Universo da obra
Universo da obra
Prefácio da Edição Revista
Quatorze anos haviam passado desde a primeira edição deste livro quando Kropotkin preparou a versão revista. Nesse intervalo, encontrou uma massa imensa de materiais novos, estatísticos e descritivos, além de numerosas obras dedicadas aos assuntos tratados nos capítulos. Essa acumulação permitiu-lhe verificar até que ponto as previsões formuladas na edição inicial tinham sido confirmadas pelo desenvolvimento material das nações. A conclusão era clara: as tendências que ele anunciara haviam se tornado ainda mais definidas. Em toda parte, a descentralização das indústrias avançava, e novas nações entravam no grupo daquelas que fabricavam para o mercado mundial.
Cada povo recém-chegado procurava desenvolver, em seu próprio território, as principais indústrias de que precisava. Ao fazê-lo, libertava-se da exploração exercida por nações tecnicamente mais adiantadas. Ao mesmo tempo, entre as grandes potências industriais, crescia a necessidade de elevar em casa a produtividade agrícola por meio de pequenas propriedades, colonização interna, ensino agrícola, cooperação e novos ramos de cultura intensiva. A Inglaterra oferecia, naquele momento, exemplo instrutivo dessa direção. O movimento prometia aumentar as forças produtivas do país, reduzir a dependência de especuladores internacionais de alimentos e despertar maior estima pelo solo, depois de tanto tempo entregue a grandes proprietários ou convertido em reserva de caça.
Ao rever os capítulos sobre pequenas indústrias, Kropotkin precisou incorporar pesquisas recentes. Com elas, pôde mostrar que a variedade de pequenas empresas ao lado de grandes estabelecimentos centralizados não dava sinais de desaparecer. A distribuição de força elétrica oferecia novo impulso a essas formas locais de produção. Onde a energia hidráulica era usada para distribuir eletricidade às aldeias, e onde máquinas destinadas à luz noturna eram aproveitadas de dia para fornecer força motriz, pequenas oficinas ganhavam vida nova. Dados dos inspetores de fábricas britânicos, publicados depois de 1898, também tornavam possível medir com mais precisão a relação entre grandes e pequenas unidades de trabalho.
As observações de Ardouin Dumazet sobre a França, os resultados do censo industrial francês de 1896 e o terceiro censo industrial alemão de 1907 reforçavam a mesma direção. As pequenas indústrias preservavam terreno em muitos ramos importantes e surgiam de novo quando a técnica lhes dava meios favoráveis. Kropotkin acrescentava ainda que a necessidade de uma educação capaz de reunir instrução científica ampla e conhecimento sólido do trabalho manual já era reconhecida na Inglaterra, embora a aplicação prática avançasse lentamente em países empobrecidos por armamentos. Com essa nota, assinada em Brighton em outubro de 1912, ele apresentava a edição revista como confirmação e ampliação do argumento inicial.
Prefácio à Primeira Edição
Na abertura da primeira edição, Kropotkin observava que lucros, rendas, juros sobre o capital, mais-valia e formas semelhantes de apropriação haviam ocupado grande parte dos debates sociais. Estudava-se o que proprietários de terra ou capital, classes privilegiadas e nações favorecidas podiam extrair do trabalho mal pago, da posição inferior de uma classe diante de outra ou da condição técnica inferior de um país diante de outro. Como esses benefícios eram repartidos de modo desigual entre indivíduos, classes e povos ligados à produção, muitos esforços se voltavam para explicar a distribuição vigente da riqueza e imaginar mudanças que tornassem essa distribuição menos injusta.
Enquanto tais disputas se prolongavam, a grande pergunta permanecia em segundo plano: o que produzir e de que modo produzir. Para Kropotkin, o estudo da produção e da riqueza tendia a deixar sua fase quase científica e a aproximar-se de uma ciência das necessidades humanas e dos meios de satisfazê-las com o menor desperdício de energia. Seria, em certo sentido, uma fisiologia da sociedade. Poucos autores, contudo, haviam reconhecido esse domínio próprio. O assunto central, a quantidade de energia necessária para atender necessidades reais, ainda era raro nas obras concretas sobre organização social e produção.
As páginas seguintes surgiam como contribuição a uma parte desse vasto problema. Elas examinavam as vantagens que sociedades civilizadas poderiam obter ao combinar atividades industriais com agricultura intensiva, e trabalho intelectual com trabalho manual. A importância dessa união já havia chamado a atenção de vários estudantes da sociedade. Cinquenta anos antes, discutia-se a mesma questão sob nomes como trabalho harmonizado e educação integral. Afirmava-se então que a maior soma de bem-estar nasce quando atividades agrícolas, industriais e intelectuais se unem em cada comunidade, permitindo que cada pessoa aplique capacidades variadas no campo, na oficina, na fábrica, no estudo ou no ateliê.
Kropotkin lembrava também a teoria russa do progresso de Mikhailovsky, que discutira a parte da diferenciação e a parte da integração de aptidões na evolução progressiva. Citava ainda o pequeno livro de J. R. Dodge, Farm and Factory, que tratava o vínculo entre agricultura e indústria de ponto de vista prático norte-americano. Durante muito tempo, a união harmoniosa entre campo, oficina e estudo parecia desejo distante. O sistema fabril e as formas agrícolas envelhecidas impediam tal síntese. A simplificação dos processos técnicos, tanto na indústria quanto na agricultura, mudara o quadro. Uma tendência nítida à reunião das atividades humanas tornava-se visível.
Os ensaios que formam este livro haviam sido publicados entre 1888 e 1890 em periódicos como Nineteenth Century e Forum. Nos dez anos seguintes, a massa de provas cresceu tanto que Kropotkin precisou introduzir matéria nova e reescrever especialmente os capítulos sobre agricultura e pequenos ofícios. Ele encerrava o prefácio agradecendo aos editores que permitiram a reprodução dos ensaios e aos amigos e correspondentes que o auxiliaram na coleta de informações. A assinatura, em Bromley, Kent, em 1898, situava o livro no ponto em que a crítica da divisão permanente do trabalho se tornava proposta positiva de integração.
Tradução original Literunico em português brasileiro de Fields, Factories and Workshops: or, Industry Combined with Agriculture and Brain Work with Manual Work, de Piotr Kropotkin, preparada a partir do texto inglês em domínio público disponibilizado pelo Project Gutenberg.
Critério de domínio público no Brasil: Piotr Kropotkin faleceu em 1921, e a edição revisada usada pelo Project Gutenberg foi publicada em 1913. A obra está livre pelo prazo de vida do autor mais setenta anos. Nenhuma tradução de terceiros será utilizada.
Capa: imagem de capa criada pelo transcritor do Project Gutenberg e indicada no próprio arquivo como domínio público.
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