Terceira Parte — Educação
O povo já começa a ver que a condição principal para o bom êxito da vida «é ser um bom animal».
Diz isto Spencer, em seu útilíssimo livro, Educação.
Dar força ao corpo, eis aí, portanto, minhas amigas, o primeiro cuidado que devemos ter para com os nossos filhos. Deixá-los correr, saltar, fazer ginástica, rir, encher os pulmões de ar livre, perder inteligentemente o tempo. O que nos compete, acima de tudo, é cuidar de sua boa higiene e, sem que eles percebam, com todo o jeito, ir guiando tenazmente sua educação através dos folguedos infantis.
Dizem todos os higienistas (não faço mais que comentar conselhos já bem conhecidos, mas que julgo útil repetir) que as crianças, mais que os adultos, precisam de uma vida metódica, embora agitada.
Devem levantar-se cedo, deixando a moleza dos lençóis quentes e o ar abafado da alcova pelo aroma sadio da manhã e pela luz benéfica do sol. Depois do banho frio, tomarão leite quente e farão correrias em que desentorpeçam os músculos; ao longo do dia, terão o alimento em horas certas, os recreios regulares, até que chegue a noite, até que vão também, sempre à mesma hora, para o leito.
Este programa não é difícil de executar, e quantos desastres pode prevenir!
Creio bem que as crianças não terão apenas a lucrar materialmente com esse regime, mas que, pela vida afora, encontrarão menos tropeços e embaraços, sabendo sujeitar estudos e trabalhos a um método que estará como que inoculado nelas, tal como se fosse outra natureza.
Existem mães que, levadas pelo sentimento, só pelo sentimento, são de uma condescendência prejudicialíssima para com os filhos. A vontade das crianças é a delas; assim, não se opõem a que os pequeninos encharquem o estômago, a todas as horas, com guloseimas indigestas, em vez de lhes ministrarem as refeições em intervalos determinados, sóbria e sadiamente; ou veem os filhos ralhar com os criados, bater nos animais, fazer toda sorte de tropelias, sem que haja, da parte delas, a mínima intervenção.
Travessura e maldade são coisas que muita gente confunde e que, entretanto, são bem distintas! Parece-me ser este ponto um dos mais penosos de observar nas crianças. Devemos conceder-lhes muito, mas não lhes conceder tudo.
Em antítese a estas, há outras mães de uma severidade pouco proveitosa e de uma aspereza verdadeiramente inconcebível! Para elas, as crianças hão de se portar nas salas como pessoas grandes, numa correção de postura contrafeita, mas conforme todas as regras da civilidade! Essas têm para cada travessura uma reprimenda, fazem tremer com um simples olhar e batem frequentemente nas pobres crianças, esquecendo-se de que esse castigo é o mais feio e o mais imoral que se pode infligir a uma criatura!
Os beijos dos filhos, que são o mais doce enlevo das mães, não lhes podem cair nos lábios espontaneamente, como o afago natural, a expressão sincera e íntima do amor.
Os pequeninos recearão ir perturbá-las, terão medo de que à sua meiguice corresponda um gesto de enfado e se afastarão desconfiados e medrosos.
De um bom princípio depende um bom fim. Precisamos ter cuidado e muita paciência!
Horrível também, e desgraçadamente comum, é o meio de que muita gente se serve para fazer calar as crianças: o terror!
Terror do papão negro, de olhos de fogo, que os espreita do telhado ou se encolhe debaixo das camas. Medo das bruxas que atravessam o ar, montadas em cabos de vassoura, passando como um sopro pelo buraco das fechaduras; medo dos fantasmas, das almas do outro mundo; medo do desconhecido, desses enredos extravagantes, fabricados para impressionar os adoráveis entes, assustadiços e inocentes como as avezinhas.
É muito melhor que as crianças tenham o espírito desassombrado, livre de preconceitos e de sustos.
O medo é talvez a mais mortificante das doenças morais e não raro deixa vestígios para toda a vida.
As superstições derivam talvez dessas fontes de pavor com que se aterroriza a infância. É como um traço que liga o homem à meninice.
Há pessoas que estremecem, temendo enormes desgraças, só de ver partir-se um espelho; viajando às sextas-feiras; comendo em mesa onde estejam treze pessoas etc.
Há uma infinidade verdadeiramente assombrosa de crendices pueris, inventadas pela ignorância do povo e que se têm alastrado, como azeite em papel, por toda a sociedade.
Não é raro vermos pessoas sensatas, experientes, graves, respeitáveis por seu talento ou por sua posição, impondo-se, muitas delas, por seus estudos, teorias e exposições científicas ou filosóficas, homens, enfim, que o vulgo considera superiores, curvarem-se cheios de medo diante das mais absurdas superstições!
Carlos Kingoley, em seu livro Health and Education, diz parecer-lhe ser a superstição uma afecção física tão material e corporal como comer, dormir ou sonhar.
Seja qual for a causa, o melhor remédio deve estar em não fornecer à imaginação da criança motivos para temores.
O espírito alegre revigora o corpo e prepara campo sadio para dias futuros. Tenho sempre o cuidado de não deixar contar a meus filhos histórias assustadoras, e as que lhes conto são criadas na magia de fadas boas.
Nosso principal esforço deve ser fortalecer o corpo e o espírito da criança; para isso, devemos ministrar-lhes, a par de passeios e jogos infantis, banhos gerais e brandas fricções diárias, vestuário apropriado à estação, alimentação sadia, ginástica, estudo sem esforço e sem castigos, limpeza, bons exemplos, ternura e alegria. A criança precisa de tudo isso para ser feliz. E nós, as mães, de que precisaremos mais neste mundo que da sua felicidade?
