Universo da obra
Universo da obra
Nina Saldanha acordou antes do despertador, com a certeza de que alguém ainda olhava para ela.
A certeza veio pequena demais para fazê-la gritar ou acender todas as luzes. Ainda assim, incomodava. Nina sentia que esquecera algo importante. Imaginou o celular vibrando dentro da mochila. Até a quietude do quarto parecia deliberada.
Ela ficou imóvel por alguns segundos, escutando o ventilador empurrar o ar quente de maio de um lado para o outro. A janela estava entreaberta. Lá fora, um ônibus passou na avenida principal, arrastando aquele som cansado de freio que vinha de muito longe. No apartamento, tudo dormia: a mãe no quarto ao lado, o irmão menor atravessado na cama, a televisão da sala desligada depois de ter passado a madrugada inteira piscando comerciais para ninguém.
Nina respirou devagar.
O sonho ainda estava nela.
Um corredor comprido, cheio de janelas acesas. Todas pertenciam a telas. Alguns retângulos brilhavam em branco; outros, em azul ou verde. Flutuavam pelas paredes de uma escola construída por dentro de um computador. O chão era liso e escuro. Refletia tudo, menos Nina. Ela andava, ou talvez fosse puxada, até uma porta no fim do corredor. Uma câmera pequena ocupava o lugar da maçaneta.
E a câmera piscava.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, Nina acordou.
Ela virou o rosto para a mesa ao lado da cama. Seu caderno de desenho estava aberto onde ela tinha deixado, com o lápis atravessado no meio da página. Antes de dormir, desenhara uma mão saindo de uma poça de luz. Agora, sem saber por quê, teve vontade de fechar o caderno.
Não fechou.
O quarto dela era pequeno e cheio de coisas tentando caber: livros empilhados, uma luminária com fita adesiva no fio, caixas de lápis de cor, três camisetas jogadas na cadeira, um pôster torto de uma banda que ela nem ouvia mais, mas não tirava porque a parede ficaria marcada. Na porta, por baixo da fresta, entrava uma linha cinza da sala.
Nina pegou o celular. Três e quarenta e sete da manhã.
Nenhuma mensagem.
Mesmo assim, a tela acendeu clara demais. A luz incomodava: saía do aparelho e procurava alguma coisa no rosto dela. Nina bloqueou o celular rápido e o colocou virado para baixo.
Foi quando viu o brilho na sala.
A claridade era fraca. Se estivesse com sono de verdade, talvez nem percebesse. O corredor do apartamento, além da porta do quarto, estava levemente azulado. Uma luz quase líquida batia contra o piso frio.
Nina sentou na cama.
Nina culpou a televisão. Talvez tivesse ligado sozinha, como na vez em que faltara energia. Em seguida pensou em Tomás, o irmão, acordado para ver vídeos escondido. Restava a hipótese mais irritante: o sonho ainda não tinha acabado.
Nenhuma das três explicações fez seus pés se moverem.
Então ela ouviu um estalo baixo, como unha batendo em vidro.
Tec.
Depois outro.
Tec.
Nina levantou devagar. O piso estava frio, e isso foi bom. Coisas frias eram reais. Ela repetiu essa frase na cabeça, porque soava inteligente o bastante para anteceder uma decisão errada em filme de terror.
No corredor, o ar tinha cheiro de poeira e carregador quente. Ela passou pelo quarto de Tomás. A porta estava aberta. O menino dormia com um braço para fora da cama, a boca meio aberta, o cabelo grudado na testa. No quarto da mãe, só o ronco leve e cansado de quem tinha trabalhado demais no dia anterior.
A luz vinha da sala.
Mas não da televisão.
O monitor antigo do computador da casa estava aceso.
Aquilo era estranho por vários motivos. O primeiro: ninguém usava mais aquele computador, a não ser para imprimir boleto, quando a impressora decidia colaborar. O segundo: ele ficava ligado em um filtro de linha que a mãe desligava toda noite, com a disciplina religiosa de quem tinha medo da conta de luz. O terceiro: a tela não mostrava área de trabalho, senha, erro, atualização ou qualquer coisa que Nina esperasse ver.
Mostrava uma porta.
A mesma porta do sonho.
Nina parou no meio da sala.
A imagem vinha desenhada pela luz da própria tela. Vídeo nenhum. Foto nenhuma. Um desenho úmido, vivo, feito de linhas que tremiam em água escura. O corredor atrás da porta continuava lá, cheio de janelas acesas dos dois lados. No lugar da maçaneta, a câmera pequena piscava.
Uma vez.
Duas.
Nina segurou a respiração antes da terceira.
Nada aconteceu.
O computador não fazia barulho. Nem aquele zumbido de máquina velha. Nem o giro do ventilador interno. Só a tela acesa e a imagem impossível, olhando para a sala dela com a paciência de uma coisa antiga.
Ela se aproximou um passo.
A câmera na porta se mexeu.
Não muito. Um desvio mínimo, quase educado. O bastante para deixar de apontar para frente e apontar para Nina.
