Campesinas: variações e acréscimos recolhidos nos manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional A Poesia Interminável · Capítulo 38 de 192
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Campesinas: variações e acréscimos recolhidos nos manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional

VIII

Pelos vales e colinas

Os bandos das pombas voam...

E as latadas das boninas

As rentes cercas coroam.

Entre o rumor das campinas

Os carros de bois ressoam...

E nas névoas matutinas

Já os raios de sol coam.

Que aurora flor das auroras!

Nas frescas águas sonoras

Boiam ilhas de verdura.

E na fita dos caminhos

Onde trinam os passarinhos

Vens vindo a rir, formosura.

IX

Foste à fonte buscar água

E tinha secado a fonte...

Pobre flor azul do monte

Tiveste a primeira mágoa.

Porém se uma alma na frágua

Das dores, sem horizonte,

Queres ver, sentir defronte

Dos olhos, manda, que eu trago-a.

Vou t’a levar à presença

Para que vejas a imensa

Mágoa atroz que a devorou.

E saibas, ó sol das flores,

Que a fonte dos seus amores

Eternamente secou.

XII

A pomba o voo descerra

Para além dos infinitos,

Deixando todos os ritos

Das religiões cá da terra.

Ganha o mar e ganha a serra

Em busca de novos mitos

Desses bíblicos Egitos

Da Fé, que vagueia e que erra...

Quem tem sede de carinhos

Faz como pomba, procura

Corações que sejam ninhos.

Vai em busca ventura,

Da paz dispersa em caminhos

Que vão dar à sepultura.

XIII

Fui aos morangos do prado

E nunca os vi tão formosos...

Que perfume delicado,

Que cores, que tons preciosos.

Cor de sangue atravessado

De acesos sóis radiosos

Num rubro ocaso doirado,

Por horizontes calmosos;

Através da luz da aurora

Vivaz e fresca e sonora,

Num resplendor nunca visto;

Pareceram-me umas gotas

De sangue das carnes rotas

Das mãos e dos pés de Cristo.

XVI

Acordo de manhã cedo,

Da luz aos doces carinhos...

Que rosas pelos caminhos,

Que rumor pelo arvoredo.

Para o azul radioso e ledo

Sobe, de dentro dos ninhos,

O canto dos passarinhos,

Cheio de amor e segredo...

Dentre as moitas de verdura

Voam as pombas nevadas,

Imaculadas de alvura.

Pela margem das estradas

Que penetrante frescura,

Que femininas risadas!

XV

Os olhos das adoradas

São como os campos festivos

Cheios dos brilhos mais vivos

Das alegres madrugadas.

Como as frescas alvoradas

Há pelos campos estivos

Lindos cantos expressivos

De camponesas medradas;

Nos olhos das que adoramos

Há aves cantando e ramos

Noivados do nosso amor.

Perspectivas radiantes

Só vistas pelos amantes

De almas abertas em flor!

XVI

De manhã cedo os rebanhos

Saltam, galgam montanhosos

Alcantis esplendorosos,

Cheios de brilhos estranhos.

E quando após os amanhos

Dos terrenos vigorosos

Os lavradores sequiosos

Regressam de afãs tamanhos;

Quando o sol no ocaso em chamas

Veste as árvores de lhamas

E luminosos veludos;

Entre as trêmulas guitarras

Das nostálgicas cigarras

Quedam-se os gados lanzudos.

XVII

São tantas as sementeiras

Como as estrelas são tantas...

Ah! que virgens bebedeiras

Vêm dos aromas das plantas.

Nas terras alvissareiras

De novas colheitas santas,

Que brotos de trepadeiras,

Que vinhas quantas e quantas.

Como a seiva e o viço estoura

Pelos campos da lavoura,

Num frenesi de novilho...

Só tu, infecunda e triste,

De gelo, nunca sentiste

Os vivos germens de um filho!

XVIII

Por estas manhãs sonoras

Em tudo a luz vibra e salta

E arroios, várzeas esmalta

De deslumbrantes auroras.

São mais alegres as horas,

Nem o humor às almas falta

E de uma força mais alta

Fecundam-se as virgens floras.

Os aspectos de verdura

Recebem formas serenas

De encantos e de frescura.

Ah! que ruflados de penas

Na luz que canta na altura,

Nas folhagens de açucenas!

(1889)

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