riu.

Davi pegou uma palavra pequena: filho.

O Monitor recuou, mas não morreu.

O olho retangular fechou parcialmente, ferido, furioso, ainda enorme. A voz dele veio baixa, sem beleza:

Então escolham quem sai primeiro.

O núcleo começou a desabar.

As portas abertas tremiam. As pessoas descongeladas gritavam de todos os lados. Miguel não reapareceu.

Nina sentiu o círculo se partir.

No meio da queda, o caderno de Bento abriu uma última frase:

QUEM ABRE A SAÍDA PRECISA FICAR SEGURANDO.

Nina entendeu antes de querer entender.

A saída estava aberta.

Mas alguém teria que segurá-la por dentro.

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