Ver um filho gozar é gozar duplamente.
Haverá egoísmo em proporcionar-lhe isso; será ele, porém, equivalente ao sacrifício de fazer sofrer um filho, castigando-o por faltas que temos o dever de prevenir?
Creio bem que não....
Há muita gente que tem a mania de começar cedo a ensinar coisas, quase sempre de maneira complicadíssima, às pobres criancinhas. Esse sistema, já tão reprovado, ainda é seguido com verdadeiro ardor por muitos pais, que, sem querer compreender que estiolam pelo cansaço o cérebro dos filhos, obrigam-nos a um verdadeiro martírio, martelando-lhes aos ouvidos, ora paciente, ora impacientemente, as sílabas das cartilhas ou os números das tabuadas!
Para quê? Para torná-las nas funestas crianças prodígio, ou para que tomem aversão ao estudo!
Mas isso é uma barbaridade inútil! O que se aprende depressa, depressa se esquece; deixemos avigorar-se o espírito das crianças e, quando as ensinarmos, tenhamos o cuidado paciente de envolver o trabalho na alegria, na distração que o torne ameno e até desejado.
É um encargo que nenhuma mãe deveria declinar de si: o ensino dos filhos! Ao menos os primeiros passos: leitura, escrita, contas, um pouco de geografia e de desenho. Já não falo em outras matérias, como geometria, línguas etc., porque, desgraçadamente, nossa instrução é em geral de uma pobreza pasmosa e não permitiria acompanhar até mais longe o estudo de uma criança, nem dirigi-lo convenientemente.
Nenhum mestre pode ser mais insinuante, mais querido, mais doce, mais persuasivo do que a mãe!
E é principalmente essa missão que deve induzir todas as moças a ler e a estudar com atenção. Aprender para ensinar, com inteligência, alegremente, maternalmente!
Nossa educação superficial, essencialmente decorativa, não nos permite certamente responder a todas as perguntas curiosas dos pequeninos a quem temos o dever indeclinável de guiar. Aí está nossa desgraça! Se eles nos perguntam pelos fenômenos da natureza, os primeiros a atraírem sua atenção, que resposta lhes damos? Eles querem saber o que é o calor, o vento, a chuva, o frio; se a lua está pregada no céu, de que é feita sua luz, como e por que lampejam as estrelas, por que se une no horizonte a terra às nuvens; e o que é a terra, a pedra, o movimento, a água, o sol, o som, a vaga, a flor, o inseto, a montanha, o fogo, o aroma, tudo! E nós, a quem isso não foi nitidamente ensinado, ficamos envergonhadas, humilhadas, com um profundo desgosto de nós mesmas.
Então é que nos vem à mente o desprezo pela instrução ornamental, aparatosa, com que conquistamos nas salas o prestígio e o renome! São os lábios inocentes e róseos das crianças que nos infligem o castigo do velho tempo perdido a dedilhar exercícios e músicas, nos quais, na maior parte das vezes, não entrava nossa alma, nossa vocação, mas simples e meramente o desejo de brilhar!
Nossa desgraça está, portanto, em que «o elemento decorativo continua a predominar, quer se trate do adorno do corpo, quer das conquistas do espírito!»
Sem consultar vocações nem vontades, exige-se, em geral, que todas as moças toquem piano, cantem, saibam fazer sala e falar francês....
Não nos passa pela ideia que uma senhora possa se dedicar a um estudo sério e ponderoso, no doce recolhimento de seu gabinete, com o mero intuito de transmitir um dia aos filhos suas observações e seus trabalhos, dando-lhes uma educação despretensiosa e sólida.
Isso é que nos pareceria ridículo! Uma mulher interessada por botânica! Uma mulher dada ao estudo das línguas, da matemática, da física ou da história natural!
Pedantismo imperdoável na doce criatura nascida para o labor rotineiro da agulha e das receitas culinárias! Não nos lembramos de que o tempo, afinal, não é tão pouco que não nos dê ocasião para tudo o que fazemos e para muito mais que faríamos se tivéssemos incentivo, força de vontade e diligência! Cada hora que passa deve deixar-nos alguma coisa de útil.
A vida é tão curta e é tão bonito saber aproveitá-la!
Para educar, é necessário refletirmos com o máximo critério e sacrificarmos muitas vezes o coração.
Infelizmente, há faltas que não dispensam o castigo, o castigo moral, que é sempre o mais proveitoso.
Tarefa árdua esta! Ter de mostrar severidade quando as lágrimas estão a brotar-nos nos olhos, que só veem o constrangimento e a dor que vamos produzir!
Irmos, por exemplo, para o campo, deixando em casa o filho para puni-lo por uma impertinência!
É ainda mais doloroso para nós, porque sabemos que é ele exatamente quem mais ama o sol, a liberdade, o rebanho de ovelhas que passam, os pássaros que voam gorjeando, a água que desliza cristalina, levando folhinhas na corrente!
Deve parecer-nos ler nos cálices das flores inocentes as perguntas: onde está teu filho? Por que não o trouxeste? Não tens pena dele? E, afastando os olhos das flores, ouviremos as mesmas perguntas das árvores, dos regatos, dos animais e das nuvens!
No dia seguinte, compensá-lo-emos por uma bonita ação, levando-o ao circo ou ao campo; e então nossa alma se abrirá jubilosa aos seus risos e às suas alegrias!
Vamos, minhas amigas, tenhamos coragem para levar nossa missão a cabo! Ela não é leve, mas é com certeza a mais pura, a mais justa, a mais ampla, a mais bendita entre as benditas!