O corpo dela entendeu antes da cabeça. A pele dos braços arrepiou. O estômago ficou pequeno. Ela quis chamar a mãe, mas chamar a mãe significava explicar o que estava vendo, e explicar faria aquilo entrar no mundo de todo mundo. Enquanto estivesse só ali, sem nome, talvez ainda coubesse na categoria das coisas que somem quando a luz acende.
Nina esticou a mão para o interruptor.
A lâmpada da sala piscou, acendeu e morreu.
O apartamento mergulhou num escuro azul.
No monitor, a porta se abriu um centímetro.
Não rangeu. Não fez som de madeira. Fez um ruído baixo de notificação chegando, só que prolongado, distorcido, puxado até virar um fio fino dentro do ouvido.
Nina deu um passo para trás e bateu a perna na mesa de centro. Um lápis caiu no chão. O barulho foi pequeno, comum, ridículo. Mesmo assim, a porta no monitor parou de abrir.
Por uma fresta, apareceu luz.
E dentro da luz havia um quase rosto.
Não um rosto inteiro. Um pedaço. Um olho, talvez. Uma curva de boca. Uma testa quebrada em quadradinhos de imagem. Fotografia antiga, selfie borrada, avatar de jogo e retrato de formatura se misturavam numa expressão que quase sabia ser humana.
Nina finalmente conseguiu falar.
— Quem está aí?
A pergunta saiu baixa, mais fraca do que ela queria. Mesmo assim, a tela respondeu.
Não com voz.
Com texto.
As letras surgiram no vidro, uma por uma, brancas e finas, como arranhões iluminados.
VOCE DESENHOU A PORTA ERRADA.
Nina sentiu a boca secar.
Ela olhou para o corredor, para os quartos, para qualquer coisa que pudesse provar que alguém estava fazendo uma brincadeira. Não havia ninguém. Só o apartamento dela, os móveis baratos, o cheiro de poeira, a noite de sexta para sábado e o monitor velho que sabia do caderno no quarto.
As letras desapareceram.
Outras vieram.
QUER VER A CERTA?
Nina pensou em desligar da tomada. Era o óbvio. Puxar o cabo, derrubar o filtro de linha, acordar todo mundo, gritar se fosse preciso. Em vez disso, ficou olhando. Não porque queria. Pelo menos foi isso que diria depois, se algum dia conseguisse dizer. Ficou olhando porque a imagem pesava. Prometia alguma coisa.
A porta abriu mais um pouco.
Do outro lado havia um quarto.
O quarto dela.
Mas não exatamente.
A cama estava no lugar certo, o pôster torto também, as caixas de lápis, o caderno aberto. As cores eram mais bonitas. A bagunça tinha organização de vitrine. A luminária quebrada brilhava sem fio. Na parede, todos os desenhos de Nina estavam pendurados em molduras pretas, como se alguém tivesse feito uma exposição só para ela. E no centro do quarto, diante do caderno, havia uma menina sentada de costas.
Uma menina com o cabelo de Nina.
Com a camiseta de Nina.
Desenhando com a mão esquerda, embora Nina fosse destra.
A menina parou o lápis.
Virou um pouco o rosto.
Nina não esperou ver o resto.
Avançou para a tomada, tropeçou no fio do teclado e puxou tudo de uma vez. O filtro de linha saiu da parede com um estalo seco. A tela apagou.
No mesmo instante, a lâmpada da sala voltou a acender.
O intervalo que veio depois soou falso.
Nina ficou ajoelhada no chão, segurando o cabo como se fosse uma corda que tivesse acabado de puxar alguém de um poço. O monitor estava preto. Só preto. Um retângulo comum refletindo a sala comum, a menina comum de pijama amassado e olhos arregalados.
Ela quase riu. Quase chorou. Não fez nenhuma das duas coisas.
Foi aí que percebeu o detalhe.
No reflexo escuro do monitor, atrás dela, a porta do quarto de Nina estava aberta.
Na vida real, não.
Nina se virou tão rápido que sentiu dor no pescoço. O corredor estava vazio. Sua porta continuava do jeito que tinha deixado, entreaberta, parada.
Quando olhou de novo para o monitor apagado, o reflexo mostrava outra coisa.
A porta do quarto, lá dentro do vidro, tinha se aberto um pouco mais.
E uma mão fina, feita de luz azul, segurava a beirada.
Quando Nina Saldanha vê uma porta impossível surgir no monitor da escola, ela e os colegas descobrem que certas telas guardam crianças em versões perfeitas de suas vidas. Uma entidade antiga usa sonhos, reflexos e desejos de aceitação para roubar nomes e enfraquecer escolhas. Para resgatar quem ficou preso, Nina, Yasmin, Caio, Bento, Helena, Clara e Davi aprendem uma regra decisiva: toda porta exige uma pergunta, e cada história pertence a quem a viveu. O Monitor é um terror infantojuvenil brasileiro sobre solidão, memória, consentimento e o trabalho coletivo de continuar ouvindo.
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