Segunda Parte — Os criados Livro das Noivas · Capítulo 18 de 29
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Segunda Parte — Os criados

A principal queixa de uma dona de casa baseia-se invariavelmente na criada.

É ela que não vê senão o que se lhe põe diante dos olhos e que não ouve senão o que se lhe grita aos ouvidos! É a criada que só cumpre o seu dever quando a ama anda a ditar-lhe o serviço, esgoelando-se horas inteiras, repetindo todos os dias a mesma coisa!

Desse modo, a pobre senhora confessa ter duplo trabalho e ficar amofinada, doente, nervosa!

Deixando cair todas as culpas e responsabilidades sobre os criados, não tratamos de averiguar se estamos ou não bem-educadas para lidar com eles! Caímos nos extremos, impomos-lhes severamente ou pedimos-lhes, como um favor, o cumprimento dos seus serviços; e aí está muitas vezes o motivo de ou sermos pouco respeitadas, prevalecendo-se eles da nossa condescendência bonachona, ou de sermos abandonadas por antipáticas e abusivas!

Seja como for, o que não nos assiste com certeza é o direito de nos queixarmos tanto deles!

Isso equivale, principalmente quando o servo seja um ex-escravo, a estranhar a gente que de um torrão inculto não nasça uma rosa fina, ou que terreno árido não nos dê água como a cristalina e leve, destilada gota a gota de uma rocha antiga.

A questão dos criados é hoje na Europa um problema social. À proporção que a instrução se derrama, vai faltando a uns a humilhação natural para esse cargo, enquanto em outros vão-se levantando ambições mais elevadas e rendosas.

Jacqueline, a brilhante cronista parisiense do Gil Blas, defende com justiça e doçura a pobre gente do serviço de umas acusações do jornalista Besson, que são, afinal, as acusações de todo o mundo.

Pensando como a notável escritora, não me furto ao prazer de traduzir para aqui parte da sua humanitária crônica:

«Há, sem dúvida alguma, entre os criados, assim como entre os amos, naturezas más e indivíduos desprezíveis. Mas será, por isso, justo que se responsabilize a classe inteira pelos atos desses?

Pela minha parte, todas as vezes que ouço nas salas falar dos servos com rancor e desdém, o espírito de equidade repercute em mim o eco das acusações, e penso no que se dirá na copa, no meio da louça que sujamos e dos restos das refeições que comemos, entre essa gente cansada, que havia pouco nos apresentara os pratos, com gesto humilde, e à qual não atiramos nem um “obrigado”!

— Para isso são pagos! — dirão.

De acordo, mas exatamente porque mais nada se lhes faz senão pagar é que eles só dão o que o dinheiro compra.

Tanto por mês equivale a tanto de trabalho. Quanto ao mais, porque o há, não se salda em dinheiro, e ninguém tem, força é confessá-lo, o direito de se julgar credor disso. É a desforra justa e legítima da pobreza sobre a riqueza, do trabalho sobre a ociosidade.

Os nossos criados ganham a sua vida servindo-nos, e nós, fazendo-nos servir, temos a ganhar o seu respeito e a sua dedicação.

São coisas essas que se adquirem à parte, com a polidez do mando, a justiça para com o esforço tentado e o trabalho cumprido, a compaixão para com as suas fadigas ou doenças, a piedade para com as suas mágoas, o não sei quê, enfim, de comunicativo e de afetuoso que vai do amo ao servo, os prende um ao outro, faz com que a casa lhes seja comum, e que o criado não diga nunca “a casa dos patrões”, mas sim “a nossa casa”.

— Já não há criados! — exclamam por aí; e a causa? Não será por falta de bons amos?

Lembro-me de, ainda pequenita, ter um dia dito uma impertinência à gorda cozinheira que estava, havia sete anos, em nossa casa.

Lembro-me também, de uma maneira inolvidável, que à tarde, depois do jantar (eu comera no meu quarto, por castigo, um pedaço de pão seco), fui chamada à grande sala, de paredes forradas com papel fingindo mármore branco, de pedras octógonas, ornadas nos quatro cantos com uns dados azuis; aí, sob a claridade quente da lâmpada suspensa do teto, minha avó, pela primeira e única vez na sua vida, tratou-me por “vós”.

Meu pai estava à sua direita, minha mãe à sua esquerda, meu tio um pouco afastado. Ela, sentada numa cadeira larga, olhava para mim com o seu doce rosto tornado repentinamente severo. E, com uma voz grave:

— Escutai bem o que eu vos vou dizer. Cometestes hoje uma feia ação. O que sois, o que tendes, os vestidos que vestis, as guloseimas com que vos enchem, tudo isso o deveis a um acaso de nascimento. Poderíeis estar no lugar da criada, e ela estar no vosso... e daí, quem sabe o que vos espera! Tratai de não vos esquecerdes disso e de ter na lembrança que é permitido na vida atacar os seus superiores ou os seus iguais, mas nunca os seus inferiores! É uma covardia!

