Primeira Parte — Saber ser pobre Livro das Noivas · Capítulo 2 de 29
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Primeira Parte — Saber ser pobre

Deveria haver um livro, a ciência da vida, que ensinasse a toda a gente, sem exceção de fortuna ou de classe, a maneira de saber ser pobre.

A necessidade é o melhor mestre, afirma o povo; mas há casos em que as frases mais consagradas falham e em que mesmo a sabedoria dos velhos conceitos e provérbios fica comprometida.

Este é um deles.

A necessidade ensinará tudo a alguns, mas não ensina a todos o que a pobreza requer. A virtude está em o discípulo saber aproveitar a lição sem ficar ainda em cima com rancor ao mestre.

O que eu desejaria, portanto, seria, não um livro que ensinasse a executar este ou aquele trabalho, mas um livro que ensinasse a aprender, chegada a hora em que isso fosse preciso. E esse livro, consolador e amargo, os pais o dariam à sua filha como um dote previdente e útil.

Ela entraria assim na vida de esposa e de mãe fortalecida para a luta e consciente dos seus deveres de companheira consoladora e amiga, e de conselheira desvelada e meiga.

Desse modo, se o braço do marido fraqueasse, e lhe faltasse subitamente o conforto habitual, em vez de lamentações, queixas e ralhos, ela daria aos filhos o belo exemplo da resignação e do trabalho.

Felizmente, isto é comum no Brasil; há, contudo, muitos casos ainda completamente opostos.

Uma família acostumada à ostentação e ao luxo, perde de repente o seu chefe.

Com a sua morte cessam todos os recursos de dinheiro, e, portanto, as ocasiões de aparecer...

Que faz essa família?

A necessidade pode gritar-lhe aos ouvidos:

— Sai do teu palacete, mora numa casa humilde, num bairro barato, e arranja um meio de te sustentares com modéstia e decência.

E a infeliz família, acostumada às regalias e ao luxo, encolhe-se, chora, grita e procura a toda a força uma casa de fachada elegante, julgando comprometer-se se for habitar outra mais despretensiosa e barata! E é tudo relativo: começa então de se alimentar mal para se vestir bem, e de descer às lágrimas quando não possa rivalizar com as suas antigas relações.

O ter-se nascido pobre é, nesses casos, um dos maiores benefícios que há. Partida do berço, a educação da pobreza é muito mais eficaz para a vida.

Isto de posição social faz lembrar um pouco o que por aí se diz da cegueira:

Dói mais ter vista e perdê-la, do que ser-se cego de nascença.

O pobre pode, à custa de esforço, de mérito e tenacidade, galgar todos os degraus do poder e da grandeza; o rico, geralmente, quando desce, fica completamente aniquilado.

Às mães ricas compete preparar os filhos para as eventualidades do futuro, ensinando-lhes carinhosa e suavemente a vida, que para todos tem amargores e decepções; prevenindo-os para a luta constante da existência, que, se para os pobres é mais acerba, não poupa completamente os remediados, os ricos, nem mesmo os opulentos.

E ricas e pobres deverão ter para com eles o intuito benéfico e, sem contestação, proveitoso, de os aperceber de coragem e de experiência, fazendo-os trabalhar, desprezando veleidades, poupando o adquirido e não adquirindo sem dignidade, acostumando-os à frugalidade e à resignação, para que em todas as condições da vida sejam alegres, honestos, sãos, fortes de espírito, para poderem sinceramente amar a família, a pátria, a humanidade.

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