— Agora ide pedir perdão à cozinheira.

Vejo ainda a porta aberta, pela qual deixei a sala, o corredor sombrio, que atravessei de cabeça baixa, o coração pesado, as lágrimas à flor dos cílios, como embriagada de remorsos e de dor, a cozinha muito atravancada e o avental enxovalhado, que eu agarrei com as duas mãos:

— Perdão, Luísa... perdão; nunca mais farei semelhante coisa... nunca... nunca!

As últimas palavras foram ditas em voz mais alta que as primeiras, por ter-me a pobre rapariga enlaçado em seus braços, comendo-me de beijos as faces inundadas!

Depois, rindo e chorando, num êxtase diante do meu arrependimento, levou-me triunfalmente à sala de jantar, gritando:

— Senhora! Senhora! Ela pediu-me perdão! Ah! O anjinho!

Aquela se deixaria matar por nossa causa.

Mas onde estão hoje os pais que inflijam a seus filhos um castigo honroso para com um servo injuriado?

Minha criada também lá estava e presenciou esta cena; a minha criada, que veio da sua terra para a nossa casa e que nela ficou até o dia do seu casamento, não tendo tido outros amos em toda a sua existência.

Ela tratou-me na infância, deitando-se ao meu lado nas noites de doença contagiosa, para ter a certeza de que o cobertor não escorregava dos meus ombros arrepiados, pondo a sua dedicação teimosa de aldeã entre mim e a morte. Foi ela que me juntou as mãos na primeira oração; será ela talvez quem as cruzará sobre o meu coração enfim calmo.

Ela ficou sendo como da família, sempre presente aos acontecimentos venturosos ou infelizes, chamada para as alegrias, correndo espontaneamente para os lutos.

Foi ela quem me prendeu na fronte o véu para a primeira comunhão, foi ela que me cobriu o cabelo com o véu de noivado. Ela recebeu nos seus braços o meu filho mais velho, ela educou o outro, ela embalará, assim o espero, os meus netinhos.

Cada vez que, nos combates da vida, tenho recebido um golpe, cada vez que uma dor me atinge ou que uma catástrofe me abate, grito quase tantas vezes pelo seu nome como pelo nome de minha mãe.

Mas também, sejam quais forem os meus hóspedes, ela toma, na ausência de minha mãe, o lugar de honra no meu lar, e o seu modo de tratar-me por tu transporta-me à meninice, apesar de alguns cabelos brancos que começam a estriar de prata os meus cabelos loiros.

No entanto, também se pagava a essa; mas estimávamo-la muito, e ela deu-me todo o seu coração, como as fadas maltrapilhas das legendas que, bem acolhidas, depõem um tesouro no berço dos recém-nascidos.

Não são todas assim, bem o sei; mas pensemos também na vida que lhes está destinada.

Levantar-se de madrugada, deitar-se tarde, estar de pé todo o dia, salvo as duas ou três horas de repouso, viver numa eterna sordícia: a poeira, as águas de lavagem da louça e do toilette; alimentar-se de restos, não ter em cada mês senão poucas horas de liberdade, das quais a fadiga impede de saborear o gozo, e, no futuro, por toda perspectiva, o hospital, a Morgue e Clamart, logo que chegue a idade em que os amos já não careçam dela. Oh! Que triste destino!

Ainda não aludi senão às dores físicas; e as morais?

Tragar durante dezoito horas os caprichos de uma família inteira, ouvir as crueldades sarracenas das crianças, as impertinências da senhora, as grosserias do senhor, as observações azedas e as exigências senis dos avós...

Ainda não é tudo. É preciso suportar as suspeitas injuriosas, os armários fechados, o molho de chaves levado com ostentação, os talheres contados à noite, diante da criada, oficialmente, depois de a família ter-se assegurado, às ocultas, de não faltar coisa alguma; e uma interminável série de frases com duplo sentido atiradas de esguelha e mais horríveis de receber no coração do que uma facada na carne.

Não há nada que, no começo, desanime tanto uma pessoa honesta como a suspeita injusta; e, digo bem alto, a maior parte das vezes, a improbidade dos criados nasce da desconfiança dos patrões.

No bom tempo de que acabei de falar, as chaves ficavam nas fechaduras, mas também os criados comiam a fartar e bebiam bom vinho. Havia menos trufas na mesa da família e mais carne na da copa. A economia nada perdia com isso.

Os homens são como os animais... não rouba o cão que é bem alimentado nem devora a caça do caçador o animal que for para o campo com o estômago cheio.»

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